por Alain C.
3. O comunismo não pode ser “primitivo”
A ideologia de Zerzan não é mais que a enésima aparição de um antigo romantismo primitivista, que remonta até Rousseau e, mesmo, antes de ele, a Montaigne (cf. Essais; Des Cannibales). Baseia-se no postulado que afirma que a nossa cultura seria “má”, já que teria perdido o “contacto com a natureza” que constituiria a “autenticidade” das culturas primitivas (“Os Otênticos são flores que brotam nos livros”, tal como Pagnol faz dizer ao pobre Ugolin) (1). Esta atitude é a de um colonialismo invertido, que faz da nossa cultura a única cultura “verdadeira”, isto é, o mal encarnado.
Vimos antes que, desde o início, a humanidade não se “libertou dos constrangimentos do meio natural”, como diria uma concepção marxiana-utilitarista das sociedades, mas desenvolveu-se independentemente dele. O que não significa que os homens vivam sem laços com o seu ambiente, o que seria absurdo, mas são as estruturas simbólicas das sociedades humanas as que condicionam a relação deles com o meio natural e não o inverso. Não se pode, portanto, falar de “proximidade” ou de “afastamento” em relação à natureza em nenhum momento da história humana, mas apenas de diversos tipos de relações com o meio, relações que são elas mesmo uma consequência do tipo de relações que os seres humanos mantêm no seio das suas sociedades, do seu modo de vida no sentido mais lato do termo.
Apresentar a vida dos caçadores-recolectores como mais “natural” que a dos sedentários não tem nenhum sentido. O simples facto de que os caçadores-recolectores tenham tido uma vida mas fácil, com mais “tempo livre” e mais sociabilidade “gratuita” que os sedentários, não constitui em si um argumento. Por outro lado, existem sociedades sedentárias que praticam a agricultura e dispõem de um “tempo livre” muito comparável ao dos caçadores-recolectores, praticando a subexploração e mantendo uma baixa densidade de população. Podemos mencionar os Chimbu da Nova Guiné, que exploram somente 60% das terras cultiváveis; os Yagaw das Filipinas ou os Iban de Bornéu, que mantêm a sua população entre o 30 e 40% abaixo da densidade que lhes permitiria uma agricultura mais intensa. Nestas culturas, podemos observar “jornadas de trabalho” muito curtas, 4 ou 5 horas, seguidas geralmente de vários dias de descanso. Entre os Papus Kapauku, os homens consagram em média 2h. 18 min. por dia à produção agrícola, e as mulheres 1 h. 42min. Há outros exemplos, mas seria fastidioso citá-los a todos.
A agricultura, contrariamente às equações simplistas do tipo agricultura/criação de gado = domesticação da natureza = dominação social, não é portanto portadora do “mal absoluto” que Zerzan quereria detectar nela.
Sem dúvida existirão também pessoas obcecadas pela investigação do Mal que quererão ir a encontrá-lo no armazenamento (manifestação da “consciência do tempo e do número”, segundo Zerzan), considerado por eles como a prefiguração da acumulação capitalista e porta de entrada na vida humana do pecado da avareza. Mas, azar, verificamos que muitos caçadores-recolectores também praticavam a acumulação como facilmente se pode imaginar. A não ser que se tomem os primitivos por imbecis, é difícil imaginar que se contentavam em recolher o que achavam, satisfazendo a sua fome imediata para se deitarem logo a seguir beatificamente à sombra da Árvore da Abundância. Bolotas, nozes, e outras castanhas silvestres serão recolhidas pelos caçadores-recolectores em cestos e postas a secar (a aparição tardia da cerâmica não significa que não se conhecessem anteriormente outros tipos de recipientes, mas não dispomos de vestígios destes recipientes entrançados, feitos de materiais perecíveis), tendo em vista um consumo posterior. A noção zerzaniana do “presente perpétuo” recebe um golpe, já que tudo isto significa uma antecipação a longo prazo das necessidades e a implementação de uma estratégia para as satisfazer.
Seja lá o que isso for, o Mal absoluto não se acha nem no armazenamento, nem na agricultura, nem nas formas de organização mais ou menos complexas ou “abstractas” (¿que há mais complexo e “abstracto” que os sistemas de linhagem transversal de parentesco em algumas culturas “primitivas”?), e ainda menos na consciência do tempo, na matemática ou na linguagem. De facto, não há “mal absoluto”. Paremos um pouco de fazer moral.
Zerzan é um feroz inimigo de qualquer organização. Para ele, toda a acção concertada e orientada para um fim preciso comporta forçosamente alienação. Vê feiticeiros em todo o lado. O que o incomoda nas sociedades modernas é, basicamente, esta organização. Que no presente seja alienada, disso não há dúvida. Mas, devemos por isso subscrever este anarquismo bruto, que vê em todo ajuntamento de mais de três pessoas um factor de dominação ou alienação?
Zerzan fala de uma “sociedade do face a face”, de uma “sociedade de amantes”. Nisso está com T. Kaczynski, conhecido como Unabomber, que no seu Manifesto declara que “o indivíduo” se sente frustrado naquilo a que chama a sua “auto-realização” logo que as decisões colectivas são tomadas por um grupo demasiado grande para que o papel de cada elemento tenha algum significado”. Zerzan sonha com os caçadores-recolectores, Kaczynski com os conquistadores do Oeste. Em ambos casos, pequenos grupos isolados, com taxas de população muito fracas.
Esta ideologia assinala um desejo muito característico do individualismo de massa: o desejo de auto-valorização, o desejo de ser reconhecido pelos outros. Este desejo evidencia uma privação muito real, mas, como produto da alienação que é, exprime-se na sua linguagem. É o ser humano separado quem fala assim, pois na sua separação tudo o que lhe resta é sua própria solidão, aquilo que Kaczynski chama a sua “individualidade”. Privados como estamos de toda acção colectiva consciente, nem sequer conseguimos imaginar que uma tal acção seja possível.
Pelo contrário, é necessário afirmar que esse tipo de acção é possível, e que o é porque no ponto em que hoje nos encontramos é necessária. A sociedade do “face a face”, a sociedade dos “pequenos grupos”, são produtos do individualismo magoado, do “vegetal” isolado que quer existir “por e para si mesmo”, apenas com mais alguns amigalhaços. Os problemas que coloca hoje o capitalismo, e que este não resolverá, já que só nós, como comunidade humana, somos capazes de resolver, não se solucionarão ao nível do “pequeno grupo”. Quando, por exemplo, a revolução tiver sido realizada (coisa que, bem entendido, não pode demorar) ocuparemos de reflorestar inteligentemente os milhões de hectares devastados pela agricultura industrial e isto não será possível pela acção de “pequenos grupos isolados”. E se, enquanto indivíduo, tenho a felicidade de participar desta acção colectiva, não me preocuparei muito em gravar o meu nome em cada árvore que tenha plantado e que, em todo o caso, jamais verei na sua maturidade. E não me sentirei menos indivíduo por causa disso.
O que Zerzan e Kaczynski sugerem é a muito democrática ideia segundo a qual a organização dos grupos humanos por si mesmos seria impossível devido ao nível populacional hoje alcançado. Como todos os democratas, não concebem de modo algum que uma sociedade integrada por milhões de indivíduos possa ser “administrada” de uma forma diferente da actual, isto é, pelos Estados, por delegação, pelo controle policial.
Não concebem a comunidade humana como superação das condições actuais nem das situações do passado, mas como uma regressão para este passado. E o seu pensamento, que se acha revolucionário, constitui efectivamente uma regressão.
Mas o objectivo deste texto não é propor uma nova teoria da revolução. Simplesmente propusemo-nos fazer uma crítica do ideólogo Zerzan, e achamos que está feita. Também nos propusemos abrir um debate sobre bases concretas. Eis as bases, o debate pode começar.
(1) Nota do tradutor: (Les lotantiques c’est des fleurs qui poussent dans les livres). Frase de uma peça de Pagnol usada quando se ironiza sobre autenticidade devido ao jogo de palavras entre lotantique e l’authentique (o autêntico), que em francês se pronunciam da mesma maneira.

