por Gilles Dauvé
Berlim, 1919-1933 (continuação)
O KPD, por seu lado, não tinha hesitado em estender a mão aos nacionalistas contra a ocupação francesa do Ruhr em 1923. Para Radek, “só a classe operária pode salvar a nação”. Talheimer, dirigente do KPD, não escondia que o partido devia combater ao lado duma burguesia alemã que tinha então “um papel objectivamente revolucionário pela sua política estrangeira”. Zinoviev não diz outra coisa na sessão do Executivo Alargado do Komintern, em Junho de 1923:
“A questão nacional é também a questão vital da política alemã. O nosso partido pode legitimamente dizer que, se bem que não reconheçamos a pátria burguesa, somos nós que defendemos, na Alemanha, o futuro do país e da nação. Os nossos camaradas reconheceram-no sem ousarem levar a cabo uma campanha prática.”
E Radek, na mesma reunião: “Colocar a questão nacional, quer dizer, fazer compreender ao proletariado que ele deve ser o Partido da Nação, é na Inglaterra apenas uma fórmula de propaganda para o objectivo final, mas o mesmo não se passa na Alemanha. È significativo que um jornal nacional-socialista se erga violentamente contra as suspeitas sobre os comunistas: assinala-os como um partido combativo que se torna cada vez mais nacional-bolchevista. O nacional-bolchevismo significava em 1920 uma tentativa a favor de certos generais; hoje em dia traduz o sentimento unânime que a salvação está nas mãos do PC. Apenas nós somos capazes de encontrar uma solução para a situação actual da Alemanha. Colocar a nação em primeiro plano, é na Alemanha, tal como nas colónias, agir de maneira revolucionária.” (citações retiradas das actas publicadas no Boletim Comunista, 28 de Junho de 1923)
Uma dezena de anos estalinistas mais tarde, o KPD apelava a uma “revolução nacional e social”, denunciava o nazismo como “traidor à nação”, e usava tanto o slogan da “Revolução Nacional” que inspira Trotsky a escrever em 31 um folheto Contra o nacional-comunismo. Infelizmente para os militantes do KPD, os nazis em matéria de demagogia nacional eram imbatíveis.
Em Janeiro de 1933, os dados estão lançados. Ninguém pode negar que a República de Weimar se entregou voluntariamente a Hitler. Tanto a direita como o centro acabaram por vê-lo como uma solução viável para tirar o país do impasse, ou como um mal menor temporário. O “grande capital”, reticente perante qualquer agitação incontrolável, não se tinha mostrado, até ao momento, mais generoso com o NSDAP do que com as outras formações de direita ou nacionalistas. Só em Novembro de 1932, Schacht, um homem de confiança da burguesia, convence os meios dos negócios a apoiar Hitler (que acaba, no entanto, de sofrer um ligeiro recuo eleitoral) porque vê nele uma força capaz de unificar o Estado e a sociedade. Que a alta burguesia não tenha nem previsto nem tenha sempre apreciado a evolução posterior, a guerra e menos ainda a derrota, é outra questão, e de qualquer modo a sua presença não foi apreciável na resistência clandestina ao regime.
É completamente dentro da legalidade que Hitler é nomeado chanceler, a 30 de Janeiro de 1933 por Hindenburg, ele próprio eleito constitucionalmente presidente um ano antes, com o apoio dos socialistas, que viram nele… uma barreira contra Hitler, sendo os nazis uma minoria no primeiro governo formado pelo líder do NSDAP.
Nas semanas seguintes, as máscaras caem: os militantes operários são perseguidos, os seus locais são saqueados, o terror instala-se e as eleições de Março de 1933, sob a violência conjugada das SA e da polícia, colocam no Reichstag 288 deputados do NSDAP (mas ainda 80 do KPD e 120 do SPD).
Os ingénuos espantam-se que o aparelho repressivo se tenha posto docilmente ao serviço dos ditadores: como sempre em casos semelhantes, do polícia de giro ao director de ministério, a máquina estatal obedece à autoridade que a dirige. Os novos dirigentes não tinham plena legitimidade? Juristas eminentes não escreviam cada decreto em conformidade com as leis superiores do país? Num “Estado democrático” – e Weimar era um – se há conflito entre os dois componentes do binómio, não é a democracia a sair vencedora. Num “Estado de Direito” – e Weimar também era um – se há uma contradição, é o direito que se deve vergar para servir o Estado, e nunca o oposto.
Durante estes poucos meses, que faziam os democratas? Os de direita resignaram-se. O Zentrum, o partido católico do Centro, antigo eixo das maiorias de Weimar em parceria com o SPD, e que até melhorou os seus resultados nas eleições de Março de 1933, vota para dar quatro anos de plenos poderes extraordinários a Hitler, poderes esses que se transformaram na base legal da futura ditadura. O Zentrum é obrigado a dissolver-se em Julho.
Os socialistas, por seu lado, tentaram escapar ao destino do KPD, proscrito no dia 28 de Fevereiro (após o incêndio do Reichstag). No dia 30 de Março de 1933, abandonaram a Segunda Internacional para demonstrar o seu carácter nacional alemão. No dia 17 de Maio, o seu grupo parlamentar vota a favor da política externa de Hitler. No entanto, no dia 22 de Junho, o SPD é dissolvido como “inimigo do povo e do Estado”.
Quanto aos sindicatos, em 1932, à maneira da CGL italiana que tentou salvar o que pôde insistindo no seu carácter apolítico, os seus líderes proclamaram-se independentes de todos os partidos e indiferentes à forma do Estado. Isso não os impediu de procurar um acordo com Schleicher, chanceler desde Novembro de 1932 e então em busca de base ou demagogia operária. Estando os nazis no governo, esses mesmos líderes sindicais deixam-se persuadir que na condição de reconhecerem o nacional-socialismo, o regime lhes daria um pequeno espaço. Esta estratégia culmina na farsa de membros dos sindicatos marchando sob a suástica no 1º de Maio de 1933, transformado na “Festa do Trabalho Alemão”. Em vão: nos dias que se seguem, os nazis liquidam os sindicatos e prendem os militantes…
Formada a enquadrar as massas e a negociar em seu nome, e mesmo, a reprimi-las, a burocracia operária apenas tinha o conhecimento de uma situação profundamente alterada. Multiplicar os seus sinais de fidelidade ao regime não lhe serviu de nada. Não se lhe reprovava a sua afronta à pátria mas ao cofre-forte das classes possuidoras. Não era o seu internacionalismo verbal herdado do período anterior a 1914 que incomodava a burguesia, mas a existência dum sindicalismo submisso mas ainda independente, numa era na qual o capital já não tolerava qualquer outra comunidade que não a sua, e na qual mesmo uma instituição de colaboração de classes estava a mais se o Estado não a controlava completamente.
(a seguir Barcelona, 1936)
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