PORTUGAL: As comissões de trabalhadores na “Revolução dos Cravos”, 1974
[Nota do autor do blogue: Este texto é um capítulo de Do "BECO dos SAPOS" aos CANAVIAIS de CATENDE de Cláudio Nascimento. Eu corrigi gralhas e fiz alguns comentários entre parênteses rectos.]
Em 1973, as lutas dos trabalhadores portugueses alcançaram um patamar extremamente elevado, apesar de os meios de comunicação manterem silêncio total. Desde outubro, os trabalhadores buscavam uma forma autônoma de organização. O 25 de abril serviu como uma descompressão. A abertura controlada no governo Caetano, expressando conflitos no interior da burguesia, serviu para os trabalhadores desenvolverem lutas nos locais de trabalho, de caráter anticapitalista.
55% da classe operária industrial estava agrupado na zona do Porto-Braga-Aveiro . Das 33.000 empresas industriais, menos de um milhar empregavam mais de 100 operários e somente 156 tinham mais de 500 operários. Outra zona de forte presença operária era nos canteiros navais de Lisboa e de Setúbal.
Nos anos 70, a classe operária portuguesa apresenta 3 níveis em seu interior:
1) formado por trabalhadores de pequenas empresas, às vezes de caráter familiar, e no campo: empresas têxteis e de alimentação, com baixos salários, longas jornadas, paternalismo e repressão constituem a realidade de uma classe operária com forte contingente feminino; a ideologia da burguesia rural e clerical, devido à relação com a terra desta parte dos trabalhadores, marca um forte condicionamento ideológico;
2) trabalhadores das empresas mais antigas (metalurgia, mecânica, setores estatais) qualificados e experimentados; com forte tradição e capacidade de reivindicação participaram da constituição de sindicatos durante o fascismo; é uma base forte do PCP;
3) novas camadas operárias, fruto da industrialização mais recente (química, eletrônica, canteiros navais, têxteis sintéticos), com alto nível de qualificação. O grau de concentração permitiu a penetração de novas idéias e formas de luta avançadas; campo de disputa entre o PCP, o PS e os vários grupos de extrema-esquerda.
Deste modo, entre outubro de 73 e o 25 de Abril de 74, ocorreram conflitos em 33 empresas na grande Lisboa, envolvendo cerca de 17.000 trabalhadores. Duas questões se destacaram: as reivindicações salariais e o recurso à greve. As greves tinham origem em movimentos espontâneos, com suspensão parcial ou completa do trabalho ou através das organizações sindicais. Outras formas de expressão surgiram nas lutas: como a redução dos ritmos de produção, manifestações de rua, concentrações junto às fábricas e reuniões, apresentação de cadernos reivindicativos, abaixo-assinados, recusa de horas extras.
Neste mesmo período ocorreram as greves dos trabalhadores rurais do Ribatejo e dos pescadores de Matosinhos. Calcula-se que, de outubro a março, mais de 100.000 trabalhadores de cerca 200 empresas fizeram reivindicações e cerca de 60.000 recorreram à greve. O maior número de greves foi nos subgrupos metalúrgicos e metalo-mecanico, material elétrico e transportes e comércio.
Um relatório de junho 1973, do líder do PCP, Álvaro Cunhal fornece uma idéia das lutas ocorridas antes da queda do fascismo:
“Os trabalhadores entram em greve nas empresas MAGUE e CIMA, em Alhandra, GIALLO, no Porto (com manifestação de rua), ABELHEIRA em Tojal (com ocupação da fábrica), SIPE em Carcavelos (os trabalhadores cruzam os braços frente às maquinas), MOVITEJO em Alverca (recusam horas extras). Entram em greve também os pescadores na Costa Norte e na Figueira da Foz (22 junho), os pescadores de sardinha de Matosinhos (72 horas) e Portimão, os operários das conservas de Setúbal e os camponeses de Alpiarça. Os trabalhadores pararam nas empresas SEPSA no Porto, CIMA, OLIVA, MESSA, FIRESTONE (Alcochete), GIL (Arruda dos Vinhos), PROMETALIS (Porto), CELCAT, CABOS (Ávila), SOPREM (Pampilhosa), GRUNDIG (Troia), RABOR, CUF, TRANSUL (lado sul do Tejo), DIÁRIO POPULAR e em muitas outras”.
Neste relatório do PCP já se fala em ‘comissões de trabalhadores” desde 1969. Em 1972, Cunhal fala das lutas por “multiplicação das comissões nas empresas”; em 1973, do sucesso obtido nas eleições sindicais. Desde 1968-69, os trabalhadores ganharam a direção de muito sindicatos: nos bancos de Lisboa e do Porto, sindicato dos metalúrgicos de Lisboa, no têxtil. Em outubro de 1970,os sindicatos se articulam numa ‘InterSindical”, contando com 42 sindicatos. As principais reivindicações eram: salário mínimo, direito de greve e liberdade sindical.
Portanto, nestes conflitos, os trabalhadores criaram as Comissões de Trabalhadores. Em
outubro 1974, existiam em todo o país umas 200 comissões de trabalhadores. Estas comissões eram eleitas por um ano e sempre revogáveis.
O movimento popular e operário pode ser periodizado em 3 etapas:
1a) 25 abril-28 setembro 1974
nascimento do ‘poder popular; fase do governo Spínola
2a) 28 setembro-11 março 1975 :
fase socializante
3a) 11 março- agosto 1975:
fase socialista [?]
O movimento das ocupações de empresas tomou velocidade no verão de 1975.
• -a lavanderia “Portugália”, com sede na Ajuda (Lisboa) e com 198 trabalhadores, sobretudo mulheres, em final de 74 após um ‘lock-out’, os trabalhadores demitiram o patrão e entraram em autogestão;
• -Na Marinha Grande, 700 trabalhadores ocuparam uma fábrica de vidros, sanearam a administração e passaram a gerir a empresa;
• -Na fábrica de Iogurtes “Bom Dia”, 19 trabalhadores ocuparam as instalações e instituíram um sistema de autogestão;
• -Na têxtil “Penteadora”, os 1.100 operários decidiram criar uma comissão de trabalhadores e assumir a administração
• -perto de Avo [Aveiro, Ovar, Ave?], uma fábrica entrou em autogestão;
• -no Porto, uma empresa de sintéticos, com 60 operários, entrou em autogestão;
• -a fábrica de bolachas Cuetara de Pombal, com 35 operários, entrou no sistema de autogestão;
• -a Clona Mining Cia,em Loulé, com 100 trabalhadores entrou em autogestão;
• -em Setúbal, os operários da fábrica Sapec, raptaram dois administradores para mostrar ao Governo como a situação estava ruim.
Assim, em agosto de 1975, umas 380 fábricas estavam em autogestão.
O período de maio-junho de 1974 foi fortemente dinamizado pelas ‘Comissões de
Trabalhadores”. Através destas Comissões, após o 25 de abril, os trabalhadores iniciaram a prática da autogestão, chegando à formação de inter-comissões de trabalhadores, ligando varias fábricas.
Em 75, por iniciativa dos operários da empresa Efacec-Inel, decidiu-se pela fundação de uma ‘Federação de Comissões de Trabalhadores”, com o nome de “Inter-Empresas”. Esta federação reunia 24 empresas entre as maiores do pais, ‘para auxiliar e apoiar as lutas dos trabalhadores”.
No período posterior ao 25 de abril, os trabalhadores se lançaram a tomada dos sindicatos, até então sob controle da legislação fascista do salazarismo. Os sindicatos estavam organizados por profissão: por exemplo na Lisnave, existiam 13 sindicatos, na TAP 15. Assim, os trabalhadores realizavam assembléias gerais e plenárias.
Ao mesmo tempo, em nível de fábrica, as Comissões de trabalhadores elaboravam cadernos de reivindicações: salários, diminuir a jornada de trabalho, melhores condições de trabalho, etc.
Conquistada a liberdade sindical nas empresas, os delegados sindicais em ação coordenada com as Comissões de trabalhadores, realizavam Convenções Coletivas. Os operários rurais se uniram e tomaram em suas mãos a tarefa de realizar a “Reforma Agrária”: expropriação de terras, ocupação de terrenos vazios, unidades coletivas de produção, sindicatos agrícolas. Assim, se fez a aliança operário e camponesa. [? Operários rurais não são pequenos proprietários mas uma secção da classe operária]
O ‘Poder Popular”: as Comissões de Moradores
Nos centros urbanos, nasceram as Comissões de Moradores, organizadas nos bairros.
Organizaram-se as intercomissões de Moradores. Ocuparam-se casas devolutas e abandonadas que, em assembléias de moradores, eram distribuídas aos mais necessitados. Construíram-se cooperativas de habitação. E construíram parques e centros sociais.
Com o avanço da direita em novembro 75, as comissões de moradores do porto iniciaram um debate que levou a um sistema de ‘troca direta’ com os camponeses do Norte: vendas de produtos agrícolas diretamente aos moradores. A Comissão de Moradores de Igreja Velha, no Porto, buscou a possibilidade de venda aos camponeses dos produtos de fábricas de autogestão ou sob controle das comissões de trabalhadores. Estes laços solidários foram comuns; a cooperativa de Cortiços, perto de Mirandela constituída no final de 75 pela ocupação de terras; em abril de 76, varias fábricas de Lisboa se cotizaram para enviar um trator a Cortiços. 300 operários vieram a Lisboa para levar o trator para cooperativa. Desta forma, negociando entre si, os trabalhadores criavam um ‘mercado autogestionário’. A “Cooperativa 25 de Abril”, construiu casas para substituir os barracos de lata, chegando a ter uma demanda por 600 casas.
Os trabalhadores dos estaleiros Lisnave fizeram encomendas de máquinas a empresas de autogestão. A federação das comissões de Moradores de Setúbal adquiriu os seus produtos nas cooperativas agrícolas da região de Azambuja, enquanto as comissões de moradores de Lisboa apoiavam as cooperativas de Alcácer e Évora.
Estes grupos de base se articularam para coordenação de suas lutas. Assim, 23
comissões, unidades coletivas e cooperativas criaram a Assembléia popular. Em Marvila, a
Assembléia Popular era formada pelas Comissões de Moradores e pelas comissões de
Trabalhadores. Muitas assembléias populares surgiram na área de Lisboa, mas também em
Faro, Porto, Coimbra e Braga.
Estas ‘vendas diretas’ entre comissões de moradores e cooperativas ou fábricas autogeridas, foi organizada em larga escala no Sul e no Centro do país e tornou-se muito popular devido ao aumento do custo de vida.
Em 13 setembro 74, umas 50 Comissões de trabalhadores do cinturão industrial de Lisboa reuniram-se em Conferencia na fábrica Copam. Outra tentativa de reagrupamento mais amplo foi a “Federação da Covilhã”, uma cidade do Centro onde existiam muitas fábricas têxteis e com tradição de lutas. Mais de 90 Comissões de Trabalhadores se reuniram em setembro de 75, um verdadeiro Congresso das Comissões de Fábrica. A pauta deste congresso:
• -O controle dos trabalhadores (formas de controle exercido pelas comissões de trabalhadores sobre a produção e o consumo, autogestão, etc);
• -horas de trabalho; o armamento da classe operária; saneamentos; desemprego; aliança operário-camponesa; nacionalizações, etc.
O movimento dos trabalhadores partiu de lutas reivindicatórias para a questão do poder, através das formas de organização e mobilização das ‘comissões de trabalhadores’ e pela capacidade de produção coletiva autônoma das ‘assembléias de trabalhadores’ frente aos sindicatos, partidos, Governo e patronato.
Outra forma de organização autônoma, foram os “Conselhos revolucionários dos
Trabalhadores”. Em abril 1975, num grande comício em Lisboa, ocorreu o debate pela organização de um ‘novo tipo de organização’. Participaram partidos de esquerda, comissões de trabalhadores e militantes da Inter-Empresas. Participaram as comissões de soldados e marinheiros. Deste encontro saíram os ‘conselhos revolucionários de trabalhadores, soldados e marinheiros”.
Em agosto de 75 ocorreu o 2º Congresso dos Conselhos.
AS COOPERATIVAS
Uma das mais significativas expressões deste movimento foram as “Cooperativas”. Surgiram em diversos setores: cultural, artístico, produtivo. As ‘cooperativas agricolas’ contribuíram para a aliança operário-camponesa. Muitas vezes, grupos de trabalhadores urbanos foram ao campo para ajudar os camponeses nas colheitas, ocupando desta maneira suas férias. Em agosto de 75, existiam 300 cooperativas e mais 200 se formaram em setembro. No conjunto, foram cerca de 3.000 cooperativas.
Após o 25 abril, o cooperativismo foi reinventado em Portugal por milhares de trabalhadores, a partir de uma conjuntura específica, reconduzindo-o às suas origens populares e revolucionárias.
O cooperativismo foi divulgado em Portugal por António Sérgio, inspirando-se nas idéias da
“Escola de Nimes”, de Charles Gide.
O abandono das empresas por parte dos patrões e o boicote de outras, os trabalhadores foram obrigados a realizar a gestão das fábricas, para manterem seus postos de trabalho. Os operários se organizavam em cooperativas ou em autogestão. Muitas pequenas e médias empresas se transformaram em cooperativas ou formas de autogestão ( uma comissão de trabalhadores era credenciada para gerir a empresa).
Em cerca de 2 anos, os trabalhadores viram em suas mãos cerca de 500 empresas em
crise, com a obrigação de as gerirem para manter seus postos de trabalho. Muitas destas empresas foram abandonadas pelos seus patrões. Em muitos casos, os Ministérios do Trabalho e de Tutela concediam uma credencial através da qual eram conferidos poderes de gestão aos trabalhadores destas empresas abandonadas.
A este fenômeno, chamava-se “regularização patrimonial”. Os trabalhadores que assumiam a empresa, agora como cooperativa, tinham que pagar o Ativo da empresa abandonada. O valor deste Ativo não era suficiente para fazer frente ao passivo da empresa.
O patronato usa 3 vias para retomar as empresas: pela violência, via assalto, geralmente à mão armada, às instalações que os trabalhadores ocupavam; em 1976, houve 10 assaltos de ex-patrões a cooperativas de trabalhadores; pela via judicial, mediante ações de reivindicação de posse; pela via política, dependendo da relação de forças, em que possam ter leis favoráveis.
Alguns mecanismos legais existiam: o decreto-lei número 4/76, que permitia ao Governo pedir aos tribunais a declaração de falência destas empresas e dispor, como lhe prouver, da respectiva massa falida – inclusive, arrendá-la ou vendê-la a cooperativa que explore esses meios de produção. A Constituição prevê no art. 87o, a figura do abandono dos meios de produção, sem haver indemnização nos casos de abandono injustificado.
Em junho 1975, houve a 2ª reunião Inter-Comissões de Trabalhadores, no Porto, em que se decidiu optar pela forma cooperativa e repudiar toda a forma de tipo autogestionário e cogestionário. Além dos sindicatos, participaram desta reunião comissões de trabalhadores representando 11 empresas da região.
A Constituição de Portugal define o setor cooperativo, ao lado do setor privado e do público, como “constituído pelos bens e unidades de produção, possuídos e geridos pelos cooperadores, em obediência aos princípios cooperativos” (art.89º .3). E, engloba o setor cooperativo no que chama de ‘Propriedade Social”, dando a esta uma dinâmica ‘que tenderá a ser dominante”.
No art. 84o.1, a constituição define que “O Estado deve fomentar a criação e a atividade de cooperativas”. Portanto, a Constituição define que: apoio e fomento cooperativo, englobando o
setor cooperativo no que denomina de ‘propriedade social’ e atribui a este a tendência de predominância: “constituem a base do desenvolvimento da propriedade social, tenderá ser predominante, os bens e unidades de produção com posse útil e gestão dos coletivos de trabalhadores, os bens comunitarios com posse útil e gestão das comunidades locais e o setor cooperativo” (art. 90º .1).
A Constituição da revolução define a vontade popular de Portugal ser uma república independente, em ‘transição para o socialismo, mediante a criação de condições para o exercício democrático do poder pelas classes trabalhadoras”(art.2º).
Assim, temos 3 setores caracterizados pela forma de propriedade e gestão dos meios de produção: publico, privado e cooperativo.
O Programa de Governo definia “no que se refere ao FOMENTO do cooperativismo, o
Governo assegurará todo o estímulo possível às iniciativas cooperativistas, sob a única condição de que respeitem o ideal cooperativo e os princípios que o informam, definidos pela Aliança
Cooperativa Internacional, entre nós difundidos por António Sérgio e finalmente integrados no texto constitucional”.
Estes princípios cooperativos, que estão na Constituição, são:
• a solidariedade ou o compromisso recíproco;
• a igualdade;
• a gestão social;
• a moral da equidade ou proporcionalidade;
• a educação.
• A Assembléia da república aprovou o Decreto-lei que criou o INSCOOP (Instituto nacional Setor Cooperativo) que tomou o nome de António Sérgio, e que cuida de formação, apoio pontual, econômico e financeiro.
Como parte deste processo, em 1978, a BASE-FUT, movimento social originado neste período, organizou a Primeira Conferencia Nacional pelo Socialismo Autogestionário, em Lisboa.
De suas declarações, podemos extrair esta definição:
“ A autogestão é a construção permanente de um modelo de Socialismo, em que as diversas alavancas do poder, os centros de decisão, de gestão e controle, e os mecanismos produtivos sociais, políticos e ideológicos, se encontrem nas mãos dos produtores-cidadãos, organizados livres e democraticamente, em formas associativas criadas pelos próprios
produtores-cidadãos, com base no principio de que toda a organização deve ser estruturada da base para a cúpula e da periferia para o centro, nas quais se implante a vivência da democracia direta, a livre eleição e revogação, em qualquer momento das decisões, dos cargos e dos acordos”. [cf. 1a Conferencia Nacional pelo Socialismo Autogestionário. Lisboa, Maio de 1978].
As ocupações no Campo
No Alentejo, o modelo de empresa dominante era a grande exploração agrícola. Os proprietários cultivavam trigo nas melhores terras dando as piores de parceiria; colhia azeitona, arrancava o cortiço e noutras partes cultivava gado suíno. O proletariado rural era atingido pelo desemprego, disputava os pequenos pedaços de terra para parceiria e, tinha uma fratura entre assalariados permanentes e os temporários, estes afetados pelo desemprego. As condições de vida estavam marcadas pela fome em largos períodos do ano e os salários eram muito baixos.
A emigração para o estrangeiro e a ida para cidades afetavam este modelo de empresa.
As lutas dos rurais em 1962 (por mais salário e jornada de 8 horas) assinalam o declínio do latifúndio. Estas grandes propriedades contaram, então,com o apoio da política de credito do regime fascista e puderam se mecanizar, se capitalizarem. As outras explorações em que não houve esta capitalização, ficaram abandonadas a uma agricultura extensiva de azeitona e cortiça e alguma criação de gado. Desta forma, quando de 1974, uma burguesia capitalista agrária tinha a hegemonia no Sul.
Nessas duas províncias do Alto e do Baixo Alentejo ( o Algarve tinha traços comuns com o
Norte do país), domina a grande propriedade do latifúndio: empregavam um total de 300.000 trabalhadores rurais, um verdadeiro proletariado rural.
A reforma Agrária dos trabalhadores aponta para uma via que modifica as relações de produção dominantes nos campos do Sul, o que significa tomar não apenas as terras piores como queriam os latifundiários, mas também as melhores terras dos grandes proprietários. O Partido Comunista de Portugal privilegiava as UCPs, pois não tinha hegemonia no aparato estatal, para apoiar as organizações do próprio Estado. [? As UCPs eram empresas estatais. O autor não parece ter isto presente nem que esta forma foi imposta pelo estado por influência do PCP]
No Norte do país, a situação era diametralmente oposta ao Sul. Dominava o minifúndio, a pequena propriedade; diminua a presença dos assalariados sem terra, que emigravam, ficando apenas os mais velhos. Em alguns municípios, o próprio operário industrial cultiva um pedaço de terra para subsistência (Coimbra, Aveiro, Porto e Braga).
Há, portanto, uma ligação à terra muito forte. Nesta parte do país, foi muito acentuada a convergência do fascismo com a Igreja oficial, tendo como ideologia dominante o anticomunismo. Um universo ideológico profundamente enraizado na população, manifestando-se em “um horror de mudar”; esta ideologia agiu como ‘força histórica’ que os adversários do socialismo fizeram atuar como ‘força material’ contras as transformações.
População Agrícola – 1968
Assalariados 445.000 51%
Proprietários 330.000 38%
Familiares 100.000 11%
Total = 875.000 100%
No Alentejo, os assalariados representam 83% e, no Norte representam 37%.O total de 875.00 se dividem assim:
Algarve 37.000
Alentejo 150.000
Ribatejo 150.000
Norte 538.000
Com 34% da população ativa, a agricultura apenas representa 13,6% do PIB.
A Unidade Coletiva de Produção (UCP) é o segundo momento após o primeiro, a tomada da terra: luta pelo emprego, assegurar a produção, criar formas de organização, etc. Além da UCP, há outras formas: ‘pré-cooperativa’ e cooperativa, significando o mesmo tipo de organização.
Abril de 1974 encontrou intocado o Ministério da Agricultura: voltado para os interesses dos grandes proprietários de terra. No Sul, no Baixo-Alentejo, os trabalhadores agrícolas tinham uma longa trajetória de lutas pela reforma agrária, ”que liquidará os latifundiários e dará a terá a quem nela trabalha”. Nesta área, os sindicatos estavam bem implantados.
Em Beja o sindicato existia em quase todos os municípios, porém, em Setúbal e Santarém (no Ribatejo e no Alto-Alentejo) a implantação sindical era fraca.
A questão do desemprego foi um dos motivos para ocupação de terras. Os distritos onde mais se fazia forte o desemprego eram Évora, Portalegre e Beja. Em Setúbal e noutros locais do Sul, o desemprego era menor. Muitos eram os motivos deste desemprego: o regresso ao campo de operários vindos da zona de Lisboa-Setúbal, onde trabalhavam na construção civil; a seca de 1974;desmobilização no ritmo de incorporação ao serviço militar; a quebra do surto da emigração; o aumento de salários trouxe muitas mulheres ao mercado de trabalho.
As lutas freqüentes levaram os grandes proprietários à modernização tecnológica, e assim, criando as condições para o desemprego e o sub-emprego permanente. O recurso ao trabalho temporário (os assalariados agrícolas são 80% temporários em Setúbal); o operário agrícola tem 3 a 4 meses de desemprego por ano; por exemplo, a cultura de tomate exigia apenas 4 meses de trabalho por ano. Uma das conseqüências desta situação, é o êxodo rural (a população de Beja diminuiu de 25% entre 1960 e 1970).
Um passado de exploração e opressão estão na base das ocupações. Os trabalhadores rurais do Sul tinham uma historia de lutas: uma greve geral em 1917 pela jornada de 8 horas; durante o fascismo salazarista: ‘marchas de fome” nos anos 40 e uma série de lutas que atingiu seu auge em 1946, 1948-49,1953,1956,1948 e nas greves gerais no Alentejo e no Ribatejo em 1962. A influência do PCP era muito antiga e forte.
Logo em seguida ao 25 Abril, os trabalhadores rurais tiveram um aumento importante de salários, conquistado nas primeiras Convenções Coletivas de Trabalho. As segundas Convenções já incluíram regras para combater o desemprego.
As terras que seriam ocupadas pelos trabalhadores, ou estavam abandonadas ou sem cultivo.
Em maio, 200 hectares no Alentejo foram ocupados por cerca de 100 trabalhadores. A ocupação foi apoiada pelo Instituto reforma Agrária (IRA) e pelos militares do Movimento Forças Armadas (MFA). Em junho, a Quinta da Torre, perto de Cabanas, foi transformada em cooperativa. As terras tinham sido abandonadas pelo proprietario. A ocupação foi realizada com apoio da Comissão de Moradores local. Uma fábrica próxima cedeu as máquinas para a limpeza de 30 hectares.
Os 300 hectares da “Quinta das Alagoas”, perto de Lagoa (Algarve), foram transformados numa UCP, com o nome de “Estrela Vermelha”. Os 2.000 hectares da Quinta de Sousa da Sé, perto de Évora foram ocupados; na aldeia de Cuba (Alentejo), a Quinta de São Pedro também foi transformada em cooperativa, após sua ocupação.
Em Castelo Branco (Beira Baixa), no final de 1975, havia uma área ocupada pelos trabalhadores de 3.100 hectares. Em Malpica,também em Castelo Branco, trabalhadores desempregados da Celtejo (fábrica de celulose) ocuparam uma propriedade com cerca de 1.100 hectares. Estas UCPs foram trabalhadas e geridas pelos próprios trabalhadores.
Em Faro (no Algarve) ocorreram 4 casos de ocupação de terras, e num caso houve regresso do patrão.
Em agosto 74, 206.645 hectares de 330 latifúndios tinham sido ocupados por 6.000 trabalhadores. As principais regiões onde ocorreram as ocupações de terra foram: o Alentejo e, o Ribatejo e a zona em volta de Castelo Branco (na Beira Baixa). Os trabalhadores rurais se organizavam em cooperativas e UCPs. O modelo adotado foi da partilha : a terra era trabalhada e possuída pelo conjunto dos habitantes da aldeia.
Apenas em Évora ocorreram cerca de 100 ocupações; em agosto de 1975,ocupações ocorriam diariamente.
Vejamos, mês a mês de 1975, a evolução na área do Alentejo:

A reforma Agrária avançou onde os trabalhadores se impuseram através das ocupações de terras, com apoio do IRA e dos militares.