
por João Bernardo
[Extraido de: O inimigo oculto. Ensaio sobre a luta de classes. Manifesto anti-ecológico; Ed. Afrontamento, 1979. Reproduze-se desde o apartado IV do texto (que passa aqui a ser o I) até o final e suprimem-se as partes que consideramos periféricas ou pouco relevantes actualmente para o tema central. Nota dos seleccionadores do material, Ígneo, revista dos Comunistas de Conselhos da Galiza]
I
Sob o ponto de vista meramente ideológico a ecologia apresenta-se como uma defesa do restabelecimento do equilíbrio entre as sociedades humanas e o mundo natural, que teria sido rompido pelo desenvolvimento industrial nas últimas décadas. Analisarei em primeiro lugar a ecologia nos termos ideológicos em que se apresenta; definirei adiante a sua função social.
Para permanecer, pois, nos termos ideológicos da ecologia, falar de equilíbrio e de ruptura de equilíbrio entre a sociedade e a natureza é laborar num mito. Não há qualquer equilíbrio natural. Todos os elementos da natureza exercem permanentemente efeitos recíprocos, de forma que a estrutura das suas relações está constantemente a ser modificada. Enquanto elemento integrante do mundo natural o homem é, como se sabe, aquele que maior amplitude consegue dar à acção sobre os restantes, por ser o único que, simultaneamente, fabrica utensílios que multiplicam a sua força individual e se organiza em sociedades que são também mais fortes do que a pura soma da força dos membros componentes.
A interferência do homem junto aos restantes elementos da natureza não é uni fenómeno recente. Desde que se constituíram as primeiras sociedades e se fabricaram os primeiros utensílios, ou seja, desde que o homem é homem, que ele produziu modificações drásticas e gerais em todos os restantes elementos naturais. O nosso bom ecológico que passeia ao domingo de bicicleta e que ali, no que ele chamará «a natureza», perante as arvorezinhas e a erva verde, obra da natureza (ou de deus), tece meditações sobre o mal das fábricas, das suas chaminés, dos seus fumos e dos seus resíduos químicos, obra dos homens (ou do diabo), ignora que essas espécies vegetais cultiva’das não são obra da natureza, como não o é nenhum perfil paisagístico, nenhuma dessas pedras ou desses rios. Menos líricos, aqueles ecológicos que com alta competência profissional desempenham o papel de gestores, entre a calculadora, a programação e o computador procedem a estimativas simplistas quanto à ruptura contemporânea do equilíbrio natural, mas igualmente ignoram que todas as sociedades humanas, pelo puro facto de o serem, romperam os equilíbrios previamente existentes.
Hoje, que o estudo dos modos de produção pré-capitalistas está incomparavelmente mais avançado do que há umas décadas, sabe-se que a denominada «revolução do neolítico», isto é, a transformação das sociedades humanas em cultivadores e criadores de gado sedentários, não foi um processo relativamente brusco ocorrido há cerca de oito milénios. Tratou-se de um processo muito lento, que demorou certamente mais de trezentos mil anos, durante o qual -a humanidade, mediante uma demorada selecção das espécies vegetais e o cruzamento dos animais domesticados, pôde transformá-los, aumentando a sua capacidade nutritiva ou reforçando a resistência das fibras nas plantas destinadas ao fabrico de recipientes, cobertas e instrumentos, em suma, transformando radicalmente a natureza :de modo a prosseguir a expansão demográfica. Ainda não há muitos anos julgava-se, como tinham ‘acreditado os historiadores durante séculos, que os primeiros homens, bem como os tipos humanos primitivos, se alimentavam dos frutos hoje conhecidos, subsistindo por uma actividade simples de recolecção, e que depois, por uma razão ou outra pelos historiadores sempre muito debatidas, teriam passado a cultivar sistematicamente as plantas alimentares, em vez de procurar dispersamente os seus frutos. Sabe-se agora, porém, que nada nesta visão corresponde aos processos históricos reais.
A natureza não criou plantas alimentares propriamente ditas, como hoje as conhecemos, e o trabalho de recolecção era por isso de uma extrema complexidade. Não havia então plantas que, em número relativamente reduzido, permitissem um alimento abundante, e só uma organização social complexa, garantindo a memória exacta da localização de cada uma das variedades vegetais e da duração dos seus ciclos, permitiu aos grupos humanos baseados na recolecção a sobrevivência e a expansão.
Os primeiros cultivadores não pretendiam obter produtos alimentares, pois cada uma das plantas então conhecidas tinha fraquíssima capacidade alimentícia, e cultivavam plantas destinadas ao fabrico de instrumentos, recipientes e tecidos. O cultivo deste tipo de plantas era mais fácil de aprender :e de dominar do que o processo complexo de germinação da semente, pois tinha lugar mediante enxertos de mergulhia ou de estaca, resultantes de uma acessível observação da natureza, em que ‘tais processos se realizavam espontaneamente. Só após muitos milénios desta actividade os fenómenos do cultivo puderam :ser suficientemente entendidos para se perceber a função das sementes e iniciar a cultura de sementeira. Foi durante esta longa génese da actividade agrícola que se encetou a selecção das espécies mais adequadas aos fins em vista, reforçando-se assim a capacidade produtiva. Só quando este processo se estendeu às plantas alimentares, que passaram a ser cultivadas e seleccionadas, puderam as sociedades humanas obter plantas de valor nutritivo elevado e, pela selecção das espécies animais domesticadas, aumentar a corpulência de cada animal. Durante sucessivas selecções, frutos quase sem polpa tornaram-se nos alimentos que hoje conhecemos, ervas antes desprezadas, ou consideradas mesmo daninhas, como o arroz e o centeio, por exemplo, converteram-se numa das bases da alimentação humana; o trigo, que sustentou a alimentação em parte do Ocidente durante milhares de anos, não teve na natureza nenhum protótipo selvagem, resultando apenas de repetidas e demoradíssimas selecções. Todo este processo demorou milénios, dura hoje ainda, e no seu decurso, como sempre, o homem mais não fez do que alterar o «equilíbrio natural». Foi este processo que permitiu a multiplicação da capacidade alimentar, levando, há vários milénios, a um surto demográfico e à constituição das primeiras grandes concentrações populacionais, às primeiras civilizações urbanas, que determinaram a invenção da escrita e estão na origem de todas as novas formas culturais. Foi assim que se criaram as plantas e os animais que conhecemos hoje. Nenhum desses elementos da natureza é alheio à intervenção activa e persistente das sociedades humanas, nos seus constantes desequilíbrios e reequilíbrios com o meio natural.
O mesmo se passa com as paisagens naturais. Referi atrás os grandes desbravamentos dos anos mil e do século e meio seguintes, que tanto contribuiram para dar à Europa o aspecto que em muitas regiões ainda hoje conserva. Os rios, o regime dos ventos, a inter-relação idos vários tipos geológicos de terrenos, tudo isso amplifica os efeitos das mais pequenas acções das sociedades humanas e, sobretudo, expande-os a grandes distâncias. Uma pequena sociedade, há muitos milénios atrás, ou uma sociedade de tipo arcaico sobrevivente no mundo moderno, que se localize durante algum tempo ao pé de um rio e, portanto, integre o curso das águas nos elementos em uso no seu modo de produção, influi imediatamente no regime do rio e, por aí, altera o perfil geográfico a centenas ou, por vezes, milhares de quilómetros de distância.
Quanto mais rudimentares eram as técnicas, menos intensiva era a sua acção e mais se exercia em extensão; por isso os modos de produção arcaicos eram obrigados a proceder a grandes modificações das paisagens naturais, muito mais amplas do que à primeira vista poderá pensar quem tenha apenas em conta o volume diminuto da população e a escassa produção. É completamente errado julgar que um grupo humano reduzido, com uma técnica rudimentar, seja obrigado a respeitar as paisagens naturais. Pelo contrário, tem então de levar a cabo vastas modificações para poder sobreviver e expandir-se. Quanto mais elementares são as técnicas, tanto mais amplos são os seus efeitos secundários relativamente às capacidades produtivas. Foi -assim que -ao longo de centenas de milénios as sociedades humanas alteraram a superfície terrestre, de forma que desde há muito cada sociedade mais não faz do que voltar a modificar as paisagens que veio encontrar. A poluição e a ruptura do equilíbrio entre a humanidade e a natureza não são, pois, características da civilização industrial nossa contemporânea, mas aspectos inseparáveis -de todas as formas históricas de organização social.
As roças, que constituem uma das formas mais arcaicas de cultivo, com a simultânea função de desbravamento e de fertilização dos terrenos pelas cinzas, queimavam extensas faixas de floresta e, com a repetição do processo, comprometiam a própria fertilidade das terras a semear. Pequenos grupos humanos multiplicaram por este modo os efeitos poluentes dos seus processos de cultivo, especialmente se comparados coma escassa produtividade que os caracterizava.
Outra forma de desequilíbrio, periodicamente repetido, e com consequências históricas muito profundas, caracterizou os modos de produção assentes no pastoreio nómada. Na vasta região das estepes o percurso dos rebanhos era empiricamente estabelecido consoante uma experiência milenária, orientando as deslocações pelo ritmo de renovação dos pastos. Bastava, porém, a dinâmica deste processo, estimulando uma reprodução animal superior, a longo prazo, à reconstituição dos pastos, para romper o equilíbrio. Essa ruptura era eventualmente acelerada pelas oscilações climatéricas. Os pastores nómadas abandonavam então a sua área tradicional e expandiam-se para as regiões vizinhas, de cultura sedentária e mais férteis. Durante milénios o fluxo e o refluxo destas pressões pautou a vida das grandes civilizações agrícolas sedentárias, da península ibérica até aos confins da China, e só novas formas de organização social, com as técnicas militares correspondentes, vieram a opor aos pastores das estepes uma barreira efectiva. Nem os povos afastados escaparam, pois do impulso inicial dado pela expansão dos pastores nómadas resultava a deslocação em cadeia de sucessivas sociedades de agricultores, cada uma invadindo o domínio da sua vizinha e pondo-a assim em movimento. Na Europa conservou-se viva a memória de um destes episódios; quando as «invasões bárbaras» atravessaram o continente, das estepes até ao Sul da península ibérica e ao Norte da África. E o cavalo de Átila, que para sempre com as suas pegadas secava a erva, foi durante mais de mil anos um símbolo de poluição bem mais vivo e aterrador do que as piores profecias dos ecológicos de hoje.
As sociedades agrícolas sedentárias estruturaram-se durante muito tempo em torno de um equilíbrio material entre as terras cultivadas e os incultos. Destes obtinha-se a madeira, o mel e a caça, mais necessária pelas peles do que para a alimentação; nos incultos podia ainda proceder-se à cultura por roças, que subsistiu até há pouco ao lado dos afolhamentos regulares; mas os incultos garantiam o equilíbrio do sistema sobretudo pelo pasto oferecido ao gado, que, com o seu estrume, fertilizava as terras de cultura. Qualquer desequilíbrio nesta relação delicada, ou porque se desmoitassem demasiado os incultos, ou pela reprodução dos animais a um ritmo superior ao da reconstituição idas plantas nas zonas incultas, acarretava, em primeiro lugar, a diminuição da produtividade agrícola e, em segundo lugar, a própria diminuição do número de cabeças de gado. Aqui, tal como -em formas de desequilíbrio nas sociedades industriais contemporâneas, os efeitos surgiam só muito depois de o processo causador se ter iniciado, sendo tardios os esforços para evitar a ruptura do sistema.
A importância deste equilíbrio era tanto maior quanto, nos incultos, ameaçavam a floresta pressões, várias. O camponês desenraizava as árvores e desbraä vaya para alargar a sua lavoura ou, mais simplesmente, queimava para cultivar depois. A floresta servia-lhe ainda de matéria-prima para o aquecimento, para a construção de casas, de carros, de alfaias e outros utensílios. A expansão da actividade comercial europeia, incentivando a construção naval, contribuiu decisivamente para o corte idas árvores. Além da lenha, o carvão vegetal era também fonte de energia e de aquecimento; um vulgar mestre de forja, fundindo escassas semanas no ano, consumia por si só, de cada vez, dois mil hectares de floresta. E a,, actividade industrial crescente tinha na madeira a’ matéria-prima para a construção das máquinas; em França, por exemplo, a substituição da madeira por ferro na maquinaria só se completou no fim da depressão económica de 1827-1832. Não deve ter existido em quaisquer outros sistemas tecnológicos, incluindo o contemporâneo, uma matéria-prima que ocupasse um papel tão decisivo pela variedade e importância das suas funções. Com ciclos de renovação muito mais longos do que o ritmo crescente em que era empregue, a madeira ameaçava rarear. Em França, desde o fim da Guerra dos Cem Anos até ao reinado de Luís XIV, o desbravamento das florestas levou-as a limites próximos dos ocupados nos meados deste século. Não faltaram então :as profecias ecológicas, e um gestor, dos mais relevantes do seu tempo, escrevia no século dezassete que «todos os géneros necessários à vida subirão constantemente de preço e a progressiva raridade da madeira será a causadora dessa subida». Que diria o grande Sully se dispusesse já dos modelos de crescimento exponencial! A revolução agrícola do século dezoito, a substituição do combustível mineral ao vegetal e o emprego do ferro nas construções minoraram o desbaste das árvores e, ultrapassando aquele equilíbrio e os problemas por ele levantados, criaram outros equilíbrios, outros problemas e outras possibilidades de reestruturação.
Para encerrar esta série de exemplos convém lembrar a «poluição» que caracterizou de maneira mais dramática os modos de produção pré-capitalistas, e que está hoje ainda longe de eliminação nas vastas regiões não-industrializadas. A subnutrição e a ausência de condições de higiene, com todas as epidemias, maleonformações físicas e alta taxa de mortalidade a que davam lugar, constituíam uma condição da manutenção de um dado equilíbrio com a natureza. Curiosamente, grande parte dos ecológicos parece não se aperceber deste permanente desequilíbrio social, silenciando o facto de aquelas formas de equilíbrio com a natureza serem preservadas à custa da destruição de uma enorme parte da humanidade. Todos os efeitos secundários negativos exercidos pelo actual sistema industrial sobre a saúde das populações têm de ser contrabalançados com a destruição maciça de vidas humanas que teria lugar se esses processos industriais não ocorressem, como se verifica em todas as regiões ou épocas não-industrializadas. Só assim a posição relativa dos equilíbrios e reequilíbrios sucessivos pode ser devidamente avaliada.
Não pretendi esboçar as linhas definidoras dos equilíbrios e rupturas anteriores ao capitalismo. Limito-me a meros exemplos, que chamem a atenção para o facto de todos os modos de produção, todos os sistemas económicos, assentarem em formas particulares de equilíbrio com a natureza e pressuporem formas específicas de ruptura desse equilíbrio. Isto é hoje perfeitamente conhecido dos antropólogos, dos geógrafos, dos etnobotânicos e de certos historiadores. Mas a elite dos gestores que propaga as ideologias ecológicas (não me refiro aqui ainda, como disser àqueles grupos constituídos apenas por maus estuam dantes com ideias delirantes) compõe-se de homensbem do nosso tempo, profissionais formados nas unis versidades e institutos contemporâneos, onde o princípio fundamental é o da divisão dos vários aspectos do conhecimento em disciplinas estanques, e o comportamento esperado do bom estudante é a completa ignorância da disciplina ao lado. É certo que nas sociedades industriais a capacidade de actuação do homem sobre os restantes elementos naturais foi muito ampliada e, sobretudo, intensificou-se o ritmo a que se exerce. Porém, quanto mais rápida e vasta for a acção do homem sobre a natureza, tanto maior será. a possibilidade de eliminar certos efeitos dessas actuações e muito mais velozmente tal intervenção poderá verificar-se. As capacidades humanas de destruição de um equilíbrio são, simultaneamente, capacidades de reposição de novo equilíbrio. A poluição não é um fenómeno novo, característico das sociedades contemporâneas. Todas as sociedades criam novas poluições, e criam novos meios de responder à poluição com novo equilíbrio. Em todas as épocas as sociedades alteraram os equilíbrios existentes e organizaram outros, poluindo nuns casos, conseguindo por vezes evitar alguns ‘efeitos poluentes de cartas acções, modificando e adaptando-se continuamente. É este o ponto de vista por que a questão deve ser considerada.
Na falsidade da sua argumentação, na ignorância dos processos históricos de relacionação entre os modos de produção e a natureza, no escamoteamento das transformações sofridas pelos elementos da natureza em virtude da acção de todas as sociedades humanas, nesta ausência de uma fundamentação científica séria, ias ideologias ecológicas aparecem na sua verdadeira função demagógica. Os argumentos de carácter genérico invocados limitam-se a servir de preâmbulo estilístico para propor modificações circunstanciais que adaptem o capitalismo às novas condições da sua existência. É a partir daqui que podemos compreender a função da ecologia na luta de classes hoje travada. Só neste sentido devemos entender as referências ao pretenso «equilíbrio natural».
II
Limitei-me atrás a criticar os ecológicos no interior dos seus próprios termos. Onde afirmam que se procedeu hoje a uma ruptura do equilíbrio natural procurei mostrar que não há um equilíbrio natural, mas uma infinidade de equilíbrios possíveis, e cada sociedade, com as mesmas condições com que criou um desequilíbrio, poderá estabelecer novo equilíbrio. No entanto, enquanto a crítica permaneceu no interior das concepções ecológicas, afirmei apenas, e exemplifiquei, a possibilidade de estabelecimento de um novo equilibrio por qualquer sistema de produção, sem tentar definir as repercussões que cada um desses equilíbrios acarreta no interior do próprio sistema. É esta, em meu entender, a questão fundamental; mas, como a ecologia a ignora, só a partir do exterior pode ser desenvolvida.
Os ecológicos concebem cada sistema social como um todo homogéneo, e para eles as contradições fundamentais no mundo contemporâneo são as quer opõem o sistema económico à natureza. Porém, se admitirmos que a organização de um novo equilíbrio entre a sociedade e a natureza é conseqüência necessária da anterior ruptura, cumpre ver qual a estrutura interna da sociedade em reequilíbrio. Em qualquer modo de produção não é a contradição entre a sociedade e a natureza que é irresolúvel; o que até agora se tem passado, nas sociedades divididas em classes, é que cada novo equilíbrio entre a natureza e um regime económico se efectua mediante contradições irresolúveis e inelutáveis no interior desse regime económico. Por outras palavras, a sociedade que se relaciona com a natureza não é homogénea nem monolítica. É uma sociedade contraditória e cada um dos novos equilíbrios com a natureza consiste precisamente numa reorganização das suas contradições sociais. São elas, num dado sistema, que decidem quais os tipos possíveis de equilíbrio a estabelecer com a natureza, e o equilíbrio realizado repercutir-se-á no interior da sociedade de formas distintas, consoante. a posição relativa que os grupos sociais ocupam. Interessa-me sobretudo analisar os possíveis efeitos na -sociedade contemporânea das remodelações propostas pelos ecológicos. Interessa-me desvendar quem ganha e quem perde com essas remodelações. Poderemos depois compreender que o reequilíbrio entre a sociedade e a natureza, sem dúvida necessário no mundo actual, não é forçosamente um dado equilíbrio – o dos ecológicos. Será um ou outro conforme o perfil social em que se organize o sistema económico. Cumpre-me, pois, mostrar como, por detrás de uma visão do sistema económico enquanto um todo homogéneo, o movimento ecológico ocupa uma função muito precisa nas contradições sociais.
Em primeiro lugar, e este é um dos aspectos mais relevantes da ecologia enquanto ideologia, o significado imediato das suas teses consiste na necessidade de remodelar as condições gerais ide produção. Não é o sistema das empresas particularmente consideradas que interessa a corrente ecológica. Nem o processo de trabalho no interior da fábrica; no que respeita aos trabalhadores e às suas condições de laboração importam pouco as poluições, senão sob a perspectiva do aumento da produtividade. A literatura ecológica é silenciosa quanto ao problema da exploração do trabalho. Nem sequer na distribuição dos rendimentos entre a população incide o grosso das atenções ecológicas. O seu objecto não são as unidades particulares de fabrico, nem o capitalismo como sistema de exploração, nem a actual tecnologia enquanto realização material das características do processo de trabalho no capitalismo. As ideologias ecológicas concentram-se na relação das condições gerais de produção, consideradas como um todo organizado, com os elementos naturais considerados como fonte de energia e de matérias-primas. É este o fulcro das preocupações dos elementos da classe gestorial que integram e conduzem a corrente ecológica.
Reflectem deste modo a crise contemporânea da produtividade -mas fazem-no de maneira peculiar, não vendo a queda dá produtividade como resultado do sistema de expansão do consumo particular, que concentrou os investimentos, a pesquisa científica e as inovações no sector produtor desses bens de consumo. Para a ecologia não se coloca uma alternativa não capitalista, a reorganização de toda a sociedade e de todo o sistema de produção consoante as relações comunitárias que os proletários desenvolvem e expandem na luta directa e autónoma contra o capital. Os ecológicos tomam o capitalismo como o pressuposto e confundem-no com a indústria em geral. Indústria, porém, é qualquer sistema de aplicação de máquinas à produção, que poderá servir em vários regimes económicos. Assumirá uma ou outra forma a organização da maquinaria, segundo o sistema de trabalho e as relações sociais prevalecentes, mas continuando a existir como indústria. O capitalismo é muito mais do que a indústria em geral, -nem tampouco é uma ou outra máquina, uma ou outra fonte de energia ou produto. A tecnologia capitalista não está condicionada por instrumentos particulares nem por certas matérias-primas. O que tem de específico é um dado sistema social, a que confere realidade material. Poucas serão hoje as máquinas idênticas às do início do capitalismo, são outras as principais matérias primas empregues, grandes inovações tornaram caducas as antigas fontes de energia. Mas o sistema tecnológico capitalista permanece, pois realiza os aspectos sociais decisivos das relações de produção modernas: a igualdade dos produtores no processo de trabalho e o afastamento dos produtores relativamente à propriedade dos meios de produção e à gestão do processo produtivo. Não é um qualquer catálogo de máquinas que caracteriza a tecnologia capitalista, mas sim a indústria organizada numa forma social assente na produção de mais-valia. Eis o que determina as leis do seu desenvolvimento e que, portanto, condiciona
qualquer equilíbrio a estabelecer entre essa indústria e a natureza.
O objectivo da corrente ecológica consiste em descobrir uma maneira de ultrapassar a crise da produtividade, mantendo-se porém no quadro dais relações sociais básicas que definem o capitalismo. Por isso não coloca os verdadeiros problemas de fundo e absolutiza a crise da produtividade, pretendendo encontrar-lhe a origem nas relações entre a totalidade do sistema económico e a natureza. A ecologia veio dar assim nova vida ao mito do «esgotamento da natureza».
Numa primeira abordagem, esse mito sublinha o carácter não-renovável de um certo número de recursos minerais, cujo ciclo de renovação se processa num tempo de escala muitíssimo superior ao das sociedades humanas, mas não insiste suficientemente no facto de uma parte importantíssima ser facilmente reciclável. É o que sucede quando bens e instrumentos metálicos são transformados, passando pelo estado intermédio de sucata. Certas fontes de energia, como o petróleo, além de não-renováveis aparecem à primeira vista como não-recicláveis, pois são inteiramente destruídas no processo de consumo; no entanto, ainda que desaparecendo fisicamente, a energia dispendida encontra-se incorporada nos produtos cujo fabrico permitiu, e nessa medida é, pelo menos parcialmente, reciclada com eles.
Em segundo lugar, é importante chamar a atenção para o facto de as previsões que os ecológicos vêm realizando quanto aos limites dos recursos naturais se terem revelado falsas. O conhecimento que hoje temos das reservas de recursos naturais decorre das pesquisas efectuadas e é impossível defini-las de antemão; basta que uma dada matéria-prima comece a rarear, tornando-se assim mais difícil e dispendiosa a sua obtenção, para que se eleve o seu preço; por pequeno que esse aumento seja, será o bastante para tornar rendível a realização de novas pesquisas, com a consequente descoberta de outras jazidas. Por outro lado, pela evolução tecnológica novos processos substituem os antigos, aumentando a produtividade das matérias-primas ou dando azo a que algumas até então consideradas inutilizáveis entrem na categoria dos recursos importantes, ou ainda criando artificialmente substitutos dos recursos naturais, com a consequente multiplicação da produtividade natural. Estes reequilíbrios são possíveis pelo próprio mecanismo interno do sistema capitalista de preços e custos, invalidando grande parte das estimativas dos ecológicos, mesmo das suas previsões a curto prazo. Nos modelos que constroem não introduzem as inovações tecnológicas enquanto variável. Torna-se assim um exercício infantil provar que dentro de cem anos, ou cinquenta, ou vinte, ou mesmo amanhã, os recursos se esgotarão, a poluição envenenará o planeta e esta versão modernizada do juízo final punirá enfim o homem por ter querido dominar as estrelas. Mas seria igualmente fácil escolher ao acaso qualquer data da história passada da humanidade e mostrar que as poluições de então e o esgotamento dos recursos levariam rapidamente à catástrofe última -com a condição de nesses modelos se deixar também de lado as inovações tecnológicas. Estas surgem precisamente devido à pressão causada pela ruptura de um dado equilíbrio, com elas se estabelecendo novo equilíbrio até que, por outra ruptura e outras inovações, outro equilíbrio se defina, e assim por diante. As profecias ecológicas relativas às taxas de poluição e ao ritmo de esgotamento dos recursos são, por isso, exercícios de pouco interesse, que revelam tanta mestria na preparação de programas para computador como superficialidade na análise dos sistemas económicos.
Estas são meras observações preliminares, que reduzem às devidas proporções o mito do o esgotamento da natureza». O aspecto decisivo, porém, é outro. Haverá decerto quem argumente que a muito longo prazo essa tese terá validade, pois o planeta possui um limite físico. Mas a lógica desta afirmação é só aparente. É preciso deixar definitivamente claro que a relação do homem com os restantes elementos naturais não é uma relação de «exploração». As sociedades não se têm limitado a «tirar» elementos da natureza mas, no processo de relação homem-natureza, «põem» igualmente nessa natureza numerosos elementos. Contrariamente ao que escrevem os doutrinários da ecologia, o mundo não é finito. Sê-lo-ia se os seus elementos não entrassem em relação recíproca.
Mas na medida em que as sociedades humanas, na sua relação com os restantes elementos naturais, têm desenvolvido, em média, uma actividade cada vez mais produtiva, produzem em número e espécie crescentes novos elementos. A actividade produtora das sociedades consiste tanto na utilização de ‘elementos naturais, como na criação de elementos novos. Se no conjunto dos indivíduos não há consumo sem produção, também nas relações das sociedades com o mundo natural o consumo implica simultaneamente a produção. Sem isso, de há muito que o nosso planeta teria desaparecido e o último homem com ele.
O mito do «esgotamento da natureza» fundamenta-se no modelo dos rendimentos decrescentes. Caracteriza-se este modelo pelo estabelecimento de uma relação em que um dos elementos se desenvolve permanentemente, sendo o outro fixo; assim, os rendimentos obtidos pelo elemento em desenvolvimento são progressivamente decrescentes, até que o elemento fixo tem a palavra decisiva, impondo o fim do crescimento. As vicissitudes deste modelo na história da teoria económica capitalista têm sido numerosas e seria interessante segui-las. Mas não é aqui o lugar para tal. Limito-me a salientar que o modelo dos rendimentos decrescentes, que está na base de toda a economia marginalista, tem servido sobretudo para justificar os critérios capitalistas de distribuição. Malthus aplicou-o num sentido diferente, nele fundamentando uma teoria de dinâmica macro-económica, com a célebre tese que afirmava a tendência da população para o crescimento geométrico enquanto a produção agrícola poderia aumentar somente em progressão aritmética. Infelicidade a sua, pois a época de Malthus beneficiou de um dos grandes surtos de produtividade agrícola, em resultado da introdução das pastagens artificiais e outras técnicas novas de cultivo. Para época nenhuma o modelo dos rendimentos decrescentes pode, ou poderá, ter validade, senão em análises a curto prazo. Num lapso de tempo demasiado curto para se introduzirem inovações tecnológicas no processo de fabrico, esse processo constitui evidentemente um elemento fixo. Mas as pressões da procura que sobre ele incidem levam a reorganizações tecnológicas de forma que, a mais longo prazo, todos os elementos do sistema económico se desenvolvem. O modelo dos rendimentos decrescentes concebe a actividade económica apenas enquanto dispêndio de produtos e forças produtivas da natureza, sem ver que pelo mesmo processo são criadas novas capacidades produtivas.
Este modelo surge hoje de novo, enquanto expressão de uma reacção imediata do sector ecológico dos gestores perante a queda na taxa de produtividade. É preciso, afirmam, não só produzir de maneira diferente, mas sobretudo produzir menos ou, para me exprimir mais exactamente, a necessidade imediata de produzir menos irá determinar a maneira futura como se reorganizará a produção. Produzir menos -eis o ponto central do programa destes gestores. É este o fulcro de todas as ideologias ecológicas.
Exprimem assim a falência do sistema capitalista ocidental tal como tem funcionado nos últimos trinta anos, a degradação do mecanismo de expansão do mercado de consumo particular. Esta corrente dos gestores aceita plenamente crise actual, em que do declínio da taxa de produtividade resulta a diminuição do ritmo da produção e a restrição do consumo, preparando-se para adaptar as condições gerais de produção a uma situação de estagnação duradoura do consumo particular. Projecta assim uma forma de capitalismo em que cada vez mais as condições gerais de produção ter-se-ão a si próprias como objectivo fundamental do seu funcionamento. Nesta perspectiva são propostas certas formas de energia e recusadas outras, escrevem-se ditirambos sobre algumas matérias-primas, enquanto se veta o emprego de outros recursos naturais. Não me interessa aqui discutir estas propostas no seu detalhe técnico, embora certas fobias exprimam um indubitável espírito conservador, que seria interessante analisar.
Na Europa renascentista a insatisfação popular foi frequentemente orientada para a caça aos bruxos e às feiticeiras. Aqueles que assim morreram nas fogueiras eram, na verdade, precursores imediatos da ciência experimental. É curioso observar que o capitalismo, neste estádio do seu declínio, tem de apelar para semelhantes histerias de massas, pretendendo responsabilizar certas formas científicas pelas conseqüências do funcionamento do sistema em geral. Esta é uma das funções sociais da ecologia, mas não a mais importante.
Em toda a literatura ecológica uma condição básica sustenta explicitamente e repetidamente a reorganização das condições gerais de produção: uma forte redução e, depois, a estagnação do consumo particular. Neste ponto se insiste em todos os tons, neste sentido se encontram apelos em todas as páginas de doutrina ecológica, da mais séria à mais trapaceira. Para os seus defensores ter-se-ia aberto uma nova época económica, em que o consumo se sacrificaria sistematicamente às necessidades das condições gerais de produção. É neste aspecto que a ecologia mostra decisivamente a função social que ocupa. Esta corrente dos gestores aceita como óbvia, irrecusável e imperiosa, a alternativa condições gerais de produção/consumo -mas não se trata de uma opção natural, é o resultado das contradições deste sistema económico. São termos antagónicos no capitalismo porque os proletários, produtores dos bens, estão radicalmente separados da gestão do processo produtivo e da propriedade dos meios de produção. Por isso o interesse dos produtos para as classes capitalistas aparece absolutamente desligado da função última do consumo produtivo ou improdutivo. O objectivo dos capitalistas não é o de fabricar objectos de consumo nem bens de capital, mas o de produzir mais-valia -ou melhor, de se apropriar da que outros produzem. E, para isso, nada lhes importa o carácter material do produto nem o seu destino final. Neste tipo de sociedade o consumo e os meios de produção podem aparecer como alternativas que se excluem. Se concebermos uma transformação completa e revolucionária do modo de produção, tal como se esboça na expansão à totalidade do processo produtivo das relações comunitárias desenvolvidas na luta proletária directa -então temos uma reorganização radical do sistema, e consumo particular e condições de produção não são mais termos antagónicos.
Ao aceitarem tal antagonismo como ponto de partida, os ecológicos inserem-se plenamente no contexto da sociedade capitalista. E, nessa contradição, é o lado do consumo que escolhem, o que anuncia uma estratégia repressiva relativamente ao proletariado. O polo da contradição por que optam implica de imediato o agravamento das condições de exploração. No projecto ecológico da sociedade futura o carácter alienado da exploração capitalista ressalta assim com maior evidência. O sistema confessa explicitamente, pela boca dos ideólogos que se pretendem seus profetas, que tem de se sustentar a si próprio em detrimento dos homens -de certos homens. O capitalismo reconhece em público que existe fundamentalmente para si próprio. É esta, reduzida à sua limpidez, a mensagem dos ecológicos.
Se o capitalismo não pode, nas circunstâncias actuais, escolher uma alternativa que simultaneamente lhe permita a reorganização das condições gerais de produção e a expansão do mercado de bens de consumo, a razão dessa incapacidade reside no regime de exploração. São as imposições da taxa de lucro que levam a esta forma de crise, e é a manutenção de uma taxa de lucro elevada que orienta as remodelações capitalistas e o leque das suas alternativas. A extorsão da mais-valia é a base e o objectivo do funcionamento deste sistema económico. A longo prazo o aumento da produtividade significa uma diminuição relativa da fracção do capital destinada a remunerar os trabalhadores produtivos; daqui decorre que uma parte cada vez menor do capital total empregue se reproduz em mais-valia. O aumento, da produtividade, condição e sintoma da vitalidade do capitalismo, implica, pois, esta tendência para a baixa da taxa de lucro, ou seja, a esclerose do capitalismo. Trata-se de uma contradição central na dinâmica do sistema. O único modo que se oferece para contrariar essa tendência consiste em aumentar a taxa de produtividade, em passar permanentemente da mais-valia para a mais-valia relativa. Mas o aumento da produtividade, acrescendo a maquinaria e o número de trabalhadores improdutivos, agrava as condições básicas que determinam a tendência à baixa da taxa de lucro. A evolução do capitalismo tem-se ciclicamente encerrado neste processo contraditório, de que a crise actual é uma das etapas. Nesta situação de tão profunda queda ida produtividade que se torna necessário reorganizar todo o sistema das condições gerais’de produção, as imposições ditadas pela taxa de lucro são claras: restrição das possibilidades de consumo e canalização dos investimentos para o sector que decide dos progressos da produtividade. A corrente ecológica, que lucidamente sentiu a necessidade de reconverter as condições gerais de produção, sabe que a baixa taxa de lucro actual e a margem estreita dos investimentos possíveis dita o carácter exclusivo da solução proposta. É aqui que o modelo dos rendimentos decrescentes assume a sua verdadeira função social. O factor fixo que os ecológicos tanto invocam não são a natureza e os recursos naturais -são as limitações impostas pelas circunstâncias presentes da taxa de lucro.
O leitor habituado a uma visão predominantemente monetarista do processo económico argumentaria talvez que o bloqueio das possibilidades de investimento acarreta, por isso mesmo, uma acumulação de capitais ociosos, canalizados para actividades especulativas; nesta situação uma reorganização das condições gerais de produção não exigiria a política restritiva dos ecológicos, pois poderia dispor desses capitais numerosos que não encontram agora emprego produtivo. Como sempre, esta visão monetarista é puramente formal. O capital apresenta-se de dois modos: ou investido materialmente em meios de produção, instalações e stocks; ou acumulado sob forma de dinheiro. Quanto ao capital investido materialmente, uma parte considerável é hoje obsoleta e não pode modernizar-se sem que as condições gerais de produção se alterem previamente; este capital desvaloriza-se na precisa medida em que os meios materiais em que está investido são inutilizáveis ou inutilizados. Quanto ao capital acumulado monetariamente, o seu valor só é assegurado enquanto o crescimento económico lhe permitir aplicação produtiva; bloqueados os investimentos pela baixa taxa de produtividade, só a especulação pode retardar a erosão provocada pela inflação; e como a especulação é um factor inflacionário, isto significa que o remédio a curto prazo agrava o mal a longo prazo. Assim, da situação actual de declínio da taxa de produtividade resulta um processo cada vez mais amplo de desvalorização dos capitais acumulados.
Como todos os ideólogos das classes exploradoras, os ecológicos são utópicos nas suas profecias, mas profundamente realistas nas propostas práticas imediatas, que partem do actual declínio das taxas da produtividade e do lucro: reorganização dos investimentos, orientados para a renovação das condições gerais de produção; travagem do progresso técnico aplicado aos bens de consumo e, para preparar uma baixa de salários de longa duração, insistência na criação de hábitos frugais, ou seja, diminuição das condições de vida socialmente admitidas como médias. Estas são as duas facetas indissolúveis das ideologias ecológicas: expansão da produtividade nas condições gerais de produção e restrições ao consumo.
Tudo o resto decorre deste aspecto central. O ritmo económico estagnante que concebem, as fontes de energia que se propõem usar e !aquelas por que têm uma aversão terminante, as próprias concepções artísticas !e urbanísticas profundamente retrógradas decorrem -de uma orientação restritiva do consumo. Enquanto permanecermos no seu terreno ideológico, o ritmo de estagnação expresso na tese do «crescimento zero» é uma utopia. Como modo de produção de ;mais-valia, o capitalismo só existe em expansão permanente. As crises são os seus momentos de ruptura, para que o sistema se reorganize e possa entrar em nova fase de reprodução alargada. Porém, enquanto concepção da relação entre as condições gerais de .produção e o consumo, o «crescimento zero» constitui um programa eloquente. Trata-se de conservar o consumo particular numa situação regressiva, de forma a aumentar assim a mais-valia extorquida e a taxa de lucro, acumulando os novos capitais necessários para a grande reorganização das condições gerais de produção.
Para compreendermos como o programa ecológico se reflectirá nas contradições sociais internas do sistema capitalista precisamos de desagregar o «crescimento zero» nos seus componentes essenciais. Só assim podemos definir quem com ele lucra e quem o paga. O equilíbrio estagnante proposto nessa tese requere uma redução muito considerável do nível médio de vida, que compense a concentração dos investimentos nas condições gerais de produção e a acumulação de capitais destinada ,a esse sector. O «crescimento zero» é o modelo da mais-valia absoluta, em que, no interior de limites constantes, é crescente a mais-valia de que o capitalista se apropria e decrescente o salário proletário. Mas não só. Este «crescimento zero» implica também a manutenção de grandes diferenças de nível de vida entre os países industrializados e os países exportadores de matérias-primas, conservando-se essas vastas regiões na situação de dependência tecnológica e económica. O programa ecológico é, assim, a mais extremada manifestação contemporânea do imperialismo. Apresenta-se o baixíssimo nível de vida dos países exportadores de matérias-primas como modelo a impor ao proletariado dos países industrializados. A elite dos gestores que encabeça as correntes ecológicas tece o elogio de formas de exploração pré-capitalistas, delas pretendendo reproduzir os hábitos de vida e o nível do consumo. Supremo cinismo, só igualado pelos capitalistas de outrora, quando o escravo era apontado ao proletário como exemplo de obediência, padrão do consumo, modelo de virtudes.
Eis o verdadeiro sentido do programa ecológico. Quanto à impossibilidade de o realizar a longo prazo, as crises do sistema capitalista devidas à estagnação do mercado de consumo se encarregarão de o provar. Mas não são essas, e sim a situação actual, que preocupa os ecológicos, e é pois à luz da crise contemporânea que as suas teses assumem significado.
III
Sob o ponto de vista das lutas sociais o aspecto mais importante -e mais perigoso- da corrente
ecológica resulta do facto de ela não se restringir aos gestores, constituindo um novo campo de união de classes. Para o movimento operário é este o principal problema, que poderá tornar-se decisivo na luta de classes na sociedade contemporânea.
Durante a fase de grande crescimento da produtividade consecutiva à reorganização do capitalismo ocidental na post-guerra, o número dos trabalhadores não-produtivos alcançou enormes proporções nos países industrializados. Dada a profundidade da crise actual, com a queda dos investimentos e a forte diminuição na utilização da capacidade produtiva instalada, o desemprego não alastrou só na classe proletária, mas também entre os trabalhadores não-produtivos. Pela primeira vez na história do capitalismo atingiu dimensões internacionalmente preocupantes o desemprego na classe dos gestores e em grupos sociais afins. Sobretudo, são jovens saídos do ensino superior que não encontram vagas nas profissões gestoriais para que se haviam preparado, e numerosos são portanto aqueles que, no ensino médio ou nas universidades, prosseguem os estudos sabendo de antemão que o desemprego os espera no final. Estes ante-gestores, formados e educados para assumirem uma mentalidade gestorial, mas que caem no desemprego antes mesmo de terem tido qualquer contacto directo com a gestão do processo produtivo, limitam-se a encarar o sistema económico enquanto consumidores. Porém, porque desempregados, são sobretudo consumidores frustrados. Este conjunto de aspectos (ante-gestores, desempregados, consumidores, consumidores frustrados) dá a essa camada social funções polivalentes e faz dela o principal elemento aglutinador de classes e grupos sociais distintos, constituindo o movimento ecológico em novo campo de união.
Consumidores, as capacidades contestatárias desses elementos não vão mais longe do que os movimentos reivindicativos dos consumidores, cujas limitações atrás referi.
Mas consumidores frustrados, projectam essa situação segundo a mentalidade elitista que é a sua, quero dizer, não como um estado de desfavorecimento social que procurem melhorar ou ultrapassar, mas como modelo a expandir à generalidade da população; quer pela origem de classe, quer pela educação a que foram sujeitos, quer pelo meio em que se mantêm e pelas ligações sociais que geralmente continuam a ter, estes elementos concebem-se como parte integrante da classe dominante, recusam partilhar com os explorados uma mentalidade, uma luta e uma visão do mundo. Precisamente por se considerarem uma elite pretendem estabelecer como padrão e norma social a sua actual situação de consumidores frustrados. Tal situação não constitui para eles um agente de revolta que os leve a combater o sistema capitalista, lutando contra o lugar que ocupam na sociedade -como acontece com o proletariado. Pelo contrário, projectam ideologicamente a sua situação de miséria, enaltecem-na e pretendem apresentá-la como o modo de vida das verdadeiras elites. O proletariado combate o capitalismo porque se revolta contra a sua posição no capitalismo; estes elementos, enaltecendo a situação que ocupam no sistema económico actual, contribuem por isso mesmo para preservá-lo e reproduzi-lo. Dentro do capitalismo apresentam-se como nova elite, e a sua frustração enquanto consumidores transforma-se em apologia da redução do consumo. Daí que tentem inflectir os movimentos reivindicativos dos consumidores num sentido novo, convertendo as pressões relativas à qualidade e ao tipo dos produtos em propaganda das restrições ao consumo particular, de modo que, de situação de crise, a redução do nível de vida venha a estabelecer-se como situação definitiva. São estes elementos os principais propagandistas da ecologia no que ela tem de mais aberta e ferozente restritiva do nível de vida restabelecido. Pela situação de consumidores frustrados, são estes os autores e divulgadores dos mais grosseiros mitos contemporâneos, idealizações utópicas das terríveis condições de vida nos modos de exploração arcaicos. Apologistas da situação retardatária e de dependência em que se vive -e sobretudo se morre- nos países exportadores de matérias-primas, pretendem não só mantê-la, mas alargá-la ao proletariado dos países industrializados. A ideologia ecológica chega, com estes elementos, ao seu extremo mais declaradamente imperialista e retrógrado.
Não é no campo do consumo que pode pôr-se em causa a «sociedade de consumo». No capitalismo o consumidor, enquanto tal, está separado da produção dos produtos e não pode influenciá-la decisivamente; a função única dos produtos é a realização do lucro, não obedecendo a critérios de necessidade social, e ‘a sua comercialização oculta, por detrás da aparência de mercadoria, as verdadeiras relações sociais que lhe estão na base. Por tudo isto, o consumo ‘de tipo capitalista só pode ser eliminado quando se aniquilar o regime económico assente na extorsão de mais-valia e quando -os critérios dominantes forem os das necessidades sociais de uma humanidade de trabalhadores. A «alienação do consumo» não resulta da quantidade de bens que se consomem. O problema não é o que se consome, e sim como se produz. Pretender eliminar essa situação consumindo menos terá unicamente por conseqüência acrescer à miséria social da alienação a miséria física. Para um ponto de vista revolucionário a crítica ao consumo capitalista só tem sentido como um dos aspectos decorrentes da luta central contra o processo de exploração, e propor que as pessoas consumam menos sob o pretexto de que assim atacariam o capitalismo é tão imbecil e tão reaccionário como seria impor aos proletários um salário menor invocando o argumento de que assim pôr-se-ia em causa o regime do assalariamento.
Mas como, nas lutas sociais, não há posições meramente imbecis, temos de procurar definir o que está por detrás desta atitude dos consumidores frustrados. É que eles são também ante-gestores, quer dizer, gestores potenciais, educados para tal, mas que não chegaram a sê-lo em virtude da extensão do desemprego. Pertencem porém, social e ideologicamente, à classe dos gestores, e mais: a situação particularmente crítica de desempregados faz com que sejam eles, de entre toda a classe gestorial, os que mais agudamente sentem a necessidade de reorganizar o capitalismo. Seguem, por isso, a alternativa ecológica, projecto tecnocrático de reorganização do sistema, e a sua situação crítica leva-os a exagerar a doutrina dos mestres, tornando-se nos arautos mais barulhentos, mais fanáticos, mas também mais limitados, e algumas teses que para os teóricos da ecologia possuem um valor meramente secundário são por estes elementos levadas a pontos extremos, convertendo-se assim em colossais disparates. Por isso a ecologia, que entre as camadas superiores dos gestores conserva um tom sério e mantém pretensões a ideologia científica, aparece, graças à acção destes discípulos, enfeitada com as mais crassas aberrações. Quanto à sua produção intelectual no movimento ecológico estes elementos são os palhaços. Mas esta é, está claro, a sua função meramente estética, e é a função social que desempenham que sobretudo me interessa.
Se a situação de desempregados é determinante da forma extrema como estes elementos partilham as concepções ecológicas, constitui também um importante campo de união com a classe operária, através do grande número de proletários sem emprego, especialmente os mais jovens. Importa definir os pontos em que tal união poderá verificar-se, para além da ruptura fundamental existente.
Não existe qualquer convergência entre a concepção ecológica e a concepção proletária de transformação do modo de produção e de remodelação da generalidade da estrutura social. As relações de igualdade estabelecidas pelos produtores no processo de fabrico levaram, como atrás procurei explicar, a um novo tipo de divisão do trabalho. Mas a tecnologia industrial daí resultante foi também determinada por outro aspecto decisivo do modo de produção capitalista, a cisão entre os proletários e a gestão do processo de produção. O sistema tecnológico hoje vigente, se por um lado exprime a igualdade dos produtores no processo de trabalho, realiza-a sob a forma do afastamento desses produtores relativamente à propriedade e à orientação do processo de produção. Daí que, no capitalismo, as formas de automatização e, mais modernamente, de transmissão electrónica de decisões e processamento de dados, sejam concebidas e executadas consoante o pressuposto de uma cisão entre os que produzem (e são explorados) e os que gerem e possuem (e exploram). Todas estas formas de tecnologia reproduzem e consolidam tal cisão. Porém, o igualitarismo que constitui a base das relações entre os operários no processo de trabalho é desenvolvido, consolidado e, sobretudo, atinge nova dimensão quando a classe proletária entra numa luta directa contra o patronato. Nessa altura a interrupção do processo normal de fabrico destroi o tipo de organização capitalista imposto aos trabalhadores e, como a luta tem precisamente por base as suas relações enquanto assalariados, as características dessas relações podem ser extremadas. Por isso os proletários, no processo da luta, transformam as relações igualitárias e comunitárias em padrão de toda a sociedade. É este o sentido libertador e colectivista que o movimento proletário impõe aos processos de transformação social que enceta.
Nunca até hoje a actividade produtiva foi orientada pelos novos critérios comunistas durante um período de tempo que tornasse possíveis remodelações tecnológicas profundas. Faltou para tal um processo revolucionário suficientemente duradouro e que conseguisse uma expansão internacional vasta e rápida. Será utópico, portanto, descrever desde já quaisquer formas específicas dessa tecnologia resultante de uma expansão vitoriosa do movimento operário. Mas podemos seguramente, a partir dos caracteres sempre patenteados pelas lutas proletárias e das transformações tecnológicas que têm sido esboçadas, definir o sentido geral que as guiará. A orientação até agora seguida pelo movimento operário aponta sobretudo para a remodelação do sistema de comunicação das decisões e de obtenção das informações, de modo a que a igualdade entre os trabalhadores no processo de fabrico directo se desenvolva numa igualdade da humanidade trabalhadora na gestão da globalidade da produção e da vida social. Julgo ser este o sentido das transformações revolucionárias na tecnologia. Não se trata, nem da negação utópica e reaccionária da indústria, nem da mera recusa de algumas matérias-primas, do controle de certas poluições e da extinção de certo tipo de bens. Trata-se de, partindo necessariamente da maquinaria hoje existente, desenvolver a standardização, que resulta da igualdade no processo de fabrico, mas fazê-lo num sentido inteiramente novo, eliminando a cisão entre o produtor e o processo de produção, de modo que a standardização possa fundamentar a criatividade permanente, expressão da gestão da vida social pelos próprios trabalhadores.
Nada há de comum entre esta tendência e a remodelação das condições gerais de produção concebida pelos universitários do Massachusetts Institute of Technology ou pelos gestores de O Clube de Roma. Estes preocupam-se exclusivamente em conceber novas fontes de energia e seleccionar matérias-primas, e em planear a transição do sistema actual para aquele que propõem. São absolutamente silenciosos quanto às relações sociais no processo de produção, quanto à propriedade idos meios de produção, quanto ao controle da gestão e à orientação das decisões. O movimento operário nada tem de comum com esta orientação.
Tão pouco tem a ver com as elucubrações utópico-místicas dos discípulos ecológicos, ante-gestores desempregados, que oferecem como modelo para o sistema de produção na sociedade do futuro a idealização da organização monástica do trabalho prevalecente nos conventos medievais, ou qualquer outra falsificação lírica do passado. Igualmente alheias ao movimento operário são as concepções de outra corrente ecológica que, ou porque mais modernista, ou porque mais preguiçosa, defende a automatização completa da produção e afirma que toda a forma de trabalho é escravizante. Esta tese limita-se a extremar a característica mais reaccionária da tecnologia capitalista, aquela onde o carácter explorador e opressivo do capitalismo mais directamente se reproduz: a cisão entre o produtor e o processo de produção. Não se trata aqui de eliminar os trabalhos pesados e repugnantes, pondo a máquina inteiramente ao serviço do trabalhador. Esta corrente ecológica propõe o efectivo afastamento, físico e mental, do homem relativamente à actividade produtiva. As possibilidades técnicas ida automatização desenvolver-se-iam até garantirem um processo de produção que funcionasse inteiramente por si só.
Não é de estranhar que elementos das classes exploradoras, que a si próprios se concebem como uma elite, vejam com horror toda a forma de trabalho, nomeadamente o trabalho físico. Daí que proponham a automatização completa da produção, ou seja, a alienação absoluta de toda a vida social, cindindo-se em todas as fases do processo produtivo o homem do trabalho. Esta ideologia decorre ainda da absolutização do homem consumidor. Por muito que custe às elites, porém, o trabalho é uma forma de subordinação e de opressão apenas nos regimes de exploração, porque neles o trabalhador está privado, não só da propriedade daquilo que produz, mas ainda da compreensão do processo geral em que labora. É então dominado por esse processo e por ele alienado. O movimento operário desenvolve-se no sentido de eliminar essa cisão, dando ao produtor, além da propriedade do que produz, o controle sobre o processo da produção e, portanto, a compreensão da actividade produtiva e o conhecimento idas formas em que ela se integra. Neste movimento o trabalho desaliena-se, deixa de ser um elemento de opressão e passa a constituir a própria forma de integração plena e harmónica do homem em relações sociais não-antagónicas. Mas é disto, bem entendido, que as elites não querem sequer ouvir falar. Não lhes interessa destruir a alienação. Preocupa-as sobretudo manterem-se afastadas ido trabalho manual, demarcando-se enquanto elementos da classe dominante. É este o sentido social de tais projectos.
Que há, então, de comum entre as propostas gestoriais de renovação do sistema industrial capitalista, e a transformação radical da tecnologia implícita na expansão do movimento operário? Em comum nada existe além das palavras «alteração da tecnologia». O facto de o movimento operário nunca, até hoje, ter conseguido a expansão bastante para encetar a remodelação da tecnologia constitui a base prática para que a confusão possa estabelecer-se. Mas não se pense que uma ambigüidade nas palavras seja coisa de pouca monta. Na dinâmica da luta das classes, que constantemente organizam e reorganizam os seus movimentos, as suas uniões e cisões, a eventual convergência de hoje não é mais do que a ruptura certa de amanhã; mas para a luta de classes em cada momento, quando interessa definir os campos comuns, são estas convergências ambíguas que importam. Como sempre, a unidade de campos que o proletariado estabeleça com qualquer outra classe só pode subsistir porque se confundem objectivos últimos dessas classes com etapas episódicas do movimento operário. No longo percurso dessas uniões circunstanciais e das cisões inevitáveis o proletariado produz, não só a consciência da sua situação, mas a compreensão da sua existência enquanto movimento e da sua tendência futura.
Só a articulação conjunta de todos os aspectos que tenho vindo a analisar permitirá indicar eventuais campos de união entre classes e os pontos principais de cisão e ruptura. Poderei então tentar avaliar a capacidade aglutinadora deste grupo de gestores e ante-gestores desempregados. Para tal é necessário, porém, esboçar ainda uma outra questão.
Pelas suas características sociais, estes jovens gestores desempregados possuem uma mentalidade de classe dominante. Mas o facto de nunca terem participado praticamente na actividade gestorial impede-os de adquirir uma visão da vida social e económica enquanto conjunto organizado, que caracteriza os gestores em virtude das funções que exercem. Estes ante-gestores no desemprego desenvolvem, pelo contrário, a sua mentalidade de classe dominante sob a forma de um extremo individualismo e de um elitismo exacerbado; nisso se exprime a parcelização individual a que estão sujeitos todos os desempregados, devido ao afastamento do processo de produção, centro das relações e das solidariedades entre os elementos de cada classe; e é pelo elitismo que procuram, no campo anónimo das vítimas do desemprego, demarcar-se relativamente aos desempregados proletários.
Na miséria em que caíram estes apêndices da classe gestorial projectam histericamente o seu espírito de supremacia e as suas necessidades de dominação, com um elitismo paranóico por que pretendem salientar-se, eles, os desempregados da classe dominante. Daqui a voga de uma série de correntes místicas, irracionalistas e elitistas, quer anarco-individualistas quer declaradamente fascistas, e nada é de melhor bom-tom entre alguns grupos de ante-gestores anarco-individualistas, em textos de propaganda ecológica ou em brochuras de mera afirmação individual, do que o insulto ao movimento operário e aos proletários enquanto pessoas, por formas tão vis que ultrapassam frequentemente o estilo até agora reservado a certa literatura fascista. Uma das funções sociais destes insultos consiste na tentativa de afastar do movimento operário aqueles jovens desempregados de origem proletária que, por terem ainda pouca ou nenhuma experiência do trabalho na fábrica, sejam mais susceptíveis de assumir posições individualistas, renunciando à luta colectiva do operariado e preferindo formas de ascensão pessoal. Uma vez mais o desemprego aparece como um campo possível de junção de classes.
Estes grupos anarco-individualistas não esqueceram uma das constantes do elitismo romântico, o elogio de certo tipo de «fora da lei». Não se referem aos movimentos ditos de banditismo, que ocorreram e ainda hoje têm lugar nalguns países africanos, asiáticos ou da América Latina, e que constituem na realidade revoltas populares espontâneas visando a distribuição dos bens dos ricos entre os pobres, que deles se apropriam individualmente. O «bandido» de que tecem o culto é o marginal urbano. O mito não resiste à mais rápida análise. Não é por viver do roubo que alguém se coloca fora da sociedade e das relações de produção dominantes. O roubo é também uma actividade económica. Na sua evolução o banditismo urbano atravessou o mesmo processo que a propriedade capitalista legal, concentrando-se em monopólios e, depois, fundiu-se com o capitalismo legal, investindo os lucros dos manejos ilícitos em actividades que não caem sob a alçada da polícia. O banditismo marginal, que escape por algum tempo à esfera do crime organizado, mais tarde ou mais cedo é por ele englobado, como qualquer empresa pequena é subordinada ou absorvida pelas grandes empresas. Como, por outro lado, para roubar os ricos é geralmente necessário dispor de uma organização poderosa, os pequenos criminosos marginais têm como única possibilidade roubar os pobres. Não é preciso ter estudado a história do banditismo urbano para perceber este último facto, basta ler os jornais diários. Em suma, o banditismo urbano nos países industrializados é um sector componente do sistema capitalista, os criminosos marginais tendem sempre a ser integrados pelo crime organizado, e enquanto permanecem marginais são os pobres as suas principais vítimas. Mas todos estes argumentos interessam bem pouco os anarco-individualistas. Não procuram neste tipo de criminoso qualquer revolta contra o modo de produção capitalista. O que nele encontram é o culto do indivíduo, a sensação de se destacar das massas, de estar acima delas, de conseguir enganá-las e -o que é fundamental- viver à sua custa. Eis o verdadeiro sentido do elitismo e dos seus mitos.
IV
A camada social dos ante-gestores desempregados, que mediante os jovens proletários sem emprego estabelece um elo de ligação com a classe operária, constitui também um campo de união com as camadas inferior e média da burguesia, individualistas por característica fundamental de classe e muito preocupadas com a necessidade de restringir o sistema de consumo, devido à posição específica que ocupam na crise actual. Tudo parece indicar que a função aglutinadora destes ante-gestores ecológicos é muito importante.
A definição das linhas principais da luta de classes na futura reorganização do capitalismo pressupõe a liquidação de um tipo de instituições particularmente absorvente dos conflitos sociais. A considerável paz social de que beneficiaram os países industrializados da órbita norte-americana resultou, por um lado, da importância que a esfera do consumo assumiu relativamente à da produção, e da capacidade de unificação dos interesses sociais que caracteriza as instituições do consumo; por outro, provinha da facilidade com que geralmente se concediam aumentos salariais, com a conseqüente instalação de sindicatos burocráticos encarregados de formular as reivindicações. Os proletários eram afastados da luta directa. travando-se a radicalização da maior parte dos processos reivindicativos e mantendo-se isolados os conflitos que se agudizavam. Na actual crise, porém, a burguesia em geral procura restringir o mercado de consumo particular, e as camadas burguesas de rendimentos inferiores exercem pressões nesse sentido com redobrado vigor, pois são especialmente prejudicadas com a repartição das cargas tributárias em época de crescendo inflacionista. Os sectores hoje maioritários na classe dos gestores, geralmente detentores do poder governativo directo, prosseguem o inglório e vão esforço de tentar aplicar a política tradicional ao mesmo tempo que introduzem em número crescente medidas restritivas do consumo. Quanto à corrente ecológica dos gestores, além de considerar a redução do consumo como um dos pontos fundamentais do seu programa, não ignora que durante a fase inicial das remodelações nas condições gerais de produção as unidades de fabrico particulares sentirão consideráveis problemas de adaptação, que as obrigarão a diminuir ainda mais o ritmo da produção; as tendências inflacionistas encontrar-se-iam assim reforçadas, o que constitui uma razão suplementar para a corrente ecológica desde já insistir na restrição do consumo. Mas a diminuição do consumo particular, dos subsídios e dos serviços públicos, com a correspondente restrição das concessões salariais, implica a extinção do mecanismo de absorção dos conflitos sociais que prevaleceu desde o post-guerra. Quanto mais depressa a dissolução das instituições do consumo se efectuar, tanto mais rapidamente a reestruturação do sistema capitalista terá lugar e, inversamente, tudo o que contribuir para a reactivação do sistema de expansão do mercado de consumo particular retardará tal reestruturação. A verificar-se, aquela ruptura será o aspecto decisivo na reorganização do capitalismo contemporâneo. Como poderão as classes dominantes evitar a agudização do conflito com o proletariado? E conseguirão fazê-lo?
É impossível prever, no momento presente, a evolução deste processo. Tanto mais que a crise actual aparenta vir a ter uma longa maturação, e no seu decurso, em que certamente se verificarão oscilações de sinal inverso, é muito provável que surjam fenómenos sociais com características novas e até que a própria base económica da crise apareça com outras virtualidades. Será ilusório ensaiar profecias, mas é possível e, mais do que isso, é conveniente, procurar descrever as circunstâncias actuais e tentar definir as tendências que desde já se desenham.
Nas medidas de redução do consumo particular convergem hoje, ao nível político, as correntes mais significativas das classes dominantes. É crescente a aliança entre os movimentos ecológicos e as organizações que visam a diminuição dos impostos e a extinção das instituições do consumo. Milton Friedman projecta sobre as propostas de O Clube de Roma a inevitável sombra repressiva. Foi nos Estados Unidos que o movimento para a diminuição dos impostos alcançou a vitória mais importante, em mediados de 1978, com a adopção da Proposta 13 pelos eleitores da Califórnia. Diminuiu-se em mais de metade o imposto sobre as propriedades, beneficiando as empresas industriais da maior parte dessa redução; os efeitos sobre as instituições do consumo fizeram-se sentir de imediato, aumentando o preço dos serviços públicos, diminuindo o seu âmbito e piorando a qualidade. Mas é neste sentido que apontam as necessidades do capitalismo, por isso os políticos que melhor farejam os ventos rapidamente se vão convertendo à tendência dominante. Durante as eleições e votações de princípios de Novembro de 1978 as propostas para a limitação dos impostos constituiram o tema principal, tanto no partido Republicano como no Democrático. Antecipando-se às pressões da média burguesia, são os próprios governadores e parlamentares estaduais a tomar a iniciativa da redução das instituições de consumo.
Na Suécia, em Setembro de 1976, o movimento contra os impostos e as instituições do consumo, ajudado pela corrente ecológica com palavras de ordem que geralmente fazem o enlevo dos ecológicos esquerdistas, derrubou o governo social-democrata o pôs no poder uma coligação dos partidos da direita conservadora e populista.
Na Alemanha Federal o movimento ecológico dispõe de uma vasta audiência mediante os trezentos mil membros dos Bürgerinitiativen, comités de acção de moradores que tiveram como objectivo inicial um certo número de reivindicações úteis quanto à vida urbana, a poluição no exterior das fábricas, etc., mas que cada vez reflectem mais estreitamente os objectivos próprios da corrente ecológica. Por isso é importante sublinhar que o principal partido ecológico alemão, G.A.Z. (Acção Verde Futuro), que obteve resultados apreciáveis em eleições recentes, tem como novo dirigente um deputado (Herbert Gruhl) que alinhara até então na União Democrática-Cristã, o grande partido das direitas conservadoras. O caso alemão é ainda significativo pela convergência crescente entre o G.A.Z. e o movimento anti-impostos (dirigido por Hermann Fredersdorf, membro do partido Social-Democrata -nova fusão entre as direitas e as esquerdas-), demonstrando que o objectivo central de todas estas correntes é a restrição do consumo.
Na Áustria um referendo realizado nos princípios de Novembro de 1978 inviabilizou a política governamental de construção de centrais nucleares. O partido Popular (democrático-cristão) apelou ao voto negativo, embora invocasse somente discordáncias técnicas. Mais significativo, por isso, foi o facto de a oposição de fundo ao emprego da energia nuclear ter vindo simultaneamente de ecológicos que se consideram à esquerda do partido Social-Democrata, que detém o governo, e do partido da Liberdade, que ocupa a extrema direita do leque parlamentar.
Em França, na segunda volta das eleições legislativas de 1978, os votos ecológicos dividiram-se entre os candidatos das direitas conservadora e liberal, e os dos partidos Socialista e Comunista, o que mostra a força ‘do movimento ecológico unificando campos políticos que tradicionalmente têm dividido com grande profundidade ias classes dominantes francesas.
E até em Portugal um movimento ecológico disperso e ainda informe pode ter como um dos incansáveis promotores e porta-vozes o presidente, ou secretário-geral, ou lá o que é, do pequeno grupo fascista-populista denominado Partido Popular Monárquico. Jornais e revistas (entre todas, com maiores pretensões a Raiz & utopia) podem unir numa plataforma ecológica comum elementos oriundos da esquerda e da extrema-esquerda com representantes das direitas parlamentares ou até fascizantes. A freqüência desta conjugação não permite manter ilusões.
A capacidade do movimento ecológico para fundir esquerdas e direitas revela que ele é parte integrante de um realinhamento das oposições sociais. A classe dos gestores não precisa já de manter velhas fórmulas, hoje inteiramente desprovidas de significado imediato, que restavam das épocas em que partilhou com o proletariado os campos comuns da social-democracia ou do stalinismo. Esse apego às tradições só prejudicaria agora a união entre esses gestores e as camadas burguesas ou outros gestores que se mantiveram no campo ideológico conservador. Ainda aqui a ecologia tem um papel fundamental na reorganização de forças sob a égide das classes dominantes.
Face a estas correntes o movimento operário aparece ainda disperso e dividido e, à primeira vista, dir-se-ia que as instituições do consumo, incluindo o sistema dos sindicatos burocratizados, continuam -apesar de tudo- a funcionar. Os indícios de ruptura são, porém, demasiado frequentes e têm ocorrido conflitos demasiado característicos do seu agravamento para que não possamos prever a crescente dissolução desse campo de unificação dos interesses sociais. A prosseguir-se, com o consequente reforço da solidariedade operária, a unificação entre lutas e o agravamento da aposição do proletariado às classes capitalistas, o capitalismo teria, para já, um único campo disponível para a unificação de classes: o movimento ecológico, especialmente pela participação dos ante-gestores desempregados. Nesse caso, será nas relações do movimento ecológico com o numeroso sector dos trabalhadores desempregados que residirão os perigos mais consideráveis para o desenvolvimento autónomo e revolucionário do movimento operário contemporâneo. Se a corrente ecológica vier a confirmar-se como o principal campo actual de unificação das classes, a sua cisão será então a condição necessária para o prosseguimento do movimento operário. O movimento ecológico é, hoje, o inimigo oculto.
VIII
Talvez seja demasiado apressado procurar definir o perfil das lutas sociais sem referir os outros grandes sectores do capitalismo mundial.
O grupo dos países capitalistas fracamente industrializados que assentam a sua economia na extracção e exportação de matérias-primas corresponde, em traços largos, às antigas regiões colonizadas ou semi-colonizadas. Aí a situação da classe proletária é complexa. Por um lado, são várias as camadas e classes sociais decorrentes de modos de produção pré-capitalistas que sobrevivem subordinadas ao capitalismo dominante. Por outro lado, a situação marginal que as classes capitalistas destes países ocupam relativamente aos grandes centros mundiais de acumulação do capital cria numerosas hostilidades e pontos de fricção com os capitalistas dos países dominantes. Em tais circunstâncias, os capitalistas dos países exportadores de matérias-primas podem estabelecer campos comuns com o proletariado sobre a base de uma oposição aos grandes centros capitalistas. É o fenómeno conhecido do ressurgimento dos nacionalismos. Não parece que o proletariado destes países possa a breve trecho efectuar uma ruptura radical e lutar contra o capitalismo como um bloco, prosseguindo objectivos exclusivamente operários. Só a expansão do sistema capitalista mundial, eliminando ou enfraquecendo o remanescente dos modos de produção anteriores e, no campo internacional, estreitando os laços de subordinação das classes capitalistas nesses países relativamente aos capitalistas nos países dominantes, criará condições para que o proletariado se defina iniludivelmente como a única classe explorada, oposta à globalidade do sistema capitalista. Parece-me, pois, verosímil que durante a crise actual as lutas sociais nestes países contribuam mais para criar campos de união entre as classes do que para cindir os campos existentes e apressar a ruptura operária.
Com um aspecto inteiramente diferente apresenta-se o grupo dos países que, na sequência da vitória obtida pela classe dos gestores na revolução russa, se organizam segundo formas integrais de capitalismo de Estado. Aí os meios de produção e o capital em geral passaram para a classe dos gestores sob a forma de propriedade colectiva, e a burguesia foi praticamente aniquilada. É certo que subsistem nalguns destes países proprietários rurais independentes, bem como artesãos ou pequenos comerciantes. O seu peso social é, porém, reduzidíssimo, correspondente à ausência de importância económica. Em princípio a oposição de classes perfilaria aqui os gestores e o proletariado como dois blocos claramente definidos, só o rigor repressivo conseguindo conter a revolta dos explorados.
Na realidade, porém, o quadro é mais complexo. Contradições internas à classe dos gestores tendem a estabelecer campos de união entre o proletariado e aquelas correntes gestoriais que, por razões que não cabe aqui indicar, estão mais dispostas a medidas liberais. A defesa de certos direitos políticos e de expressão, de certas liberdades cívicas, etc., constitui um campo em que frequentemente a união entre estas correntes de gestores e o movimento operário é estreita. Por outro lado, contradições entre os principais polos de acumulação do capital neste grupo de países (URSS, China) e os gestores nos países das respectivas esferas de influência podem agudizar-se, como é do conhecimento geral, constituindo-se campos de união entre o proletariado e os gestores na convergência da luta contra o país capitalista dominante, e desenvolvendo-se assim formas de ideologia nacionalista. Uma variante deste nacionalismo pode ser suscitada pela oposição entre a URSS e a China, ou pelo conflito entre países integrados em cada um destes blocos, como sucede hoje com a guerra entre o Cambodja e o Vietnam.
A situação da classe operária neste grupo de países pode ainda complicar-se em virtude da existência de trabalho gratuito. Nos capitalismos de Estado integrais todo o capital está concentrado sob uma propriedade única, tornando-se por isso impossível desvalorizar uma parte para aumentar a mais-valia distribuída ao restante; assim, a baixa tendencial da taxa de lucro teve de ser sustida, em vários casos, mediante um reforço da extorsão da mais-valia absoluta, que assumiu a forma de escravidão de Estado. Esta extorsão de trabalho gratuito não revelou até agora uma tendência de desenvolvimento nítida; parece ter recuado nalguns países (caso da URSS), ter-se mantido no mesmo grau noutros (China) e assumir uma considerável extensão, até hoje raramente vista nas sociedades modernas, no Cambodja, após a inclusão deste país na esfera de hegemonia chinesa. Se, porém, se verificar nos capitalismos de Estado integrais uma tendência para o desenvolvimento da escravidão de Estado, isto implicará a criação de uma nova camada social explorada, colocando problemas novos ao movimento operário.
Apesar destes aspectos a ruptura entre o proletariado e os gestores nos países de capitalismo de Estado integral tem-se revelado, ao longo de numerosas lutas, mais claramente definida e mais aguda do que o movimento anti-capitalista na esfera norte-americana. Desde o fim da segunda guerra mundial que as lutas proletárias mais vastas e, sobretudo, violentas, têm ocorrido em países de capitalismo de Estado integral (Berlim, Hungria, a tendência proletária na «revolução cultural» chinesa, Checoslováquia, Polónia). À primeira vista parece que, apesar da violência e da radicalização destes surtos principais, as lutas proletárias reivindicativas serão aqui menos frequentes do que nos países industrializados da órbita norte-americana. Mas talvez esta impressão se deva somente ao facto de a divulgação de notícias ser mais fácil neste último tipo de países -e os dissidentes russos, com que tanto se ocupa a opinião pública liberal entre nós, se são prolixos quanto às violações do tratado de Helsínquia, permanecem particularmente silenciosos quanto às condições de vida do proletariado e às suas lutas. Assim, talvez os grandes surtos do movimento proletário acima mencionados, que atingiram um grau de clareza na oposição de classes desconhecido nos países ocidentais desde os anos vinte, sejam sintoma da existência constante de pequenos conflitos, numerosos e repetidos, ainda que tomando certamente formas diferentes das que apresentam na esfera norte-americana. Poder-se-á pensar que a ruptura revolucionária nos países de capitalismo de Estado integral está hoje mais madura do que nos países da órbita dos Estados Unidos? Veremos nas próximas décadas o proletariado dos países de capitalismo de Estado integral conduzir a luta mundial pelo comunismo?
É impossível esboçar sequer unia resposta enquanto a reorganização do perfil social nos países capitalistas industrializados da esfera norte-americana não se tiver esclarecido. Além disso, a crise actual nestes países tem efeitos benéficos para o capitalismo de Estado integral, que não sofre, pelos menos directamente, os mesmos problemas. A sua posição favorável no ‘actual contexto mundial é claramente demonstrada pela ofensiva diplomática que a URSS prossegue nos últimos anos, e poderá dar aos gestores capitalistas de Estado uma margem de adequação e uma capacidade de manobra nos conflitos sociais internos maior do que até aqui têm possuído. É impossível desde já formular respostas decisivas. O capitalismo mundial está suficientemente integrado para que as transformações do perfil social num dado grupo de países influam nos restantes.
Possível desde já e, por isso, absolutamente necessário é apontar a cisão fundamental que atravessa o novo campo de união, de classes, que poderá eventualmente vir a ser o mais perigoso ao longo deste processo de reorganização do sistema capitalista. O movimento ecológico é, hoje, o inimigo oculto.
9 de Setembro a 20 de Dezembro de 1978.
Geralmente o nome de Malthus é apenas associado a esta teoria. Porém, numa obra posterior e menos conhecida, Malthus analisou o capitalismo industrial numa perspectiva contrária ao modelo dos rendimentos decrescentes, baseando a sua crítica no sub-consumo. Inaugurou assim um ponto de vista que, apesar de alguns seguidores, permaneceu marginalizado até à época de Keynes.
Para a apresentação deste tipo de banditismo enquanto elemento importante em certos processos revolucionários, ver o editorial do jornal Combate, nº 13, de 20 de Dezembro de 1974, reproduzido em Capitalismo privado ou capitalismo de Estado não é escolha, Afrontamento, Porto 1975, pp. 80-85. Partilho inteiramente o que nesse editorial se afirma.
Nota de Agosto de 1979: Após a redação deste livro novos factos vieram ilustrar a convergência das correntes tradicionais da direita e da esquerda no movimento ecológico.
- Suíça: No referendo sobre o emprego de energia nuclear, realizado em Fevereiro de 1979, os ecologistas, que perderam por estreita margem, resultavam de uma combinação de sociais-democratas, elementos da extrema-esquerda e numerosos conservadores.
- Alemanha Federal: A partir de Maio de 1979 o movimento de Fredersdorf transformou-se no partido dos Cidadãos; a sua fundação foi apoiada pela extrema-direita parlamentar (a União Cristã Social bávara) que espera assim minar a base eleitoral do partido Liberal, enfraquecendo a coligação governamental.
- Estados Unidos: A partir da manifestação anti-nuclear realizada em Washington em Maio de 1979 forjou-se uma aliança entre o governador Brown e a actriz Jane Fonda, conhecida pela sua oposição à guerra do Vietnam, e que hoje defende com igual vigor a ecologia e o capitalismo de Estado de Hanói; Brown atribui tanta importância à sua recente aliada que a nomeou, em Julho de 1979, para a Comissão Artística estadual, não hesitando assim em enfrentar a hostilidade do Senado californiano, que acabou por vetar a nomeação.
[Em relação a isto é convinte tomar em conta a seguinte análise incluida no apartado VIII, o último do texto, que agora reproduzimos y que além de interesse histórico conserva algumha vigência:]
O grupo dos países capitalistas fracamente industrializados que assentam a sua economia na extracção e exportação de matérias-primas corresponde, em traços largos, às antigas regiões colonizadas ou semi-colonizadas. Aí a situação da classe proletária é complexa. Por um lado, são várias as camadas e classes sociais decorrentes de modos de produção pré-capitalistas que sobrevivem subordinadas ao capitalismo dominante. Por outro lado, a situação marginal que as classes capitalistas destes países ocupam relativamente aos grandes centros mundiais de acumulação do capital cria numerosas hostilidades e pontos de fricção com os capitalistas dos países dominantes. Em tais circunstâncias, os capitalistas dos países exportadores de matérias-primas podem estabelecer campos comuns com o proletariado sobre a base de uma oposição aos grandes centros capitalistas. É o fenómeno conhecido do ressurgimento dos nacionalismos. Não parece que o proletariado destes países possa a breve trecho efectuar uma ruptura radical e lutar contra o capitalismo como um bloco, prosseguindo objectivos exclusivamente operários. Só a expansão do sistema capitalista mundial, eliminando ou enfraquecendo o remanescente dos modos de produção anteriores e, no campo internacional, estreitando os laços de subordinação das classes capitalistas nesses países relativamente aos capitalistas nos países dominantes, criará condições para que o proletariado se defina iniludivelmente como a única classe explorada, oposta à globalidade do sistema capitalista. Parece-me, pois, verosímil que durante a crise actual as lutas sociais nestes países contribuam mais para criar campos de união entre as classes do que para cindir os campos existentes e apressar a ruptura operária.
Possível desde já, e por isso absolutamente necessário, é apontar a cisão fundamental que atravessa o novo campo de união de classes, que poderá eventualmente vir a ser o mais perigoso ao longo deste processo de reorganização do sistema capitalista. (No texto este parágrafo é a conclusão do apartado VIII.)