por Gilles Dauvé
5. Nenhum estilo de vida é subversivo
Arthur Cravan afirmava ser um desertor de 17 países. Nós também somos desertores. Mas não achamos que desertando do mundo vamos mudá-lo; simplesmente, não nos identificamos com ele. Se me abstenho de votar não é porque no fundo do meu coração prefira um governo trabalhista a um conservador, mas seguindo os meus princípios revolucionários, proíbo-me de votar. Não necessito obrigar-me a nada. Sinceramente acho que os trabalhistas não são melhores que os conservadores, e ao contrário desses esquerdistas que votam pelo mal menor, estou muito consciente de que minha atitude não tem um impacto imediato sobre nada. Na melhor das hipóteses, serve para ajudar a manter viva alguma comunidade entre os poucos que não votam por razões similares às minhas.
Abster-se do mundo não evita que este continue a funcionar. Se não quiser participar da exploração de ninguém, o melhor é nunca comprar acções e passar sem conta bancária, gastando o dinheiro logo que o receba ou guardando-o em casa. E por que não? No final da sua vida, Jean Genet quase não tinha pertences, vivia em hotéis e insistia em que lhe pagassem em dinheiro vivo, para o usar e fazer circular como quisesse. Não era o ideal, mas estava a conduzir-se o melhor que podia num mundo de dinheiro. Deveríamos fazer o mesmo? Deveríamos dizer aos nossos amigos que o façam?
Da mesma forma que a atitude de Genet, o veganismo é um assunto pessoal. Algumas atitudes talvez sejam definitivamente “más”, mas não há nenhuma que seja superior às restantes. Não tem sentido procurar as atitudes que mais se aproximam ao comunismo. Genet obtinha os seus rendimentos do mundo literário do qual fazia parte. Onde se cultiva a soja? Quem a cultiva e por que paga?
Talvez a atitude menos não-comunista consista em não escolher nenhum estilo de vida. Viver com um mínimo de pretensões, permanecer tão aberto quanto seja possível: dormir num iglu na Gronelândia, numa tenda índia na América do Norte, numa habitação social em Roma, conduzir um camião no Quénia e ensinar inglês na Coreia do Sul, ir fazer compras ao Tesco em Battersea com os proletas do lugar e pescar com os habitantes duma ilha no Pacífico Sul. Ajustar-se a muitos hábitos alimentares e sexuais sem ficar preso a nenhum. Esta atitude está tão distante da que toma o que “resiste” isolando-se do mundo, como da do que se refugia no micro-mundo de um meio social “alternativo”.
Este imaginário “cidadão do mundo” ou “viajante da humanidade” não tem porquê ser tomado como um modelo a imitar. Sem dúvida, ele também chocaria com aspectos desagradáveis deste mundo: o seu camião poderia afectar a vida local do Quénia, talvez algum companheiro de copos em Battersea tenha preconceitos racistas, etc. Não estamos a propor um novo ideal do tipo “Pela estrada fora” (2) . Este personagem improvável simplesmente nos ajuda a entender que o comunismo significa abrir cada categoria a todas as outras.
Talvez o maior defeito do veganismo (como qualquer outra visão do mundo baseada numa dieta específica) seja a noção de que o homem é o que come. O homem é o que faz, o que inclui o que come, e tudo o que faz sempre o faz com outros.
Pode-se ser vegano e comunista; mas também se pode ser vegano e não-comunista, ou anti-comunista.
Se nos levantamentos sociais os punks poderão ter um papel mais importante que os aficionados de ópera, não é devido a uma suposta superioridade dos Sex Pistols em relação a Monteverdi. Será antes porque os fãs de punk-rock são de uma classe inferior aos que assistem a concertos em Covent Garden. Os punks nunca serão revolucionários enquanto punks.
O veganismo confronta o poder simbólico e social da carne. Nenhum vegano acredita que vai causar um dano real à indústria da carne: os veganos actuam contra uma imagem. Então, por que não negar-nos a usar veículos motorizados? (é mais fácil se se pode pagar uma moradia no centro, do que quando se vive num bairro da periferia). Por que não abster-se de ter filhos? Mas se o critério é ser antagonista à sociedade, é preciso lembrar que na antiga Grécia recusar-se comer carne era uma ofensa contra as relações entre deuses, homens e animais, e portanto uma crítica da ordem social; mas em qualquer país católico em 1700 ou inclusive em 1900, o subversivo era comer carne à sexta-feira, como de facto faziam alguns ateus militantes. Não é possível tratar de transformar um gesto ou comportamento particular numa norma ou anti-norma.
Pelo contrário, os que pensam que a humanidade em algum momento da sua história tomou um rumo errado, estão condenados logicamente a lutar por um mundo que se organize especificamente contra esse erro original, e isto leva-os, por exemplo, a reivindicar uma dieta especial.
Por conseguinte, esta discussão tem mais um mérito: lembra-nos que o mundo não gira em torno a uma grande causa ou pecado original. A dieta carnívora não é a origem de todos os males. Mas o dinheiro também não o é, por exemplo. A humanidade não sofre de uma doença que o comunismo virá a curar. Não existe um remédio. Somos cépticos, não médicos. Não defendemos a saúde contra a doença. O comunismo não é a produção ou a vida organizada de outra forma, sem dirigentes, por exemplo, ou sem intercâmbio de valor. Só pode ser definido como actividade, como comunidade. Não iremos procurar formas de fazer circular os bens sem usar dinheiro, mas viver e fazer as coisas de uma maneira diferente, e essa diferença incluirá a ausência de dinheiro: não haverá nenhuma necessidade de calcular o tempo de trabalho médio requerido para produzir algo. Enquanto as pessoas continuarem a pensar que em primeiro lugar e sobretudo é preciso “suprimir” o dinheiro, ou combater o poder político separado ou qualquer outro mal do presente, isso será uma prova que não estão a imaginar nem a fazer as coisas que poderiam fazer para viver sem esses males.
6. O vegetarianismo nega e ao mesmo tempo reafirma a diferença radical do homem
Ninguém pediria a um leão que não mate antílopes. Dá-se por assente que a natureza deve seguir seu próprio curso, o apelo da selva… Só ao homem se pede para agir de um modo diferente. Os vegetarianos concebem o homem como o animal que é capaz de escolher, que pode decidir não fazer mal a outras criaturas; e que portanto deve escolher não o fazer. Ou seja: exige-se ao ser humano agir em nome do mesmo estatuto superior que negam que ele tenha. Afirmam que o homem pertence à natureza, que a conhece e que em consequência não deveria tirar vantagem dela. Não estamos expondo uma inconsistência lógica do vegetarianismo para poder refutá-lo melhor: o que refutamos é a possibilidade de demonstrar ou desmentir a verdade do vegetarianismo. Esta contradição lógica não é mais que outra maneira de definir “a natureza humana”, ou melhor, de mostrar como a “humanidade” escapa a qualquer definição.
“A única coisa que realmente sabemos sobre a natureza humana é que ela muda. O único prognóstico que podemos fazer dela é que mudará. Os sistemas que fracassam são aqueles que contam com a imutabilidade da natureza humana, em vez de contar com o seu crescimento e desenvolvimento” (Oscar Wilde, A alma do homem sob o socialismo).
Com frequência acusa-se o homem de ser “o único ser que mata por prazer”. Esta afirmação assume que o assassinato não dá ou não deveria dar prazer. De acordo, mas ao dizer isto abrimos a porta fatal do reino estranho e ilimitado do prazer. Quem ou quê lhe poderia colocar os limites? A razão? A busca do bem comum? A compreensão de que meu próprio prazer depende da ampliação do prazer dos outros, e não do seu aniquilamento? Que simples… e ingénuo! Sade sabia mais do assunto. Também Fourier. Nada, jamais, neutralizará completamente a parte negativa e anti-social da humanidade.
Em termos fisiológicos, o homem não está capacitado nem incapacitado para consumir carne. De facto, não fomos “feitos” para nada em particular. É absurdo defender a homossexualidade argumentando que isso também ocorre em algumas espécies animais: isso é verdade, mas não nos diz quase nada, a não ser aquilo que já sabíamos: que a homossexualidade existe. O homem é parte da natureza e ao mesmo tempo é diferente do resto da natureza. Quanto dessa diferença se deve à sua posição erecta e à sua visão panorâmica? E que quantidade a factores sociais? Cada época reinterpreta os dados disponíveis de acordo a sua própria perspectiva histórica predominante. O homem é natureza e artifício.
O antropocentrismo (a ideia de que o homem é superior às outras espécies) e o “naturalismo” (a de que o homem deve reintegrar-se ao resto da natureza) esquecem que a natureza humana consiste em tentar descobrir a natureza humana. O homem é um ser que nunca sabe o suficiente acerca dele mesmo. Os sistemas tentam sossegar-lhe as dúvidas. É quando se sente mais seguro de si mesmo, como na sociedade totalitária (a megamáquina capitalista é uma totalidade completamente envolvente e abrangente), que se torna mais destrutivo.
Seja o que for que nos elevou à condição humana, também nos pode fazer cair e andar sem rumo. Há algo de impossível na humanidade e nada vai eliminar essa impossibilidade. Se fôssemos chimpanzés, gatos ou “insectos sociais” jamais teríamos conhecido a tarte de maçã, ou o porta-aviões… ou esta discussão.
(2) Referência ao romance de Jack Kerouac (On the road), referência de um estilo de vida aventuroso e desprendido.

