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03/04/2009

Quando as insurreições morrem IV

por Gilles Dauvé

VOLKSGEMEINSCHAFT versus GEMEINWESEN

A contra-revolução inevitavelmente triunfa no terreno da revolução. Através da sua “comunidade do povo”, o nacional-socialismo pretenderá eliminar o parlamentarismo e a democracia burguesa contra os quais o proletariado se tinha insurgido depois de 1917. Mas a revolução conservadora retomará também velhas tendências anticapitalistas (regresso à natureza, a fuga às cidades…) que os partidos operários, mesmo os extremistas, tinham negado ou estimado mal a sua importância pela sua incapacidade de integrar a dimensão aclassista e comunitária do proletariado, pela sua incapacidade para criticar a economia, e pela sua incapacidade para pensar no mundo do futuro como algo mais que uma mera extensão da grande indústria. Na primeira metade do século dezanove, estes temas estavam no centro das preocupações do movimento socialista, antes de ser abandonados pelo “marxismo” em nome do progresso e da Ciência, não sobrevivendo senão no anarquismo ou nas seitas (5).

Volksgemeinschaft versus Gemeinwesen, comunidade do povo ou comunidade humana… 1933 não foi a derrota mas a consumação da derrota. O nazismo surgiu e triunfou para estancar, resolver e fechar uma crise social tão profunda que ainda não apreciamos totalmente a sua magnitude. A Alemanha, o berço da social-democracia maior do mundo, também deu lugar ao movimento mais fortemente radical, antiparlamentar, e antisindicalista, que aspirava a um “mundo operário” mas que também era capaz de atrair muitas outras contestações antiburguesas e anticapitalistas. A presença de artistas de vanguarda nas fileiras da “esquerda radical alemã” não é acidental. Assinala que o capital está a ser a posto em causa enquanto “civilização” no sentido em que Fourier o fazia. Perda da comunidade, individualismo e gregarismo, miséria sexual, família desarticulada mas valorizada como refúgio, o afastamento da natureza, a comida industrializada, a artificialidade crescente, a “proteízação” do homem (***), o correr atrás do tempo, a morte da arte, relações sociais cada vez mais mediadas pelo dinheiro e pela técnica: todas estas alienações passam então pelo fogo duma crítica confusa e multiforme. Só um olhar retrospectivo superficial pode prever nessa crítica a sua recuperação inevitável.

A contra-revolução só triunfou nos anos 20, na Alemanha e nos Estados Unidos, inaugurando o despontar duma sociedade de consumo e fordista, arrastando milhões de alemães, inclusive os operários, para uma modernidade industrial e mercantil. Foram dez anos de reinado frágil, como o demonstra a louca hiperinflação de 1923. Em 1929 seguiu-se-lhe um enorme terramoto, no qual não foi a prática proletária mas a própria prática capitalista a que rejeitou a sua ideologia dum progresso oferecendo a todos um consumo crescente de objectos e signos.

O extremismo nazi, e a violência que desencadeou, foram adequados à profundidade do movimento revolucionário que ele retoma e nega, e a estas duas rebeliões, separadas por 10 anos, contra a modernidade capitalista, primeiro pelos proletários e depois pelo capital. Como os radicais de 1919-1921, o nazismo propõe uma comunidade de operários assalariados, mas uma que era autoritária, fechada, nacional e racial, e consegue, durante 12 anos, transformar os proletários em assalariados e soldados.

O fascismo é produto dum capitalismo que arruína as relações anteriores sem conseguir substituí-las por aquelas que acompanham a comunidade mercantil. Hitler pode muito bem ter-se inspirado em épocas passadas mas não deixa de nascer das contradições do mundo moderno.

*** De Proteu, figura da mitologia grega que possuía a faculdade de se metamorfosear. A transformação do homem, em resultado da perda de sistemas de referência mais ou menos sólidos, num ser instável, que muda com ligeireza as suas fidelidades, afectos e maneiras de pensar. Nota do tradutor.

27/03/2009

Quando as insurreições morrem I

por Gilles Dauvé

Brest-Litovsk 1917 e 1939

“Se a revolução russa se tornar o sinal de uma revolução proletária no Ocidente, de tal modo que ambas se completem, a actual propriedade comum russa do solo pode servir de ponto de partida de um desenvolvimento comunista.”
Marx e Engels, Prefácio à edição russa do manifesto comunista, 1882

Esta perspectiva não se realizou. O proletariado industrial europeu falhou o seu encontro com uma comuna rural russa revitalizada.

Polónia, Brest-Litovsk, Dezembro de 1917: os bolcheviques propõem a paz sem anexações a uma a Alemanha decidida a tomar para si uma grande porção do velho Império Czarista, desde a Finlândia até ao Cáucaso. Mas em Fevereiro de 1918, os soldados alemães, apesar de serem “proletários em uniforme”, obedecem aos seus oficiais e retomam a ofensiva contra uma Rússia que era soviética. Nenhuma confraternização ocorre, e a guerra revolucionária advogada pela esquerda bolchevique revela-se impraticável. Em Março, Trotsky tem que assinar um tratado de paz ditado pelos generais do Kaiser. “Trocamos espaço por tempo”, disse Lenine, e de facto, em Novembro, a derrota alemã transforma o tratado num simples pedaço de papel. No entanto, a prova prática da união internacional dos explorados não se materializou. Alguns meses depois, de volta à vida civil com o fim da guerra, estes mesmos proletários enfrentam o movimento operário oficial aliado aos Freikorps. Derrotas em Berlim, na Baviera e depois na Hungria em 1919; derrota do Exército Vermelho do Ruhr em 1920; derrota da Acção de Março em 1921…

Setembro de 1939. Hitler e Estaline acabam de dividir entre si a Polónia. Na ponte-fronteira de Brest-Litovsk, várias centenas de membros do KPD refugiados na URSS, depois detidos como “contra-revolucionários” ou “fascistas”, são tirados das prisões estalinistas e entregues à Gestapo. Um dos fugitivos, mais tarde, podia exibir as cicatrizes nas costas (“isto foi obra do GPU”) e as unhas arrancadas (“isto foi a Gestapo”). Belo resumo da primeira metade do século.

1917-1937, vinte anos que sacudiram o mundo. O cortejo de horrores do fascismo, depois a Segunda Guerra Mundial e as subsequentes convulsões, são os efeitos de uma crise social gigantesca inaugurada com os motins de 1917 e encerrada pela Guerra de Espanha (*).

“Fascismo e Grande Capital”

É um lugar comum ver no fascismo um desencadear da repressão estatal ao serviço das classes dominantes. Segundo a fórmula tornada célebre por Daniel Guérin desde os anos trinta, o fascismo é igual ao grande capital. Segue-se então logicamente que a única maneira de liquidar o fascismo é acabar com o capitalismo.

Até aqui, tudo bem. Desafortunadamente, em 99% dos casos esta lógica perverte-se: se o fascismo é o que o capitalismo produz de pior, deve-se fazer de tudo para prevenir que este pior aconteça, quer dizer, fazer tudo para favorecer um capitalismo não fascista. Já que o capitalismo é a reacção, tente-se promover o capitalismo sob formas não reaccionárias, não autoritárias, não xenófobas, não militaristas, não racistas, noutras palavras, um capitalismo mais moderno, mais… capitalista.

Enquanto repete que o fascismo serve os interesses do “grande capital”, o antifascismo apressa-se a acrescentar que, apesar de tudo, o fascismo poderia ter sido evitado em 1922 ou 1933 se o movimento operário e/ou os democratas tivessem exercido uma pressão suficiente para lhe barrar a porta do poder. Se, em 1921, o Partido Socialista Italiano e o recém fundado Partido Comunista de Itália se tivessem aliado aos republicanos para deter Mussolini… se, no início dos anos trinta, o KPD não tivesse lançado uma luta fratricida contra o SPD, a Europa teria sido poupada a uma das ditaduras mais ferozes da história, a uma segunda guerra mundial, a um império nazi de dimensões quase continentais, aos campos de concentração e à exterminação dos judeus.

Para lá das suas observações bastante correctas sobre as classes, o Estado, e os laços entre o fascismo e a grande indústria, esta visão não tem em conta que o fascismo resultou de um duplo fracasso: o fracasso dos revolucionários depois da primeira Guerra Mundial, esmagados pela social-democracia e pela democracia parlamentar, e depois, ao longo dos anos 20, o fracasso dos democratas e dos social-democratas em gerir o capital. Sem uma compreensão efectiva do período precedente assim como da fase prévia da luta de classes e dos seus limites, não se pode entender nem a natureza do fascismo nem a sua ascensão ao poder. De resto não é um acaso se Daniel Guérin se engana, tanto sobre a Frente Popular que ele vê como uma “revolução falhada”, como sobre a natureza profunda do fascismo.(1)

Que há na base do fascismo senão a unificação política e económica do capital, uma tendência que se tornou geral a partir de 1914? O fascismo foi um modo particular de realizar essa unidade em países – a Itália e a Alemanha – onde, mesmo apesar da revolução ter sido derrotada, o Estado era incapaz de fazer reinar a ordem, inclusivamente nas fileiras da burguesia.

Mussolini não é Thiers, bem assente no poder, ordenando a forças armadas regulares que massacrem os comuneiros. Um aspecto essencial do fascismo é o seu nascimento nas ruas, o seu uso da desordem para impor a ordem, mobilizando as velhas classes médias enraivecidas pela sua ruína, e regenerando de fora um Estado incapaz de lidar com a crise do capitalismo. (2)

O fascismo foi um esforço da burguesia para resolver pela força as suas próprias contradições, para usar a seu favor os métodos operários de mobilização de massas, e empregar todos os recursos do Estado moderno, primeiro contra um inimigo interno, depois contra um externo.

Esta foi, com efeito, uma crise do Estado durante a transição para a dominação total da sociedade pelo capital. Primeiro, as organizações operárias tinham sido necessárias para enfrentar o levantamento proletário; em seguida foi necessário o fascismo para acabar com a desordem que se sucedeu. Esta desordem não era, certamente, revolucionária, mas era paralisante, e um obstáculo às soluções que, desde logo, só poderiam ser violentas. A crise não foi efectivamente superada nessa época; o Estado fascista era eficiente apenas aparentemente, integrando à força os assalariados (corporações italianas, Frente do Trabalho Alemã), sepultando artificialmente os conflitos para os projectar numa fuga em frente militarista. Mas a crise foi superada, relativamente, pelo Estado democrático tentacular estabelecido em 1945, que potencialmente se apropriou de todos os métodos do fascismo, e acrescentou alguns próprios, já que neutraliza as organizações operárias sem as destruir. O parlamento perdeu o controle sobre o executivo. Através do Welfare ou do Workfare(**), através de técnicas modernas de vigilância ou por meio da assistência estatal estendida a milhões de indivíduos, resumindo, por um sistema que torna toda a gente cada vez mais dependente, a unificação social ultrapassa a que foi conseguida pelo terror fascista, mas o fascismo como movimento específico desapareceu. Correspondeu à disciplina forçada da burguesia, sob a pressão do Estado, no contexto particular de Estados recentes que experimentavam as maiores dificuldades em serem também nações.

A burguesia tomou de empréstimo até o nome às organizações operárias, que por vezes eram chamadas fasci (feixes) na Itália. É significativo que o fascismo se definiu antes de mais como uma forma de organização e não como um programa. A palavra referia-se tanto a um símbolo de poder estatal (os feixes levados perante um alto dignatário na Antiga Roma), como à vontade de reunir todos os italianos como se ligam os feixes. O único programa do fascismo é organizar, fazer convergir pela força os componentes que compõem a sociedade.

A ditadura não é uma arma do capital (como se o capital pudesse substituí-la por outras armas menos mortíferas); a ditadura é uma de suas tendências, uma tendência que se torna efectiva quando necessário. Um “retorno” à democracia parlamentar, como ocorreu (por exemplo) na Alemanha depois de 1945, indica que a ditadura é inútil para integrar as massas no Estado (até à próxima vez). O problema não é portanto que a democracia assegure uma dominação mais suave que a ditadura; qualquer um preferiria ser explorado à sueca a ser sequestrado pelos esbirros de Pinochet. Mas pode-se ESCOLHER? Mesmo a suave democracia escandinava seria transformada em ditadura se as circunstâncias o exigissem. O Estado só pode ter uma função, que pode ser levada a cabo democraticamente ou ditatorialmente. O facto de a primeira ser menos rude não significa que seja possível reorientar o Estado para prescindir da última. As formas que toma o capitalismo não dependem das preferências dos assalariados nem das intenções da burguesia. Weimar capitulou perante Hitler, abriu-lhe os braços. E a Frente Popular de Leon Blum não “evitou o fascismo”, já que em 1936 a França não tinha nenhuma necessidade nem de uma unificação autoritária do capital nem de reduzir as suas classes médias. Não há nenhuma “opção” política à qual os proletários poderiam ser atraídos ou que eles poderiam impor pela força. A democracia não é a ditadura, mas a democracia prepara o terreno para a ditadura, e prepara-se a si mesma para a ditadura.

A essência do antifascismo consiste em resistir ao fascismo defendendo a democracia; já não se trata de lutar contra o capitalismo, mas de o pressionar o suficiente para que renuncie a tornar-se totalitário. Sendo o socialismo identificado com a democracia total, e o capitalismo com uma tendência crescente ao fascismo, os antagonismos entre proletariado e capital, comunismo e salariado, proletariado e Estado, são rejeitados em favor duma oposição entre democracia e fascismo apresentada como a quinta-essência da perspectiva revolucionária. A esquerda e a extrema-esquerda oficiais dizem-nos que uma verdadeira mudança seria a realização, por fim, dos ideais de 1789, traídos continuamente pela burguesia. O mundo novo? Mas ele já está aqui, até certo ponto, em embriões que devem ser preservados, em germens a fazer crescer: os direitos democráticos já existentes devem ser impulsionados uma e outra vez dentro de uma sociedade infinitamente aperfeiçoável, com dose diárias cada vez maiores de democracia, até à democracia completa, o socialismo.

Desta maneira, reduzida à resistência antifascista, a crítica social é levada a aproximar-se de tudo o que outrora denunciou, e a abandonar nada mais nada menos que aquela velharia, a revolução, e a abraçar o gradualismo, uma variante da “transição pacífica para o socialismo”, defendida em tempos pelos Partidos Comunistas, e objecto de zombaria, antes de 1968, por qualquer pessoa que quisesse mudar o mundo. O retrocesso é palpável.

Não vamos cair no ridículo de acusar a esquerda e a extrema-esquerda de terem abandonado uma perspectiva comunista que na realidade só conheciam para a combater. Que o antifascismo renuncia à revolução, isso é evidente. Mas falha também, exactamente onde seu “realismo” afirma ser efectivo: em prevenir uma possível mutação ditatorial da sociedade.

A democracia burguesa é uma fase da tomada do poder pelo capital, e sua extensão no século vinte completa a dominação do capital intensificando o isolamento dos indivíduos. Remédio à separação entre o homem e a comunidade, entre a actividade humana e a sociedade, e entre as classes, a democracia nunca será capaz de solucionar o problema da sociedade mais separada da história. Como forma eternamente incapaz de modificar seu conteúdo, a democracia é só uma parte do problema do qual afirma ser a solução. Cada vez que tenta reforçar o “vínculo social”, a democracia acompanha a sua dissolução. Cada vez que trata de paliar as disfunções mercantis, fá-lo estreitando a malha da rede estatal estendida sobre as relações sociais.

Os antifascistas para serem credíveis, mesmo no nível desesperadamente resignado em que se colocam, têm que explicar-nos como uma vida democrática local é compatível com a colonização da mercadoria que esvazia os espaços de encontro e enche os centros comerciais. Eles têm que explicar como um Estado omnipresente do qual se espera tudo, protecção e assistência, esta verdadeira máquina de produzir o “bem” social, não fará o “mal ” logo que contradições extraordinárias o exijam para restaurar a ordem. O fascismo é a adulação do monstro estatal, enquanto o antifascismo é a sua apologia mais subtil. A luta por um Estado democrático é inevitavelmente uma luta para consolidar o Estado, e em vez de extirpar as raízes do totalitarismo, tal luta aguça as garras que ele projecta sobre a sociedade.

25/03/2009

Comuna de Kronstadt

Tradução do Coletivo Contraacorrente

Publicamos o diário de Alexandre Berkman, observador das jornadas que antecederam os ataques do governo bolchevique à Comuna de Kronstadt em 1921, um dos episódios mais importantes para os rumos da Revolução Russa.

A Comuna de Kronstadt

A Comuna de Kronstadt, na versão dos bolcheviques, foi parte de uma conspiração branca contra o poder dos sovietes, essa impressionante formulação organizativa que o proletariado inventou ao fazer a Revolução Russa. Na versão bolchevique, os marinheiros de Kronstadt não passavam de traidores e provocadores de desordens que alçaram armas contra a revolução. Mas, nessa história apologética, nada se conta sobre a fome, o frio, os protestos operários e as revoltas camponesas contra a burocratização do poder soviético que foram os reais motivos da rebeldia de Kronstadt. Com o diário de Alexandre Berkman, observador atento das jornadas fevereiro e março de 1921, compreende-se que Kronstadt buscava, antes de tudo, recolocar o poder revolucionário nos eixos. Segundo um panfleto que circulou pelas ruas de Petrogrado naqueles dias: “O povo quer poder se consultar, a fim de achar em comum uma solução para seus problemas”. A bolchevização da revolução (levada à frente com o esmagamento de Kronstadt, a estatização sindical, a formulação da Nova Política Econômica etc.) significou a supressão do poder popular em favor da estatização que decidiu os rumos da Revolução Russa para o stalinismo. A experiência de Kronstadt mostra bem que a projeção da vanguarda na revolução como chefe do proletariado é a traição de toda a causa. Há pouco se completou 90 anos da Revolução Russa e conta-se nos dedos de uma mão os que lembraram da Comuna de Kronstadt (ainda menos foram aqueles que ofereceram uma avaliação adequada do processo). Portanto, é bem oportuna a iniciativa do coletivo contraacorrente em traduzir o diário de Alexandre Berkman (feito a partir da versão francesa publicada pela Editions Bélibaste, de Paris).

izvestia

Diário de Alexandre Berkman

Petrogrado, fevereiro de 1921

O frio é intenso e uma extrema miséria reina na cidade. Tempestades de neve nos isolaram de outras províncias; o abastecimento praticamente cessou. Não se distribui mais que um litro de pão por pessoa e por dia. A maior parte das casas não tem calefação. Ao cair da noite, mulheres idosas rodam a procura de pilhas de madeira amontoadas perto do hotel Astoria, mas a sentinela é vigilante. Muitas fábricas tiveram de fechar, falta combustível e os empregados se acham reduzidos a meia ração. Eles organizaram um meeting para deliberar sobre a situação, mas as autoridades interditaram a reunião. Os operários das fábricas Trubotchny entraram em greve. Eles se queixam do fato de os comunistas terem sido favorecidos, em detrimento dos sem-partido, quando da distribuição das roupas de inverno. O governo se recusa a examinar suas reivindicações enquanto não retornarem ao trabalho.

Grupos de grevistas estavam reunidos nas ruas em torno das fábricas e os soldados foram enviados para os dispersar. São estes os kursanti, jovens comunistas da Academia Militar. Não houve violência.

Agora, aos grevistas reuniram-se a gente do Almirantado e das docas da Galernaya. A atitude intransigente do governo provocou um grande descontentamento. Uma tentativa de manifestação de rua foi impedida pelas tropas montadas.

27 de fevereiro

Nervosismo na cidade. A situação se agrava, as greves se estendem. As fábricas Patrony, as manufaturas Baltisky e Laferm cessaram toda a atividade. As autoridades ordenaram aos grevistas o retorno ao trabalho. A lei marcial foi decretada. O Comitê especial de Defesa (Komitet Oboroni), presidido por Zinoviev, está investido de poderes excepcionais.

Na sessão do Soviet, ontem à noite, um membro do Comitê de Defesa denunciou os grevistas como traidores da Revolução. Era Lachevitch. Ele é gordo, tem um ar astuto e insolentemente ganancioso. Ele qualificou os operários descontentes de “sanguessugas que se entregam a uma odiosa chantagem” (Chkurniki) e reclamou das enérgicas medidas sob sua alçada. Numa resolução, o Soviet decidiu pelo lock-out aos operários das fábricas Trubotchny. Isso significa, para eles, a supressão das rações, ou seja, a fome.

Hoje, proclamações de grevistas apareceram nas ruas. Elas citam casos de operários entre eles que morreram de frio. A principal reivindicação diz respeito às roupas de inverno e a uma distribuição mais eqüitativa de rações. Algumas circulares protestam contra a supressão de meetings. “O povo quer poder se consultar, a fim de achar em comum uma solução para seus problemas”, afirmam eles. Zinoviev sustenta que toda essa agitação se deve a maquinações de mencheviques e socialistas-revolucionários.

Pela primeira vez, as greves assumem uma feição política. À tarde, uma proclamação foi fixada, exprimindo as exigências mais vastas. Diz-se: “Uma mudança radical é necessária na política governamental” e “antes de tudo, os operários e os camponeses necessitam de liberdade. Não querem mais viver sob a graça de decretos dos bolcheviques; querem controlar seus destinos. Queremos a liberdade de todos os socialistas presos e de todos os trabalhadores sem-partido; abolição da lei marcial; a liberdade de palavra, de imprensa e de reunião para todos os trabalhadores; eleições livres nos comitês de empresa, nos sindicatos e no Soviet.”

1º de março

Ocorreram numerosas prisões. É comum se ver grupos de grevistas enquadrados por tchequistas se dirigir às prisões. Grande indignação na cidade. Ouvi dizer que muitos sindicatos foram dissolvidos e seus responsáveis entregues a Tcheca. Mas as proclamações continuam a aparecer. O arbítrio das autoridades tem por efeito suscitado tendências reacionárias. A situação é cada vez mais tensa. Ouvem-se apelos a Utchredilka (assembléia constituinte). Um manifesto assinado pelos “Trabalhadores Socialistas do Distrito Nevshy”, que ataca abertamente o regime comunista, passa de mão em mão. Ele declara: “Nós sabemos que há um medo de uma Assembléia Constituinte. Esses são os que devem responder perante os representantes do povo por suas traições, seus roubos e crimes.”

Zinoviev está alarmado. Ele telegrafou a Moscou para solicitar tropas. Diz-se que a guarnição local é favorável aos grevistas. Fazem vir à cidade tropas das províncias: “regimentos especiais” comunistas já chegaram. A lei especial extraordinária foi proclamada hoje.

2 de março

Notícias extremamente interessantes. Importantes greves estouraram em Moscou. Na Astoria, ouvi dizer hoje que conflitos armados tiveram lugar próximo ao Kremlin e que o sangue correu. Os bolcheviques proclamam que a coincidência dos eventos nas duas capitais é a prova de um plano conjunto contra-revolucionário. Diz-se que os marinheiros de Kronstadt vieram à cidade examinar as causas da desordem. Impossível ter uma visão clara sobre os acontecimentos entre todos os gritos que correm. A falta de uma imprensa livre encoraja os rumores os mais incríveis. Os jornais oficiais perderam todo o crédito.

3 de março

Kronstadt se agita. Desaprovam os métodos draconianos empregados pelo governo contra os trabalhadores descontentes. A equipe do navio de linha Petropavlovsk votou uma resolução de solidariedade aos grevistas.

Soube-se esta manhã que, em 28 de fevereiro, um comitê de marinheiros foi enviado à cidade para examinar a situação. Suas considerações foram desfavoráveis às autoridades. Em 1º de março as equipes da primeira e da segunda esquadras do Báltico organizaram um meeting na Praça Iakorny. 16.000 marinheiros, soldados do Exército Vermelho e operários assistiram à reunião. Kalinine, presidente da República e Kouzmine, comissário da Frota do Báltico deslocaram-se para prestar assistência. A atitude dos marinheiros foi perfeitamente cordial em relação ao governo soviético, e quando da sua chegada a Kronstadt, Kalinine foi recebido com as honras militares, fanfarras e bandeiras.

Durante o meeting, a situação de Petrogrado e o relatório do comitê de inquérito dos marinheiros foram discutidos. O público manifestou violentamente sua indignação em relação aos meios empregados por Zinoviev contra os trabalhadores. O presidente Kalinine e o comissário Kouzmine criticaram os grevistas e denunciaram a resolução do Petropavlovsk como contra-revolucionária. Os marinheiros sublinharam sua lealdade em relação ao sistema soviético, mas condenaram a burocracia dos sovietes. A resolução foi votada.

4 de março

Recrudescimento da tensão na cidade. As greves continuam; novas desordens operárias ocorreram em Moscou. Uma onda de descontentamento abala o país. Há relatos de revoltas camponesas em Tambov, na Sibéria, na Ucrânia e no Cáucaso. O país está à beira do desespero. Espera-se firmemente que com o fim da guerra civil, os comunistas atenuarão a severidade do regime militar. O governo havia anunciado sua intenção de empreender a reconstrução econômica e as pessoas estão impacientes por colaborar. Espera-se com impaciência o alívio dos fardos que esmagam, a abolição das restrições do tempo de guerra e a introdução das liberdades elementares. Os frontes foram liquidados, mas a velha política continua e a militarização do trabalho operário paralisa a renovação da indústria. Queixam-se abertamente que o partido comunista encontra mais vantagem em afirmar seu poder que em salvar a Revolução.

Um manifesto oficial foi publicado hoje. Assinado por Lênin e Trotsky, declara Kronstadt culpado de motim (mialej). As reivindicações dos marinheiros, que reclamam sovietes livremente eleitos, são denunciadas como uma “conspiração contra-revolucionária dirigida contra a república proletária”. Os membros do partido comunista recebem a ordem de voltarem às fábricas e às oficinas para “reunir os trabalhadores e os exortar a defender o governo contra os traidores”. Kronstadt será abatida.

Todo o Distrito Norte está submetido à lei marcial e todas as reuniões estão proibidas. Precauções foram tomadas para proteger as instituições governamentais. As metralhadoras estão alojadas na Astoria, residência de Zinoviev e de outros bolcheviques eminentes. Essas disposições recrudesceram o nervosismo geral. Proclamações oficiais, ordenando o retorno imediato dos grevistas às fábricas, obstacularizam a interrupção do trabalho e deixam a população cautelosa ante toda manifestação de rua.

O Comitê de Defesa executou uma “limpadura” geral da cidade. Numerosos operários suspeitos de simpatia por Kronstadt estão sob ameaça de prisão. Todos os marinheiros de Petrogrado e uma parte da guarnição considerada como “pouco segura” foi substituída nos postos avançados, enquanto que as famílias dos marinheiros de Kronstadt que vivem em Petrogrado são guardadas como reféns. O Comitê de Defesa notificou a Kronstadt que os “prisioneiros são considerados como garantia da segurança do comissário da Frota do Báltico, N. N. Kouzmine, do presidente do soviet de Kronstadt, T. Vassiliev e de outros comunistas. Se nossos camaradas sofrerem o menor maltrato, os reféns pagarão com a vida.”

Kronstadt telegrafou em resposta: “Nós não almejamos o derramamento de sangue. Nenhum comunista será incomodado.”

Os operários de Petrogrado acompanham ansiosamente a evolução dos acontecimentos. Esperam que a intervenção dos marinheiros decida a seu favor. O mandato do Soviet de Petrogrado está próximo do fim e posiciona-se tendo em vista as próximas eleições.

Em 2 de março teve lugar uma conferência de delegados à qual participou 300 representantes das equipes da guarnição, dos sindicatos e das fábricas, entre os quais vários comunistas. A conferência aprovou a resolução votada na véspera durante o meeting de massa. Lênin e Trotsky a declararam contra-revolucionária e viram nela uma prova de conspiração branca.

4 de março

Alta noite. A sessão extraordinária do Soviet de Petrogrado reunida no Palácio do Táurida estava cheia de comunistas, na sua maior parte jovens, fanáticos e intolerantes. A participação dependia da apresentação de um bilhete especial; era preciso também procurar um propusk (uma permissão) para entrar essa noite após o toque de recolher. Os representantes dos conselhos de fábrica estavam nas galerias, todas as seções da platéia estavam ocupadas pelos comunistas. Alguns delegados das fábricas tomaram a palavra, mas quando ensaiavam expor seus casos eram vaiados e obrigados a interromper. Zinoviev exortou a muitos para que escutassem, deixando que a oposição expusesse seus motivos, mas seu apelo carecia de energia e vivacidade.

Nenhuma voz se fez entender em favor da Assembléia Constituinte. Um operário de fábrica pediu ao governo que levasse em consideração as carências dos trabalhadores que sofriam de frio e fome. Zinoviev respondia que os grevistas eram inimigos do regime soviético. Kalenine declarou que Kronstadt era o quartel general do vasto complô organizado pelo general Koslovsky. Um marinheiro lembrou a Zinoviev a época em que ele mesmo e Lênin, tomados como contra-revolucionários por Kerensky, foram salvos por esses mesmos marinheiros de Kronstadt que denunciam agora como traidores. Kronstadt não quer mais do que eleições livres, declarou. Não lhe deixaram mais prosseguir em sua queixa. A voz de estertor de Ievkavmov, o lugar-tenente de Zinoviev, levou os comunistas da audiência atenta ao auge da excitação. Sua resolução foi votada sob um tumulto de protesto por parte dos delegados sem-partido e dos sindicalistas. A resolução declarava Kronstadt culpada de uma empresa contra-revolucionária dirigida contra o regime soviético e solicitava a rendição imediata. Era uma declaração de guerra.

5 de março

Numerosos bolcheviques recusaram-se a crer que a resolução fosse posta em prática. Seria demasiado monstruoso, pensavam, atacar com armas “a glória e o orgulho da Revolução Russa”, como Trotsky havia batizado os marujos de Kronstadt. Em declarações privadas, vários comunistas ameaçam deixar o partido caso esse crime venha a ser cometido.

Trotsky deveria ter ido ao Soviet de Petrogrado ontem à noite. Aponta-se em sua ausência a enorme gravidade da situação. Mas ele chegou durante a noite e hoje lançou um ultimato a Kronstadt:

“O governo operário e camponês declarou que Kronstadt e as equipes rebeladas devem se submeter imediatamente à autoridade da República Soviética. Por isso ordeno a todos que pegaram em armas contra a pátria socialista a as depor imediatamente. Os recalcitrantes serão desarmados e entregues às autoridades soviéticas. Os comunistas e outros representantes do governo devem ser imediatamente liberados. Só os que se renderem sem condições podem contar com a indulgência da república soviética.

“Ao mesmo tempo, dou as ordens destinadas a reprimir o motim e a submeter os rebeldes com a força das armas. Os líderes dos motins contra-revolucionários serão exclusivamente responsáveis pelos males que venha a sofrer a população pacífica por sua causa.

“Essa advertência é definitiva.

“TROTSKY, Presidente do Soviet militar revolucionário da República.

“KAMENEV, Comandante em chefe.”

A cidade está à beira do pânico. As fábricas estão fechadas. Circulam rumores de manifestações e tumultos. Começa-se a ouvir ameaças contra os judeus. Forças militares continuam a chegar a Petrogrado e seus arredores. Trotsky enviou a Kronstadt uma outra ordem de rendição, contendo as palavras ameaçadoras “Eu os abaterei como coelhos”. Mas alguns comunistas estão indignados pelo tom assumido pelo governo. É um erro fatal, dizem, que se interprete como uma manifestação de oposição os apelos dos trabalhadores que necessitam de pão. A simpatia de Kronstadt pelos grevistas de Petrogrado e suas reivindicações por eleições livres foram desfiguradas por Zinoviev como complô contra-revolucionário. Eu discuti essa situação com vários amigos, entre eles muitos comunistas. Achamos que ainda há tempo para salvar a situação. Uma comissão que tenha a confiança dos marinheiros e operários poderia apaziguar os ânimos e achar uma solução satisfatória aos problemas mais urgentes. É impensável que um incidente relativamente pequeno, tal como a greve das fábricas Trubotchny, possa estar deliberadamente crescendo e levar a uma guerra civil e às conseqüências sangrentas que implica.

Os comunistas com quem eu discuti essa sugestão a aprovaram, mas não ousam tomar a iniciativa. Nenhum deles crêem na história de Koslovsky. Todos reconhecem nos marinheiros os mais firmes sustentáculos dos Sovietes: seu objetivo é obrigar as autoridades a proceder a quaisquer reformas necessárias e já chegaram até um certo ponto. Os zagradilelniye otryadi, notoriamente brutais e arbitrários, foram abolidos na província de Petrogrado e algumas organizações sindicais receberam a autorização de enviar delegados ao campo para procurar alimento. Ao longo dos dois últimos dias rações especiais e roupas foram distribuídas em certas fábricas. O governo teme uma revolta geral. Petrogrado está agora em “estado de sítio extraordinário”. Foi decretado o toque de recolher após as 9 horas da noite. Mas a cidade está calma. Eu não acredito que ocorra um levante sério se as autoridades ficarem dispostas a adotar uma atitude mais razoável e mais justa. No espírito de abrir a via de uma solução mais pacífica, submeti a Zinoviev um plano de arbitragem assinado por personalidades favoráveis aos bolcheviques:

“Ao Soviete de Petrogrado.

“Presidente Zinoviev,

“É impossível, seria criminoso guardar por mais tempo o silêncio. Os recentes acontecimentos nos obrigam, nós, anarquistas, a tomar a palavra e lhes expor nossa opinião sobre a situação presente.

“O espírito de agitação que se manifesta entre os trabalhadores e os marinheiros resulta de causas que requerem toda nossa atenção. A fome e o frio provocaram um descontentamento geral e a ausência de toda possibilidade de discussão e de crítica força os trabalhadores a manifestar publicamente suas queixas.

Os partidários do Exército Branco desejam e tentam explorar esse descontentamento no sentido de seus interesses de classe. Dissimulando-se por trás dos trabalhadores e marinheiros eles promovem palavras de ordem tais como “assembléia constituinte”, “liberdade de comércio” etc…

“Nós, anarquistas, há muito tempo que denunciamos o caráter ilusório de tais palavras de ordem e nos declaramos à face do mundo que pegaremos em armas contra toda tentativa contra-revolucionária, em colaboração com todos os amigos da Revolução social e ombro a ombro com os bolcheviques.

“No que concerne ao conflito entre o governo soviético e os trabalhadores e marinheiros, estimamos que ele deve ser ordenado não pela força das armas, mas por um acordo amigável. Se o governo soviético recorrer ao derramamento de sangue, isso não irá, no estado de coisas atual, nem intimidar nem acalmar os trabalhadores. Muito pelo contrário, não irá mais que agravar a situação e reforçar o partido da Entente e a contra-revolução internacional.

“Mais que isso, o fato de um governo operário e camponês ter recorrido à força contra os operários e marinheiros produziria uma impressão desmoralizante sobre o movimento revolucionário internacional e faria um grave desfavor à causa da Revolução Social.

“Camaradas bolcheviques, refletis antes que seja tarde demais! Não brinqueis com fogo; estais no ponto de tomar uma decisão capital e de graves conseqüências.

“Submetemos a vós a seguinte posição: nomeeis uma comissão de 5 membros, compreendendo dois anarquistas. A comissão se dirigirá a Kronstadt para regular as contestações pelos meios pacíficos. Dada a situação, é o método mais radical e terá no mundo inteiro uma notoriedade propriamente revolucionária.

“Petrogrado, 5 de março de 1921.

“Alexandre Berkman, Emma Goldman, Perkus, Petrovsky.”

6 de março

Hoje Kronstadt enviou por rádio uma apreciação de sua posição.

7 de março

Atravessando a perspectiva Nevsky, ouvi estrondos de longe. Eles ressoam sem fim, mais e mais fortes, cada vez mais próximos. Imediatamente compreendi se tratar de tiros de artilharia. Eram 6 horas da noite. Kronstadt estava sendo atacado!

Dias de angústia e tiros de canhão. Estou desesperado: alguma coisa morreu em mim. Na rua as pessoas têm um ar coberto de tristeza; estão aterrados. Ninguém ousa falar. Os raios da artilharia rasgam o ar.

17 de março

Kronstadt caiu ontem.

Milhares de marinheiros e trabalhadores jazem nas ruas mortos. As execuções sumárias de prisioneiros e de traidores continuam.

18 de março

Os vencedores celebram o aniversário da Comuna de 1871. Trotsky e Zinoviev desonram Thiers e Gallifet, que massacraram os rebeldes de Paris…

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