por Alain C.
As Edições ‘L’Insomniaque’ publicaram recentemente duas compilações de artigos de J. Zerzan: Futuro Primitivo, Dezembro de 1998 (anteriormente publicado por Autonomedia, Nova Iorque, 1994) e Nas origens da alienação, Outubro de 1999 (Elements of refusal, Left Bank Books, Seattle, 1998).
Estes textos são uma reescrita ideológica da história da humanidade, nos quais J. Zerzan se serve de diferentes trabalhos de especialistas em pré-história, antropólogos e filósofos com o fim de estabelecer uma ideia preconcebida do que é a humanidade, do que foi e do que pode vir a ser. A ideologia de J. Zerzan é, sem dúvida alguma, generosa, e suscita além disso problemas interessantes, mas não deixa de ser uma ideologia.
Por outro lado, as teses de Zerzan parecem não ter suscitado debate algum nos reduzidos meios em que foram divulgadas e não ter encontrado mais que uma vaga aprovação ou reprovação, pelo menos ao que nós sabemos. A finalidade deste artigo é também lançar o debate sobre bases mais concretas.
1. A pré-história manipulada
Tudo o que se conhece dos alvores da humanidade resulta do estudo dos restos materiais que os primeiros homens deixaram e que chegaram até nós. Estes restos são essencialmente, para os primeiros tempos, ossos de animais e humanos, e pedras lascadas. A sua disposição em locais particulares contribui também com valiosas informações. O facto essencial é que se trata de restos extremamente fragmentários, impossíveis de datar com grande precisão. A partir destes restos, os especialistas em pré-história estabelecem hipóteses, depois formulam teorias, frequentemente superadas por descobertas posteriores. A pré-história é um domínio do conhecimento muito variável, sempre sujeito a mudanças: a ideia que formamos deste período ou, melhor, destes períodos, não pode ser tão precisa como a que temos de períodos mas recentes. As certezas são poucas, e mais genéricas que precisas. Os últimos trinta anos, com as suas numerosas descobertas e com a evolução dos métodos, refinaram consideravelmente a imagem caricatural da pré-história que prevaleceu até meados do século XX.
Ao mesmo tempo, apareceram outros problemas que tenderam a tornar as questões cada vez mas complicadas. A própria definição de homem levanta um problema. Geralmente, contam-se para todo o período paleolítico, que se estende aproximadamente por 2.5 ou 3 milhões de anos, quatro representantes do género Homo: em primeiro lugar, o mais antigo, o Homo Habilis, do qual descendem as três espécies mais recentes, cronologicamente: o Homo Erectus (Pitecantropo), o Homo Sapiens arcaico (Neandertal) e, por último, o homem “moderno”, o único que está hoje presente no planeta, o Homo Sapiens Sapiens. Anteriores ao mas antigo representante do género Homo, contam-se diferentes espécies de Australopitecos, com os quais o Homo Habilis viveu lado a lado durante muito tempo: ele mesmo descendia de um tipo de Australopiteco chamado grácil. Estes primatas antropóides serviam-se de utensílios de pedra e osso e praticavam sem dúvida a caça organizada, mas não fazem parte (pelo menos por enquanto) do clube Homo. Além disso, é de sublinhar que mesmo pertencendo ao género Homo, o Homo Habilis geralmente não é considerado parte da mesma espécie que o Homo Sapiens Sapiens.
Destes elementos de partida, pode-se já perceber as manipulações operadas por Zerzan. Tendo em conta as numerosas citações a que recorre nos seus artigos, não se pode considerar Zerzan um ignorante do assunto de que fala. As omissões, ou melhor, a selecção que faz de algumas teorias em detrimento de outras, assinalam por isso uma vontade deliberada da sua parte. Zerzan quer traçar um quadro idílico dos inícios da humanidade: vai então procurar os elementos que lhe permitirão desenhar este quadro.
Ao nosso ideólogo, em primeiro lugar, interessa fazer remontar a humanidade o mais longe possível no tempo, por uma razão concreta: quanto mais o homem evolui para a sua forma “moderna”, mais incontestáveis se tornam os elementos que mostram a existência do que Zerzan chama “alienação” (práticas artísticas e religiosas, linguagem articulada, sentido do tempo e intenção, etc.). Convém-lhe, então, voltar-se para os momentos mas arcaicos da evolução humana. Já os Neandertais (300 a 400.000 anos) lhe parecem muito “cultos”. Irá buscar os seus exemplos preferidos entre os primeiros humanos, os famosos Homo Habilis. Mas, da mesma maneira, esta solução não deixa de trazer-lhe problemas. Zerzan desenvencilhar-se-á deles à custa de contorções intelectuais no limite da honestidade.
Ele anuncia, aliás, qual será o seu método no início de Futuro Primitivo: depois de ter manifestado reservas legítimas sobre a ciência separada, reconhece que o que chama com desprezo “literatura especializada”, ou seja científica, “pode não obstante fornecer uma ajuda altamente valiosa”. E quem mais nos poderia fornecer esta “ajuda” sem nos convertermos nós mesmos em arqueólogos, isto é, em possuidores do horrível “saber separado”? Será que Zerzan imagina que os primeiros humanos vão ressuscitar para explicar-nos como viviam? A arqueologia é a única fonte disponível para quem queira saber o que foi a humanidade nos seus primeiros tempos. Assim, independentemente do que se lhe possa censurar, somos obrigados a raciocinar a partir das suas descobertas. Ela não é uma “ajuda”, mas sim tudo o que temos.
Mas para Zerzan as descobertas científicas não constituem mais que um meio para desenvolver a sua ideologia. É por esta razão que aborda a ciência “com o método e a vigilância apropriados” e que se declara “decidido a franquear os limites”. Decididamente, não terá nenhum embaraço com o que o estorvar, reservar-se-á o direito a utilizar o argumento da autoridade científica (com mais certeza que os próprios cientistas, é preciso notá-lo) sempre que lhe for conveniente e de rejeitá-lo quando deixa de o ser. Isto é o essencial do método de Zerzan, que se reencontra em todos os seus textos. Trata-se de instrumentalizar a ciência, que como não é mais que uma instituição cultural jamais pode ser objectiva e deve ser tratada como tal. Trata-se de uma velha concepção da actividade científica posta ao serviço de uma ideologia, que os valentes doutores Lyssenko e Mengele ilustraram brilhantemente no decorrer do século passado.
Estabelecido o “método”, observemos os seus desenvolvimentos.
Podemos começar pelo problema da caça: Zerzan é não violento, provavelmente vegetariano e, portanto, considera que comer carne é imoral, já que implica matar animais, e além disso é prejudicial para a saúde. Por outro lado, caçar é fatigante e obriga quem o faz a organizar-se. Portanto, a recolecção deve ter sido o estado natural da “boa” humanidade, isto é, daquela que mais se parece com o próprio Zerzan. Resta demonstrá-lo. Ele não o demonstra, afirma-o.
Segundo ele, “admite-se agora correntemente” que a recolecção constituía “o principal recurso alimentar”. Quem admite isto, e a partir de quê, Zerzan não o diz. E o “principal” recurso não significa o “único” recurso. Mas isto não é grave: esta afirmação, imersa nas considerações sobre a não divisão sexual do trabalho (Zerzan é também feminista, claro), permite, por um simples efeito de linguagem, dar a impressão que os primeiros humanos eram vegetarianos.
Mas vai ainda mais longe: afirma com um tal Binford “que nenhum rastro tangível de práticas de matança de animais indica um consumo de produtos animais até ao aparecimento, relativamente recente, de humanos anatomicamente modernos”. Eis aqui, pois, estes Neandertais sacanas, portadores de todos os males.
No entanto, há um problema. Como indicamos no início, o conhecimento da pré-história apoia-se na descoberta de sítios arqueológicos. Não sei sobre que se apoia Binford para afirmar a ausência de consumo de carne ou, mais exactamente, de “práticas de matança” anteriores a uma data tão “recente”, mas existe pelo menos um local, entre os mas conhecidos e antigos (1.8 milhões de anos) que demonstraria o contrário: o sítio de Olduvaï, no norte da Tanzânia, onde se descobriram entre 1953 e 1975 os restos dos primeiros Homo Habilis, os nossos mais distantes ancestrais, portanto. Além disso, acharam-se os restos de um elefante, misturados com mais de 200 instrumentos que tinham servido para desmanchar carne. Poder-se-á objectar que isto não é indicativo de caça, que pode ser uma prática necrófaga, no entanto o desmanche não deixa de ser uma “prática açougueira”. No mesmo lugar também se descobriram três crânios da mesma espécie de antílope com a mesma fractura, resultante de um golpe assestado com a ajuda de um calhau ou de uma maça. Isso indica sem dúvida uma prática de abate já codificada, seguindo regras precisas, e desmente em todo caso a tese de um consumo de carne meramente ocasional, e ainda mais a de um vegetarianismo generalizado até ao aparecimento do homem “moderno”.
Além disso, no sítio de Vallonnet, descoberto em 1962 e fazendo-nos remontar a 950.000 anos atrás acharam-se os restos de uma baleia encalhada numa praia próxima, que foi arrastada até esta gruta para ser desmanchada. Os primeiros utensílios de pedra não foram usados unicamente, como é bastante evidente, para o “trabalho de matérias vegetais”. A citação que faz o autor na p. 38 de Futuro Primitivo de instrumentos reservados para este uso, não é pois válida, se for exacta, a não ser no caso particular que ele menciona, caso particular que tenta, por um método oratório clássico, fazer passar como uma generalidade.
O nosso objectivo neste trabalho não é o de resolver os debates sobre a pré-história: não temos os meios nem a vontade. Observamos simplesmente que Zerzan, que não ignora de modo nenhum o lugar de Olduvaï, já que o menciona na p. 44 de Futuro Primitivo para elogiar a beleza do machado achelense, e conhece também o de Vallonnet, esquece-os pura e simplesmente quando trata de evocar teses que não lhe agradam. Quando se anuncia uma tese, tanto em arqueologia como em outras áreas, parece evidente que pelo menos se devem citar e melhor ainda refutar as teses que poderiam contradizer aquela que se está a propor. Zerzan ignora a contradição ou, mais exactamente, silencia-a. Não suscitar a contradição é uma pratica normal da mentira social organizada que Zerzan pretende denunciar. Empregando os seus métodos, ainda que com outros fins, Zerzan torna-se parte dessa mentira.

