Mensagens com Tags ‘gilles dauvé’

12/04/2009

Quando as insurreições morrem vii

hindenburg

por Gilles Dauvé

Berlim, 1919-1933 (continuação)
O KPD, por seu lado, não tinha hesitado em estender a mão aos nacionalistas contra a ocupação francesa do Ruhr em 1923. Para Radek, “só a classe operária pode salvar a nação”. Talheimer, dirigente do KPD, não escondia que o partido devia combater ao lado duma burguesia alemã que tinha então “um papel objectivamente revolucionário pela sua política estrangeira”. Zinoviev não diz outra coisa na sessão do Executivo Alargado do Komintern, em Junho de 1923:

“A questão nacional é também a questão vital da política alemã. O nosso partido pode legitimamente dizer que, se bem que não reconheçamos a pátria burguesa, somos nós que defendemos, na Alemanha, o futuro do país e da nação. Os nossos camaradas reconheceram-no sem ousarem levar a cabo uma campanha prática.”

E Radek, na mesma reunião: “Colocar a questão nacional, quer dizer, fazer compreender ao proletariado que ele deve ser o Partido da Nação, é na Inglaterra apenas uma fórmula de propaganda para o objectivo final, mas o mesmo não se passa na Alemanha. È significativo que um jornal nacional-socialista se erga violentamente contra as suspeitas sobre os comunistas: assinala-os como um partido combativo que se torna cada vez mais nacional-bolchevista. O nacional-bolchevismo significava em 1920 uma tentativa a favor de certos generais; hoje em dia traduz o sentimento unânime que a salvação está nas mãos do PC. Apenas nós somos capazes de encontrar uma solução para a situação actual da Alemanha. Colocar a nação em primeiro plano, é na Alemanha, tal como nas colónias, agir de maneira revolucionária.” (citações retiradas das actas publicadas no Boletim Comunista, 28 de Junho de 1923)

Uma dezena de anos estalinistas mais tarde, o KPD apelava a uma “revolução nacional e social”, denunciava o nazismo como “traidor à nação”, e usava tanto o slogan da “Revolução Nacional” que inspira Trotsky a escrever em 31 um folheto Contra o nacional-comunismo. Infelizmente para os militantes do KPD, os nazis em matéria de demagogia nacional eram imbatíveis.

Em Janeiro de 1933, os dados estão lançados. Ninguém pode negar que a República de Weimar se entregou voluntariamente a Hitler. Tanto a direita como o centro acabaram por vê-lo como uma solução viável para tirar o país do impasse, ou como um mal menor temporário. O “grande capital”, reticente perante qualquer agitação incontrolável, não se tinha mostrado, até ao momento, mais generoso com o NSDAP do que com as outras formações de direita ou nacionalistas. Só em Novembro de 1932, Schacht, um homem de confiança da burguesia, convence os meios dos negócios a apoiar Hitler (que acaba, no entanto, de sofrer um ligeiro recuo eleitoral) porque vê nele uma força capaz de unificar o Estado e a sociedade. Que a alta burguesia não tenha nem previsto nem tenha sempre apreciado a evolução posterior, a guerra e menos ainda a derrota, é outra questão, e de qualquer modo a sua presença não foi apreciável na resistência clandestina ao regime.

É completamente dentro da legalidade que Hitler é nomeado chanceler, a 30 de Janeiro de 1933 por Hindenburg, ele próprio eleito constitucionalmente presidente um ano antes, com o apoio dos socialistas, que viram nele… uma barreira contra Hitler, sendo os nazis uma minoria no primeiro governo formado pelo líder do NSDAP.

Nas semanas seguintes, as máscaras caem: os militantes operários são perseguidos, os seus locais são saqueados, o terror instala-se e as eleições de Março de 1933, sob a violência conjugada das SA e da polícia, colocam no Reichstag 288 deputados do NSDAP (mas ainda 80 do KPD e 120 do SPD).

Os ingénuos espantam-se que o aparelho repressivo se tenha posto docilmente ao serviço dos ditadores: como sempre em casos semelhantes, do polícia de giro ao director de ministério, a máquina estatal obedece à autoridade que a dirige. Os novos dirigentes não tinham plena legitimidade? Juristas eminentes não escreviam cada decreto em conformidade com as leis superiores do país? Num “Estado democrático” – e Weimar era um – se há conflito entre os dois componentes do binómio, não é a democracia a sair vencedora. Num “Estado de Direito” – e Weimar também era um – se há uma contradição, é o direito que se deve vergar para servir o Estado, e nunca o oposto.

Durante estes poucos meses, que faziam os democratas? Os de direita resignaram-se. O Zentrum, o partido católico do Centro, antigo eixo das maiorias de Weimar em parceria com o SPD, e que até melhorou os seus resultados nas eleições de Março de 1933, vota para dar quatro anos de plenos poderes extraordinários a Hitler, poderes esses que se transformaram na base legal da futura ditadura. O Zentrum é obrigado a dissolver-se em Julho.

Os socialistas, por seu lado, tentaram escapar ao destino do KPD, proscrito no dia 28 de Fevereiro (após o incêndio do Reichstag). No dia 30 de Março de 1933, abandonaram a Segunda Internacional para demonstrar o seu carácter nacional alemão. No dia 17 de Maio, o seu grupo parlamentar vota a favor da política externa de Hitler. No entanto, no dia 22 de Junho, o SPD é dissolvido como “inimigo do povo e do Estado”.

Quanto aos sindicatos, em 1932, à maneira da CGL italiana que tentou salvar o que pôde insistindo no seu carácter apolítico, os seus líderes proclamaram-se independentes de todos os partidos e indiferentes à forma do Estado. Isso não os impediu de procurar um acordo com Schleicher, chanceler desde Novembro de 1932 e então em busca de base ou demagogia operária. Estando os nazis no governo, esses mesmos líderes sindicais deixam-se persuadir que na condição de reconhecerem o nacional-socialismo, o regime lhes daria um pequeno espaço. Esta estratégia culmina na farsa de membros dos sindicatos marchando sob a suástica no 1º de Maio de 1933, transformado na “Festa do Trabalho Alemão”. Em vão: nos dias que se seguem, os nazis liquidam os sindicatos e prendem os militantes…

Formada a enquadrar as massas e a negociar em seu nome, e mesmo, a reprimi-las, a burocracia operária apenas tinha o conhecimento de uma situação profundamente alterada. Multiplicar os seus sinais de fidelidade ao regime não lhe serviu de nada. Não se lhe reprovava a sua afronta à pátria mas ao cofre-forte das classes possuidoras. Não era o seu internacionalismo verbal herdado do período anterior a 1914 que incomodava a burguesia, mas a existência dum sindicalismo submisso mas ainda independente, numa era na qual o capital já não tolerava qualquer outra comunidade que não a sua, e na qual mesmo uma instituição de colaboração de classes estava a mais se o Estado não a controlava completamente.
(a seguir Barcelona, 1936)

partes anteriores:
I II III IV V VI

08/04/2009

Quando as insurreições morrem VI

Berlim, 1919-1933 (continuação)

por Gilles Dauvé

Pela negociação ou pela força, a democracia moderna representa e concilia os interesses antagónicos… tanto quanto possível. As intermináveis crises parlamentares e os complôs verdadeiros ou imaginários (de que era palco a Alemanha depois da queda do último chanceler socialista em 1930) são numa democracia o sinal invariável de uma desunião durável nos círculos dirigentes. No início dos anos 30, face à crise, a burguesia debatia-se com estratégias sociais e geopolíticas irreconciliáveis: integração acrescida ou eliminação do movimento operário; comércio internacional “pacífico” ou uma autarcia estabelecendo os alicerces para uma expansão militar. A solução não passava necessariamente por um Hitler, mas pressupunha em todo o caso uma concentração de força e violência nas mãos do poder central. Tendo-se esgotado o compromisso centrista-reformista, a única opção em aberto era estatista, proteccionista e repressiva.

Tal programa comportava o afastamento violento duma social-democracia que pela domesticação dos operários tinha conseguido alcançar uma posição excessiva, sem no entanto ser capaz de unificar toda a Alemanha atrás de si. Esta unificação foi a tarefa do nazismo, que soube apelar a todas as classes, dos desempregados aos capitães de indústria, através duma demagogia que superava mesmo a dos políticos burgueses, e dum anti-semitismo que funcionava agrupando por meio da exclusão.

Como poderiam os partidos operários barrar o caminho a tal loucura xenófoba e racista, depois de tão frequentemente terem servido de companheiros de viagem ao nacionalismo? Para o SPD, isso era claro desde o início do século, óbvio em 1914, e assinado com sangue no pacto de 1919 com os Freikorps, saídos dum molde guerreiro muito parecido ao dos fasci. Quanto ao racismo, não era incomum que um jornalista do SPD, um dirigente sindical ou mesmo a prestigiada revista teórica Die Neue Zeit, atacassem os judeus “estrangeiros” (polacos e russos). Em Março de 1920, a polícia berlinense, então sob controle socialista, captura um milhar de pessoas num bairro judeu e encerra-as num campo, antes de finalmente as libertar. Como poderia a social-democracia alemã escapar às fobias e obsessões do Volk (povo, numa acepção racial ndt) ao qual ela se obrigava a pertencer?

(continua)

07/04/2009

Quando as insurreições morrem V

por Gilles Dauvé

Berlim, 1919-1933

A ditadura vem sempre depois da derrota dos movimentos sociais, anestesiados e massacrados pela democracia, pelos partidos de esquerda e pelos sindicatos. Em Itália, alguns meses separam os últimos fracassos do proletariado e a nomeação do líder fascista como chefe de Estado. Na Alemanha, um fosso de uma dúzia de anos rompe a continuidade e faz com que o 30 de Janeiro de 1933 apareça como um fenómeno essencialmente político ou ideológico ou económico (uma reacção à crise de 29) e não como o efeito de um terramoto social anterior. A base popular do nacional-socialismo e a energia assassina que desencadeou permanecem misteriosos se se ignora a questão do trabalho assalariado, do lugar a atribuir-lhe na sociedade, das suas revoltas ou da sua submissão, forçada ou voluntária.

A derrota alemã de 1918 e a queda do Império pôs em movimento um assalto proletário suficientemente forte para sacudir os alicerces da sociedade, mas impotente para revolucioná-la, promovendo a social-democracia e os sindicatos a pilares centrais do equilíbrio político. Os seus chefes, homens de ordem, muito naturalmente recorrem aos Freikorps, agrupamentos perfeitamente fascistas que contam com muitos futuros nazis nas suas fileiras, para reprimir uma minoria operária radical em nome dos interesses da maioria reformista. Primeiro derrotados pelas regras da democracia burguesa, os comunistas são também derrotados pela democracia da classe operária: os “conselhos operários” entregam a sua confiança às organizações tradicionais e não aos revolucionários, facilmente denunciados como anti-democráticos.

A democracia e a social-democracia são por essa altura indispensáveis ao capitalismo alemão para enquadrar os operários, liquidar o espírito de revolta na cabine de voto, obter dos patrões uma série de reformas e dispersar os revolucionários.

Depois de 1929, pelo contrário, o capitalismo necessita de se concentrar, eliminar uma parte da classe média, disciplinar os proletários, e mesmo a burguesia. O movimento operário, com a sua defesa do pluralismo político e dos interesses operários imediatos, bloqueia a situação. Como mediadores entre o capital e o trabalho, as organizações operárias derivam a sua função dos dois, mas entendem permanecer autónomas em relação a ambos, e ao Estado. A social-democracia só tem sentido como uma força lado a lado com os patrões e o Estado, não como uma força absorvida neles. A sua vocação é gerir uma enorme rede política, municipal, social, mutualista e cultural, e com tudo o que hoje seria chamado de “associativo”. O KPD, por seu lado, rapidamente constituiu a sua própria rede, menor mas mesmo assim vasta. Ora o capital tornando-se mais e mais organizado, tende a juntar todos os fios, levando elementos estatais à empresa, elementos burgueses à burocracia sindical, e elementos sociais à administração. O peso do reformismo operário, presente até no próprio Estado, e a sua existência como uma “contra-sociedade” faz dele um factor de conservadorismo social e de malthusianismo que o capital em crise precisava de eliminar. Expressão da defesa do trabalho assalariado enquanto componente do capital, o SPD e os sindicatos cumpriram uma função anticomunista indispensável em 1918-1921, mas esta mesma razão conduziu-os mais tarde a colocar o interesse da força de trabalho assalariada à frente de tudo, em detrimento da reorganização do capital no seu conjunto.

Um Estado burguês estável teria procurado solucionar o problema por meio de legislação anti-sindical, subjugando as “fortalezas operárias”, e voltando a classe média contra os proletários em nome da modernidade contra o arcaísmo, como se fez muito mais tarde na Inglaterra de Thatcher. Mas tal ofensiva pressupõe que o capital se encontre relativamente unido sob o controle de umas poucas facções dominantes. A burguesia alemã de 1930 estava profundamente dividida, a classe média tinha colapsado, e o Estado-nação estava em frangalhos.

(continua)

03/04/2009

Quando as insurreições morrem IV

por Gilles Dauvé

VOLKSGEMEINSCHAFT versus GEMEINWESEN

A contra-revolução inevitavelmente triunfa no terreno da revolução. Através da sua “comunidade do povo”, o nacional-socialismo pretenderá eliminar o parlamentarismo e a democracia burguesa contra os quais o proletariado se tinha insurgido depois de 1917. Mas a revolução conservadora retomará também velhas tendências anticapitalistas (regresso à natureza, a fuga às cidades…) que os partidos operários, mesmo os extremistas, tinham negado ou estimado mal a sua importância pela sua incapacidade de integrar a dimensão aclassista e comunitária do proletariado, pela sua incapacidade para criticar a economia, e pela sua incapacidade para pensar no mundo do futuro como algo mais que uma mera extensão da grande indústria. Na primeira metade do século dezanove, estes temas estavam no centro das preocupações do movimento socialista, antes de ser abandonados pelo “marxismo” em nome do progresso e da Ciência, não sobrevivendo senão no anarquismo ou nas seitas (5).

Volksgemeinschaft versus Gemeinwesen, comunidade do povo ou comunidade humana… 1933 não foi a derrota mas a consumação da derrota. O nazismo surgiu e triunfou para estancar, resolver e fechar uma crise social tão profunda que ainda não apreciamos totalmente a sua magnitude. A Alemanha, o berço da social-democracia maior do mundo, também deu lugar ao movimento mais fortemente radical, antiparlamentar, e antisindicalista, que aspirava a um “mundo operário” mas que também era capaz de atrair muitas outras contestações antiburguesas e anticapitalistas. A presença de artistas de vanguarda nas fileiras da “esquerda radical alemã” não é acidental. Assinala que o capital está a ser a posto em causa enquanto “civilização” no sentido em que Fourier o fazia. Perda da comunidade, individualismo e gregarismo, miséria sexual, família desarticulada mas valorizada como refúgio, o afastamento da natureza, a comida industrializada, a artificialidade crescente, a “proteízação” do homem (***), o correr atrás do tempo, a morte da arte, relações sociais cada vez mais mediadas pelo dinheiro e pela técnica: todas estas alienações passam então pelo fogo duma crítica confusa e multiforme. Só um olhar retrospectivo superficial pode prever nessa crítica a sua recuperação inevitável.

A contra-revolução só triunfou nos anos 20, na Alemanha e nos Estados Unidos, inaugurando o despontar duma sociedade de consumo e fordista, arrastando milhões de alemães, inclusive os operários, para uma modernidade industrial e mercantil. Foram dez anos de reinado frágil, como o demonstra a louca hiperinflação de 1923. Em 1929 seguiu-se-lhe um enorme terramoto, no qual não foi a prática proletária mas a própria prática capitalista a que rejeitou a sua ideologia dum progresso oferecendo a todos um consumo crescente de objectos e signos.

O extremismo nazi, e a violência que desencadeou, foram adequados à profundidade do movimento revolucionário que ele retoma e nega, e a estas duas rebeliões, separadas por 10 anos, contra a modernidade capitalista, primeiro pelos proletários e depois pelo capital. Como os radicais de 1919-1921, o nazismo propõe uma comunidade de operários assalariados, mas uma que era autoritária, fechada, nacional e racial, e consegue, durante 12 anos, transformar os proletários em assalariados e soldados.

O fascismo é produto dum capitalismo que arruína as relações anteriores sem conseguir substituí-las por aquelas que acompanham a comunidade mercantil. Hitler pode muito bem ter-se inspirado em épocas passadas mas não deixa de nascer das contradições do mundo moderno.

*** De Proteu, figura da mitologia grega que possuía a faculdade de se metamorfosear. A transformação do homem, em resultado da perda de sistemas de referência mais ou menos sólidos, num ser instável, que muda com ligeireza as suas fidelidades, afectos e maneiras de pensar. Nota do tradutor.

01/04/2009

Quando as insurreições morrem III

por Gilles Dauvé

Turim, 1943

Se a democracia italiana praticamente se entregou ao fascismo sem luta, este último engendrou de novo a democracia logo que deixou de corresponder ao equilíbrio das forças sociais e políticas.

Questão central, tanto depois de 1943 como em 1919, era como controlar a classe operária. Em Itália, mais ainda que em outros países, o fim da Segunda Guerra Mundial atesta a dimensão de classe dos conflitos entre estados, que não podem ser explicados apenas pela lógica militar. Uma greve geral estala na FIAT em Outubro de 1942. Em Março de 1943, uma onda de greves sacode Turim e Milão, incluindo tentativas de formar conselhos operários. Em 1943-1945, surgem grupos operários, por vezes independentes do PC, por vezes denominando-se “bordiguistas”, frequentemente, e em simultâneo antifascistas, rossi (vermelhos), e armados. O regime já não mantém o equilíbrio social, enquanto que no mesmo momento a aliança com a Alemanha se torna insustentável devido ao avanço dos anglo-americanos, que todos pressentem como os futuros dominadores da Europa ocidental. Mudar de lado significa aliar-se aos futuros vencedores, mas também canalizar as revoltas operárias e os grupos de partisans para um objectivo patriótico com conteúdo social. No dia 10 de Julho de 1943, os Aliados aterram na Sicília. No dia 24, colocado em minoria por 19 votos contra 17 no Grande Conselho Fascista, Mussolini demite-se. Raramente ditador algum teve que ceder diante da regra da maioria.

O Marechal Badoglio, um dignatário do regime desde o seu apoio à Marcha sobre Roma, e que queria prevenir, nas suas próprias palavras, que “o colapso do regime leve a uma via demasiado à esquerda”, forma um governo que ainda era fascista, mas que já não incluía o Duce, e volta-se para a oposição democrática. Os democratas recusam participar, pondo como condição o afastamento do rei. Depois de um segundo governo de transição, Badoglio forma um terceiro em Abril de 1944, que inclui o líder do Partido Comunista, Togliatti. Sob pressão dos Aliados e do PC, os democratas consentem então em aceitar o rei (a República seria proclamada por referendo em 1946). Mas Badoglio evoca lembranças demasiado más. Em Junho, Bonomi, o mesmo que 23 anos antes enviava por circular os oficiais enquadrarem os fasci, forma o primeiro ministério que exclui os fascistas, e a situação é canalizada para o tripartidismo (PC+PS+Democracia-Cristã) que assumiria um papel dominante tanto em Itália como em França nos primeiros anos do após guerra.

Este jogo da cadeira, com frequência jogado pela mesmíssima classe política, é o pano de cena detrás do qual a democracia se metamorfoseia em ditadura, e vice-versa, segundo o modo como as fases de equilíbrio e desequilíbrio nos conflitos entre classes e nações levam a uma sucessão e recombinação de formas políticas destinadas à manutenção do mesmo Estado, garante do mesmo conteúdo. Ninguém estará mais qualificado para dizê-lo que o PC espanhol, que declarou, por cinismo ou por ingenuidade, durante a transição do franquismo para a monarquia democrática a meados dos anos 70:

“A sociedade espanhola quer que tudo seja transformado de modo a que o funcionamento normal do Estado possa ser assegurado, sem desvios ou convulsões sociais. A continuidade do Estado requer a não continuidade do regime.”

27/03/2009

Quando as insurreiçoes morrem II

por Gilles Dauvé

Roma, 1919-1922

Os países onde o fascismo histórico triunfou são os mesmos nos quais o assalto revolucionário posterior à primeira guerra mundial chegou a uma série de insurreições armadas. Na Itália, é com os seus próprios métodos e objectivos que, uma parte importante do proletariado enfrentou directamente o fascismo. A sua luta não tinha nada especificamente antifascista: lutar contra o capital obrigava os operários e o PC (criado em 1921, e então dirigido por Bordiga) a enfrentar tanto os Camisas Negras como a polícia da democracia parlamentar.

A originalidade do fascismo consiste em dar à contra-revolução uma base de massas e em imitar a revolução. O fascismo desvia a palavra de ordem “transformar a guerra imperialista em guerra civil” contra o movimento operário, e manifesta-se como uma reacção dos veteranos de guerra desmobilizados que regressam à vida civil, onde não são nada, mantidos juntos apenas pela violência colectiva, e dispostos a destruir o que eles imaginam como a causa do seu desenraizamento: desordeiros, subversivos, inimigos da nação, etc. Em Julho de 1918, Mussolini acrescenta ao título do seu jornal, Il Popolo d’ Itália, o subtítulo “Diário dos antigos combatentes e dos produtores”.

Assim, desde o começo, o fascismo transforma-se numa força auxiliar da polícia nas áreas rurais, reprimindo o proletariado agrícola à bala, desenvolvendo ao mesmo tempo uma frenética demagogia anticapitalista. Em 1919 não representa nada: em Milão, nas eleições gerais de Novembro, obteve menos de 5.000 votos, enquanto os socialistas obtiveram 170.000. Mesmo assim exige a abolição da monarquia, do Senado e de todos os títulos de nobreza, o voto para as mulheres, a confiscação da propriedade do clero, e a expropriação dos grandes industriais e latifundiários. Combatendo o operário em nome do “produtor”, Mussolini exalta a memória da Semana Vermelha de 1914 (que tinha visto uma onda de motins, nomeadamente em Ancona e Nápoles), e saúda o papel positivo dos sindicatos quando ligam o operário à nação. O objectivo do fascismo era a restauração autoritária do Estado, com o fim de criar uma nova estrutura estatal capaz (ao contrário da democracia, prometia Mussolini), de colocar limites ao grande capital e controlar a lógica mercantil que corroía os valores, os laços sociais e o trabalho.

Tradicionalmente, a burguesia negava a realidade das contradições sociais; o fascismo, pelo contrário, proclamou-as com violência, negando a sua existência entre as classes e transferindo-as para a luta entre nações, denunciando o destino da Itália como uma “nação proletária”. Mussolini era arcaico na medida em que se reclamava de valores tradicionais arruinados pelo capital, e era moderno na medida em que afirmava os direitos dos trabalhadores na sociedade.

Quem derrotou os proletários? A repressão fascista desencadeia-se depois de uma tentativa proletária falhada cujo principal artesão foi a democracia e as suas opções de reserva: os partidos e os sindicatos, que por si mesmos podem derrotar os operários empregando ao mesmo tempo métodos directos e indirectos. A chegada ao poder do fascismo não foi a culminação dos combates de rua. Os proletários alemães foram esmagados 11 ou 12 anos antes, e em Itália foram-no tanto nas urnas como pelas armas.

Em 1919, juntando elementos preexistentes com outros próximos dele, Mussolini funda os seus fasci. Contra as matracas e os revólveres, enquanto a Itália e o resto da Europa explodem, a democracia apela… ao voto, donde emerge uma maioria socialista e moderada.

“Lançar-se nas grandes saturnais eleitorais, em 1919, significava varrer todos os obstáculos da rota do fascismo que, enquanto as massas estavam cloroformizadas na expectativa da grande prova parlamentar, ele queimava as etapas, por sua vez (…) A vitória, a eleição de 150 deputados socialistas, foi ganha à custa do refluxo do movimento insurreccional e da greve geral política, e da perda das próprias conquistas reivindicativas conseguidas anteriormente (…)”, comentará Bordiga 40 anos depois.

Durante as ocupações de fábrica de 1920, o Estado, evitando realizar um assalto frontal, deixou que o proletariado se esgotasse, com o apoio da C.G.L. (central sindical de maioria socialista), que empregou uma política de desgaste para as greves, quando não as quebrou abertamente.

Em seguida, patrões e sindicatos entendem-se entre si para institucionalizar um “controle operário” supervisionado pelo Estado.

Desde o aparecimento dos fasci que a polícia ou faz vista grossa quando eles saqueiam as Casas do Povo, ou confiscam as arma aos operários. Os tribunais mostraram-lhes a maior indulgência, e o exército tolera as suas exacções, quando não as auxilia. Este apoio aberto mas oficioso tornou-se quase oficial com a “circular Bonomi”. Excluído do PSI em 1912 (por Mussolini, precisamente) pelo seu apoio à guerra contra a Líbia, Bonomi, depois de vários cargos ministeriais, torna-se chefe do governo em 1921-22. A sua circular de 20 de Outubro de 1921 coloca 60.000 oficiais desmobilizados nos grupos de assalto de Mussolini para lhes assumir o comando.

Que fazem os partidos? Os liberais aliados com a direita não hesitam em formar um “bloco nacional”, incluindo os fascistas, para as eleições de Maio de 1921. Em Junho-Julho do mesmo ano, o PSI conclui um “pacto de pacificação ” totalmente vão face a um adversário que não está minimamente disposto a cumprir a palavra, e cujo único efeito concreto foi desorientar os operários.

Até Agosto de 1922, o fascismo mal existe fora das regiões agrárias, principalmente no norte, onde erradica todo o sindicalismo autónomo dos operários agrícolas. Se em 1919, os fascistas incendeiam a sede do diário socialista, não se atreveram a atacar as greves em 1920, e até deram apoio verbal às reivindicações dos operários. Nas áreas urbanas, os fasci raramente dominam. A sua “Marcha sobre Ravena” (Setembro de 1921) foi facilmente derrotada. Em Novembro de 1921, em Roma, uma greve geral impediu a comemoração de um congresso fascista. Em Maio de 1922, os fascistas tentaram outra vez, e de novo foram impedidos.

O cenário varia pouco. A um ataque fascista localizado segue-se uma resposta operária eficaz, mas que cessa (depois dos conselhos de moderação do movimento operário reformista) logo que a pressão reaccionária abranda; confiando os proletários nos democratas para pôr os grupos armados na ordem. A ameaça fascista retrocede, reagrupa-se e dirige-se para outro lugar… acabando por se tornar credível perante um Estado do qual as massas esperam a solução. Os proletários não hesitem em arranjar armas e em servir-se delas, transformando em bastião mais de uma Bolsa do Trabalho ou duma Casa di Popolo, embora reconhecendo melhor o inimigo na camisa negra do arruaceiro de matraca que na forma “normal” do polícia ou do soldado, coberto por uma legalidade sancionada pelo hábito, a lei e o sufrágio universal.

No início de Julho de 1922, a C.G.L., por uma maioria de dois terços (contra o terço minoritário comunista), declarou o seu apoio a “qualquer governo que garanta a restauração das liberdades básicas”. No mesmo mês, os fascistas multiplicam as suas tentativas de penetrar nas cidades do norte…

No dia 1 de Agosto, a Aliança do Trabalho, que incluía o sindicato dos ferroviários, a C.G.L. e a anarquista U.S.I., proclamaram uma greve geral. Apesar do grande sucesso que obteve, a Aliança suspendeu a greve oficialmente no terceiro dia. Em numerosas cidades, no entanto, continuou em forma insurreccional, sendo finalmente contida por um esforço combinado da polícia e dos militares, apoiados por canhões navais, e, claro, com o reforço dos fascistas.

Quem derrotou esta energia proletária? A greve geral foi quebrada pelo Estado e pelos fasci mas foi também sufocada pela democracia, e o seu fracasso abriu o caminho a uma solução fascista para a crise.

O que seguiu não foi tanto um golpe de Estado mas uma transferência de poder com o apoio de um amplo leque de forças. A “Marcha sobre Roma” do Duce (que se limitou a apanhar o comboio) foi menos um confronto que um gesto teatral: os fascistas fazem que assaltam o Estado que por sua vez faz de conta que se defende, e Mussolini assume o poder. O seu ultimato de Outubro de 24 (“Queremos converter-nos no Estado!”) não é uma ameaça de guerra civil, mas um sinal à classe dirigente que o Partido Nacional Fascista representa a única força capaz de restaurar a autoridade estatal e de assegurar a unidade política do país. O exército podia ainda pôr na ordem os grupos fascistas reunidos em Roma, mal equipados e notoriamente inferiores a nível militar, e o Estado podia não ceder à pressão sediciosa. Mas o jogo não se jogava no plano militar. Sob a influência, nomeadamente, de Badoglio (o chefe do Estado Maior em 1919-1921) a autoridade legítima cede. O rei recusa proclamar o estado de sítio, e no dia 30 pede ao Duce que forme um novo governo, no qual participam os liberais – os mesmos que o antifascismo invoca como aliados contra o fascismo. Exceptuando os socialistas e comunistas, todos os partidos procuraram aproximar-se do PNF e votaram a favor de Mussolini: o parlamento, com apenas 35 deputados fascistas, concede-lhe a investidura por 306 votos a favor e 116 contra. O próprio Giolitti, a grande figura liberal daqueles tempos, um reformador autoritário que várias vezes presidiu o conselho de estado antes da guerra e de novo chefe de Estado em 1920-1921, em quem é de bom tom ver retrospectivamente o único político capaz de se opor a Mussolini, apoiou-o até 1924. O ditador não só recebeu o poder da democracia; mas a democracia ratificou-o.

Face à tempestade que se levanta (brevemente 17.000 ferroviários serão despedidos, os jornais comunistas invadidos e depois proibidos, detenções às centenas e depois aos milhares), o PC propõe uma greve geral para 26 de Outubro, ao que a CGL responde:

“Num momento em que as paixões políticas se exacerbam, e em que duas forças estranhas aos sindicatos disputam ferozmente o poder, a CGL sente-se no dever de prevenir os trabalhadores contra as especulações dos partidos ou de agrupamentos políticos que visam arrastar o proletariado para uma luta à qual ele deve permanecer completamente alheio se não quer comprometer a sua independência.”

Perante uma reacção obviamente política, a C.G.L. declara-se apolítica e espera um mínimo de tolerância por parte do novo poder. O sonho será breve. Nos meses que se seguem, vários sindicatos, entre eles o dos ferroviários e dos marinheiros, julgarão conveniente declararem-se nacionais, não hostis à pátria e portanto ao regime – mas a repressão não os vai poupar.

27/03/2009

Quando as insurreições morrem I

por Gilles Dauvé

Brest-Litovsk 1917 e 1939

“Se a revolução russa se tornar o sinal de uma revolução proletária no Ocidente, de tal modo que ambas se completem, a actual propriedade comum russa do solo pode servir de ponto de partida de um desenvolvimento comunista.”
Marx e Engels, Prefácio à edição russa do manifesto comunista, 1882

Esta perspectiva não se realizou. O proletariado industrial europeu falhou o seu encontro com uma comuna rural russa revitalizada.

Polónia, Brest-Litovsk, Dezembro de 1917: os bolcheviques propõem a paz sem anexações a uma a Alemanha decidida a tomar para si uma grande porção do velho Império Czarista, desde a Finlândia até ao Cáucaso. Mas em Fevereiro de 1918, os soldados alemães, apesar de serem “proletários em uniforme”, obedecem aos seus oficiais e retomam a ofensiva contra uma Rússia que era soviética. Nenhuma confraternização ocorre, e a guerra revolucionária advogada pela esquerda bolchevique revela-se impraticável. Em Março, Trotsky tem que assinar um tratado de paz ditado pelos generais do Kaiser. “Trocamos espaço por tempo”, disse Lenine, e de facto, em Novembro, a derrota alemã transforma o tratado num simples pedaço de papel. No entanto, a prova prática da união internacional dos explorados não se materializou. Alguns meses depois, de volta à vida civil com o fim da guerra, estes mesmos proletários enfrentam o movimento operário oficial aliado aos Freikorps. Derrotas em Berlim, na Baviera e depois na Hungria em 1919; derrota do Exército Vermelho do Ruhr em 1920; derrota da Acção de Março em 1921…

Setembro de 1939. Hitler e Estaline acabam de dividir entre si a Polónia. Na ponte-fronteira de Brest-Litovsk, várias centenas de membros do KPD refugiados na URSS, depois detidos como “contra-revolucionários” ou “fascistas”, são tirados das prisões estalinistas e entregues à Gestapo. Um dos fugitivos, mais tarde, podia exibir as cicatrizes nas costas (“isto foi obra do GPU”) e as unhas arrancadas (“isto foi a Gestapo”). Belo resumo da primeira metade do século.

1917-1937, vinte anos que sacudiram o mundo. O cortejo de horrores do fascismo, depois a Segunda Guerra Mundial e as subsequentes convulsões, são os efeitos de uma crise social gigantesca inaugurada com os motins de 1917 e encerrada pela Guerra de Espanha (*).

“Fascismo e Grande Capital”

É um lugar comum ver no fascismo um desencadear da repressão estatal ao serviço das classes dominantes. Segundo a fórmula tornada célebre por Daniel Guérin desde os anos trinta, o fascismo é igual ao grande capital. Segue-se então logicamente que a única maneira de liquidar o fascismo é acabar com o capitalismo.

Até aqui, tudo bem. Desafortunadamente, em 99% dos casos esta lógica perverte-se: se o fascismo é o que o capitalismo produz de pior, deve-se fazer de tudo para prevenir que este pior aconteça, quer dizer, fazer tudo para favorecer um capitalismo não fascista. Já que o capitalismo é a reacção, tente-se promover o capitalismo sob formas não reaccionárias, não autoritárias, não xenófobas, não militaristas, não racistas, noutras palavras, um capitalismo mais moderno, mais… capitalista.

Enquanto repete que o fascismo serve os interesses do “grande capital”, o antifascismo apressa-se a acrescentar que, apesar de tudo, o fascismo poderia ter sido evitado em 1922 ou 1933 se o movimento operário e/ou os democratas tivessem exercido uma pressão suficiente para lhe barrar a porta do poder. Se, em 1921, o Partido Socialista Italiano e o recém fundado Partido Comunista de Itália se tivessem aliado aos republicanos para deter Mussolini… se, no início dos anos trinta, o KPD não tivesse lançado uma luta fratricida contra o SPD, a Europa teria sido poupada a uma das ditaduras mais ferozes da história, a uma segunda guerra mundial, a um império nazi de dimensões quase continentais, aos campos de concentração e à exterminação dos judeus.

Para lá das suas observações bastante correctas sobre as classes, o Estado, e os laços entre o fascismo e a grande indústria, esta visão não tem em conta que o fascismo resultou de um duplo fracasso: o fracasso dos revolucionários depois da primeira Guerra Mundial, esmagados pela social-democracia e pela democracia parlamentar, e depois, ao longo dos anos 20, o fracasso dos democratas e dos social-democratas em gerir o capital. Sem uma compreensão efectiva do período precedente assim como da fase prévia da luta de classes e dos seus limites, não se pode entender nem a natureza do fascismo nem a sua ascensão ao poder. De resto não é um acaso se Daniel Guérin se engana, tanto sobre a Frente Popular que ele vê como uma “revolução falhada”, como sobre a natureza profunda do fascismo.(1)

Que há na base do fascismo senão a unificação política e económica do capital, uma tendência que se tornou geral a partir de 1914? O fascismo foi um modo particular de realizar essa unidade em países – a Itália e a Alemanha – onde, mesmo apesar da revolução ter sido derrotada, o Estado era incapaz de fazer reinar a ordem, inclusivamente nas fileiras da burguesia.

Mussolini não é Thiers, bem assente no poder, ordenando a forças armadas regulares que massacrem os comuneiros. Um aspecto essencial do fascismo é o seu nascimento nas ruas, o seu uso da desordem para impor a ordem, mobilizando as velhas classes médias enraivecidas pela sua ruína, e regenerando de fora um Estado incapaz de lidar com a crise do capitalismo. (2)

O fascismo foi um esforço da burguesia para resolver pela força as suas próprias contradições, para usar a seu favor os métodos operários de mobilização de massas, e empregar todos os recursos do Estado moderno, primeiro contra um inimigo interno, depois contra um externo.

Esta foi, com efeito, uma crise do Estado durante a transição para a dominação total da sociedade pelo capital. Primeiro, as organizações operárias tinham sido necessárias para enfrentar o levantamento proletário; em seguida foi necessário o fascismo para acabar com a desordem que se sucedeu. Esta desordem não era, certamente, revolucionária, mas era paralisante, e um obstáculo às soluções que, desde logo, só poderiam ser violentas. A crise não foi efectivamente superada nessa época; o Estado fascista era eficiente apenas aparentemente, integrando à força os assalariados (corporações italianas, Frente do Trabalho Alemã), sepultando artificialmente os conflitos para os projectar numa fuga em frente militarista. Mas a crise foi superada, relativamente, pelo Estado democrático tentacular estabelecido em 1945, que potencialmente se apropriou de todos os métodos do fascismo, e acrescentou alguns próprios, já que neutraliza as organizações operárias sem as destruir. O parlamento perdeu o controle sobre o executivo. Através do Welfare ou do Workfare(**), através de técnicas modernas de vigilância ou por meio da assistência estatal estendida a milhões de indivíduos, resumindo, por um sistema que torna toda a gente cada vez mais dependente, a unificação social ultrapassa a que foi conseguida pelo terror fascista, mas o fascismo como movimento específico desapareceu. Correspondeu à disciplina forçada da burguesia, sob a pressão do Estado, no contexto particular de Estados recentes que experimentavam as maiores dificuldades em serem também nações.

A burguesia tomou de empréstimo até o nome às organizações operárias, que por vezes eram chamadas fasci (feixes) na Itália. É significativo que o fascismo se definiu antes de mais como uma forma de organização e não como um programa. A palavra referia-se tanto a um símbolo de poder estatal (os feixes levados perante um alto dignatário na Antiga Roma), como à vontade de reunir todos os italianos como se ligam os feixes. O único programa do fascismo é organizar, fazer convergir pela força os componentes que compõem a sociedade.

A ditadura não é uma arma do capital (como se o capital pudesse substituí-la por outras armas menos mortíferas); a ditadura é uma de suas tendências, uma tendência que se torna efectiva quando necessário. Um “retorno” à democracia parlamentar, como ocorreu (por exemplo) na Alemanha depois de 1945, indica que a ditadura é inútil para integrar as massas no Estado (até à próxima vez). O problema não é portanto que a democracia assegure uma dominação mais suave que a ditadura; qualquer um preferiria ser explorado à sueca a ser sequestrado pelos esbirros de Pinochet. Mas pode-se ESCOLHER? Mesmo a suave democracia escandinava seria transformada em ditadura se as circunstâncias o exigissem. O Estado só pode ter uma função, que pode ser levada a cabo democraticamente ou ditatorialmente. O facto de a primeira ser menos rude não significa que seja possível reorientar o Estado para prescindir da última. As formas que toma o capitalismo não dependem das preferências dos assalariados nem das intenções da burguesia. Weimar capitulou perante Hitler, abriu-lhe os braços. E a Frente Popular de Leon Blum não “evitou o fascismo”, já que em 1936 a França não tinha nenhuma necessidade nem de uma unificação autoritária do capital nem de reduzir as suas classes médias. Não há nenhuma “opção” política à qual os proletários poderiam ser atraídos ou que eles poderiam impor pela força. A democracia não é a ditadura, mas a democracia prepara o terreno para a ditadura, e prepara-se a si mesma para a ditadura.

A essência do antifascismo consiste em resistir ao fascismo defendendo a democracia; já não se trata de lutar contra o capitalismo, mas de o pressionar o suficiente para que renuncie a tornar-se totalitário. Sendo o socialismo identificado com a democracia total, e o capitalismo com uma tendência crescente ao fascismo, os antagonismos entre proletariado e capital, comunismo e salariado, proletariado e Estado, são rejeitados em favor duma oposição entre democracia e fascismo apresentada como a quinta-essência da perspectiva revolucionária. A esquerda e a extrema-esquerda oficiais dizem-nos que uma verdadeira mudança seria a realização, por fim, dos ideais de 1789, traídos continuamente pela burguesia. O mundo novo? Mas ele já está aqui, até certo ponto, em embriões que devem ser preservados, em germens a fazer crescer: os direitos democráticos já existentes devem ser impulsionados uma e outra vez dentro de uma sociedade infinitamente aperfeiçoável, com dose diárias cada vez maiores de democracia, até à democracia completa, o socialismo.

Desta maneira, reduzida à resistência antifascista, a crítica social é levada a aproximar-se de tudo o que outrora denunciou, e a abandonar nada mais nada menos que aquela velharia, a revolução, e a abraçar o gradualismo, uma variante da “transição pacífica para o socialismo”, defendida em tempos pelos Partidos Comunistas, e objecto de zombaria, antes de 1968, por qualquer pessoa que quisesse mudar o mundo. O retrocesso é palpável.

Não vamos cair no ridículo de acusar a esquerda e a extrema-esquerda de terem abandonado uma perspectiva comunista que na realidade só conheciam para a combater. Que o antifascismo renuncia à revolução, isso é evidente. Mas falha também, exactamente onde seu “realismo” afirma ser efectivo: em prevenir uma possível mutação ditatorial da sociedade.

A democracia burguesa é uma fase da tomada do poder pelo capital, e sua extensão no século vinte completa a dominação do capital intensificando o isolamento dos indivíduos. Remédio à separação entre o homem e a comunidade, entre a actividade humana e a sociedade, e entre as classes, a democracia nunca será capaz de solucionar o problema da sociedade mais separada da história. Como forma eternamente incapaz de modificar seu conteúdo, a democracia é só uma parte do problema do qual afirma ser a solução. Cada vez que tenta reforçar o “vínculo social”, a democracia acompanha a sua dissolução. Cada vez que trata de paliar as disfunções mercantis, fá-lo estreitando a malha da rede estatal estendida sobre as relações sociais.

Os antifascistas para serem credíveis, mesmo no nível desesperadamente resignado em que se colocam, têm que explicar-nos como uma vida democrática local é compatível com a colonização da mercadoria que esvazia os espaços de encontro e enche os centros comerciais. Eles têm que explicar como um Estado omnipresente do qual se espera tudo, protecção e assistência, esta verdadeira máquina de produzir o “bem” social, não fará o “mal ” logo que contradições extraordinárias o exijam para restaurar a ordem. O fascismo é a adulação do monstro estatal, enquanto o antifascismo é a sua apologia mais subtil. A luta por um Estado democrático é inevitavelmente uma luta para consolidar o Estado, e em vez de extirpar as raízes do totalitarismo, tal luta aguça as garras que ele projecta sobre a sociedade.

14/03/2009

Carta sobre a Libertação animal (3ª parte)

por Gilles Dauvé

5. Nenhum estilo de vida é subversivo

Arthur Cravan afirmava ser um desertor de 17 países. Nós também somos desertores. Mas não achamos que desertando do mundo vamos mudá-lo; simplesmente, não nos identificamos com ele. Se me abstenho de votar não é porque no fundo do meu coração prefira um governo trabalhista a um conservador, mas seguindo os meus princípios revolucionários, proíbo-me de votar. Não necessito obrigar-me a nada. Sinceramente acho que os trabalhistas não são melhores que os conservadores, e ao contrário desses esquerdistas que votam pelo mal menor, estou muito consciente de que minha atitude não tem um impacto imediato sobre nada. Na melhor das hipóteses, serve para ajudar a manter viva alguma comunidade entre os poucos que não votam por razões similares às minhas.

Abster-se do mundo não evita que este continue a funcionar. Se não quiser participar da exploração de ninguém, o melhor é nunca comprar acções e passar sem conta bancária, gastando o dinheiro logo que o receba ou guardando-o em casa. E por que não? No final da sua vida, Jean Genet quase não tinha pertences, vivia em hotéis e insistia em que lhe pagassem em dinheiro vivo, para o usar e fazer circular como quisesse. Não era o ideal, mas estava a conduzir-se o melhor que podia num mundo de dinheiro. Deveríamos fazer o mesmo? Deveríamos dizer aos nossos amigos que o façam?

Da mesma forma que a atitude de Genet, o veganismo é um assunto pessoal. Algumas atitudes talvez sejam definitivamente “más”, mas não há nenhuma que seja superior às restantes. Não tem sentido procurar as atitudes que mais se aproximam ao comunismo. Genet obtinha os seus rendimentos do mundo literário do qual fazia parte. Onde se cultiva a soja? Quem a cultiva e por que paga?

Talvez a atitude menos não-comunista consista em não escolher nenhum estilo de vida. Viver com um mínimo de pretensões, permanecer tão aberto quanto seja possível: dormir num iglu na Gronelândia, numa tenda índia na América do Norte, numa habitação social em Roma, conduzir um camião no Quénia e ensinar inglês na Coreia do Sul, ir fazer compras ao Tesco em Battersea com os proletas do lugar e pescar com os habitantes duma ilha no Pacífico Sul. Ajustar-se a muitos hábitos alimentares e sexuais sem ficar preso a nenhum. Esta atitude está tão distante da que toma o que “resiste” isolando-se do mundo, como da do que se refugia no micro-mundo de um meio social “alternativo”.

Este imaginário “cidadão do mundo” ou “viajante da humanidade” não tem porquê ser tomado como um modelo a imitar. Sem dúvida, ele também chocaria com aspectos desagradáveis deste mundo: o seu camião poderia afectar a vida local do Quénia, talvez algum companheiro de copos em Battersea tenha preconceitos racistas, etc. Não estamos a propor um novo ideal do tipo “Pela estrada fora” (2) . Este personagem improvável simplesmente nos ajuda a entender que o comunismo significa abrir cada categoria a todas as outras.

Talvez o maior defeito do veganismo (como qualquer outra visão do mundo baseada numa dieta específica) seja a noção de que o homem é o que come. O homem é o que faz, o que inclui o que come, e tudo o que faz sempre o faz com outros.

Pode-se ser vegano e comunista; mas também se pode ser vegano e não-comunista, ou anti-comunista.

Se nos levantamentos sociais os punks poderão ter um papel mais importante que os aficionados de ópera, não é devido a uma suposta superioridade dos Sex Pistols em relação a Monteverdi. Será antes porque os fãs de punk-rock são de uma classe inferior aos que assistem a concertos em Covent Garden. Os punks nunca serão revolucionários enquanto punks.

O veganismo confronta o poder simbólico e social da carne. Nenhum vegano acredita que vai causar um dano real à indústria da carne: os veganos actuam contra uma imagem. Então, por que não negar-nos a usar veículos motorizados? (é mais fácil se se pode pagar uma moradia no centro, do que quando se vive num bairro da periferia). Por que não abster-se de ter filhos? Mas se o critério é ser antagonista à sociedade, é preciso lembrar que na antiga Grécia recusar-se comer carne era uma ofensa contra as relações entre deuses, homens e animais, e portanto uma crítica da ordem social; mas em qualquer país católico em 1700 ou inclusive em 1900, o subversivo era comer carne à sexta-feira, como de facto faziam alguns ateus militantes. Não é possível tratar de transformar um gesto ou comportamento particular numa norma ou anti-norma.

Pelo contrário, os que pensam que a humanidade em algum momento da sua história tomou um rumo errado, estão condenados logicamente a lutar por um mundo que se organize especificamente contra esse erro original, e isto leva-os, por exemplo, a reivindicar uma dieta especial.

Por conseguinte, esta discussão tem mais um mérito: lembra-nos que o mundo não gira em torno a uma grande causa ou pecado original. A dieta carnívora não é a origem de todos os males. Mas o dinheiro também não o é, por exemplo. A humanidade não sofre de uma doença que o comunismo virá a curar. Não existe um remédio. Somos cépticos, não médicos. Não defendemos a saúde contra a doença. O comunismo não é a produção ou a vida organizada de outra forma, sem dirigentes, por exemplo, ou sem intercâmbio de valor. Só pode ser definido como actividade, como comunidade. Não iremos procurar formas de fazer circular os bens sem usar dinheiro, mas viver e fazer as coisas de uma maneira diferente, e essa diferença incluirá a ausência de dinheiro: não haverá nenhuma necessidade de calcular o tempo de trabalho médio requerido para produzir algo. Enquanto as pessoas continuarem a pensar que em primeiro lugar e sobretudo é preciso “suprimir” o dinheiro, ou combater o poder político separado ou qualquer outro mal do presente, isso será uma prova que não estão a imaginar nem a fazer as coisas que poderiam fazer para viver sem esses males.

6. O vegetarianismo nega e ao mesmo tempo reafirma a diferença radical do homem

Ninguém pediria a um leão que não mate antílopes. Dá-se por assente que a natureza deve seguir seu próprio curso, o apelo da selva… Só ao homem se pede para agir de um modo diferente. Os vegetarianos concebem o homem como o animal que é capaz de escolher, que pode decidir não fazer mal a outras criaturas; e que portanto deve escolher não o fazer. Ou seja: exige-se ao ser humano agir em nome do mesmo estatuto superior que negam que ele tenha. Afirmam que o homem pertence à natureza, que a conhece e que em consequência não deveria tirar vantagem dela. Não estamos expondo uma inconsistência lógica do vegetarianismo para poder refutá-lo melhor: o que refutamos é a possibilidade de demonstrar ou desmentir a verdade do vegetarianismo. Esta contradição lógica não é mais que outra maneira de definir “a natureza humana”, ou melhor, de mostrar como a “humanidade” escapa a qualquer definição.

“A única coisa que realmente sabemos sobre a natureza humana é que ela muda. O único prognóstico que podemos fazer dela é que mudará. Os sistemas que fracassam são aqueles que contam com a imutabilidade da natureza humana, em vez de contar com o seu crescimento e desenvolvimento” (Oscar Wilde, A alma do homem sob o socialismo).

Com frequência acusa-se o homem de ser “o único ser que mata por prazer”. Esta afirmação assume que o assassinato não dá ou não deveria dar prazer. De acordo, mas ao dizer isto abrimos a porta fatal do reino estranho e ilimitado do prazer. Quem ou quê lhe poderia colocar os limites? A razão? A busca do bem comum? A compreensão de que meu próprio prazer depende da ampliação do prazer dos outros, e não do seu aniquilamento? Que simples… e ingénuo! Sade sabia mais do assunto. Também Fourier. Nada, jamais, neutralizará completamente a parte negativa e anti-social da humanidade.

Em termos fisiológicos, o homem não está capacitado nem incapacitado para consumir carne. De facto, não fomos “feitos” para nada em particular. É absurdo defender a homossexualidade argumentando que isso também ocorre em algumas espécies animais: isso é verdade, mas não nos diz quase nada, a não ser aquilo que já sabíamos: que a homossexualidade existe. O homem é parte da natureza e ao mesmo tempo é diferente do resto da natureza. Quanto dessa diferença se deve à sua posição erecta e à sua visão panorâmica? E que quantidade a factores sociais? Cada época reinterpreta os dados disponíveis de acordo a sua própria perspectiva histórica predominante. O homem é natureza e artifício.

O antropocentrismo (a ideia de que o homem é superior às outras espécies) e o “naturalismo” (a de que o homem deve reintegrar-se ao resto da natureza) esquecem que a natureza humana consiste em tentar descobrir a natureza humana. O homem é um ser que nunca sabe o suficiente acerca dele mesmo. Os sistemas tentam sossegar-lhe as dúvidas. É quando se sente mais seguro de si mesmo, como na sociedade totalitária (a megamáquina capitalista é uma totalidade completamente envolvente e abrangente), que se torna mais destrutivo.

Seja o que for que nos elevou à condição humana, também nos pode fazer cair e andar sem rumo. Há algo de impossível na humanidade e nada vai eliminar essa impossibilidade. Se fôssemos chimpanzés, gatos ou “insectos sociais” jamais teríamos conhecido a tarte de maçã, ou o porta-aviões… ou esta discussão.

(2) Referência ao romance de Jack Kerouac (On the road), referência de um estilo de vida aventuroso e desprendido.

13/03/2009

Carta sobre a libertação animal (2ª parte)

por Gilles Dauvé

3. As condições de vida humana e animal estão a piorar, mas só no sentido em que tudo está sendo capitalizado. Assim, os horrores mais visíveis perpetrados contra humanos e animais estão a tornar-se menos visivelmente horrorosos.

Vocês assumem que, não só as massas sofrem de uma exploração e empobrecimento cada vez maiores, mas além disso os animais estão sendo torturados mais que nunca. A vida piorou, é certo, mas não da forma como vocês descrevem. Já não há mais fomes nem massacres como em 1900 ou em 1945. O trabalhador ocidental médio de hoje dispõe de uma dieta mais rica e balanceada que na época de Marx; tem acesso, tanto a comida industrializada como a diversões ou viagens industrializados. A expectativa de vida continua a aumentar, e se diminui na Rússia é porque a Rússia tem um tipo de capitalismo bastante atrasado. As maquiladoras não são o futuro do capital; assim como a segurança social e o subsídio de desemprego não são a principal fonte de rendimentos dos proletários. É um erro descrever um lugar como o inferno simplesmente porque ninguém o considera um paraíso.

O que hoje é pior que em 1848, 1917 ou 1945, é que nunca antes tantos seres vivos e coisas tinham sido transformados em dinheiro ou em processos que engendram dinheiro. Nunca antes os seres humanos tinham sido tão dependentes de algo que está acima deles e… até agora, tão incapazes ou reticentes em mudar a situação. Como afirmava a Internacional Situacionista, o que importa é criticar o bem-estar oferecido por esta sociedade, não a pobreza que ela nos inflige. Porque ambas são inseparáveis. Há tanto horror na imagem açucarada e politicamente correcta de amor pelos animais, com que esta sociedade se apresenta, como nos massacres que se estão perpetrando atrás dos altos muros. O que tornava abominável o mundo de “1984″ não era tanto a Polícia do Pensamento ou o Quarto 101, mas sim o compassado conformismo das multidões. O amor de Winston pelo Grande Irmão no final do livro é, pelo menos, tão terrível como as torturas que o levaram a esse extremo.

O capital mutila e humilha os seres humanos, e mata milhões de animais, é verdade. Mas lá onde o capital se desenvolve e chega a ser “puramente” capitalista, afasta-se cada vez mais da tortura e da violência aberta. A essência (e portanto a contradição) do capitalismo não se encontra nos seus extremos. O genocídio e o extermínio de animais são só alguns dos efeitos inevitáveis do capital: não o definem como tal.

Da mesma maneira que a exploração animal, a discriminação sexual e racial fazem parte do capitalismo, mas só quando este as necessita. Com frequência supera-as e substitui-as por formas melhor adaptadas. Sintomas de racismo informal ou institucional reaparecerão sempre num ou noutro país capitalista, mas em nenhum lugar o racismo é imprescindível para o capital. Por exemplo, o apartheid não era “a” forma do trabalho assalariado na África do Sul. Há quinze anos, alguns amigos diziam-nos que as lutas contra o apartheid eram também lutas contra o capitalismo, já que a economia sul-africana estava baseada na discriminação racial e jamais poderia funcionar sem essa base. Pois bem, agora funciona. E de facto, uma das forças que impulsionaram o movimento anti-apartheid, foi a necessidade de melhorar o rendimento das empresas…

É verdade que nos Mcdonald’s se concentram muitos aspectos da sociedade actual. Mas precisamente por isso, não é possível descrever a Mcdonald’s unicamente como uma concentração de males: má comida, relações sociais degradadas para os clientes, péssimas condições laborais para os empregados, animais assassinados, dominação dos investimentos e do estilo de vida norte-americano… Tudo isto é verdade, mas dum ponto de vista qualitativo não basta para explicar o atractivo e o impacto da comida lixo e do trabalho lixo. O conceito de fast-food está ligado historicamente à ideia de comida segura (esses locais cumprem pelo menos os mesmos standards de higiene que qualquer outro café ou bar); assim como ao conceito de comer-isolado-se-se-quiser, sem-compromissos-com-os-outros, mínimo contacto físico e verbal, velocidade… Sem esquecer que se trata de uma importante fonte de trabalhos temporários, principalmente para jovens. Estas noções são mais que uma ideologia: exprimem a realidade do trabalho e do lazer na era da televisão e do computador. É exploração, certamente, mas a violência que exerce sobre pessoas e animais é só um aspecto secundário da indústria da fast-food: a Mcdonald’s é tão exploradora e repressiva como qualquer outra empresa, mas reclama-se (e em certa medida é) amigável com os consumidores, com os empregados e com os animais. Comer um hambúrguer num local de fast-food pode ser menos socialmente envolvente que sentar-se a comer num pequeno pub ou café.

O capital toma a vida (em todas suas formas, do trabalho humano, às árvores e vacas, aos contos infantis e às emoções), replica-a e devolve-a transformada. Nisso distingue-se de todos os sistemas de exploração anteriores. Nisso radica a sua força. Ao contrário dum vampiro, o capital suga-nos a energia mas mantém-nos vivos e põe-nos a crescer, produzir, comprar e a actuar. A produção de valor e o consumismo funcionam porque somos activos e passivos. Por que são os computadores tão populares? E o desporto?

O consumo de carne foi, efectivamente, um símbolo de status. Mas, não estaremos a interpretar as coisas de cabeça para baixo? Provavelmente, as classes dominantes reservavam para si o que tinha um maior valor nutricional. Seja como for, o trabalhador ocidental (sobretudo o homem) ainda valoriza a fartura e deleita-se comendo carne, enquanto a elite prefere cada vez mais uma dieta moderada. Hoje em dia ser rico significa frequentar lojas de produtos saudáveis extremamente caras, amiúde orientadas para o vegetarianismo. Na Califórnia, entrar num local de comida lixo para as classes baixas e depois num mercado de “comida orgânica” para a classe média, é como visitar dois planetas diferentes.

Contudo, como sabemos, o consumismo abrange, cada vez mais, produtos que antes eram privilégio exclusivo de uma minoria, e ao mesmo tempo, essa massificação degradou a qualidade dos bens que faz chegar a cada lar. A tecnologia pode criar produtos alimentícios de todas as formas, texturas e sabores. Um dia poder-se-á comprar frangos feito de ossos, carne, pele e cor idênticos aos verdadeiros, mas elaborados a partir de organismos vivos sintéticos, tão saborosos como os originais, saudáveis, baratos e em abundância. Assim, os matadouros de aves de capoeira poderiam ser reduzidos ao mínimo, reservados unicamente para as classes altas, em condições supostamente livres de dor e de stress, em quintas à moda antiga, onde as galinhas caminharão tranquilamente num pátio, talvez sob a supervisão da Sociedade Protectora dos Animais. Entretanto, as massas marginalizadas do mundo semi-industrializado continuarão a matar as galinhas à bruta, horrorizando os jornalistas ocidentais. Ficção científica? Não mais do que uma fábrica não violenta e agradável com seus trabalhadores.

A relação da humanidade com o resto da natureza reflecte a relação entre os próprios seres humanos. O capital necessita dos maus-tratos, do constrangimento e da repressão, mas a sua essência não é mais violenta que não-violenta. Trata com dureza quando tem que fazê-lo e com suavidade quando lhe é mais rentável. Obrigar crianças de cinco anos a trabalhar doze horas diárias era necessário em 1830, mas como mostra a história, tais práticas não são consubstanciais aos interesses dos negócios. Lutar por formas de exploração não violentas só desloca a opressão de um nível para outro. De facto, a elaboração de comida sintética está a permitir ao capital tornar realidade, de um modo monstruoso, o sonho da bio-alimentação.

4. A questão animal só se pode compreender se se a aborda como um problema humano

Seria absurdo antepor a luta de classes à natureza. O movimento comunista não reivindica a superioridade do operário da construção em relação à vaca. Não se está tratando de recompor a classe proletária, mas de decompor todas as classes.

Não obstante, a exploração dos empregados do Mcdonald’s tem maior relevância histórica que a exploração das vacas. Não porque os humanos sofram mais, ou porque o sofrimento das vacas importe menos. Mas porque só os humanos têm a capacidade de pôr um fim ao Mcdonald’s.

Os animais não trabalham. É um erro chamar “trabalho” ao que faz um cavalo ou um bicho da seda após terem sido treinados e obrigados a isso. Aplicada aos animais, a palavra “trabalho” adquire um sentido completamente diferente das diversas variantes de trabalho que conhecemos: trabalho escravo ou servil, trabalho assalariado, trabalho doméstico, trabalhos de casa. O trabalho propriamente dito é uma actividade organizada por amos, chefes e administradores… mas onde o trabalhador tem que fazer a sua parte em dita organização e eventualmente converter-se ele mesmo em organizador, e questionar a própria organização da actividade. A “actividade” dos animais não é o mesmo que o trabalho alienado, e também não é o contrário: é outro tipo de actividade.

O movimento comunista não é uma reacção contra o destino das vítimas, sejam humanas ou animais.

Como se pode mudar o mundo depende de em que é que ele está baseado este mundo.

Camatte, Perlman, os primitivistas e em grande medida os “autonomistas” partem de que o capital exerce uma dominação sobre todas as coisas: supõem que esta sociedade está baseada no controle sobre todas as formas de vida, onde a produção seria só um aspecto mais desse controle total. Desse ponto de vista, o que têm em comum, humanos e animais, importa mais que aquilo que os distingue.

Nós, por outro lado, afirmamos que o capital só pode governar explorando o trabalho que produz valor: a primeira condição para o domínio total do capital é fazer trabalhar os seres humanos.

Todos os casos que exemplificam a dominação dados no texto: escravidão, vedação de terrenos (enclosures), desflorestamentos, linhas de montagem… apontam par uma relação social, uma relação entre pessoas. É inegável que um aspecto da questão é que os animais sofrem; mas esse sofrimento provém do facto de que se pôs seres humanos a trabalhar. As ovelhas não tosquiam outras ovelhas. Uma forma de organização do trabalho veio substituir outra que era menos produtiva. A indústria de exploração de animais não criou o proletariado: a criação do proletariado foi uma das condições que fizeram possível o desenvolvimento da indústria animal.

11/03/2009

Carta sobre a libertação animal (1ª parte)

por Gilles Dauvé

Esta carta foi enviada aos autores do livro Beasts of Burden [Bestas de carga], publicado por Antagonism Press, 1999.
Contactos: BM Mahkno, London WC1N 3XX (http://www.geocities.com/antagonism1/beasts/index.html).

Este panfleto aborda um problema crucial: dado que o comunismo aponta à transformação da vida quotidiana na sua totalidade, não pode ignorar a nossa relação com os animais e a forma de nos alimentarmos. Neste sentido, Beasts of Burden obriga-nos a reconsiderar todo o debate “primitivista”, tarefa que esperamos poder abordar algum dia. Já que nenhum de nós é Politicamente Correcto, quando dizemos “o homem”, referimo-nos ao homem e à mulher; e quando dizemos “humanidade”, referimo-nos à espécie humana.

1. Não houve nenhum “mau desvio” na história humana

É impossível determinar em que momento, e como, a história começou a correr mal. No entanto, o primitivismo selecciona aqueles dados que supostamente demonstram os seus argumentos e rejeita um aspecto da ciência (a história tradicional) em nome de outros que também fazem parte do conhecimento capitalista (como a antropologia). Em lugar de romper com o determinismo marxista, o primitivismo desloca a ênfase das contradições económicas para a contradição homem/animal. Mas todo o “discurso sobre a origem“, provenha ele de Rousseau, de vocês ou de mim, normalmente diz mais sobre o seu autor que sobre o passado da humanidade.

O facto é que a história nos informa sobre certos eventos que levaram o homem a ser o que é. Não muitos, mas os suficientes para se ter uma ideia.

Por que seria o caçador o vilão principal? Vocês afirmam que a agricultura levou à acumulação, e daí às classes, etc.; mas e então a recolecção: não poderia ter existido acumulação privada a partir do que os outros colhiam? Seria igualmente lógico partir de qualquer facto parecido (a roda, por exemplo) e reconstruir dez mil anos de história a partir desse facto singular. Mas nenhum acontecimento em particular pode explicar tudo. Assim como o valor não explica por si só a existência do capital, é absurdo escolher um aspecto da vida inevitavelmente alienada e tratar de demonstrar que é ele o causador de todos os outros. Recolecção versus domesticação, agricultura versus caça, aldeia versus cidade, sedentarismo versus nomadismo, indivíduo versus sociedade, comunidade versus individualidade, a elite versus o povo, poder local versus poder central. Seguindo este esquema, qualquer coisa pode ser tomada como causa primordial de todas os males: a submissão da mulher, a submissão das crianças, a técnica e as máquinas… E a guerra, claro!: muito mudou quando a guerra “ritualizada” se expande e ocorre a submissão dos prisioneiros ao que mais tarde seria o “trabalho”. Na verdade, é muito mais provável que todos esses fenómenos tenham ocorrido simultaneamente no transcurso de uns poucos milhares de anos. Não tanto que a agricultura tenha dado nascimento às classes e ao poder político. Seria antes: primeiro havia “comunismo primitivo”, e depois houve agricultura + classes + política.

O determinismo marxista (que às vezes está presente nos nossos escritos) explicava a história pelo surgimento de um “excedente” que seria apropriado por uma minoria. Freddy Perlman (1) substitui isto por uma determinação hidráulica , mas não explica por que razão as comunidades locais se dividiram dando origem às classes e ao Estado. Não poderiam, no entanto, ter construído e administrado colectivamente, os diques e canais, em vez de delegar essa tarefa nos “organizadores”? Esta evolução técnica não era necessariamente inelutável. Caso contrário, teríamos que admitir que a humanidade ficará sempre reduzida à escravidão sempre que empregue sistemas de irrigação em grande escala. Existe alguma evidência de que houve sociedades de caçadores, pescadores ou de agricultores que não se tornaram opressoras para os seres humanos. Porquê? Ninguém o sabe. Assim como não há explicação para as coisas terem corrido mal no passado, também não há garantia que ficarão bem no futuro.

Não se pode considerar algo que nos desagrada (quase sempre com razão), e transformá-lo numa causa universal. Por que não culpar a pintura rupestre? Está relacionada com a linguagem, portanto, com um poder simbólico, que os humanos empregam para aprisionar-se uns aos outros, como afirma Zerzan. Esta explicação é tão válida como qualquer outra, e igualmente irrelevante: considerar um único aspecto da sociedade como causa de toda ela.

Se se toma a parte pelo todo, pode usar-se a (pré)história para provar qualquer coisa que se queira. O vegetarianismo militante pode atribuir os males sociais ao consumo de carne, e contrapô-lo à vida muito mais saudável que levam os símios vegetarianos. Mas também se pode argumentar solidamente em sentido contrário, pois parece suficientemente demonstrado que a dieta carnívora teve um papel decisivo numa característica essencial da espécie humana: a sua sociabilidade. Por outro lado, sabe-se também, que não só os predadores, mas animais como os golfinhos possuem formas complexas de cooperação, hierarquias, códigos, etc. Tal como vocês consideram a caça como uma das principais causas da opressão, outros consideram-na como a origem da sociedade. Inteligência significa capacidade de adaptação a factores que mudam constantemente. Geralmente, os animais predadores têm muito mais relações sociais que as suas presas. Mas, que conclusões se podem retirar daqui? Num plano mais fisiológico, alguns defendem que o grande desenvolvimento de pequenas nações habituadas ao consumo de proteínas animais (a antiga Grécia, a Inglaterra, o Japão) demonstra a superioridade da dieta carnívora. Mas uma vez mais: que significa isto? A natureza proporciona-nos tantas evidências para tudo, que podemos usá-la para provar qualquer coisa. Isto é, não serve para provar nada.

Mas, não será porque os humanos começaram a ser tratados como coisas que os animais e as árvores foram reificados também?

Para nós a indústria automóvel não é reprovável porque se desenvolveu a partir do modelo do açougue. Se criticamos o capitalismo é porque a produção de valor transforma tudo em mercadoria, seja a carne ou a poesia. Deste ponto de vista, é inútil reivindicar que haja mais poemas e menos hambúrgueres. Enquanto ambos os produtos originarem lucros, as fábricas continuarão a despejá-los no mercado. Pode haver fábricas de qualquer coisa. É a sociedade da cadeia de montagem que temos que compreender e revolucionar, independentemente de fabricar carne enlatada, pão integral ou frigoríficos.

2. Ao discutir qualquer assunto (neste caso: dieta carnívora versus vegetarianismo ou a condição animal), primeiro temos que questionar-nos de onde surgiram as perguntas

Por que razão o jovem médio urbano do Ocidente, no início do século XXI, tem repugnância à vista de um homem vestido de caçador disparando sobre patos ou coelhos?

A preocupação pela natureza, as inquietações ecológicas e as reacções aos maus-tratos a animais não são sintomas de que a humanidade por fim está a ficar mais consciente do seu impacto sobre o resto do planeta, mas que o capital necessita de pensar globalmente, tomando em conta todo o passado e o presente, dos templos Maias às baleias e aos genes. Tudo o que o capital domina deve ser controlado e classificado para poder ser administrado. Tudo o que se possa comprar e vender deve ser protegido. O capital possui o mundo e nenhum proprietário se pode dar ao luxo de ser descuidado com as suas posses.

No início do século XIX a burguesia esbanjou a vida e a força de trabalho de milhões de proletários. Em parte graças à acção dos mesmos operários, esta exploração foi-se tornando cada vez menos destrutiva e mais rentável. Hoje em dia o capital já não pode continuar a desperdiçar tranquilamente milhões de macacos ou árvores.

Não é nenhuma coincidência que esta sensibilidade aguda acerca da condição animal apareça ao mesmo tempo que a comida industrializada e as quintas que lembram campos de concentração. O humanismo e o Estado moderno nasceram juntos. A industrialização de tudo (homens, animais, assim como o alimento de ambos) é inseparável dos protestos pelos danos causados contra tudo. Nos últimos trinta anos o vegetarianismo desenvolveu-se ao mesmo ritmo que a agro-indústria, tal como os nossos sentimentos: comemos sanduíches de presunto envolvidas em plástico, mas recusamos vestir casacos de peles. O homem moderno quer carne sem sangue, tabaco sem nicotina, mercadorias sem manchas de suor, guerras sem cadáveres, polícias sem bastões, bastões que não deixem hematomas, dinheiro sem especulação.

Neste sentido, as formas mais modernas de exploração ajudam a entender as formas mais atrasadas.

O que está a acontecer com os animais é um produto degradado da “luta de classes”, do desenvolvimento das relações entre o Capital e o Trabalho depois das rebeliões dos anos 60 e 70 nos locais de trabalho. Desde essa época os gestores estão tratando que as empresas sejam lugares mais seguros e onde se destrua menos (isto é, se faça produzir mais) o capital mais valioso de todos: o trabalho. A exploração animal está a evoluir no mesmo sentido. Tende-se a experimentar menos com animais com o fim de obter mais deles, com dor quando é necessário, sem dor quando é possível: “está-se a reduzir o número de animais sacrificados, estão-se a sofisticar as técnicas que causam sofrimento e estão-se a substituir os animais vivos por simulações ou culturas de células” (Newsweek, 16 de Janeiro de 1989).

Os protestos contra os maus-tratos aos animais acompanham a reivindicação geral de uma sociedade multicultural, mais aberta e não agressiva.

É o próprio problema, tal como foi formulado, que é preciso questionar. Se se denuncia a “crueldade” é porque, por outro lado, se estaria disposto a aceitar um tratamento “mais amigável”. Reclamar contra as condições de trabalho “degradantes” é o mesmo que reivindicar melhores condições de trabalho. Lutar contra o excesso logicamente supõe que se está a favor da moderação. Suponhamos que essas experiências atrozes (e quase sempre estúpidas) realmente pudessem ser indolores, e mesmo agradáveis para os animais envolvidos. Mesmo assim, vocês e eu, continuaríamos a colocar objecções aos estudos sobre o “stress” e aos teste de cosméticos, do mesmo modo que consideramos ainda mais alienado, um operário fabril que diz ser “feliz”.

(1) Freddy Perlman, um dos precursores do “primitivismo”; no seu livro mais conhecido, Against his-story, Against Leviathan, relacionou o surgimento do estado e da opressão de classe com a execução de gigantescas obras de irrigação empreendidas na antiguidade pelos povos mesopotâmicos.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.