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20/02/2009

porco trágico I

porco trágico I

conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é fome de sobremesa alheia.

a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito/
de si
e pouco ou nada dos outros.

o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.

Alberto Pimenta

Ontem o pregador de verdades dele

Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto – eu, que as vou comer a ambas?

Porco Trágico, também conhecido como Alberto Caeiro

O operário e o macaco

Entre o trabalhador do cérebro, como lhe chamam, e o trabalhador do braço não há identidade nem semelhança: há uma profunda, uma radical oposição. O que é certo é que entre um operário e um macaco há menos diferença que entre um operário e um homem realmente culto. O povo não é educável, porque é povo. Se fosse possível convertê-lo em indivíduos, seria educável, seria educado, porém já não seria povo. O ódio à ciência, às leis naturais, é o que caracteriza a mentalidade popular. O milagre é o que o povo quer, é o que o povo compreende. Que o faça Nossa Senhora de Lourdes ou de Fátima, ou que o faça Lenine, nisso só está a diferença. O povo é fundamentalmente, radicalmente, irremediavelmente reaccionário.

Porco Trágico, já nosso velho conhecido

19/02/2009

Discurso do filho-da-puta

de Alberto Pimenta

Balada ditirâmbica
do pequeno e do grande filho-da-puta

I

o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.

no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.

de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.

o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.

no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta.

todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.

é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.

II

o grande filho-da-puta
também sem certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.

de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.

o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.

por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.

todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.

é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multipliccação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta

19/02/2009

A visita do Papa

A VISITA DO PAPA Entre. Não peca nada.

de

Alberto Pimenta

Edição original & Etc, 1981

Enquanto o papa não chega

Todos dão a sua achega*

POR EXEMPLO:

As autoridades convencem com os dentes.

Os deputados erguem as nádegas

para lhes serem metidas moedas na ranhura.

Os investidores apostam na sementeira

de guardas-republicanos.

Os magistrados justificam o uso

da força com a força do uso.

Os militares apoiam a democracia em geral

e o cão-polícia em particular.

Os tecnocratas correm o fecho-éclair

para fazer luz sobre o assunto.

Os psiquiatras metem o dedo no olho

do cliente para lhe aprofundar os desvios.

Os mestres ensinam os cães particulares

a defecar nos passeios públicos.

Os escritores erguem a voz acima de todas para

dizer que todas as vozes se devem fazer ouvir.

Os funcionários públicos zelam por que tudo

o que não é proibido seja obrigatório.

Os sacerdotes encaminham a alma

para o sétimo céu.

Os internados no manicómio recebem

coleiras novas com o número fiscal.

Os jornalistas dão peidos que abalam a

qualidade de vida da cidade.

O povo digere tudo porque tem

dentes até ao cu.

Os polícias de choque referem-se

às conquistas de abril.

Os anjos da guarda interceptam os

pacotes com as bombas e explodem.

ÀS VEZES, PARA VARIAR, SÃO:

As autoridades que erguem as nádegas

para lhes serem metidas moedas na ranhura.

Os deputados que apostam na comercialização

dos guardas-republicanos.

Os investidores que justificam

a força do uso com a força da usa.

Os magistrados que apoiam a democracia em

público e o cão-polícia em particular.

Os militares que empunham o facho-éclair

para fazer luz sobre o assunto.

Os tecnocratas que manipulam os dados

com os dedos e os dedos com os dados.

Os psiquiatras que ajudam os cães a com

pensar o seu complexo anal e vice-versa.

Os mestres que erguem a voz para dizer

quais as vozes que se devem ouvir.

Os escritores que zelam por que aquilo que é

proibido se torne obrigatário e vice-versa.

Os funcionários públicos que encaminham as

almas para o sétimo selo.

Os sacerdotes que recebem as colheitas com

a colecta anual.

Os internados no manicómio que dão

peidos que abalam a (so)ci(e)dade.

Os jornalistas que digerem este mundo e o outro

porque têm dentes fora e dentro.

O povo que se refere às conquistas de

abril.

Os polícias de choque que empacotam

as bombas e explodem.

OUTRAS VEZES, POR DESFASTIO, SÃO:

As autoridades que apostam na bosta para

a sementeira dos guardas vingar

Os deputados que justificam a força

do uso com a força do uso da força.

Os investidores que apoiam a polícia da

democracia e o cão em ge(ne)ral.

Os magistrados que lançam mão da ficha in

formática para fazer luz sobre a temática.

Os militares com o dedo que apontam sem desvio

ao olho e vice-versa.

Os tecnocratas que instituem o im

posto an(u)al para cães.

Os psiquiatras que erguem a voz por motivos

alheios à sua vontade.

Os mestres que zelam por que tudo continue

como está e quase nada vice-versa.

Os escritores que encaminham as almas

para o seu solo de tromba.

Os funcionários públicos que recebem

poleiros com hygiephone bucal.

Os sacerdotes que dão peidos que

embalam a cidade.

Os internados no manicómio que não

digerem nada porque ficaram sem os dentes.

Os jornalistas que se referem às

conquistas de abril.

O povo que desembrulha o pacote

e explode.

OU ENTÃO SÃO:

As autoridades que têm jus ao uso

da força por força da força.

Os deputados que apoiam a polícia democrática

em geral e o cão político em particular.

Os magistrados que metem o dedo no olho do

arguido para ver se ele contém argueiro.

Os militares que ensinam os cães a reagir

ao toque de defecar.

Os tecnocratas que rebaixam a voz quando

se querem fazer ouvir no ovil.

Os psiquiatras que zelam por que tudo o que

não é proibido pareça e digamos vice-versa.

Os mestres que encaminham as almas

para o seu sítio.

Os escritores que operam com números

velhos e colírios novos.

Os funcionários públicos que dão peidos

dentro da legalidade sindical.

Os sacerdotes que digerem tudo

porque só ingerem papa claro.

Os internados no manicómio que se referem

às conquistas de abril.

Os jornalistas que embrulham as bombas

que explodem na boca do leitor.

Mas

Quando o papa chegar,

Sim

Quando o papa chegar,

Todos vão interromper

O que estão a fazer,

Todos querem ver o papa*

Conversar com os doentes.

Erguer as nádegas

para os devotos lhe meterem ex-votos na ranhura.

Apostar em publicanos e republicanos.

Justificar a força do uso com

a força da usura.

Rezar pela democracia em geral

e pelo cão polícia em particular.

Erguer a voz em maio para

curar quistos de abril.

Dar um peido

que brada aos céus.

E encaminhar assim as almas

por esta via sacra.

Porém

O papa

Limitar-se-á

A Clamar e proclamar que

O

paraiso

É o mais macio e absorvente de todos

(além disso apresenta-se desde agora em

modelos duplex com 900 folhas em todas

as gamas de cores do arco-íris e

um estojo da maior utilidade!)

O

paraiso

Ao seu alcance

(e poderá ainda receber um super b

ónus de 250 contos em ouro!)

DE MODO QUE DORAVANTE

PODEM POR BIZARRIA:

As autoridades apoiar a polícia em público

e o cão democrático em particular.

Os deputados correr o fecho-éclair

para fazer luz sobre o affaire.

Os investidores pedir luvas

para meter os dedos de môlho.

Os magistrados legislar acerca

dos cães e respectiva matéria.

Os militares erguer a voz para dizer que

a sua voz não se faz ouvir.

Os tecnocratas zelar por que tudo o que ainda

não é obrigatório o seja e não vice-versa.

Os psiquiatras encaminhar as almas para

o sétimo sono.

Os mestres distribuir coleiras novas

com a inscrição «tal qual».

Os escritores dar peidos

que empolgam a cidade.

Os funcionários públicos digerir tudo

porque têm dentes até ao cu.

Os sacerdotes referir-se às conquistas

de abril.

Os internados no manicómio construir

a bomba e explodir.

O que não podem,

O que doravante

Nenhum deles

Pode negar

É que o

paraiso

É o mais macio e absorvente de todos

O

paraiso

Ao seu alcouce

(e ainda poderá receber um super b

ónus de 250 contos em ouro!)

*Em espírito de profunda caridade pelas legítimas aspirações e valores autênticos da humanidade

Note bem:

Na concretização dum projecto tão grandioso como este, trabalhou-se arduamente durante cerca de 1 ano para conseguir chegar a uma produção digna do seu nome, com a tradicional qualidade dos nossos produtos e o inegável critério de perfeição que nos caracteriza.

«A Visita doPapa», de Alberto Pimenta, foi publicada pela primeira vez pela Editora & Etc em Maio de 1981.

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