A Marinha Grande evoca nas pessoas decentes (categoria vaga mas que exclui políticos e as suas putas jornalistícas) gente que luta e que assim acede à dignidade (pois neste mundo não há outra). Evoca o 18 de Janeiro de 1934 e a sua repressão. Evoca acontecimentos mais recentes também. Lutas de operários contra a bófia, as mulheres que enchiam os cestos das bicicletas com pedras para armar a intifada dos seus homens, filhos e irmãos. Evoca a bófia a entrar nas pastelarias para desancar os seus pacatos clientes, nunca fiando, poderiam ser perigosos vermelhos.
Mas, para a corja de filhos da puta que tem voz neste mundo de amordaçados, a Marinha Grande evoca apenas a ocasião em que um canalha como o Mário Soares levou uns tabefes, e só isso é que lhes dói.
Um animal que se prestou a desempenhar o papel de Noske merecia muito pior. Como pior merecem as tais vozes que em tempos de verdadeira comunicação social se transformam de repente em maioria silenciosa, fornalha de puro ódio à classe operária.
Nunca esquecer esse Berlim em que mataram a nossa Rosa, e antes disso Paris em que as burguesas vinham cuspir nos insurrectos que não tendo sido fuzilados se encaminhavam para as colónias penais. Nunca esquecer o Chile, nem a ameaça que pairava sobre Lisboa naquele Verão quente, nunca esquecer a Marinha Grande.