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17/07/2010

MARX E A LIBERDADE

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Terry Eagleton

MARX E A LIBERDADE

Tradução de Marcos E. de Oliveira

Alterada por nós [nota de velha toupeira]

FILOSOFIA

Hegel e Aristóteles com certeza eram filósofos, mas em que sentido Karl Marx também era? Marx escreveu muita coisa que tem um ar de filosofia, mas era também rispidamente desdenhoso do espírito filosófico, tendo declarado em sua famosa 11ª tese sobre Feuerbach que “os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras, trata-se, entretanto, de transformá-lo” [TF]. Alguém poderia retrucar que seria difícil transformar um mundo que não entendemos, a não ser pelo fato de que o próprio Marx seguramente estaria de acordo. Ele não está empenhado em substituir idéias por ações irrefletidas, mas em moldar uma espécie de filosofia prática que ajuda a transformar aquilo que procura compreender. A mudança social e a intelectual andam juntas: “A filosofia não pode se realizar sem a superação do proletariado“, diz ele, “e o proletariado não pode se superar sem a realização da filosofia” [CFD]. A segunda tese sobre Feuerbach afirma:

A questão se uma verdade objetiva pode ser atribuída ao pensamento humano não é teórica, mas prática. É na prática que o homem deve demonstrar a verdade, ou seja, a realidade e o poder, o caráter terreno de seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou irrealidade do pensamento, quando isolada da prática, é uma questão puramente escolástica. [TF]

Este tipo especial de teoria orientada para a ação é às vezes chamado de “conhecimento emancipador”, e tem alguns atributos distintivos. É o tipo de entendimento da própria situação que um grupo ou indivíduo precisa para mudar tal situação; e é assim entre outras coisas um novo auto-entendimento. Mas conhecer-se de uma nova maneira significa alterar-se neste próprio ato; portanto temos aqui uma forma peculiar de cognição em que o ato de conhecer altera aquilo a que se refere. Ao tentar compreender a mim e à minha condição, nunca posso permanecer perfeitamente idêntico a mim, pois o eu [self] que está realizando o entendimento, bem como o eu que é entendido, são agora diferentes do que eram antes. E se eu quisesse entender tudo isto, exatamente o mesmo processo se estabeleceria. É um pouco como tentar pular a própria sombra, ou erguer-se pelos próprios cabelos. E uma vez que tal conhecimento também leva as pessoas a mudar sua condição na prática, ele mesmo se transforma num tipo de força social ou política, parte da situação material que examina, em vez de mera “reflexão” dela ou sobre ela. É conhecimento como um evento histórico em vez de especulação abstrata, no qual saber que não mais se separa claramente de saber como. Além disso, a procura da emancipação envolve questões de valor, enquanto o conhecimento da situação é matéria de compreensão factual; desta forma, aqui a distinção usual que a filosofia reconhece entre fatos e valores perde curiosamente a nitidez. Não se trata apenas de que tal tipo de conhecimento pode ser utilizado com proveito, mas de que a motivação para o entendimento está em primeiro lugar ligada a um sentido de valor. A 11ª tese sobre Feuerbach não é portanto apenas algum tipo de apelo filistino para que se passe da especulação abstrata para o “mundo real”, embora houvesse um laivo deste enérgico antiintelectualismo no jovem Marx. Tal apelo esquece que, para começar, sem conceitos abstratos não haveria mundo real para nós. A ironia do gesto de Marx é que ele faz esta exigência como filósofo, não apenas como militante. Pode-se assim juntá-lo a uma respeitável linhagem de “antifilósofos” que inclui Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Adorno, Benjamin, Wittgenstein, e, nos dias de hoje, pensadores como Jacques Derrida e Richard Rorty, para quem há algo de fundamentalmente equivocado em todo o empreendimento filosófico de nossa época. Para estes autores, a própria filosofia, não apenas este ou aquele tópico no interior dela, tornou-se uma busca profundamente problemática. Eles desejam, portanto ou transcender o projeto inteiro por motivos que permanecem filosoficamente interessantes, ou encontrar alguma forma de remoldá-lo num registro inteiramente novo, um objetivo que para muitos destes pensadores significa forjar um novo estilo de escrita teórica. A maioria se propõe a esvaziar as pretensões meta físicas da filosofia, atacando-a pelos flancos com algo aparentemente mais fundamental: o ser, o poder, a diferença, formas práticas de vida, ou, no caso de Marx, “condições históricas”. Um antifilósofo deste tipo difere de um mero opositor da filosofia da mesma maneira que um “anti-romance” como Ulisses difere de um não-romance como uma lista telefônica.

Por que Marx era tão cético em relação à filosofia? Um motivo era que ele a via começando do lugar errado. A filosofia não começava longe o suficiente. A filosofia alemã em moda na sua época – o Idealismo – começava com as idéias, vendo a consciência como o fundamento da realidade; porém Marx estava ciente de que apenas para que tenhamos uma idéia muita coisa já deve ter acontecido. O que já deve ter acontecido para que comecemos a refletir?

Devemos já estar ligados praticamente com o mundo que ponderamos e, desta forma, já inseridos num conjunto inteiro de relações, condições materiais, instituições sociais:

A produção de idéias, de concepções, da consciência, é de início diretamente entrelaçada com a atividade material e com a interação material dos homens, a linguagem da vida real. O conceber, o pensar, a interação intelectual dos homens aparecem neste estágio como uma emanação direta de seu comportamento material. O mesmo vale para a produção espiritual expressa na linguagem da política, das leis, da moralidade, da religião, da metafísica etc. de um povo. Os homens são os produtores de suas concepções, idéias etc. – homens reais, ativos, tal como são condicionados por um desenvolvimento determinado das forças produtivas e da interação correspondente a estas, até suas formas mais avançadas. A consciência nunca pode ser outra coisa senão existência consciente, e a existência do homem é seu processo de vida real. [IA]

Devemos observar que embora Marx queira, falando epistemologicamente, ligar estreitamente a consciência e o mundo material, há um sentido político em que ele quer afrouxar tal relação. Para ele, como veremos, somos mais humanos e menos como os outros animais quando produzimos livre, gratuita e independentemente de qualquer necessidade material imediata. A liberdade para Marx é uma espécie de superabundância criativa acima do que é materialmente essencial, aquilo que ultrapassa a medida e se torna seu próprio padrão. Acontece que, para tudo isto acontecer na sociedade, certas condições materiais são necessárias; de tal forma que o próprio “excesso” de consciência acima da natureza que Marx considera a marca distintiva de nossa humanidade é ele próprio um estado de coisas materialmente condicionado. O lugar onde a consciência e a prática social convergem mais obviamente para Marx é a própria linguagem:

A linguagem é tão antiga quanto a consciência; a linguagem é a consciência prática, real, que existe igualmente para outros homens, e apenas assim existe para mim também; a linguagem, como a consciência, somente emerge a partir da carência, da necessidade de interação com outros homens. [IA]

Mas se a linguagem surge a partir da necessidade, como uma dimensão necessária do trabalho coletivo, ela não permanece atrelada a esta necessidade, como testemunha o fenômeno conhecido como literatura.

Quando se trata não apenas de “consciência”, mas do tipo sistemático de reflexão conhecido como filosofia, então há claramente necessidade de especialistas, academias e um grande número de instituições afins, todas elas podendo, em última análise, ser sustentadas apenas por trabalho alheio. Este é um aspecto do que Marx quer dizer com a divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual. Somente quando uma sociedade atingiu certo excedente econômico acima da necessidade material, liberando uma minoria de seus membros das exigências do trabalho produtivo, e concedendo-lhe o privilégio de se tornar políticos em tempo integral, acadêmicos, produtores culturais, e assim por diante, somente então a filosofia pode surgir e florescer no sentido mais completo. Agora o pensamento pode começar a ter fantasias de que é independente da realidade material, simplesmente porque há um sentido material em que de fato o é: 

26/02/2009

Um futuro para o socialismo?

manifesto

só a inminencia do posible o mais temido
pon a ave à seestra

NINGÚN vento ven do Futuro
ningun vento de vagas voces chega
e menos ningua certeza.

Pero un corvo cruza
grañe vai e volve
e xá só estamos certos de esa amenaza.

Uxio Novoneyra

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por Terry Eagleton, traduzido por  Rodrigo Rodrigues.

O augure é aquele que procura prever o futuro para poder controlá-lo. Sua tarefa é farejar nas vísceras do sistema social para decifrar os presságios que assegurem a seus governantes que o sistema perdurará. Em nossos dias, é geralmente um economista ou um executivo dos negócios. O profeta, em troca, não tem interesse em prever o futuro, mas sim para nos advertir que, a menos que troquemos de caminho, é improvável que tenhamos um futuro. Ou, em todo caso, se o tivéssemos, seria um futuro profundamente desagradável. Sua preocupação é denunciar a injustiça do presente, não sonhar com uma perfeição futura; mas como não se pode identificar a injustiça sem recorrer a uma noção de justiça, alguma forma de futuro já está implícita nesta denúncia. Assim como o presente está feito, em grande medida, pelo que não chegou a ocorrer no passado, assim também uma imagem do futuro pode ser espionada, negativamente, obliquamente, no que está faltando no presente. A melhor imagem do futuro é o fracasso do presente. Ou de outro modo: nas contradições do presente, nos lugares onde fracassa em ser idêntico a si mesmo, naquilo que é totalmente integral a ele e ainda assim é descartado como muito desperdício e excedente, é ali onde os brilhos do futuro podem ser discernidos como os resplendores através dos talhos em um tecido. Um futuro que de algum modo não estivesse em linha com o presente seria ininteligível, tanto como seria indesejável um futuro que estivesse somente em linha com o presente. Um futuro desejável deve ser um futuro possível, de outro modo chegaremos a desejar inutilmente e, por fim, como o neurótico descrito por Freud, adoeceríamos de nostalgia. Por outro lado, se simplesmente eliminarmos o futuro de nossa leitura do presente, cancelamos a “futuridade” do futuro, tal como o novo historicismo trata de apagar o passado do passado. O utopista seriamente bizarro, que tem sua cabeça enterrada mais obstinadamente na areia, é o pragmático cabeça-dura que imagina que o futuro será mais ou menos como o presente, só que um pouco mais. Como alguém recentemente descreveu o futuro pós-moderno: o presente com mais opções. A pura fantasia desta ilusão pragmática apoiada na sabedoria da rua, isto é, que o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Times Square, Brad Pitt e os biscoitinhos com pedacinhos de chocolate ainda estarão ali no ano 5000, faz que os apocalípticos cabeludos e de olhos selvagens pareçam uns moderados insensíveis. Não importa o que pense Francis Fukuyama, o problema não é que vamos ter muito pouco futuro, mas sim muito, muito. Má sorte; nossos filhos provavelmente viverão tempos muito interessantes. Falando de Fukuyama, pode-se recordar que entre as coisas que se repetem historicamente está o anúncio da morte da própria história, a qual foi promulgada muitas vezes, do Novo Testamento até Hegel. Como qualquer outra repetição, é uma das coisas que faz com que a história continue andando como sem dúvida poderá julgar o próprio Fukuyama ao olhar sua correspondência. O fato de anunciar o fim da história, o que simplesmente adiciona algo mais à história, coloca um conflito interessante com a própria declaração, e é uma espécie de contradição performática. O último dos prematuros obituários jogados sobre a história, ou possivelmente mais precisamente sobre a ideologia, foi o dos ideólogos do fim da história, nos anos 1950. Com o Vietnam, o Poder Negro, e o movimento estudantil a ponto de surgir, tal obituário demonstrou ser uma profecia singularmente inepta. Como poderia ter observado Oscar Wilde, equivocar-se sobre o fim da história uma vez é desafortunado, equivocar-se duas vezes é pura negligência. É muito provável, por exemplo, que se produza uma gravíssima crise do capitalismo nas próximas décadas, que não é o mesmo que dizer que isto será assim, ou que haverá socialismo. Que o futuro esteja destinado a ser diferente do presente, é obvio, não garante que será melhor. Bem poderia chegar a ser pior. De um modo ou outro, não há nada que seja inevitável, o que é excelente, já que o inevitável é usualmente desagradável. E a menos que alguém se oponha ao inevitável, as pessoas nunca descobriram quão inevitável realmente era. Mas enquanto Ocidente conduz suas carretas em círculos cada vez mais apertados, refugiando-se e fechando as portas a uma crescente população alienada, deslocada, despossuída, tanto a nível local como no exterior, e enquanto a sociedade cívica é crescentemente arrancada de coalho, não faz falta um Nostradamus para antecipar turbulências no horizonte. Politicamente falando, não se pode deixar que as forças do mercado se desdobrem em ausência de uma boa rede de amparo social uma vez que, de outro modo, corre-se o risco de grande instabilidade e ressentimento; mas economicamente falando, é exatamente esse tipo de proteção o que as forças do mercado destroem. Neste sentido, o sistema se oferece para minar sua própria hegemonia, sem muita necessidade de ajuda da esquerda. O que é de temer, não é tanto que a história meramente se repita a si mesma, mas sim a perspectiva de que comece a desembaraçar-se pelas costuras, enquanto a esquerda ainda está dispersa e desorganizada e, portanto, é incapaz de conduzir as precárias e espontâneas revoltas por caminhos produtivos. Então, o problema é que, a menos que ocorra o contrário, muita mais gente poderia sair machucada. Isso é até muito mais lamentável quando alguém considera a notavelmente módica proposta que está impulsionando a esquerda. Tudo o que a esquerda deseja ver são condições que permitam à totalidade dos habitantes do planeta comer, trabalhar, exercer sua liberdade, viver dignamente, e coisas do estilo. Isso é escassamente revolucionário. Mas é um sinal das calamidades presentes o fato de que, na verdade, necessitar-se-ia de uma revolução para alcançar tais objetivos. Isso é assim pelo extremismo do capitalismo, não do socialismo. A propósito: dizer que as coisas estão muito mal é o tipo de afirmação simplista que distingue os radicais dos reformistas liberais, embora não aconteça do mesmo modo com os conservadores. Surpreendentemente, em uma forma de vida social que é incapaz de estar à altura inclusive de seus próprios ideais parciais, os liberais, os pragmáticos e os modernizadores, aferram-se à sua ilusão extraordinariamente utópica de que nada está fundamentalmente mal. Os conservadores, pelo contrário, têm muita razão ao ver que há algo mal nos próprios fundamentos do sistema, mas costumam estar equivocados com relação ao que está mau. A forma mais ostensivamente naïve do idealismo não é o socialismo, mas sim a crença de que, lhe dando o tempo suficiente, o capitalismo alimentará o mundo. Quanto tempo mais se permitirá que esta visão permaneça, antes que seja julgada desacreditada? Por tudo isto, nunca estive muito convencido de que termos como otimismo e pessimismo tenham muito sentido político. O que importa –o que é na verdade condição necessária para qualquer ação moral ou política frutífera– é o realismo, que às vezes nos faz nos sentir desanimados e outras jubilosos. Pode-se qualificar um discurso como autenticamente realista se soa ilusório aos cínicos e cru aos românticos. Em uma recente conferencia do Socialist Workers Party (SWP) em Londres, um entusiasta camarada ficou de pé para anunciar que “nunca existiram tantas oportunidades revolucionárias” como no presente. Possivelmente, durante uma década, este camarada tenha estado sentado em um quarto escuro, com a cabeça coberta por um saco de papel. Há por certo socialistas que diriam isto inclusive em meio de uma terra devastada por uma explosão nuclear, com pelo menos um de seus braços arrancados. Contudo, a questão é estar afligidos pelas razões corretas, que é onde a esquerda às vezes se equivoca. Por isso, me permitam colocar algumas razões para que a esquerda não se sinta desalentada. Em primeiro lugar, penso que é um engano imaginar que a atual crise da esquerda tenha muito que ver com o colapso do Comunismo. É obvio que não ajuda o fato de que não haja atualmente quase nenhum exemplo de relações sociais não-capitalistas para assinalar no mundo; mas alguns na esquerda acreditavam que as relações sociais não-capitalistas não eram certas tampouco no bloco Soviético; e poucos socialistas se desencantaram ante os eventos de finais dos anos 80, uma vez que para desiludir-se primeiro terá que estar iludido. A última vez que a esquerda ocidental esteve massivamente iludida com o stalinismo foi faz muito tempo, nos anos 1930. Desse modo, se se quer observar a mais efetiva crítica a esse sistema, não terá que recorrer ao liberalismo ocidental, mas sim às maiores correntes do marxismo, que sempre foram muito mais radicais em suas resistências ao stalinismo que Isaiah Berlin. De qualquer maneira, a esquerda global já estava em uma profunda crise antes que o primeiro tijolo fosse arrancado do Muro do Berlim. Se houver razão para que a esquerda se sinta desanimada pelo final do comunismo, é mais porque tal colapso demonstrou o formidável poder do capitalismo –que na forma de uma deliberadamente ruinosa corrida armamentista definiu em grande medida que o bloco soviético se colocasse de joelhos– e nem tanto pelo desmoronamento de uma valiosa forma de vida encarnada pelos Ceaucescus. Ainda assim, com todas suas horrendas conseqüências, os sucessos dos finais dos anos 80 foram uma revolução; e não se supunha, ao menos de acordo com alguns teóricos pós-modernos, que existissem revoluções por aqueles anos já que não havia totalidade para ser revolucionada nem nenhum sujeito coletivo para fazer a revolução. É então profundamente irônico que justo quando estas doutrinas estavam fora de moda no Ocidente, tenham ganhado substância política na Europa Oriental. Tampouco a suposta apatia da população é uma razão suficientemente boa para sentir-se abatidos, em grande medida porque é um mito. As pessoas que clamam contra os refugiados e exigem o direito a proteger sua propriedade com uma bomba de nêutrons podem ser de poucas luzes, mas não são apáticas, nem trogloditas drogados pela televisão. Há muitos bons cidadãos ao norte do lugar onde vivo, a Irlanda, que são totalmente não-apáticos. Os homens e as mulheres costumam ser indiferentes somente com relação às políticas que são displicentes com eles. É possível que as pessoas não pensem bem dos políticos, nem nas teorias da mais-valia, mas se alguém trata de construir uma auto-estrada através de seus pátios ou de fechar as escolas de seus filhos, vão protestar rapidamente. E por que não? É racional resistir a um poder injusto se as pessoas podem fazê-lo sem muito risco e com uma razoável probabilidade de êxito. Tais protestos podem não ser efetivos, mas esse não é o ponto em discussão. Também é racional, desde meu ponto de vista, recusar a alternativa de mudança política radical sempre e quando o sistema for capaz de dar alguma gratificação, por magra que seja, e enquanto as alternativas continuem sendo perigosas e obscuras. De qualquer modo, a maioria das pessoas tem que investir muita energia simplesmente em sobreviver, em assuntos materiais imediatos, para ter muito tempo para a política. Também investimos um bom grau de energia física em um amor masoquista pela lei, uma submissão ao super-eu profundamente desfrutável, inclusive quando também é verdade que obtemos deleite sádico ao ver tal autoridade vir-se abaixo. Por todas estas razões, é muito difícil pôr em marcha uma mudança radical. Mas enquanto a demanda de ser razoáveis em nossos dias significa “tranqüilizar-se”, nos anos 1790 significava levantar barricadas. Mais ainda, uma vez que um sistema político deixa de ser capaz de fornecer suficiente gratificação para sujeitar seus cidadãos, e uma vez que alternativas de baixo risco e realistas emergem, então a revolta é tão previsível como a palavra like na conversação de um calouro de Cornell. A queda do apartheid seria um bom exemplo em nossos dias. Há pouca evidência, então, de que a cidadania seja em geral abúlica ou complacente. Pelo contrário, a evidência sugere que está grandemente alarmada a respeito de um número importante de assuntos, inclusive quando a maioria está tão longe de virar para o socialismo em busca de soluções, como o está da teosofia. Entretanto, tampouco terei que exagerar a falta de resistência de esquerda, se se observar o Movimento dos Sem Terra no Brasil, a militância da classe trabalhadora francesa, a agitação estudantil contra os sweatshops nos Estados Unidos, as incursões anarquistas contra o capitalismo financeiro, para dar alguns exemplos. A tese do “desaparecimento da classe trabalhadora” tampouco pode suportar um escrutínio minucioso. É verdade que nas sociedades capitalistas avançadas o proletariado diminuiu em tamanho e significação; mas o proletariado, no sentido de trabalhadores manuais industriais assalariados, não é o mesmo que a classe trabalhadora. As pessoas não deixam de ser parte da classe trabalhadora porque se convertem em garçom ao invés de trabalhador têxtil. Em termos gerais, “proletariado” denota um tipo de trabalho, enquanto que “classe trabalhadora” denota uma posição dentro das relações sociais de produção. Esta confusão surgiu, em parte, porque nos tempos de Marx a classe trabalhadora era mais ou menos idêntica ao proletariado industrial. Em qualquer caso, o proletariado, em um sentido estritamente técnico, cresceu absolutamente em termos globais. Pode-se argumentar que, em termos globais, declinou em relação com outras classes; mas nunca houve um requisito de que a classe trabalhadora seja a maioria para qualificar como agente revolucionário. Tampouco há nenhum requisito que indique que a classe trabalhadora deva ser a mais empobrecida e desgraçada. Há muita gente –vagabundos, idosos, desocupados, o que suponho hoje poderíamos chamar lumpen-intelligentsia– que está muitíssimo pior. Alguns socialistas viram a classe trabalhadora como agente da mudança revolucionária não porque sofra muito –às vezes o faz, às vezes não–, mas sim porque está situada de tal maneira dentro do sistema capitalista para ser efetivamente capaz de substituí-lo. Da mesma forma outras forças radicais, a classe trabalhadora está de uma vez na raiz e nas próprias fontes do sistema e ainda assim é incapaz de ser totalmente incluída nele; é parte de sua lógica e também parte da subversão do sistema e, portanto, em um sentido exato do termo, é uma força desconstrutiva. Se para o marxismo a classe trabalhadora tem um papel especial, não é porque seja especialmente miserável nem necessariamente numerosa, mas sim porque é, no sentido freudiano, “sintomática”. Como tal, é aquilo que representa a contradição, a qual, como os limites de um campo, estando de uma vez dentro e fora –ex-tempo, como diz Lacan– manifesta algo da lógica dual ou contraditória do sistema como um todo. Se em algum sentido é uma “totalizadora” desse sistema, o é porque representa as contradições do regime como um todo, e deste modo escapa a qualquer totalização harmoniosa. Podemos nos esquecer, então, da idéia de que os socialistas escolhem a classe trabalhadora como uma força transformadora, enquanto que outros poderiam optar pelos palhaços de circo ou os farmacologistas ruivos. Quem a não ser os homens e mulheres que criam o sistema, cujas vistas dependem dele, e que são capazes de fazê-lo funcionar justa e coletivamente, e que se beneficiariam mais com semelhante mudança, deveriam substituí-lo? Os oftalmologistas sardentos? Os que medem mais de 1.60 metros e vivem ao oeste de Shannon? A palavra “proletariado” –proletarius em latim– assinalava no mundo antigo a aqueles que serviam ao Estado produzindo filhos –fabricando força de trabalho– porque eram muito pobres para servi-lo com suas propriedades. O proletariado, em outras palavras, tem tanto a ver com a produção sexual quanto com a material; e como a carga da reprodução sexual recai mais sobre as mulheres que sobre os homens, não é uma hipérbole dizer que no mundo antigo a classe trabalhadora era uma mulher. Como, em efeito, é-o em forma crescente na atualidade. O geógrafo David Harvey se refere às forças opositoras do futuro como “proletariado feminilizado”. Essas tediosas velhas rixas entre socialistas e feministas são cada vez mais supérfluas por causa do avanço do próprio capitalismo. É o capitalismo, embora não creiam, que está jogando os socialistas e as feministas nos braços uns dos outros (falo, é obvio, metaforicamente). Certamente que estas forças opositoras podem fracassar. Mas isto é um assunto diferente, ou seja, que tais forças não existam absolutamente. A esquerda deveria estar triste porque o marxismo foi finalmente desacreditado? Não, porque não o foi. Foi estrondosamente derrotado; mas isto é um assunto diferente. Considerá-lo desacreditado seria como dizer que Moçambique está desacreditado porque foi dominado pelos portugueses. Se o marxismo tiver sido desacreditado pela queda do bloco soviético por que não foi desacreditado já nos 60 e nos 70, quando sabíamos muito bem que tipo de grotesco socialismo travestido era o bloco socialista? A teoria marxista não foi declarada em bancarrota intelectual, em parte porque não houve necessidade. Não é que esteja sem respostas, mas sim está fora da discussão. Não se trata tanto de se for verdadeira ou falsa, mas sim –para usar uma frase foucaultiana– de que não está mais “na verdade”. Uma mudança cultural e política total a deixou para trás como uma força prática, mas dificilmente a refutou como uma descrição do mundo. Na verdade, como uma descrição do mundo o que poderia ser mais adequado que um documento de 1848, refiro-me ao Manifesto Comunista, que prognostica a expansão da globalização, a aprofundamento das desigualdades, o crescente empobrecimento e a intensificação da guerra? Este escrito está, atrevo-me a afirmá-lo, muito menos desatualizado que as análises de Maynard Keynes. De todo modo, quando alguns dizem que o marxismo está desacreditado ou é irrelevante, estão implicando que sabem exatamente o que é o marxismo, o qual –devo dizer– é muito mais do que eu sei. Os devotos antiessencialistas falam do fracasso de marxismo, como se pudéssemos isolar alguma essência do credo que agora se desintegrou. Mas descobrir o que é peculiar ao marxismo como doutrina não é uma questão fácil. A preocupação pelas classes? Certamente não: Marx e Engels mesmos insistiram que isto não era novo para eles. A revolução política, a luta de classes, a abolição da propriedade privada, a cooperação humana, a igualdade social, e o fim da alienação e das forças do mercado? Tampouco: muitos esquerdistas compartilharam estas visões sem ser marxistas. William Blake, por exemplo, advogava por quase todas elas. A determinação econômica da história? Bom, possivelmente se está ficando um pouco mais morno; mas Sigmund Freud, ele mesmo nada amigo do marxismo, sustentou que o motivo básico da vida social era econômico, e que sem esta surda compulsão estaríamos atirados todos os dias em interessantes posturas de gozo (jouissance). As diferentes fases materiais da história como determinantes de diferentes formas de vida social? Bom, isto era quase um lugar comum para o Iluminismo radical. O socialismo tampouco sofre uma bancarrota no sentido de estar carente de idéias. Ainda há muitas boas idéias de esquerda em todas as partes, e um não menos fértil e lhe sugiram corpus de trabalho sobre como poderia ser uma economia socialista, sobre até que ponto os mercados ainda seriam necessários para certas funções, entre outros temas. As pessoas poderiam adicionar, também, que os estertores do século XX não presenciaram absolutamente a derrota do impulso revolucionário, mas sim uma mudança de domicílio. Em suas décadas centrais, viveu-se a vitória do anticolonialismo –o movimento radical mais bem-sucedido da época moderna– que varreu os velhos impérios de seus escabelos de poder. O socialismo foi descrito como o maior movimento de reforma da história, mas a luta anticolonial foi de longe o mais bem-sucedido. Não; nenhuma destas configura uma boa razão para se sentirem tristes. Tampouco o é a crença de que o sistema capitalista é invulnerável. Alguns radicais desencantados podem sustentar semelhante postura, mas o FMI por certo não o faz. O FMI é muito consciente da repugnante instabilidade de todo este negócio; uma instabilidade que, ironicamente, a globalização aprofunda. Porque se cada pedacinho do mundo está conectado com cada um dos outros pedacinhos; depois, uma oscilação em um ponto pode significar uma sacudida em outro, e uma crise em um terceiro. Neste sentido, a permanente oscilação do sistema é também uma fonte de vulnerabilidade. Então, a esquerda deve ter pena de quê? A resposta é certamente óbvia: não é que o sistema seja monumentalmente estável, mas sim de que é formidavelmente poderoso. Muito poderoso para nós no presente ou, diria eu, em qualquer futuro a curto ou médio prazo. Significa isto que o sistema simplesmente não se deterá e seguirá nos incomodando como uma pessoa chata em um bar? Não. É perfeitamente capaz de deter-se abruptamente, sem a ajuda de seus opositores políticos. Se isto for uma boa ou uma má notícia para tais opositores é uma questão discutível. Não faz falta o socialismo para que paralise o capitalismo, só faz falta o capitalismo mesmo. O sistema é certamente capaz de cometer um haraquiri. Mas sim, faz falta socialismo ou algo parecido, para que o sistema possa ser derrubado sem que nos jogue todos na barbárie. E é por isso que as forças de oposição são tão importantes: para resistir tanto quanto for possível ao fascismo, ao caos, e à selvageria que certamente surgirão de uma crise maiúscula do sistema. Walter Benjamin sabiamente observou que a revolução não é um trem fora de controle, é a aplicação dos freios de emergência. Bertolt Brecht acrescentou que o capitalismo, e não o comunismo, era radical. Neste sentido, o papel das idéias socialistas é o de proteger o futuro que ainda não nasceu – oferecer, não uma tormenta, mas sim um lugar de refúgio nesta tempestade que é a história.

Bibliografia

Blackburn, Robin (ed.) 1991 After the Fall. The Failure of Communism and the Future of Socialism (Londres: Verso).

Callinicos, Alex 1989 Against Postmodernism (Cambridge: Polity Press).

Eagleton, Terry 1998 The Illusions of Postmodernism (Londres: Blackwell Publishing).

Hardt, Michael & Negri, Antonio 2000 Empire (Cambridge: Harvard University Press).

Harvey, David 2000 Spaces of Hope (Los Angeles: University of California Press).

Marx, Karl e Engels, Friedrich (1848) 1968 The Communist Manifesto (Harmondsworth: Penguin).

Williams, Raymond 1982 Towards 2000 (Londres: Hogarth).

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