Mensagens com Tags ‘fascismo’

17/12/2010

Nazismo e Natureza

João Bernardo

USP, São Paulo, 19 de Abril de 2007, 18 h.

I

A afirmação de que «o nacional-socialismo não é mais do que biologia aplicada» era corrente entre os nazis. Ela deve-se ao eugenista Fritz Lenz, que a formulou em 1931, e atingiu em seguida uma grande difusão, nomeadamente graças a Rudolf Hess. Mas a origem desta concepção remonta ao célebre biólogo Ernst Haeckel, que afirmou que «a política é biologia aplicada».

Esta definição de política correspondia exactamente aos anseios do eugenismo. «A história da nossa ciência está intimamente ligada à história alemã mais recente», escrevia durante o Terceiro Reich Otmar von Verschuer, um dos principais representantes do movimento eugenista, que em 1935 passou a chefiar o Instituto de Biologia Hereditária e de Higiene Racial da Universidade de Frankfurt e que assumiu em 1942 o comando científico da política racial. «O chefe do império étnico alemão é o primeiro homem de Estado a recorrer aos dados da biologia hereditária e da eugenia enquanto princípio orientador da direcção do Estado». E o facto de cerca de metade dos médicos do Terceiro Reich serem membros do partido nazi revela não só que Hitler dispunha de uma infra-estrutura científica suficientemente vasta para prosseguir o seu programa biológico como indica também até que ponto as preocupações eugenistas estavam difundidas entre os cientistas alemães e austríacos.

A Eugenia foi um disciplina académica criada nos regimes democráticos que contribuiu decisivamente para a formação do quadro ideológico do nazismo. Praticamente todos os que se dedicavam ao estudo da genética e da evolução defendiam os princípios da eugenia, tal como o faziam também numerosos médicos e outros especialistas da biologia. André Pichot: «Durante muito tempo não houve uma distinção nítida entre eugenia e genética humana». Edwin Black: «Originariamente, genética humana e eugenia eram uma única e a mesma coisa».

Directo continuador da obra de Darwin, o seu primo Francis Galton, fundador da eugenia, desenvolveu o racismo em dois aspectos que teriam grandes repercussões. Por um lado, ele considerou em termos biológicos não só as diferenças de situação entre os povos, mas ainda as diferenças sociais no interior de cada povo, de maneira que a elite da classe dominante seria superior aos seus concidadãos sob os pontos de vista físico e mental. Esta noção não era nova, mas Galton transpôs para o quadro científico fundado por Darwin as concepções rácicas de elite que outros autores haviam sustentado em termos míticos e nebulosos. 

13/05/2009

Às organizações laborais de todo o mundo:

Às organizações laborais de todo o mundo:

Como já estarão possivelmente ao corrente, a 1 de Maio de 2009, mais de 170 pessoas que se contavam entre as que participaram na concentração do 1º de Maio no Parque Laleh em Teerão foram presas. Mais de 100 dos detidos continuam presos.
Foi-lhes negada a visita de familiares, e não há informações precisas sobre o seu paradeiro. As famílias dos detidos reúnem-se em frente ao tribunal em Teerão todos os dias para obterem informações sobre os seus entes queridos. Contudo, até agora não receberam nenhuma resposta.

Um movimento de grande escala está a ser formado para se opor a estas detenções. 29 sindicatos e organizações de trabalhadores de diversas cidades iranianas lançaram uma campanha para a libertação destes presos do 1º de Maio. O Comité de Solidariedade Internacional dos Trabalhadores do Partido Comunista dos Trabalhadores do Irão apela a todas as organizações humanitárias do mundo para que se juntem a esta campanha e apoiem as suas reivindicações:

1. A República Islâmica deve ser fortemente condenada pelos ataques atrozes contra as celebrações do 1º de Maio, espancando os participantes e encarcerando-os. Os detidos devem ser libertados imediatamente e incondicionalmente.

2. A República Islâmica é o regime do chicotear, da prisão, da tortura e da execução. O regime Islâmico persegue e encarcera trabalhadores por organizarem os seus sindicatos e celebrarem o 1ºde Maio. Este regime deve ser expulso de todas as instituições internacionais, inclusive da Organização Internacional do Trabalho.

3. O Comité de Solidariedade Internacional dos Trabalhadores pede às organizações laborais de todo o mundo que formem e enviem uma delegação para inspeccionar as prisões e as condições dos detidos do 1º de Maio e que reclamem a libertação imediata e incondicional destes detidos e de todos os outros prisioneiros políticos.

O Comité de Solidariedade Internacional dos Trabalhadores do Partido Comunista dos Trabalhadores do Irão
11 de Maio de 2009

Shahla Daneshfar, Coordenador (Bahram.soroush@gmail.com)

Bahram Soroush, Relações Públicas (Shahla_daneshfar@yahoo.com)

http://www.kargaran.org/international%20labor%20solidarity/may88/may88-tounions.htm

09/04/2009

O Papa Rottweiler ladra e morde

Retirado do Avante de 19 de Março deste ano:

Um artigo do actual papa Bento XVI foi publicado na revista da extrema-direita austríaca, Die Aula, na sua edição de 30 de Setembro de 1997, com conhecimento e autorização expressa do prelado. A notícia foi dada, na segunda-feira, 16, pelo semanário alemão Der Spiegel que revela a correspondência entre o Vaticano e a editora neonazi, em que se prova que o secretário de Ratzinger aprovou a publicação do texto cumprindo ordens do então cardeal.
A revista Dia Aula despertou as atenções após o seu editor, Herwing Nachtmann, ter defendido abertamente, há três anos, o negacionismo do holocausto. O escândalo foi tal que até o malogrado Jörg Haider se distanciou da publicação que havia funcionado até ali como órgão do seu partido.

O artigo em causa pode ser lido em inglês aqui.

Alertado aqui.

07/04/2009

Quando as insurreições morrem V

por Gilles Dauvé

Berlim, 1919-1933

A ditadura vem sempre depois da derrota dos movimentos sociais, anestesiados e massacrados pela democracia, pelos partidos de esquerda e pelos sindicatos. Em Itália, alguns meses separam os últimos fracassos do proletariado e a nomeação do líder fascista como chefe de Estado. Na Alemanha, um fosso de uma dúzia de anos rompe a continuidade e faz com que o 30 de Janeiro de 1933 apareça como um fenómeno essencialmente político ou ideológico ou económico (uma reacção à crise de 29) e não como o efeito de um terramoto social anterior. A base popular do nacional-socialismo e a energia assassina que desencadeou permanecem misteriosos se se ignora a questão do trabalho assalariado, do lugar a atribuir-lhe na sociedade, das suas revoltas ou da sua submissão, forçada ou voluntária.

A derrota alemã de 1918 e a queda do Império pôs em movimento um assalto proletário suficientemente forte para sacudir os alicerces da sociedade, mas impotente para revolucioná-la, promovendo a social-democracia e os sindicatos a pilares centrais do equilíbrio político. Os seus chefes, homens de ordem, muito naturalmente recorrem aos Freikorps, agrupamentos perfeitamente fascistas que contam com muitos futuros nazis nas suas fileiras, para reprimir uma minoria operária radical em nome dos interesses da maioria reformista. Primeiro derrotados pelas regras da democracia burguesa, os comunistas são também derrotados pela democracia da classe operária: os “conselhos operários” entregam a sua confiança às organizações tradicionais e não aos revolucionários, facilmente denunciados como anti-democráticos.

A democracia e a social-democracia são por essa altura indispensáveis ao capitalismo alemão para enquadrar os operários, liquidar o espírito de revolta na cabine de voto, obter dos patrões uma série de reformas e dispersar os revolucionários.

Depois de 1929, pelo contrário, o capitalismo necessita de se concentrar, eliminar uma parte da classe média, disciplinar os proletários, e mesmo a burguesia. O movimento operário, com a sua defesa do pluralismo político e dos interesses operários imediatos, bloqueia a situação. Como mediadores entre o capital e o trabalho, as organizações operárias derivam a sua função dos dois, mas entendem permanecer autónomas em relação a ambos, e ao Estado. A social-democracia só tem sentido como uma força lado a lado com os patrões e o Estado, não como uma força absorvida neles. A sua vocação é gerir uma enorme rede política, municipal, social, mutualista e cultural, e com tudo o que hoje seria chamado de “associativo”. O KPD, por seu lado, rapidamente constituiu a sua própria rede, menor mas mesmo assim vasta. Ora o capital tornando-se mais e mais organizado, tende a juntar todos os fios, levando elementos estatais à empresa, elementos burgueses à burocracia sindical, e elementos sociais à administração. O peso do reformismo operário, presente até no próprio Estado, e a sua existência como uma “contra-sociedade” faz dele um factor de conservadorismo social e de malthusianismo que o capital em crise precisava de eliminar. Expressão da defesa do trabalho assalariado enquanto componente do capital, o SPD e os sindicatos cumpriram uma função anticomunista indispensável em 1918-1921, mas esta mesma razão conduziu-os mais tarde a colocar o interesse da força de trabalho assalariada à frente de tudo, em detrimento da reorganização do capital no seu conjunto.

Um Estado burguês estável teria procurado solucionar o problema por meio de legislação anti-sindical, subjugando as “fortalezas operárias”, e voltando a classe média contra os proletários em nome da modernidade contra o arcaísmo, como se fez muito mais tarde na Inglaterra de Thatcher. Mas tal ofensiva pressupõe que o capital se encontre relativamente unido sob o controle de umas poucas facções dominantes. A burguesia alemã de 1930 estava profundamente dividida, a classe média tinha colapsado, e o Estado-nação estava em frangalhos.

(continua)

06/04/2009

A câmara escura da democracia

(ou A inversão descarada da realidade)

Queria aqui divulgar um texto que demonstra o papel anti-comunista dos sindicatos e partidos de esquerda, nomeadamente o PC, durante a época da Frente Popular em França:

B. Schwartz Juin 36: l’envers du décors (5 páginas, 124 Ko)

É que é à custa de certos esquecimentos que as velhas mentiras podem constantemente apresentar-se em público com a cara lavada. E por falar em amnésia organizada e mentira pura aproveito para escarrar de passagem no Manuel Loff e no colega espanhol que esteve com ele no Câmara Clara[1], esse antro de cultura burguesa, onde ambos assimilaram a revolução espanhola ao totalitarismo, e elogiaram os republicanos não-revolucionários. Que o Loff tenha sublinhado o contributo antifascista do estalinismo, isso não melhora as coisas para o seu lado. Soma a uma mentira outra, que apenas aparenta ser de sinal contrário.

Foi curioso ver o espanhol gaguejar ao referir-se aos anarquistas em plena acusação de totalitarismo aos revolucionários. Que os estalinistas esmagaram a revolução é sabido por todos menos por historiadores democráticos encartados. Nunca a mistificação burguesa atingiu um nível tão baixo.

Pesquisando no Google sobre o assunto, verifiquei que um tal Natureza do Mal, blogue cujo nome não me é estranho, dá nota positiva a um tal revisionismo histórico, que sendo tão grosseiro, o salientar-se as qualificações académicas dos seus autores torna-o ainda mais vergonhoso.

E depois esta gente espanta-se que haja quem use termos tão “antiquados” como burguesia, cultura burguesa, etc. Se não é de espantar que em tempos de consenso social esse seja o da ideologia democrática, só numa situação de profundo totalitarismo a escumalha se junta na TV a proferir mentiras sem esperar réplica. A essa gente não só lhe escapa a natureza de classe dessa cultura sempre apresentada como neutra mas revela-se tão presa da dicotomia simplória totalitarismo-ordem existente que mesmo quando ela é flagrantemente falsa, o maquinismo automático de produção apologética, a famosa cassete que eles só vêem nos adversários, continua a funcionar sem nenhum solavanco. Sendo assim, a quem importa a linguagem sumamente nova dessa bicharada? A novilíngua é parceira da amnésia organizada. Mas essa gente tem o seu próprio Orwell. Além de classificarem erradamente o POUM como troskista (deve ser do rigor historiográfico, rigor mortis quando se trata de abordar os rojos), desencantam um Orwell democrático e antagonista da revolução, porque insistem em identificar a revolução aos estalinistas (que leiam melhor a Homenagem à Catalunha).

Como disse acima, quando o discurso desce ao nível da mentira e se coloca portanto abaixo de qualquer crítica, a única réplica que nos resta é o escarro.


[1] Oh Pimenta, se o Péret dizia que não comia desse pão, tu devias ter-te negado a comer dessa sopa (http://www.youtube.com/watch?v=HePG8fVb8iQ).

01/04/2009

Quando as insurreições morrem III

por Gilles Dauvé

Turim, 1943

Se a democracia italiana praticamente se entregou ao fascismo sem luta, este último engendrou de novo a democracia logo que deixou de corresponder ao equilíbrio das forças sociais e políticas.

Questão central, tanto depois de 1943 como em 1919, era como controlar a classe operária. Em Itália, mais ainda que em outros países, o fim da Segunda Guerra Mundial atesta a dimensão de classe dos conflitos entre estados, que não podem ser explicados apenas pela lógica militar. Uma greve geral estala na FIAT em Outubro de 1942. Em Março de 1943, uma onda de greves sacode Turim e Milão, incluindo tentativas de formar conselhos operários. Em 1943-1945, surgem grupos operários, por vezes independentes do PC, por vezes denominando-se “bordiguistas”, frequentemente, e em simultâneo antifascistas, rossi (vermelhos), e armados. O regime já não mantém o equilíbrio social, enquanto que no mesmo momento a aliança com a Alemanha se torna insustentável devido ao avanço dos anglo-americanos, que todos pressentem como os futuros dominadores da Europa ocidental. Mudar de lado significa aliar-se aos futuros vencedores, mas também canalizar as revoltas operárias e os grupos de partisans para um objectivo patriótico com conteúdo social. No dia 10 de Julho de 1943, os Aliados aterram na Sicília. No dia 24, colocado em minoria por 19 votos contra 17 no Grande Conselho Fascista, Mussolini demite-se. Raramente ditador algum teve que ceder diante da regra da maioria.

O Marechal Badoglio, um dignatário do regime desde o seu apoio à Marcha sobre Roma, e que queria prevenir, nas suas próprias palavras, que “o colapso do regime leve a uma via demasiado à esquerda”, forma um governo que ainda era fascista, mas que já não incluía o Duce, e volta-se para a oposição democrática. Os democratas recusam participar, pondo como condição o afastamento do rei. Depois de um segundo governo de transição, Badoglio forma um terceiro em Abril de 1944, que inclui o líder do Partido Comunista, Togliatti. Sob pressão dos Aliados e do PC, os democratas consentem então em aceitar o rei (a República seria proclamada por referendo em 1946). Mas Badoglio evoca lembranças demasiado más. Em Junho, Bonomi, o mesmo que 23 anos antes enviava por circular os oficiais enquadrarem os fasci, forma o primeiro ministério que exclui os fascistas, e a situação é canalizada para o tripartidismo (PC+PS+Democracia-Cristã) que assumiria um papel dominante tanto em Itália como em França nos primeiros anos do após guerra.

Este jogo da cadeira, com frequência jogado pela mesmíssima classe política, é o pano de cena detrás do qual a democracia se metamorfoseia em ditadura, e vice-versa, segundo o modo como as fases de equilíbrio e desequilíbrio nos conflitos entre classes e nações levam a uma sucessão e recombinação de formas políticas destinadas à manutenção do mesmo Estado, garante do mesmo conteúdo. Ninguém estará mais qualificado para dizê-lo que o PC espanhol, que declarou, por cinismo ou por ingenuidade, durante a transição do franquismo para a monarquia democrática a meados dos anos 70:

“A sociedade espanhola quer que tudo seja transformado de modo a que o funcionamento normal do Estado possa ser assegurado, sem desvios ou convulsões sociais. A continuidade do Estado requer a não continuidade do regime.”

27/03/2009

Quando as insurreiçoes morrem II

por Gilles Dauvé

Roma, 1919-1922

Os países onde o fascismo histórico triunfou são os mesmos nos quais o assalto revolucionário posterior à primeira guerra mundial chegou a uma série de insurreições armadas. Na Itália, é com os seus próprios métodos e objectivos que, uma parte importante do proletariado enfrentou directamente o fascismo. A sua luta não tinha nada especificamente antifascista: lutar contra o capital obrigava os operários e o PC (criado em 1921, e então dirigido por Bordiga) a enfrentar tanto os Camisas Negras como a polícia da democracia parlamentar.

A originalidade do fascismo consiste em dar à contra-revolução uma base de massas e em imitar a revolução. O fascismo desvia a palavra de ordem “transformar a guerra imperialista em guerra civil” contra o movimento operário, e manifesta-se como uma reacção dos veteranos de guerra desmobilizados que regressam à vida civil, onde não são nada, mantidos juntos apenas pela violência colectiva, e dispostos a destruir o que eles imaginam como a causa do seu desenraizamento: desordeiros, subversivos, inimigos da nação, etc. Em Julho de 1918, Mussolini acrescenta ao título do seu jornal, Il Popolo d’ Itália, o subtítulo “Diário dos antigos combatentes e dos produtores”.

Assim, desde o começo, o fascismo transforma-se numa força auxiliar da polícia nas áreas rurais, reprimindo o proletariado agrícola à bala, desenvolvendo ao mesmo tempo uma frenética demagogia anticapitalista. Em 1919 não representa nada: em Milão, nas eleições gerais de Novembro, obteve menos de 5.000 votos, enquanto os socialistas obtiveram 170.000. Mesmo assim exige a abolição da monarquia, do Senado e de todos os títulos de nobreza, o voto para as mulheres, a confiscação da propriedade do clero, e a expropriação dos grandes industriais e latifundiários. Combatendo o operário em nome do “produtor”, Mussolini exalta a memória da Semana Vermelha de 1914 (que tinha visto uma onda de motins, nomeadamente em Ancona e Nápoles), e saúda o papel positivo dos sindicatos quando ligam o operário à nação. O objectivo do fascismo era a restauração autoritária do Estado, com o fim de criar uma nova estrutura estatal capaz (ao contrário da democracia, prometia Mussolini), de colocar limites ao grande capital e controlar a lógica mercantil que corroía os valores, os laços sociais e o trabalho.

Tradicionalmente, a burguesia negava a realidade das contradições sociais; o fascismo, pelo contrário, proclamou-as com violência, negando a sua existência entre as classes e transferindo-as para a luta entre nações, denunciando o destino da Itália como uma “nação proletária”. Mussolini era arcaico na medida em que se reclamava de valores tradicionais arruinados pelo capital, e era moderno na medida em que afirmava os direitos dos trabalhadores na sociedade.

Quem derrotou os proletários? A repressão fascista desencadeia-se depois de uma tentativa proletária falhada cujo principal artesão foi a democracia e as suas opções de reserva: os partidos e os sindicatos, que por si mesmos podem derrotar os operários empregando ao mesmo tempo métodos directos e indirectos. A chegada ao poder do fascismo não foi a culminação dos combates de rua. Os proletários alemães foram esmagados 11 ou 12 anos antes, e em Itália foram-no tanto nas urnas como pelas armas.

Em 1919, juntando elementos preexistentes com outros próximos dele, Mussolini funda os seus fasci. Contra as matracas e os revólveres, enquanto a Itália e o resto da Europa explodem, a democracia apela… ao voto, donde emerge uma maioria socialista e moderada.

“Lançar-se nas grandes saturnais eleitorais, em 1919, significava varrer todos os obstáculos da rota do fascismo que, enquanto as massas estavam cloroformizadas na expectativa da grande prova parlamentar, ele queimava as etapas, por sua vez (…) A vitória, a eleição de 150 deputados socialistas, foi ganha à custa do refluxo do movimento insurreccional e da greve geral política, e da perda das próprias conquistas reivindicativas conseguidas anteriormente (…)”, comentará Bordiga 40 anos depois.

Durante as ocupações de fábrica de 1920, o Estado, evitando realizar um assalto frontal, deixou que o proletariado se esgotasse, com o apoio da C.G.L. (central sindical de maioria socialista), que empregou uma política de desgaste para as greves, quando não as quebrou abertamente.

Em seguida, patrões e sindicatos entendem-se entre si para institucionalizar um “controle operário” supervisionado pelo Estado.

Desde o aparecimento dos fasci que a polícia ou faz vista grossa quando eles saqueiam as Casas do Povo, ou confiscam as arma aos operários. Os tribunais mostraram-lhes a maior indulgência, e o exército tolera as suas exacções, quando não as auxilia. Este apoio aberto mas oficioso tornou-se quase oficial com a “circular Bonomi”. Excluído do PSI em 1912 (por Mussolini, precisamente) pelo seu apoio à guerra contra a Líbia, Bonomi, depois de vários cargos ministeriais, torna-se chefe do governo em 1921-22. A sua circular de 20 de Outubro de 1921 coloca 60.000 oficiais desmobilizados nos grupos de assalto de Mussolini para lhes assumir o comando.

Que fazem os partidos? Os liberais aliados com a direita não hesitam em formar um “bloco nacional”, incluindo os fascistas, para as eleições de Maio de 1921. Em Junho-Julho do mesmo ano, o PSI conclui um “pacto de pacificação ” totalmente vão face a um adversário que não está minimamente disposto a cumprir a palavra, e cujo único efeito concreto foi desorientar os operários.

Até Agosto de 1922, o fascismo mal existe fora das regiões agrárias, principalmente no norte, onde erradica todo o sindicalismo autónomo dos operários agrícolas. Se em 1919, os fascistas incendeiam a sede do diário socialista, não se atreveram a atacar as greves em 1920, e até deram apoio verbal às reivindicações dos operários. Nas áreas urbanas, os fasci raramente dominam. A sua “Marcha sobre Ravena” (Setembro de 1921) foi facilmente derrotada. Em Novembro de 1921, em Roma, uma greve geral impediu a comemoração de um congresso fascista. Em Maio de 1922, os fascistas tentaram outra vez, e de novo foram impedidos.

O cenário varia pouco. A um ataque fascista localizado segue-se uma resposta operária eficaz, mas que cessa (depois dos conselhos de moderação do movimento operário reformista) logo que a pressão reaccionária abranda; confiando os proletários nos democratas para pôr os grupos armados na ordem. A ameaça fascista retrocede, reagrupa-se e dirige-se para outro lugar… acabando por se tornar credível perante um Estado do qual as massas esperam a solução. Os proletários não hesitem em arranjar armas e em servir-se delas, transformando em bastião mais de uma Bolsa do Trabalho ou duma Casa di Popolo, embora reconhecendo melhor o inimigo na camisa negra do arruaceiro de matraca que na forma “normal” do polícia ou do soldado, coberto por uma legalidade sancionada pelo hábito, a lei e o sufrágio universal.

No início de Julho de 1922, a C.G.L., por uma maioria de dois terços (contra o terço minoritário comunista), declarou o seu apoio a “qualquer governo que garanta a restauração das liberdades básicas”. No mesmo mês, os fascistas multiplicam as suas tentativas de penetrar nas cidades do norte…

No dia 1 de Agosto, a Aliança do Trabalho, que incluía o sindicato dos ferroviários, a C.G.L. e a anarquista U.S.I., proclamaram uma greve geral. Apesar do grande sucesso que obteve, a Aliança suspendeu a greve oficialmente no terceiro dia. Em numerosas cidades, no entanto, continuou em forma insurreccional, sendo finalmente contida por um esforço combinado da polícia e dos militares, apoiados por canhões navais, e, claro, com o reforço dos fascistas.

Quem derrotou esta energia proletária? A greve geral foi quebrada pelo Estado e pelos fasci mas foi também sufocada pela democracia, e o seu fracasso abriu o caminho a uma solução fascista para a crise.

O que seguiu não foi tanto um golpe de Estado mas uma transferência de poder com o apoio de um amplo leque de forças. A “Marcha sobre Roma” do Duce (que se limitou a apanhar o comboio) foi menos um confronto que um gesto teatral: os fascistas fazem que assaltam o Estado que por sua vez faz de conta que se defende, e Mussolini assume o poder. O seu ultimato de Outubro de 24 (“Queremos converter-nos no Estado!”) não é uma ameaça de guerra civil, mas um sinal à classe dirigente que o Partido Nacional Fascista representa a única força capaz de restaurar a autoridade estatal e de assegurar a unidade política do país. O exército podia ainda pôr na ordem os grupos fascistas reunidos em Roma, mal equipados e notoriamente inferiores a nível militar, e o Estado podia não ceder à pressão sediciosa. Mas o jogo não se jogava no plano militar. Sob a influência, nomeadamente, de Badoglio (o chefe do Estado Maior em 1919-1921) a autoridade legítima cede. O rei recusa proclamar o estado de sítio, e no dia 30 pede ao Duce que forme um novo governo, no qual participam os liberais – os mesmos que o antifascismo invoca como aliados contra o fascismo. Exceptuando os socialistas e comunistas, todos os partidos procuraram aproximar-se do PNF e votaram a favor de Mussolini: o parlamento, com apenas 35 deputados fascistas, concede-lhe a investidura por 306 votos a favor e 116 contra. O próprio Giolitti, a grande figura liberal daqueles tempos, um reformador autoritário que várias vezes presidiu o conselho de estado antes da guerra e de novo chefe de Estado em 1920-1921, em quem é de bom tom ver retrospectivamente o único político capaz de se opor a Mussolini, apoiou-o até 1924. O ditador não só recebeu o poder da democracia; mas a democracia ratificou-o.

Face à tempestade que se levanta (brevemente 17.000 ferroviários serão despedidos, os jornais comunistas invadidos e depois proibidos, detenções às centenas e depois aos milhares), o PC propõe uma greve geral para 26 de Outubro, ao que a CGL responde:

“Num momento em que as paixões políticas se exacerbam, e em que duas forças estranhas aos sindicatos disputam ferozmente o poder, a CGL sente-se no dever de prevenir os trabalhadores contra as especulações dos partidos ou de agrupamentos políticos que visam arrastar o proletariado para uma luta à qual ele deve permanecer completamente alheio se não quer comprometer a sua independência.”

Perante uma reacção obviamente política, a C.G.L. declara-se apolítica e espera um mínimo de tolerância por parte do novo poder. O sonho será breve. Nos meses que se seguem, vários sindicatos, entre eles o dos ferroviários e dos marinheiros, julgarão conveniente declararem-se nacionais, não hostis à pátria e portanto ao regime – mas a repressão não os vai poupar.

27/03/2009

Quando as insurreições morrem I

por Gilles Dauvé

Brest-Litovsk 1917 e 1939

“Se a revolução russa se tornar o sinal de uma revolução proletária no Ocidente, de tal modo que ambas se completem, a actual propriedade comum russa do solo pode servir de ponto de partida de um desenvolvimento comunista.”
Marx e Engels, Prefácio à edição russa do manifesto comunista, 1882

Esta perspectiva não se realizou. O proletariado industrial europeu falhou o seu encontro com uma comuna rural russa revitalizada.

Polónia, Brest-Litovsk, Dezembro de 1917: os bolcheviques propõem a paz sem anexações a uma a Alemanha decidida a tomar para si uma grande porção do velho Império Czarista, desde a Finlândia até ao Cáucaso. Mas em Fevereiro de 1918, os soldados alemães, apesar de serem “proletários em uniforme”, obedecem aos seus oficiais e retomam a ofensiva contra uma Rússia que era soviética. Nenhuma confraternização ocorre, e a guerra revolucionária advogada pela esquerda bolchevique revela-se impraticável. Em Março, Trotsky tem que assinar um tratado de paz ditado pelos generais do Kaiser. “Trocamos espaço por tempo”, disse Lenine, e de facto, em Novembro, a derrota alemã transforma o tratado num simples pedaço de papel. No entanto, a prova prática da união internacional dos explorados não se materializou. Alguns meses depois, de volta à vida civil com o fim da guerra, estes mesmos proletários enfrentam o movimento operário oficial aliado aos Freikorps. Derrotas em Berlim, na Baviera e depois na Hungria em 1919; derrota do Exército Vermelho do Ruhr em 1920; derrota da Acção de Março em 1921…

Setembro de 1939. Hitler e Estaline acabam de dividir entre si a Polónia. Na ponte-fronteira de Brest-Litovsk, várias centenas de membros do KPD refugiados na URSS, depois detidos como “contra-revolucionários” ou “fascistas”, são tirados das prisões estalinistas e entregues à Gestapo. Um dos fugitivos, mais tarde, podia exibir as cicatrizes nas costas (“isto foi obra do GPU”) e as unhas arrancadas (“isto foi a Gestapo”). Belo resumo da primeira metade do século.

1917-1937, vinte anos que sacudiram o mundo. O cortejo de horrores do fascismo, depois a Segunda Guerra Mundial e as subsequentes convulsões, são os efeitos de uma crise social gigantesca inaugurada com os motins de 1917 e encerrada pela Guerra de Espanha (*).

“Fascismo e Grande Capital”

É um lugar comum ver no fascismo um desencadear da repressão estatal ao serviço das classes dominantes. Segundo a fórmula tornada célebre por Daniel Guérin desde os anos trinta, o fascismo é igual ao grande capital. Segue-se então logicamente que a única maneira de liquidar o fascismo é acabar com o capitalismo.

Até aqui, tudo bem. Desafortunadamente, em 99% dos casos esta lógica perverte-se: se o fascismo é o que o capitalismo produz de pior, deve-se fazer de tudo para prevenir que este pior aconteça, quer dizer, fazer tudo para favorecer um capitalismo não fascista. Já que o capitalismo é a reacção, tente-se promover o capitalismo sob formas não reaccionárias, não autoritárias, não xenófobas, não militaristas, não racistas, noutras palavras, um capitalismo mais moderno, mais… capitalista.

Enquanto repete que o fascismo serve os interesses do “grande capital”, o antifascismo apressa-se a acrescentar que, apesar de tudo, o fascismo poderia ter sido evitado em 1922 ou 1933 se o movimento operário e/ou os democratas tivessem exercido uma pressão suficiente para lhe barrar a porta do poder. Se, em 1921, o Partido Socialista Italiano e o recém fundado Partido Comunista de Itália se tivessem aliado aos republicanos para deter Mussolini… se, no início dos anos trinta, o KPD não tivesse lançado uma luta fratricida contra o SPD, a Europa teria sido poupada a uma das ditaduras mais ferozes da história, a uma segunda guerra mundial, a um império nazi de dimensões quase continentais, aos campos de concentração e à exterminação dos judeus.

Para lá das suas observações bastante correctas sobre as classes, o Estado, e os laços entre o fascismo e a grande indústria, esta visão não tem em conta que o fascismo resultou de um duplo fracasso: o fracasso dos revolucionários depois da primeira Guerra Mundial, esmagados pela social-democracia e pela democracia parlamentar, e depois, ao longo dos anos 20, o fracasso dos democratas e dos social-democratas em gerir o capital. Sem uma compreensão efectiva do período precedente assim como da fase prévia da luta de classes e dos seus limites, não se pode entender nem a natureza do fascismo nem a sua ascensão ao poder. De resto não é um acaso se Daniel Guérin se engana, tanto sobre a Frente Popular que ele vê como uma “revolução falhada”, como sobre a natureza profunda do fascismo.(1)

Que há na base do fascismo senão a unificação política e económica do capital, uma tendência que se tornou geral a partir de 1914? O fascismo foi um modo particular de realizar essa unidade em países – a Itália e a Alemanha – onde, mesmo apesar da revolução ter sido derrotada, o Estado era incapaz de fazer reinar a ordem, inclusivamente nas fileiras da burguesia.

Mussolini não é Thiers, bem assente no poder, ordenando a forças armadas regulares que massacrem os comuneiros. Um aspecto essencial do fascismo é o seu nascimento nas ruas, o seu uso da desordem para impor a ordem, mobilizando as velhas classes médias enraivecidas pela sua ruína, e regenerando de fora um Estado incapaz de lidar com a crise do capitalismo. (2)

O fascismo foi um esforço da burguesia para resolver pela força as suas próprias contradições, para usar a seu favor os métodos operários de mobilização de massas, e empregar todos os recursos do Estado moderno, primeiro contra um inimigo interno, depois contra um externo.

Esta foi, com efeito, uma crise do Estado durante a transição para a dominação total da sociedade pelo capital. Primeiro, as organizações operárias tinham sido necessárias para enfrentar o levantamento proletário; em seguida foi necessário o fascismo para acabar com a desordem que se sucedeu. Esta desordem não era, certamente, revolucionária, mas era paralisante, e um obstáculo às soluções que, desde logo, só poderiam ser violentas. A crise não foi efectivamente superada nessa época; o Estado fascista era eficiente apenas aparentemente, integrando à força os assalariados (corporações italianas, Frente do Trabalho Alemã), sepultando artificialmente os conflitos para os projectar numa fuga em frente militarista. Mas a crise foi superada, relativamente, pelo Estado democrático tentacular estabelecido em 1945, que potencialmente se apropriou de todos os métodos do fascismo, e acrescentou alguns próprios, já que neutraliza as organizações operárias sem as destruir. O parlamento perdeu o controle sobre o executivo. Através do Welfare ou do Workfare(**), através de técnicas modernas de vigilância ou por meio da assistência estatal estendida a milhões de indivíduos, resumindo, por um sistema que torna toda a gente cada vez mais dependente, a unificação social ultrapassa a que foi conseguida pelo terror fascista, mas o fascismo como movimento específico desapareceu. Correspondeu à disciplina forçada da burguesia, sob a pressão do Estado, no contexto particular de Estados recentes que experimentavam as maiores dificuldades em serem também nações.

A burguesia tomou de empréstimo até o nome às organizações operárias, que por vezes eram chamadas fasci (feixes) na Itália. É significativo que o fascismo se definiu antes de mais como uma forma de organização e não como um programa. A palavra referia-se tanto a um símbolo de poder estatal (os feixes levados perante um alto dignatário na Antiga Roma), como à vontade de reunir todos os italianos como se ligam os feixes. O único programa do fascismo é organizar, fazer convergir pela força os componentes que compõem a sociedade.

A ditadura não é uma arma do capital (como se o capital pudesse substituí-la por outras armas menos mortíferas); a ditadura é uma de suas tendências, uma tendência que se torna efectiva quando necessário. Um “retorno” à democracia parlamentar, como ocorreu (por exemplo) na Alemanha depois de 1945, indica que a ditadura é inútil para integrar as massas no Estado (até à próxima vez). O problema não é portanto que a democracia assegure uma dominação mais suave que a ditadura; qualquer um preferiria ser explorado à sueca a ser sequestrado pelos esbirros de Pinochet. Mas pode-se ESCOLHER? Mesmo a suave democracia escandinava seria transformada em ditadura se as circunstâncias o exigissem. O Estado só pode ter uma função, que pode ser levada a cabo democraticamente ou ditatorialmente. O facto de a primeira ser menos rude não significa que seja possível reorientar o Estado para prescindir da última. As formas que toma o capitalismo não dependem das preferências dos assalariados nem das intenções da burguesia. Weimar capitulou perante Hitler, abriu-lhe os braços. E a Frente Popular de Leon Blum não “evitou o fascismo”, já que em 1936 a França não tinha nenhuma necessidade nem de uma unificação autoritária do capital nem de reduzir as suas classes médias. Não há nenhuma “opção” política à qual os proletários poderiam ser atraídos ou que eles poderiam impor pela força. A democracia não é a ditadura, mas a democracia prepara o terreno para a ditadura, e prepara-se a si mesma para a ditadura.

A essência do antifascismo consiste em resistir ao fascismo defendendo a democracia; já não se trata de lutar contra o capitalismo, mas de o pressionar o suficiente para que renuncie a tornar-se totalitário. Sendo o socialismo identificado com a democracia total, e o capitalismo com uma tendência crescente ao fascismo, os antagonismos entre proletariado e capital, comunismo e salariado, proletariado e Estado, são rejeitados em favor duma oposição entre democracia e fascismo apresentada como a quinta-essência da perspectiva revolucionária. A esquerda e a extrema-esquerda oficiais dizem-nos que uma verdadeira mudança seria a realização, por fim, dos ideais de 1789, traídos continuamente pela burguesia. O mundo novo? Mas ele já está aqui, até certo ponto, em embriões que devem ser preservados, em germens a fazer crescer: os direitos democráticos já existentes devem ser impulsionados uma e outra vez dentro de uma sociedade infinitamente aperfeiçoável, com dose diárias cada vez maiores de democracia, até à democracia completa, o socialismo.

Desta maneira, reduzida à resistência antifascista, a crítica social é levada a aproximar-se de tudo o que outrora denunciou, e a abandonar nada mais nada menos que aquela velharia, a revolução, e a abraçar o gradualismo, uma variante da “transição pacífica para o socialismo”, defendida em tempos pelos Partidos Comunistas, e objecto de zombaria, antes de 1968, por qualquer pessoa que quisesse mudar o mundo. O retrocesso é palpável.

Não vamos cair no ridículo de acusar a esquerda e a extrema-esquerda de terem abandonado uma perspectiva comunista que na realidade só conheciam para a combater. Que o antifascismo renuncia à revolução, isso é evidente. Mas falha também, exactamente onde seu “realismo” afirma ser efectivo: em prevenir uma possível mutação ditatorial da sociedade.

A democracia burguesa é uma fase da tomada do poder pelo capital, e sua extensão no século vinte completa a dominação do capital intensificando o isolamento dos indivíduos. Remédio à separação entre o homem e a comunidade, entre a actividade humana e a sociedade, e entre as classes, a democracia nunca será capaz de solucionar o problema da sociedade mais separada da história. Como forma eternamente incapaz de modificar seu conteúdo, a democracia é só uma parte do problema do qual afirma ser a solução. Cada vez que tenta reforçar o “vínculo social”, a democracia acompanha a sua dissolução. Cada vez que trata de paliar as disfunções mercantis, fá-lo estreitando a malha da rede estatal estendida sobre as relações sociais.

Os antifascistas para serem credíveis, mesmo no nível desesperadamente resignado em que se colocam, têm que explicar-nos como uma vida democrática local é compatível com a colonização da mercadoria que esvazia os espaços de encontro e enche os centros comerciais. Eles têm que explicar como um Estado omnipresente do qual se espera tudo, protecção e assistência, esta verdadeira máquina de produzir o “bem” social, não fará o “mal ” logo que contradições extraordinárias o exijam para restaurar a ordem. O fascismo é a adulação do monstro estatal, enquanto o antifascismo é a sua apologia mais subtil. A luta por um Estado democrático é inevitavelmente uma luta para consolidar o Estado, e em vez de extirpar as raízes do totalitarismo, tal luta aguça as garras que ele projecta sobre a sociedade.

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