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13/04/2010

O FARDO SEM FIM DA REINVENÇÃO INCESSANTE DA RODA

por Anónimo

O FARDO SEM FIM DA REINVENÇÃO

INCESSANTE DA RODA

Um esboço para uma conceituação do
mundo contemporâneo, do seu curso e sentido

Autor Anônimo

APRESENTAÇÃO – VIDA & SOBREVIVÊNCIA

O mundo só existe para o animal como deglutição, consumo, objeto de desgaste e destruição – a busca da repetição incessante desse mundo faz da sobrevivência seu campo de realização.

Só o homo sapiens sabe que vai morrer. Então, para ele, não faz nenhum sentido que o mundo seja apenas a incessante repetição da busca por comer e copular. Ele não pode mais deixar que lhe passe com indiferença a existência que lhe resta: só quem tem consciência da proximidade crescente da morte é capaz de estabelecer a vida como sua esfera de existência.

O homem inventa o arco e a flecha para não ter que passar o resto da vida correndo sem parar atrás da comida. Ele precisa cantar, dançar, brincar, conversar, inventar, imaginar, pensar, em suma, ele precisa transformar o mundo de maneira que deixe de meramente sobreviver e passe a viver. Ele precisa fazer do mundo um lugar bonito, musical, gostoso e aconchegante onde ele não precise mais brigar por comida, onde ele possa encontrar seus amigos e mostrar para eles seus inventos, danças, músicas, pensamentos, brincadeiras e conhecer o que seus amigos têm de novo, para que, juntos, possam transformar novamente o mundo num lugar onde tudo isso possa se realizar.

Queremos descobrir por que hoje o homem esqueceu da vida, fazendo os meios de vida que inventou se transformarem em simples meios de sobrevivência. Queremos descobrir por que os meios que ele inventou para se libertar da sobrevivência, desde o arco e flecha até os atuais robôs, acabou perpetuando-a, aumentando o trabalho até fazer deste a finalidade que ocupa toda existência das pessoas. E por que todas aquelas coisas que não são busca pela sobrevivência, como cantar, brincar, dançar, imaginar, criar, pensar, transformar o mundo… são consideradas bobas ou absurdas e substituídas pela busca sem fim do mero desgaste e destruição dos objetos, o consumo, refazendo eles eternamente pelo trabalho para serem eternamente destruídos, consumidos.

Enfim, queremos descobrir porque hoje as pessoas não podem desfrutar o mundo transformando-o e realizando-se, mas só podem trabalhá-lo para consumi-lo.

TROCA & USO

O consumo, ou seja, o uso, é o modo de ser daquilo que o trabalho produz, uma petrificação do mundo em contraposição à multilateral transformação do mundo que envolve todos os sentidos e desejos, que é a vida. O uso pressupõe uma ação abstrativa de cada um dos elementos do mundo de modo a isolá-los numa dimensão específica (por exemplo, a fruta é para comer, o papel higiênico, para limpar a bunda, a roupa, para vestir, a rua, para chegar ao trabalho ou ao centro de consumo, a escola, para estudar, o museu, para ver obras de arte, o quarto, para dormir…).

O panorama onde os elementos do mundo se encontram perde sua força de conexão interna desses elementos. Este panorama não é mais uma situação, um ambiente de infinitas dimensões que o homem encontra e transforma, criando novas situações, novos estados de ser e de espírito (realização da vida). O panorama do mundo se desintegrou num conjunto de elementos coisificados, num conjunto de fragmentos sem nenhuma relação interna entre si.

A fragmentação dos diversos elementos do mundo em dimensões específicas em função do valor de uso, por sua vez, significa o surgimento de uma força de conexão externa entre eles, que é o uso abstraído de qualquer dimensão específica. Essa conexão em exterioridade dos elementos fragmentados é a redução deles a uma única dimensão radicalmente abstrata (uma abstração das diversas abstratizações específicas dos elementos): o valor de troca. Os elementos são trocados entre si, para serem usados. O valor de troca é a abstração de todos os usos possíveis e é representado no dinheiro. Quanto mais alguém tiver dinheiro, mais pode usar. Mas assim ele só se satisfaz em suas dimensões específicas, fragmentadas, não em seu ser, não em seu espírito. Diante do panorama fragmentado que destrói as situações, ele não pode reconhecer a si mesmo no mundo como unidade de infinitas e irreversíveis manifestações e dimensões, o que o iguala a qualquer animal, que só encara o tempo como deglutição/destruição do objeto de necessidade e repetição desse gesto ao infinito.

O usuário, por isto, só pode reconhecer os outros seres humanos como simples médiuns para alcançar o uso, como simples portadores de dinheiro, por ser o único meio de relação possível com o mundo e, assim, consigo mesmo, com sua própria sobrevivência. A individualidade é suprimida numa abstração, “o homem”, com seus direitos e deveres. 

17/02/2010

OS SINDICATOS CONTRA A REVOLUÇÃO SOCIAL – G. Munis

OS SINDICATOS CONTRA A REVOLUÇÃO SOCIAL

Não pode existir nenhuma contradição entre o aspecto económico e o aspecto político duma concepção revolucionária, mesmo imaginando entre os dois a mais clara demarcação orgânica e funcional. A mesma asserção é válida para qualquer concepção reaccionária. Deste modo, a actual interpenetração, o acordo e a colaboração entre os sindicatos — órgãos económicos — e os partidos políticos — órgãos ideológicos — dão-nos a chave de uns em relação aos outros, seja qual for a forma como os analisarmos. Este enunciado decorre dum velho princípio inalterável, mais do que provado pela razão e verificado pelos homens no decurso duma experiência milenária: toda e qualquer ideia ou acção política é decorrente dum substrato económico em relação ao qual tem em seguida um papel simultaneamente director e repressivo. Examinaremos, neste trabalho, sob diferentes aspectos, a interpenetração do político e do económico e analisaremos os sindicatos pondo em cena os seus actuais inspiradores. Como o demonstrou Benjamin Péret no seu trabalho, os sindicatos surgiram enquanto organismos defensivos da classe operária, face a condições de trabalho sub-humanas, apresentando-se assim, no plano industrial, como o prolongamento das antigas confrarias e corpo rações. As suas aspirações situam-se desde o início ainda mais abaixo que as do reformismo. Este último, desenvolvendo análises ideológicas e económicas, pretende demonstrar que através da democracia capitalista seria possível atingir o socialismo por intermédio duma evolução legal e sem que sejam necessários actos revolucionários. No que respeita aos sindicatos, nunca se tratou nem de evolução nem de revolução, ainda menos de socialismo. O seu desejo não vai além da obtenção, para o trabalhador explorado, de condições menos intoleráveis e menos humilhantes — mas também, como o tempo no-lo tem demonstrado, mais rentáveis para o capital. Apesar desta tara, os sindicatos primitivos eram organismos, se não revolucionários, pelo menos de espírito operário e de composição sã relativamente à corrupção e ao falso carácter de classe dos de hoje.
Nos fins do último século e nos princípios do século XX, surge o sindicalismo dito revolucionário, ecletismo de circunstâncias, respigado simultaneamente na concepção marxista, no pretenso apoliticismo anarquista e na rotina reivindicativa dos velhos sindicatos. Não há qualquer paradoxo no facto de o período de maior influência e de mais forte avanço de um tal sindicalismo ter coincidido com o período da plena exuberância reformista.
Sorel e Bernstein, para além de serem contemporâneos, tinham mais pontos comuns do que pontos inconciliáveis. Enquanto o primeiro via no sindicalismo a panaceia dos problemas do devir histórico, o segundo, e com ele toda a sua tendência, via no parlamentarismo e nas próprias exigências da acumulação do capital, o feliz mecanismo duma evolução segura e harmoniosa para a sociedade socialista. Na realidade, sindicalismo revolucionário e reformismo encontravam-se unidos pelo mesmo elo ao formidável avanço económico da burguesia. Era o momento em que esta atingia o zénite das suas possibilidades civilizadoras, consentindo o máximo de liberdade e de ilusões àqueles que, sem escapar totalmente ao seu complexo ideo-económico, gesticulavam à esquerda. Por esta razão, a falência de 1914 arrastou consigo os sindicalistas e os reformistas. A C.N.T. espanhola não constitui sequer uma excepção, se bem que a neutralidade militar do seu país lhe tenha poupado a fraseologia e as atitudes de capitulação da C.G.T. francesa. A sua falência particular, como veremos mais à frente, produziu-se na própria altura da revolução proletária em Espanha, em 1936-39.
A força numérica e o peso social dos sindicatos aumentou sem cessar a partir de 1914 e se, nalguns países, como a França, a primeira diminuiu consideravelmente no curso dos últimos anos, o segundo continuou a aumentar. Disse-se que o desastre de 1914 foi indispensável para que os sindicatos tenham atingido a sua plenitude. O que se compreende, porque até então o capitalismo receava que tivessem uma força destruidora e não tinha tido ocasião para ver (excepto talvez na Inglaterra) a colaboração que poderiam fornecer-lhe. Mas desde os fins da primeira guerra mundial, numerosas experiências de controle «operário» nas fábricas surpreenderam os capitalistas com os seus efeitos satisfatórios. Elas atenuavam a luta dos trabalhadores contra o capital, facilitavam as operações e, sobretudo, faziam aumentar o rendimento do trabalho. Os sindicatos surgiam não apenas como defensores da pátria (essa entidade especificamente capitalista) mas ainda como colaboradores eficazes do próprio mecanismo da exploração. Isso fez a sua fortuna e abriu-lhes horizontes ainda insuspeitados. No entanto, foi a partir dos anos 36-37, que por muitas razões colocaram um marco muito importante na história do movimento operário, que os sindicatos tomaram a sua orientação definitiva. Puseram em evidência as aptidões graças às quais se tornaram um dos mais sólidos pilares da sociedade actual.
A vinte anos de distância, a revolução russa e a revolução espanhola foram a primeira e a última explosão duma mesma ofensiva do proletariado mundial contra o capitalismo, ofensiva marcada por incessantes ataques em muitos outros países. Entrementes, a burocracia estalinista completava o seu capitalismo de Estado e, precisamente na altura em que a revolução espanhola atingia o seu auge, desembaraçava-se através das armas e da calúnia de todos os comunistas autênticos. Esta destruição modificou de modo decisivo todos os factores orgânicos da luta de classes e viciou todos os factores ideológicos. Havia muito que a intervenção russa no movimento operário mundial era negativa; em Espanha, o partido de Moscovo, levado pelas suas próprias necessidades de conservação, mostrou-se a principal força de polícia contra-revolucionária. Em Julho de 1936, esforçou-se (felizmente em vão) por impedir o levantamento do proletariado que pôs em debandada na maior parte do território o exército nacional. Em Maio de 1937, aquele mesmo partido metralhou o proletariado, levantado desta vez contra a sua política reaccionária, venceu-o, desarmou-o e esmagou a revolução. Aquilo que os militares não tinham conseguido em Julho de 1936, realizou-o o estalinismo dez anos depois.
Pela primeira vez, Moscovo agia, fora do seu território, directamente como força contra -revolucionária Até hoje ainda não se avaliou bem (muito falta para isso) as vastas consequências reaccionárias deste acontecimento. Mas aí têm raiz todos os factos de importância mundial que se seguiram, desde o pacto Hitler-Staline e a segunda «grande guerra» até à política de «coexistência pacífica» e os levantamentos tais corno os da Alemanha Oriental, Polónia e Hungria, que se situam, não no plano do proletariado espanhol de Maio de 1937, mas quando muito no plano da insurreição de Julho, desta feita com o exército e a polícia estalinista em vez dos militares franquistas. Imre Nagy e os seus eram para a Hungria o que a Frente Popular era para a Espanha em 1936: o subproduto dum levantamento revolucionário, mas não «a alma» da revolução.
É significativo que seja a partir de 1936 que os sindicatos, mostrando todas as suas características latentes, se tenham manifestado incontestavelmente como organismos auxiliares do capital. Que num tal desenvolvimento seja o estalinismo que consiga a maior influência sindical, salvo no respeitante às Trade-Unions inglesas e norte-americanas, é muito natural. O empirismo económico do capitalismo encontra no empirismo contra-revolucionário russo uma expressão política superior, que o inspira e o completa, simultaneamente; um e outro confundem-se e fundem-se até à perfeição desde que o meio propício se apresente. Ora, nos nossos dias, este meio existe, sob uma forma mais ou menos acabada, não sendo outra coisa senão o capitalismo na sua etapa actual, se se considerar cada país, mesmo atrasado, como um caso não isolado mas inscrito no sistema mundial.

Vejamos em primeiro lugar a zona ocidental, que se gaba da sua democracia e mais concretamente do seu direito de greve. Na realidade, concede-se esta liberdade não aos trabalhadores mas aos representantes que a lei lhes reconhece: os sindicatos. Toda e qualquer greve desencadeada pelos próprios trabalhadores suscita contra si urna coligação do Estado e dos sindicatos, que procuram esmagá-la, umas vezes através da derrota directa dos operários, outras vezes levando-os à legalidade arbitral. Desde a altura em que a greve revolucionária de 1936 em França foi sabotada pelos homens de Moscovo (Maurice Thórez: «É preciso saber acabar uma greve») e pelos da S.F.I.O. reunidos (gabinete Léon Blum e polícia dirigida pelos «socialistas»), quase todos os países conheceram greves postas em xeque pelos sindicatos, na medida em que contrariavam as suas regras económicas e políticas. Deste modo, a greve foi, de facto e de direito, confiscada pelos sindicatos. Mas não é tudo. Para lá do facto sempre excepcional da greve, nas relações quotidianas entre capital e trabalho (que são a forja da luta de classes) os sindicatos aparecem não só como «amortecedores» entre os dois campos, mas ainda como mensageiros do primeiro junto do segundo e como agente da adaptação do segundo ao primeiro. Todas as manifestações naturais da luta do trabalho contra o capital, uma vez monopolizadas pelos sindicatos voltam-se contra os trabalhadores, em proveito do capital.
Basta lembrar alguns factos para que a argumentação seja inegável. Os comités de fábrica[1], bem como os delegados de departamento, de oficina, de profissão, não são a expressão da livre vontade dos trabalhadores, qualquer que seja, segundo os países, o modo da sua eleição. Eles são uma representação dos sindicatos, à margem dos quais os trabalhadores não têm o direito de eleger ninguém: mesmo os famosos «shop-stewards» britânicos têm necessidade de assentimento das Trade-Unions. Na maior parte dos países a lei decidiu que os sindicatos por ela reconhecidos representam a classe operária. Esta já não tem por conseguinte o direito de se fazer representar segundo a sua vontade e ainda menos de criar organismos diferentes dos sindicatos, para dirigir as suas lutas e quando necessário para tratar com o patronato ou com o Estado. Direitos da classe operária e direitos sindicais são manifestamente duas coisas contraditórias. Daí a oposição entre os trabalhadores e os comités de fábrica ou os delegados departamentais, oposição sempre Jatente e recontro agudo desde que se apresente um conflito de certa envergadura com o patronato, e choque directo se a luta se amplifica. No decurso dos últimos vinte e cinco anos, todas as greves que merecem este nome tiveram de ser declaradas contra a vontade dos sindicatos ultrapassando os seus representantes nas fábricas; os trabalhadores tiveram de eleger, por si mesmos, comités de greve. Todavia, sempre que estes comités de greve eleitos pelos operários ou as assembleias de fábrica se deixaram influenciar pelos dirigentes sindicais, o capital tirou disso vantagem.
Os contratos colectivos de trabalho tinham como objectivo restringir o arbítrio patronal nos múltiplos domínios em que pode exercer-se:
condições e horário de trabalho, intensidade da exploração (produtividade horária), leque dos salários por categoria (hierarquização), emprego e despedimento, liberdade política, direito de palavra e de assembleia nas fábricas, regulamentos internos, etc.. Os contratos colectivos tornaram-se, nas mãos dos sindicatos, aos quais a lei reconhece assim o monopólio da discussão e da assinatura, um formidável instrumento de sujeição do proletariado ao capital em geral, e aos sindicatos em particular, de tal modo que os sindicatos se tornaram, desde os nossos dias, parcial ou totalmente depositários da exploração. Despedimento e emprego são feitos as mais das vezes à vontade do capital, salvo nos casos de sindicalização obrigatória (closed shop), que longe de garantir o trabalho aos operários fornece aos sindicatos a prerrogativa da sua adjudicação, que é uma coerção económica reaccionária ao mais alto grau. Vê-lo-emos mais à frente, falando dos sindicatos na zona oriental. Os contratos de trabalho sancionam e encorajam a divisão da classe operária em grupos hierarquizados, que as diferenças de salários e os preconceitos associados à categoria e à função técnica do trabalhador opõem uns aos outros. Os sindicatos têm um cuidado instintivo na hierarquização do proletariado, sem a qual este formaria um bloco compacto frente ao capital. A necessidade de desmembrar o proletariado com a hierarquização e de o afastar assim do seu interesse supremo é tão absoluta para os sindicatos como para o capital. Durante um século, o movimento operário bateu-se contra a hierarquização e em grande parte conseguira arruiná-la enquanto preconceito, diminuindo também as suas bases materiais. No decurso destes últimos decénios, os sindicatos e os seus inspiradores políticos conseguiram restabelecer largamente o preconceito e multiplicar as categorias. A maior parte dos trabalhadores, mesmo os mais desfavorecidos, crêem hoje natural e «justa» a hierarquização. Finalmente, se a ideia original dos contratos colectivos era a de pôr um freio ao arbítrio do capital, esperando a altura de o suprimir, hoje eles constituem uma regulamentação quase perfeita das exigências funcionais do sistema capitalista. Discutindo e assinando os contratos colectivos, os sindicatos comportam-se como se fizessem parte integrante dos açambarcadores dos instrumentos de produção. Nos Estados Unidos e noutros países, numerosos sindicatos são importantes accionistas de companhias que exploram os seus sindicalizados o que, longe de prefigurar uma sociedade socialista, os transforma em beneficiários da exploração no pleno sentido económico e ideológico do termo. E onde os sindicatos não participam na elaboração de planos de exploração, reclamam-no.
Os lugares de trabalho, as grandes fábricas, em particular, arenas da luta de classes, permitem ao operariado mais revolucionário uma acção ideológica e prática permanente e de grande envergadura. Mas, esta acção, são ainda os sindicatos que a tornam impossível. Muito frequentemente os contratos colectivos estipulam que a actividade política e a distribuição de propaganda no interior da fábrica são delitos, sem falar das discussões e reuniões indispensáveis a toda e qualquer acção operária. Desde há longos anos que os sindicatos se ligaram à direcção patronal sempre que se trata de despedir operários revolucionários. Tornou-se agora cláusula escrita, preto no branco, nos contratos colectivos, ou então sub-repticiamente admitida, visto estar inscrita em todos os regulamentos patronais das fábricas. Os sindicatos e os seus inspiradores políticos encarregam-se eles próprios de fazer a política contra os distribuidores de propaganda revolucionária, se preciso agredindo-os. Na Itália, os líderes sindicais estalinistas acordaram aos industriais o direito de pôr na rua, sem aviso prévio nem indemnização, os operários culpados de distribuição de propaganda ou de agitação[2]. Em França, a maior parte dos regulamentos de fábrica permitem a mesma coisa, e a proibição de pensar vai tão longe que até mesmo os operários mais rebeldes têm receio de se exprimir e deixam andar. A situação não é melhor na Alemanha, na Inglaterra ou nos Estados Unidos, bem como na Rússia ou em Espanha. Deste modo, graças à acção convergente do capital e das centrais sindicais, a classe operária encontra-se reduzida à clandestinidade, mesmo nos lugares de trabalho, onde a exploram e onde deixa a pele.
É indispensável que o proletariado recupere a sua liberdade política, o que se mostra impossível sem que rejeite a actual legalidade sindical-patronal. A inteira liberdade dos homens no que diz respeito ao exercício do seu trabalho contém em gérmen a futura democracia revolucionária e o comunismo, O comunismo, sim, porque os que se dizem comunistas não o mão e, por repulsa bem legítima contra estes, aqueles que o são realmente evitam com frequência reivindicar esse nome.
No domínio estritamente económico, a situação da classe operária nunca foi pior. Tudo o que se diz em sentido contrário é lavagem do cérebro. A jornada de oito horas, que deveria ter sido substituída desde há muito pela de quatro ou cinco horas, no máximo, ainda não existe senão no papel. Em numerosos países, a recusa de fazer horas extraordinárias é causa imediata de despedimento, e por toda a parte a introdução do chamado «salário de base» (norma na Rússia), deliberadamente mesquinho, dos prémios e gratificações de produtividade, etc., não só forçam o trabalhador a aceitar «por sua inteira vontade» jornadas de dez a doze horas, como abole, na realidade, o salário de jornada ou horário, impondo de novo o ignóbil trabalho à peça. Desde a sua origem, o movimento operário esforçou-se por acabar com esta forma de exploração, a mais velha de todas, que gasta fisicamente o trabalhador e o embrutece intelectualmente. Conseguira fazê-lo desaparecer em quase toda a Europa. Há ainda vinte anos, a maior parte dos operários considerava desonroso aceitar qualquer trabalho à peça. Hoje, este trabalho é de novo a regra, menos por imposição do capital do que pela trapaça dos sindicatos; na realidade, temos nisto uma prova das suas afinidades últimas.
No aspecto mais profundo da exploração, o da produtividade por cabeça e à hora, o proletariado vê-se encurralado numa situação terrificante. A produção que lhe é subtraída em cada dia aumenta prodigiosamente. Primeiro, as inovações técnicas, que retiram ao operário toda e qualquer intervenção criadora no seu trabalho, calculam os seus movimentos ao segundo e o transformam num «mecanismo de servidão» vivo, sujeito às mesmas cadências que os mecanismos metálicos; depois, a cronometragem, ratoeira atroz e repugnante, força os homens a trabalhar cada vez mais com o mesmo instrumental e durante a mesma unidade de tempo; em terceiro lugar, a disciplina de cada estabelecimento põe e dispõe a seu bel-prazer sobre a mais pequena suspensão de trabalho, mesmo para acender um cigarro ou para cagar; a produção que por estes meios se arranca a cada humano é enorme, como é, na mesma proporção, o seu desgaste físico e psíquico.
Tocar neste problema é pôr o dedo na ferida da sociedade actual e nos sindicatos que dela fazem parte, e não há nenhum meio de o resolver sem transformar a relação actual entre instrumentos de trabalho e trabalho assalariado, entre produção e distribuição, em resumo: sem que a revolução social se introduza. Mas para tratar tal problema como convém, é necessário ver antes o que os sindicatos representam na Rússia, protótipo cuja imitação é obrigatória em todo o seu domínio oriental e para além dele.

OS SINDICATOS NOS PAÍSES DE LESTE
Tudo o que se disse sobre a obra reaccionária dos sindicatos e a deterioração da condição proletária no Ocidente é ainda mais válido para o mundo russo. Desde a altura em que, Sob a égide de Staline, o capitalismo de Estado se instalou na Rússia, todo o velho mundo burguês ali encontrou lições de exploração. De repressão policial igualmente, mas limitar-nos-emos aqui a falar das relações entre capital e trabalho e do papel dos sindicatos.
Por conseguinte, se os sindicatos em geral por toda a parte e desde há muito constituem uma força complementar do capital no seio da classe operária, a contra-revolução estalinista, dando-lhes um forte impulso neste sentido e oferecendo-lhes um exemplo desejável, revelou-lhes o seu próprio destino intrínseco. Quase todas as medidas que desde 1936 agravam a exploração do proletariado no Ocidente e a sua condição de objecto, têm o seu modelo na Rússia estalinista.
Supressão completa das liberdades políticas e de reunião, no interior como no exterior da fábrica; horas extraordinárias impostas pela direcção ou pelo insignificante salário de base (norma) da jornada de trabalho oficial, multas e medidas disciplinares à discrição dos chefes, que ditam igualmente os regulamentos de fábrica, cronometragens e controles inumeráveis, trabalho à peça, hierarquização do proletariado pelos salários e «qualificação» técnica, contratos colectivos que convêm unicamente ao capital, crescimento contínuo da produtividade em detrimento dos produtores, proibição das greves de facto ou de direito; em resumo: tudo o que, no Ocidente transforma as centrais sindicais em instituições cada vez mais negativas, recebeu um forte impulso da Rússia dos anos 30 e inspirou o capital e os sindicatos do mundo inteiro. Mesmo hoje, todos os meios que reforçam a exploração se mantêm ali os melhores, salvo talvez no que diz respeito à China.
É bem conhecido, pelo menos daqueles que estão ao corrente da situação na Rússia, que a desigualdade económica entre privilegiado e explorado é ali maior, bem como é mais importante entre as diferentes categorias de trabalhadores. A desigualdade entre privilegiado e explorado, simultaneamente causa e efeito do capitalismo, só interessa aqui relativamente à evolução e ao futuro dos sindicatos. Seja suficiente anotar-se, para já, que isso coloca, na Rússia como em qualquer outro país, a necessidade da expropriação do capital pelos trabalhadores, o que é impossível sem que uma insurreição corte cerce, até aos seus fundamentos, o actual dispositivo governamental, incluindo partido oficial e legislação. A burocracia estalinista, ainda melhor do que qualquer burguesia, sabe intensificar a exploração acelerando o ritmo do trabalho e introduzindo no proletariado o maior número possível de categorias. É o meio tradicional do capitalismo para «estimular» a produção: substituir ao interesse histórico homogéneo do proletariado uma multiplicidade de interesses heterogéneos imediatos, que são outros tantos entraves à acção revolucionária comum. Uma vez mais, os «natchalniks»[3] sindicais e políticos russos suplantaram os do mundo ocidental[4]. Na Rússia, os operários chefes de equipa retiram lucros da exploração dos seus camaradas de trabalho: os stakhanovistas recebem um prémio proporcional a quanto fizeram a mais da «norma» e ao número de operários da sua equipa. Vêem assim a sua féria aumentada através da exploração dos simples trabalhadores e são, deste modo, levados a intensificá-la. Os sthakanovistas são por conseguinte convertidos em inimigos dos seus camaradas de trabalho mais claramente ainda do que os contramestres do Ocidente, de féria fixa.
Nada de espantoso, pois na Rússia tudo foi mistificado. Uma vez a contra-revolução substituída à revolução, uma ditadura capitalista que se diz demagogicamente proletária apresenta na realidade impõe — como socialistas os mais sujos costumes e princípios do capitalismo tradicional. A Lei do Trabalho, aprovada em 1939, decreta: «As características da dinâmica dos salários nos países capitalistas é o nivelamento dos salários entre os operários especializados e os não-especializados. Na remuneração do trabalho, o nivelamento pequeno-burguês é o pior inimigo do socialismo. Desde há longos anos o marxismo-leninismo luta sem tréguas contra o nivelamento».
Longos anos, com efeito, se procurou lograr-nos apresentando-se o desenvolvimento industrial pelo trabalho assalariado como a expressão fiel do pensamento marxista, que pelo contrário se fixa como objectivo a abolição deste trabalho e o nivelamento económico da sociedade, na satisfação ilimitada de todas as necessidades individuais, igualdade e liberdade supremas, indispensáveis a todo o desabrochamento pessoal ou colectivo. Se a isso não se aspira, nada de revolucionário se pode fazer na actual curva histórica.
Nos velhos países capitalistas, a diferença dos salários no seio do proletariado é um estado de facto, estabelecido pelo mercado directo entre o capital e o trabalho. Na Rússia, ela adquiriu um valor de princípio, de lei constitucional, e, por consequência, combatê-la é um crime que diz respeito à justiça. A relação tradicional entre capital e trabalho, que a burguesia jamais soube justificar enquanto relação social, de homem a homem, mas apenas pelo subterfúgio do «direito sagrado de propriedade» (o qual na realidade se volta contra ela desde que se considere como propriedade não os meios de produção ou instrumentos de trabalho mas tudo o que é necessário ao consumo material e ao pleno desenvolvimento psíquico de cada pessoa), esta relação transformou-se, na Rússia, em relação natural e definitiva entre capacidades diferentes. Assim, às classes ou categorias sociais delimitadas de facto pela riqueza, sucedem as classes delimitadas de direito pela sua capacidade de produção e suas funções especiais. A delimitação de facto pela riqueza ganha importância em vez de a perder. Pior ainda, aí desponta uma justificação biológica da exploração do homem pelo homem.
Assinalemos ainda que os contratos de trabalho impostos pelos sindicatos russos têm como principal objecto colocar a classe operária, mesmo juridicamente, à mercê do capital, «garantindo o cumprimento ou a superação do plano de produção de Estado em cada estabelecimento dado»[5]. Trata-se de arrancar à mão-de-obra taxas de produção cada vez mais altas: « (…) A estipulação principal das obrigações contraídas deve ser: pedir mais a cada operário. Sem um reforço da disciplina do trabalho, sem uma luta enérgica contra os transgressores da disciplina do Estado e do trabalho — batoteiros, mandriões — não pode haver uma verdadeira realização das obrigações estabelecidas no contrato colectivo»[6].
A palavra contrato é uma marca de ferro para a classe operária. Colectivo ou individual, verbal ou escrito, «livre» ou imposto, o contrato de trabalho é a escritura legal da sua condição de classe escrava assalariada pelo capital, segundo os termos próprios a Karl Marx. O que chega para pôr a nu o embuste dos novos exploradores russos. Nem capital nem salariado poderiam existir numa economia socialista (e, portanto, o contrato de trabalho, isto é, as condições de aluguer da mão-de-obra, não poderiam aí realizar-se, simplesmente em virtude do desaparecimento das partes contratantes). Os meios de produção deixam de aí ser capital, bem como a força humana de trabalho tem de deixar de ser mercadoria à venda. Unidos numa só entidade económica e social, tornam-se isentos de qualquer obrigação contratual como qualquer indivíduo em relação a si mesmo. O contrato de trabalho russo, só cm virtude da sua existência inscreve-se entre os elos sociais característicos do capitalismo. Mas nas suas «inovações», particularmente no que diz respeito ao cínico papel de guarda-forçados que aí desempenham os sindicatos, transparece o lúgubre contorno duma sociedade em degenerescência, cujos déspotas parecem mais aptos que ninguém a cortar a respiração ao proletariado.
Efectivamente, estes contratos, cuja principal cláusula é a de arrancar ao operário a maior produção possível, são elaborados pelos sindicatos e, após a formalidade da aprovação governamental, é aos sindicatos que cabe a obrigação de estimular o servilismo através da promessa duma melhor féria, de ameaçar ou de denunciar à vindicta das leis os homens insubmissos ao cumprimento dos imperativos da exploração. A luta ou a simples resistência a trabalhar menos e ganhar mais («o direito à preguiça ! ») que o movimento revolucionário mundial considerou sempre como um mérito do trabalhador e uma exigência do progresso histórico, considera-a o governo russo infamante e desprezível e pune-a como crime, sempre pela via sindical.

Os sindicatos surgem por conseguinte ao olhos do proletariado russo como os organismos imediatamente responsáveis da sua exploração e das sevícias características da contra-revolução. Há uma quantidade de documentos convincentes, neste sentido, que facilmente encheriam vários volumes. É impossível enumerá-los aqui. Uma das maiores fraquezas do movimento revolucionário mundial, talvez a causa da sua exiguidade actual, está em não se ter levantado contra esta ignomínia. Nesta brochura, é suficiente lembrar alguns outros factos de conteúdo e importância não menos reaccionários: as leis que proíbem ao trabalhador de mudar de patrão sem autorização do próprio patrão (leis actualmente inexistentes em todos os velhos países capitalistas), que instauram o salário directamente proporcional à produção de cada operário (trabalho à peça), sem falar dos prémios de servilismo político; que punem com multas, suspensão temporária do trabalho, despedimento ou condenação a trabalhos forçados, o atraso, as ausências ou outras faltas à «disciplina»; que transformam em algo honroso e remunerável tudo o que o pensamento revolucionário considera ignominioso; em suma, todas as leis que constituem o torno que dilacera o proletariado como em nenhuma outra parte, aparecem no mundo russo como obra dos sindicatos. Esta legislação é simultaneamente proposta e aplicada por eles. Além disso, os campos de trabalhos forçados (de reeducação, segundo o jesuitismo oficial), túmulos de milhares de operários e muito em particular dos revolucionários, processo deliberadamente escolhido para baixar o salário médio e poder falar ao mesmo tempo da inexistência de desemprego, são também «instituições» criadas por iniciativa dos sindicatos, cujos benefícios partilham com o Estado e com o seu instrumento essencial: a polícia.
Poder-se-ia arguir que os sindicatos, como qualquer um sabe, não agem ali por sua própria iniciativa. A sua desqualificação, por parte dos assalariados, não deixa por isso de ser menos completa. A experiência mundial indica que na sua estrutura orgânica e na sua função relativamente à classe operária pré-existe algo propício à sua transformação em engrenagens do mais centralizado e mais absoluto dos capitalismos. Ë verdade que os sindicatos russos obedecem cegamente às ordens do governo, que eles não são mais do que o seu instrumento vulgar; mas os seus próprios chefes integram-se nas mais altas hierarquias do Partido e do Estado, tornando-se assim, ao mesmo tempo, co-proprietários do capital anónimo e dirigentes «operários». Nunca um sindicato patronal sonhara com uma sujeição tão realizada dos trabalhadores.
Na Rússia, a função sindical é, nos tempos que correm, inteiramente confundida com a função exploradora do capital. O sindicato é simultaneamente patrão, contra-mestre e polícia. Em cada fábrica representa, em triunvirato com o director e técnicos (todos membros distintos do sindicato e da célula «comunista»), a mesma coisa que os conselhos confidenciais hitlerianos (Vertrauensrat). Além disso, a fusão completa do capital e do Estado-partido apaga até aos últimos traços a autonomia sindical e a actividade reivindicativa. Para os trabalhadores russos isso é uma noção que não é necessário aprenderem, pois lhe experimentaram duramente as consequências durante longos anos.
Há, na trajectória da sociedade russa, uma nítida ruptura entre o período soviético e o período sindical. Os sovietes foram os organismos representativos dos trabalhadores, executantes do seu mandato e da revolução; os sindicatos, pelo seu lado, organismos de enquadramento, foram os executantes da contra-revolução. Os sovietes tiveram de ser paralisados e finalmente dissolvidos, enquanto que os sindicatos ganhavam importância e prerrogativas à medida que a burocracia descobria a sua natureza contra-revolucionária. O proletariado foi rejeitado e amordaçado a tal ponto que hoje em nenhum lado a sua sujeição é tão absoluta como na Rússia. É verdade que não foram os sindicatos isoladamente que inspiraram a contra-revolução. Esta saiu dum conjunto de interesses e de ideias burguesas, escórias da época czarista no seio da revolução, sendo a sua base principal a alta burocracia administrativa, política e técnica, cujo número de privilégios aumentaram monstruosamente. Mas os sindicatos, por sua vez (ou, se se prefere, as suas camadas dirigentes), constituem um sector inseparável desta categoria de capitalistas estatais e omnipotentes que regem a imensa sociedade anónima falaciosamente dita União Soviética.
A interpenetração dos sindicatos e da contra-revolução russa nem foi por esta imposta, nem devida ao acaso. Ela resultou do devir espontâneo, mecânico, das suas naturezas intrínsecas, tivesse o governo de assassinar ou de «purgar» certos líderes sindicais simultaneamente com os antigos dirigentes revolucionários. Ele atacava neles não as suas funções sindicalistas, mas a sua atitude comunista, real ou potencial. Enquanto organismos, e segundo a sua própria conformação, os sindicatos ajustavam-se perfeitamente aos objectivos específicos e à rotina funcional da contra-revolução. É suficiente, para nos darmos conta disso, examinar de perto a noção de sindicato.
O sindicato é inteiramente inconcebível sem a existência universal do trabalho assalariado que, por seu turno, pressupõe a do capital. Enquanto este se encontrar encarnado em proprietários individuais comprometidos na concorrência mercantil e representados no governo por pessoas ou partidos interpostos, os sindicatos encontram-se, quando muito, em situação de discutir certas condições da exploração dos trabalhadores. Eles têm, por conseguinte, a função de regulamentar a venda da força do trabalho, função que se tornou indispensável à ordem capitalista moderna. Daí a sua importância actual, por toda a parte, enquanto estruturas complementares da sociedade, se não do próprio Estado. Mas a própria função que permitiu em tempos aos sindicatos darem no obreirismo máximo, é também um termo que assinala as suas limitações e a sua predestinação reaccionária. A sua existência como corpo constituído depende inteiramente da dualidade capital-trabalho. Eles seriam imediatamente aniquilados com a supressão desta dualidade; pelo contrário, eles podem pender tanto quanto se queira para o lado do capital sem destruir esta dualidade e tornando-se, antes, cada vez mais indispensáveis à sua manutenção. Daí que quanto mais gigantesca e anónima é a concentração do capital, mais os sindicatos e ela se justapõem e mais consideram o seu papel como directamente determinado pelos grandes interesses «nacionais». De tal modo que até mesmo os líderes estalinistas ocidentais têm cuidado em apresentar a sua política sindical como um factor de salvação nacional. E não mentem, pois o seu único futuro é o de serem a última defesa do capitalismo estatal.
Assim, todos os sindicatos sem excepção estão em termos de passar da fase de «livre» competição entre a oferta e a procura de força de trabalho (entre operários e burguesia) à fase de enquadramento da oferta pela procura, isto é, dos operários pelo capital monopolista ou estatal. Por via directa ou indirecta os sindicatos participam desde já, na maior parte dos casos, nos benefícios capitalistas, ou estão em vias disso[7] Na Rússia, esta evolução realizou-se por intermédio da metamorfose contra-revolucionária do país inteiro. A lei dá ai aos sindicatos mãos livres sobre a classe operária, sem que reste aos trabalhadores, individual ou colectivamente, a possibilidade de discutir, de aceitar ou de rejeitar as cláusulas da sua própria exploração. Todas as condições do trabalho (e, bem entendido, o que cada operário deve pensar) são ditadas pelos sindicatos directamente, em nome do capital. Como sempre, o económico e o político interpenetram–se e acabaram por se fundir no mais duro dos absolutismos.
Os exemplos dum sindicalismo de classe que se poderiam apontar foram todos obra da influência dos revolucionários e situam-se numa época (acabada pela revolução espanhola) que permitia um certo jogo da luta de classes circunscrita ao capitalismo. Mas os revolucionários que se obstinam, hoje, a extrair dos sindicatos uma vantagem qualquer para o devir socialista, condenam-se pesadamente à ineficácia, ou a algo de pior: à traição. Os antigos combates do sindicalismo francês, espanhol, italiano, etc, foram inteiramente obra das tendências revolucionárias, claramente marxistas ou anarquistas. A C.N.T. espanhola não teria sido nada sem a F.A.I. e é a própria F.A.I. que é preciso responsabilizar pela aliança reaccionária com o estalinismo durante a guerra civil. O ano de 1936 marca a falência do sindicalismo espanhol, comparável em todos os pontos à da C.G.T. francesa em 1914. Não só se submeteu, no essencial, ao estalinismo (submissão sempre apresentada como política de salvação nacional), como estabeleceu, com a central reformista U.G.T., uma aliança que comportava, em termos assaz explícitos, o capitalismo de Estado. A C.N.T. jamais se levantará duma tal queda. Todo o reagrupamento revolucionário nascido no seu seio deverá orientar-se para outros horizontes.
A experiência das colectividades em Espanha só é sindicalista pelos seus falhanços. Foi um movimento posto em marcha pelo impulso revolucionário dos militantes e das massas no mais alto grau de radicalização; os sindicatos encontraram-se perante os factos. O mesmo se pode dizer do levantamento contra os militares em 19 de Julho de 1936 e da magnífica insurreição em Maio de 1937. Quando, após a acção revolucionária, os sindicatos intervêm, controlam, administram, já tudo mudou. A actividade do proletariado em geral e dos revolucionários em particular recua, é o prelúdio da derrota. Na mesma ordem de ideias é preciso lembrar, em França, a experiência ainda recente da greve de Nantes, em 1956. Obra de alguns militantes

revolucionários nos sindicatos locais, ela foi entregue ao inimigo pelos sindicatos nacionais. Centenas de exemplos semelhantes encontram-se espalhados por todos os países do mundo. As tentativas de dar aos sindicatos um conteúdo revolucionário através de oposições internas, ou mesmo criando sindicatos inteiramente novos, estão destinadas a mau êxito. Com tais «tácticas» não se conseguirá senão enfraquecer o espírito revolucionário dos que as aplicam, se não são mesmo transformados pura e simplesmente em burocratas. Os sindicatos trazem em si mesmos as múltiplas e poderosas forças de coerção e deformação da sociedade capitalista, que agem sub-repticiamente sobre os homens, modificando ou destruindo mesmo os melhores através dum incessante trabalho de erosão. Os sindicatos são tão pouco modificáveis num sentido revolucionário como a própria sociedade capitalista. Tal como esta, eles utilizam os homens para os seus fins particulares, mas os homens nunca estarão em situação de os adaptar à finalidade revolucionária; e não poderão deixar de os destruir.
Esta tentativa de modificação revela-se quimérica mesmo só do ponto de vista prático. Na maioria dos países, os trabalhadores já não se encontram nos sindicatos. Que tragam a caderneta no bolso, voluntariamente ou forçados pela lei, nem por isso deixam de os olhar com desconfiança ou repulsa. Nos países de maior experiência, os trabalhadores só recorrem aos sindicatos quando vêem violados de modo flagrante os direitos que a lei capitalista lhes consente. Formalidade fastidiosa mas indispensável, de igual natureza à de se dirigir ao comissariado da polícia em caso de roubo. Eles sabem que contra as leis capitalistas é vão dirigirem-se aos sindicatos, pois estes são emanações delas. Daí a queda dos efectivos sindicais em numerosos casos e, em todos, a deserção das assembleias pela maioria dos trabalhadores. Os sindicatos, que têm uma vida burocrática e legal própria, só têm necessidade da classe operária como elemento dócil de manobra e, precisamente, com o objectivo de crescer enquanto instituição legal da sociedade em que vivemos. Sindicatos e massas proletárias têm uma vida quotidiana e móbeis inteiramente diferentes, e todo o trabalho «táctico» interno, mesmo guiado pelas intenções mais puras, entravará a actividade e a vida próprias aos explorados, destruindo o seu impulso combativo e barrando-lhes o caminho da revolução social.
A posição de Lenine e de Trotsky sobre o trabalho revolucionário nos sindicatos encontra-se inteiramente fora das realidades actuais. Ela pressupunha explicitamente que o proletariado, não organizado anteriormente, se agrupava, cheio de ilusões políticas, nos sindicatos, onde a liberdade da palavra permitiria aos revolucionários exprimir-se, «desmascarar» a direcção oportunista e alargar a sua influência[8]. Além das ilusões das massas sobre as organizações pseudo-revolucionárias uma premissa-chave da táctica leninista era a natureza ideológica, reformista, destas próprias organizações, então muito interessadas em obter do capitalismo concessões democráticas enquanto ala esquerda duma sociedade não acabada. Estas condições, hoje, desapareceram, e os que continuam a regular as suas actividades por elas agitam-se em vão, O proletariado fez inúmeras vezes a experiência dos sindicatos e dos partidos que os dominam, e estes mudaram num sentido inegavelmente reaccionário. Comportar-se, em relação a eles, como se se tratasse de organizações ainda reformistas ou oportunistas, não é mais do que uma ingénua expressão do oportunismo actual.
O fundamento mais sólido duma crítica revolucionária dos sindicatos, aqui defendida, é um factor não contingente nem táctico, mas de princípio e de estratégia, que não tinha sido tomado em consideração por Lenine e por Trotsky, sem dúvida porque só nos últimos decénios se desenhou com nitidez. Trata-se da assimilação dos sindicatos e dos seus inspiradores políticos pelo mundo do capital, já não em qualidade de ala democrática burguesa, mas como suportes da sociedade de exploração e das suas novas exigências contra-revolucionárias, A polémica sobre os sindicatos entre Lenine, Trotsky e Tomsky, antes da sombra sinistra da polícia estalinista ter destruído o pensamento revolucionário, encontra a solução, através da longa prova da experiência, nas conclusões desta brochura.
Há ainda revolucionários que se recusam a ver o problema e murmuram como um credo:
«Visto todas as condições que engendraram as organizações sindicais se encontrarem ainda de pé, não se vê como é que, nos nossos dias, se pode negar a sua funcionalidade». Ao mesmo tempo, eles prevêem o desaparecimento dos sindicatos para o momento do desaparecimento «dos caracteres específicos da sociedade burguesa», isto é, uma vez facilitada «a separação dos produtores com os instrumentos de produção»[9] Trata-se dum subterfúgio sentencioso, mais do que dum argumento. O que nisso se pode reconhecer verdadeiro, transforma-se, após análise, contra a táctica de modificação revolucionária dos sindicatos. Com efeito, se se entende como condições que engendraram os sindicatos, a compra, pelos possuidores dos instrumentos de trabalho, da força humana criadora de riqueza ou, dum modo mais geral, as relações características da sociedade capitalista, reconhece-se então implicitamente que os sindicatos formam um conjunto orgânico com estas próprias condições e que subsistem com elas e para elas. A partir daí, uma funcionalidade sindical útil à revolução é tão impensável corno a da Bolsa. Trata-se igualmente de valores, nos sindicatos, pelo menos no plano do tráfico e da contratação do trabalho assalariado, que não deixam de ter relações com as cotações dos valores financeiros. Além do mais, a estas condições de funcionamento dos sindicatos, ainda existentes, como é evidente, é preciso acrescentar outras duma causalidade mais imediata e mais estreitamente delimitadas no tempo. Trata-se do período de ascensão capitalista, cuja livre concorrência, incluindo a do mercado de trabalho, permita aos operários as mais largas vantagens compatíveis com o sistema. Regulamentar e administrar estas vantagens, eis o que explica a principal razão de existência dos sindicatos. Ora, no movimento de integração do sistema em grandes trusts mundiais e em capitalismo de Estado, os sindicatos que ele alimenta começam naturalmente a ter um papel reaccionário, pois não podem guardar a sua função sem se adaptarem às condições do mercado não-livre a partir de então, mas dirigido, despótico, até mesmo malthusiano, visto impedir o desenvolvimento possível da economia e do homem.
Assim, as condições que deram, em sentido estrito, origem aos sindicatos, já não existem. Morreram ao mesmo tempo que aquilo que justificava a existência do capitalismo como forma social historicamente progressiva. São os revolucionários, infelizmente, que têm um grande atraso no reconhecimento dos factos e na análise das suas consequências.
A argumentação de Il Programa Comunista, que é a melhor justificação teórica para todas as tendências agarradas a um sindicalismo oposicionista ou revolucionário, incluindo anarquistas, é no entanto errónea do princípio ao fim. É sumamente perigosa, sobretudo em caso de revolução vitoriosa. A escapatória que consiste em remeter o desaparecimento dos sindicatos até ao apagamento dos últimos vestígios do capitalismo, na realidade até ao desabrochamento do comunismo, daria a estes organismos, durante o período de transição pós-revolucionário, um monopólio sobre o proletariado de consequências necessariamente nocivas. Longe de aproximar a sociedade do comunismo, ele levantaria mais um obstáculo, e não dos menores, que favoreceria, como na Rússia, o capitalismo de Estado. A análise de Bordiga associa o desaparecimento dos sindicatos ao desaparecimento da violência na sociedade, que o mesmo é dizer: do Estado. Ora o deperecimento do Estado e de toda a violência social só pode ser o fruto do desaparecimento prévio da exploração, do trabalho assalariado, mais precisamente — com o que os sindicatos se encontram em contradição de interesses e de princípios.
Há um século, Karl Marx reprovava os sindicatos por restringirem as suas reivindicações às questões de féria, de horas de trabalho, etc., não dando importância ao problema da abolição do salariado, chave da supressão do capitalismo. Marx seria hoje tido como pequeno-burguês igualitário pelas gentes de Moscovo e como ultra-esquerdista enlouquecido por aqueles que aspiram a reformar os sindicatos. E ele não via esta abolição para as calendas gregas, para bem depois da revolução, mas como concomitante a esta, ou como sua causa. Ele pensava mesmo, já na sua época, que os países industriais dispunham de meios materiais mais que suficientes para realizarem tal revolução. Nós, os revolucionários, estamos em situação de acrescentar, nos nossos dias, que os sindicatos prejudicam toda a perspectiva de revolução social, porque se tornaram num elemento indispensável da exploração do homem pelo homem. O seu papel na economia actual é comparável ao das corporações da época manufactureira. Com esta diferença, todavia: enquanto que as corporações se mostraram inadaptáveis à grande indústria, os sindicatos adaptam-se perfeitamente à forma mais absoluta do capitalismo, a forma estatal. Eles perecerão com a vitória da revolução social (mais exactamente, o seu desaparecimento é condição desta vitória, à falta do que se transformarão num gigantesco aparelho coercitivo complementar do Estado-patrão). Aí se encontra a maior ameaça contra-revolucionária da nossa época. Se a humanidade se mostrasse incapaz de lhe fazer frente, no mundo estalinista bem como no mundo ocidental, cair-se-ia na mais sinistra das eras.
Todos os trabalhadores devem decidir sobre os problemas económicos postos pela marcha da sociedade para o comunismo, sem necessidade duma qualquer afiliação. Nenhum organismo pode ser identificado com a sociedade nem investido com atributos desta, quer se trate dum sindicato ou dum partido. Pode-se conceber, com base nos fundamentos materiais da revolução, a existência de diversas correntes ideológicas em competição leal para a maioria. A possibilidade de intervenção directa de todos nos assuntos sociais não deixaria de ficar mais bem garantida. Pelo contrário, a gestão sindical da economia mostra-se forçosamente anti-democrática e sufocante, porque exclui os não- membros e, na realidade, impõe-se a todos. É verdade que os ideólogos podem degenerar ou trair, mas é apenas através do desabrochamento das ideias revolucionárias que o homem conquistará a liberdade.
Mesmo as reivindicações imediatas que o proletariado tem diante de si na hora actual escapam a toda formulação pelos sindicatos. Com efeito, face à exploração acentuada pela técnica, as horas extraordinárias, o trabalho peça, a cronometragem, etc., é indispensável reivindicar-se uma redução da jornada de trabalho para cinco ou seis horas no máximo, sem diminuição do salário médio anterior, incluindo todos os prémios. E, numa tal base, é urgente reclamar um horário de trabalho em diminuição constante, inversamente proporcional aos progressos da técnica. Está aí a forma de enfrentar as esmagadoras jornadas de trabalho actuais e de prefigurar uma reorganização do trabalho social necessário, através da supressão do gigantesco trabalho parasitário actual, na indústria bem como na burocracia governamental e administrativa.
O complemento indispensável desta reivindicação é a recusa de realizar todo e qualquer crescimento da produção, proceda ele dos aperfeiçoamentos dos instrumentos de trabalho ou da aceleração do ritmo do trabalho, se a classe operária disso não beneficia integralmente, porque esta representa o interesse da sociedade inteira, vista no seu devir civilizador. Reivindicação duma importância sem limites, não apenas contra o capitalismo e as suas ameaças de guerra, mas ainda como regra ordenadora da futura revolução vitoriosa. Por detrás dela, surge naturalmente a necessidade de desenraizar o sistema actual.
E, politicamente, seria preciso antes de mais impor a plena liberdade nos lugares de trabalho. Rejeição de toda e qualquer regulamentação interna que não fosse estabelecida por delegados democraticamente eleitos e em seguida aprovada em assembleia-geral. Para todo o problema ou conflito, comités eleitos fora do sindicato em cada unidade de trabalho e revogáveis em qualquer altura. Os acordos com a direcção devem comportar a aprovação dos próprios interessados e não a do sindicato ou de vários sindicatos coligados, mesmo quando pretendam representar a maioria. Por fim, a ligação entre os múltiplos comités operários permitiria reivindicar-se enquanto objectivo imediatamente realizável a gestão operária da produção e da distribuição à escala nacional e internacional.
Um estudo circunstanciado de todos os problemas imediatos que a situação actual do mundo põe à classe operária não deixaria de fornecer dados neste sentido. As três ordens de problemas mencionados, que resumem todos os outros, mostram largamente o conservadorismo reaccionário dos sindicatos e a impossibilidade, para os trabalhadores, de dar um só passo em frente sem os enfrentar. Sem se desembaraçar deles, o proletariado não sairá do seu marasmo actual e não terá mais nenhuma perspectiva revolucionária.
O futuro dos sindicatos está sem dúvida ligado ao do capitalismo; não ao da revolução. A sua aptidão a ajustarem-se ao devir reaccionário da sociedade foi largamente ignorada, mesmo pelos revolucionários mais clarividentes. É preciso, entretanto, anotar uma excepção, no que toca a um teórico quase desconhecido, Daniel de Léon, cujo pensamento sobre este assunto se revelou premonitório. Desde 1905, Daniel de Léon viu que os sindicatos e partidos operários oficiais continham graves ameaças contra-revolucionárias. O opúsculo em que expõe sucintamente as suas ideias merece a meditação de todos os revolucionários[10].
De Léon não é um «peralvilho» da análise. os seus julgamentos são excelentes sínteses históricas e, na sua voz, ressoa a paixão revolucionária. Com base na experiência mundial, e muito particularmente nas Trade-Unions britânicas e americanas, com os seus respectivos mentores trabalhistas, ele prediz que a vitória destas organizações liquidaria claramente a revolução social: «Os líderes operários actuais representam uma posição mascarada, um ponto estratégico e uma força que sustenta o capitalismo e a sua verdadeira natureza não pode deixar de produzir uma desastrosa desmoralização na classe operária.»
De Léon compara os líderes operários e as suas organizações aos líderes da plebe de Roma. Tal como estes utilizaram perfeitamente a plebe para aceder ao piano e aos direitos da classe patrícia, sem nunca conceder às massas despossuídas mais do que migalhas, os líderes operários modernos e as suas organizações servem-se do proletariado para consolidar as suas posições económicas e políticas no sistema de exploração capitalista: «Da mesma forma que os líderes da plebe, os líderes operários são homens «práticos», do que se gabam; eles não alimentam «visões», eles não correm atrás do «arco-íris»…
«Da mesma forma que os líderes da plebe, os líderes operários não vêem saída para o sistema social existente» — e, como eles, «aspiram a apagar a chama que devora a classe assalariada».

«Tal como os líderes da plebe em Roma, e se não se os defrontam (…), os líderes operários tornarão sem dúvida nulas todas as possibilidades de salvação desta época: eles porão do avesso «acções de grande importância e vigor», até lhes fazer perder o nome de acções».
O a-propósito da comparação entre os líderes da plebe romana e os nossos grandes burocratas sindicais e políticos ganha todo o seu valor quando se vê o papel tido em toda a história romana pelo partido dito da plebe. Surgido na época dos Tarquinos, em contradição aparentemente irredutível com a classe dos patrícios que dominavam a sociedade, ele adquire importância e conquista posições durante a República. Não foi porém em benefício da verdadeira plebe, da massa pobre, livre ou escrava, mas dos privilegiados, que a representavam formalmente e não entravam na categoria plebeia senão em função do atavismo das leis. César e Augusto, os fundadores do Império, recorrem constantemente ao embuste de se dizerem originários ou partidários da plebe. A sua vitória, ponto culminante do partido dos líderes da plebe, destruiu para sempre as possibilidades de revolução em Roma. Os usurpadores plebeus substituíram em geral a velha classe patrícia e não abriram a via a um tipo superior de sociedade, limitando-se a prolongar a decadência do mundo antigo, à qual presidiram na sua última etapa.

Apesar das grandes diferenças estruturais e ideológicas entre a civilização greco-romana c a civilização capitalista, a analogia é muito grande entre o papel dos líderes da plebe e, nos nossos dias, o dos líderes operários. Quer eles se digam apolíticos, comunistas ou socialistas, substituíram (no seu íntimo e por interesse) à principal contradição do capitalismo, a que só pode desaparecer com a sua destruição, uma outra contradição não essencial, inscrita nas necessidades funcionais do capitalismo e cuja «solução» os torna, a eles, indispensáveis, excluindo toda e qualquer intervenção revolucionária dos trabalhadores.
A burguesia e o proletariado são o perfil humano, a imagem antropomórfica da contradição social entre capital e trabalho assalariado. Esta contradição só é redutível através da abolição do capital, acto que deve suprimir, simultaneamente, o próprio trabalho assalariado. Aqui finda o capitalismo e começa a revolução socialista, de onde se apercebe o horizonte ilimitado duma nova civilização.
O espírito dos líderes ditos operários, bem como a natureza das suas organizações, são absolutamente incompatíveis com a solução desta contradição. Eles não encaram e não se esforçam por resolver senão uma contradição secundária, interna aos interesses da exploração, a da «anarquia» do capitalismo individual, com as suas crises cíclicas que pedem um plano de produção ordenado e uma severa regulamentação da mão-de-obra, incluindo desemprego. Deste modo concordam os interesses dos líderes «operários» e os do grande capital, que reclama todos os dias uma maior regulamentação económica, maior concentração. Por outras palavras, o que eles entrevêem e querem ultrapassar são as dificuldades que o sistema encontra no seu caminho em direcção ao monopólio único, e de modo nenhum as que o sistema opõe à marcha da humanidade para o comunismo. Isto dito, na concentração dos meios de produção num só monopólio de Estado, o factor trabalho (de que dependem consumo, liberdade, cultura, vida inteira de todos os humanos) surge como um elemento tão subordinado às exigências do plano como o minério de ferro, o cobre ou qualquer outra matéria-prima. A supressão da burguesia não provoca de modo nenhum a do capital, tal como não provoca a do proletariado. O capital é uma função económica, não um proprietário; desencarnando-se, fazendo-se pura função anónima, o capital completa a sua opressão do homem e impede a sua marcha graças a forças contra-revolucionárias novas. Assim, a representação puramente antropomórfica da contradição entre capital e salário (burguesia/proletariado) faz aos líderes políticos e sindicais o serviço de apresentar a supressão do capital privado como sendo a supressão do capital em geral e a sua própria gestão económico-política como a solução das contradições sociais. Eles sabem já, pela experiencia da contra-revolução estalinista e em grande parte pela experiência das Trade-Unions ianques e britânicas, que quanto mais completa for a concentração do capital, maior será a parte dos benefícios que conseguirão obter.
O aspecto mais ameaçador desta tendência dos líderes «operários» surge no facto de coincidir inteiramente com a lei de concentração dos capitais e com o desenvolvimento das coerções materiais e ideológicas que são sua consequência. Apesar de tudo, eles só são efectivamente perigosos em função da passividade do proletariado, que os revolucionários não poderiam sacudir agarrados a tácticas e ideias ultrapassadas. Presos a velhas fórmulas, são atacados pela esterilidade. É no entanto suficiente olhar à nossa volta para se compreender que a necessidade humana duma transformação total choca-se simultaneamente com o capitalismo e com os líderes «operários», e que este choque abre um extenso campo para a acção revolucionária. A humanidade não tem qualquer necessidade de planos tecnocráticos de produção para a própria produção, pianos que só podem ser de exploração e de guerra. A crise que atinge a civilização não encontrará saída antes de toda a produção ser orientada, sem venda prévia, para o consumo. Ê necessário que todos os indivíduos, em função da sua existência, estejam em condições de usar à sua vontade bens materiais e bens do espírito. O mercado de uns e de outros provoca a insatisfação da imensa maioria, a impossibilidade de pleno desenvolvimento dos indivíduos e a venalidade da cultura. Só então a supressão dos proprietários individuais ou dos trusts provocará inevitavelmente a supressão do proletariado, isto é, da classe que só consome e só vive proporcionalmente ao seu salário. Ë por conseguinte o poio «trabalho assalariado» que é preciso suprimir; assim desapareceriam necessariamente o capital como função económica e os exploradores, burgueses ou burocratas de qualquer espécie. Todo o plano de produção deve então ser estabelecido em função dos dados não mercantis do consumo humano, com tudo o que estas últimas palavras supõem de liberdade política e cultural, O verdadeiro aspecto antropomórfico do problema é a supressão do trabalho assalariado, que daria ao homem a possibilidade de dirigir o seu próprio destino. Substituindo-o pela supressão dos burgueses, cujo lugar ocupariam, os líderes sindicais voltam a servir-nos o antropomorfismo falacioso das religiões, com o plano de produção em vez de Deus, pai e juiz dos homens, tendo os altos burocratas políticos, sindicais e técnicos o papel dos sacerdotes.
Que os revolucionários expulsem das fábricas e das organizações profissionais os representantes dos sindicatos, e os Thorez, os Nenni, os Reuther de todos os países, com o Vaticano acaçapado por detrás dos sindicatos cristãos, ver-se-ão paralisados. A classe operária terá recuperado a sua liberdade de acção e de pensamento e encontrar-se-á rapidamente em condições de revolver a sociedade dos pés à cabeça. Ela conseguirá então o impulso necessário para arrancar a humanidade do lodaçal em que se move.

(Milão, Maio de 1960) G. Muñis

SIGLAS CITADAS
UGT — Unión General de Trabajadores
CNT — Confederación Nacional del Trabajo

FAI — Federación Anarquista Iberica
SFIO — Secção Francesa da Internacional Operária

CFTC — Confederação Francesa dos Trabalhadores Cristãos
FO — Force Ouvrière

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[1] Aqui Muñis refere-se a órgãos componentes dos sindicatos e não a órgãos autónomos que por vezes tomam este nome. [Nota de Velha Toupeira]

[2] Um operário que lê no interior da fábrica l’Unità, órgão do partido estalinista, é posto na rua sem formalidades, com a aprovação dos grandes chefes do Partido, que assinaram tal cláusula.

[3] Termo pejorativo aplicado pelo povo aos actuais amos.

[4] Durante a lua de mel das relações americano-russas por volta do fim da guerra, alguns chefes de monopólios ianques (entre outros, Johnston, então presidente da Câmara de Comércio), convidados por Moscovo a visitar as suas empresas industriais, elogiavam imenso os métodos de exploração «soviéticos» que os operários americanos, lamentavam-se eles, lhes impediam de aplicar.

[5] Trud, órgão dos sindicatos russos, 19/2/47, citado por Salomon M. Schwarz em Labor in the Soviet Union, Londres, 1953, p. 230.

[6] A revolução de 1917 esboça o desaparecimento do trabalho assalariado e do capital. É assim que um crítico reformista, Zagorsky, definia a economia da primeira época como sendo «um enorme empreendimento de beneficência». A partir da NEP (Nova Política Económica), começa claramente um movimento inverso que adquire o carácter de capitalismo de Estado por virtude da contra-revolução estalinista. Até aí os contratos eram individuais, mesmo se não eram escritos. A sistematização dos contratos colectivos é paralela à de um capitalismo de Estado que se quer estável e definitivo.

[7] As excepções que existem não negam, como é evidente, o que se diz. Convém notar todavia que não correspondem aos países atrasados, mas sim aos velhos países da Europa. Nos países atrasados onde os sindicatos são (ou parecem ser) novos, aceitam de boa vontade ser assoldadados pela burguesia ou pelo Estado. Com frequência, os sindicatos duma mesma profissão entram mesmo em concorrência desavergonhada para oferecer a um patrão a sua mão-de-obra a mais baixo preço.

[8] É o que se pode ler em detalhe no livro bem conhecido de Lenine A doença infantil do comunismo.

[9] A tendência italiana de Bordiga de que combatemos aqui os argumentos (Il Programa comunista, 26/5/60) defende o conservadorismo táctico sindical sob o ângulo mais revolucionário. Mas neste mesmo erro caiem, com um pendor oportunista, numerosos grupos de origem trotskysta ou anarquista, para não dizer todos. Até mesmo os que se gabam de ser contra os sindicatos, como Socialisme ou Barbarie, praticam na realidade a velha rotina.

[10] Two pages from Roman history. I-Pleb Leaders and Labor Leaders. II-The Warning of the Grachi. Nova lorque, 1946.

22/12/2009

Divisão do trabalho e consciência de classe – Paul Mattick

Divisão do trabalho e consciência de classe (1971)

(PDF)

Por Paul Mattick. Foi primeiramente publicado em Die Revolution ist keine Parteisache, I, nº 2

Trabalho produtivo e trabalho improdutivo
Nestes últimos tempos, a questão da consciência de classe foi colocada sob uma nova forma, em conexão com os conceitos marxistas de trabalho produtivo e trabalho Improdutivo, e assim submetida a discussão[1]. Embora Marx se haja alongado sobre este problema[2], é fácil resumir o que dele pensava. A fim de saber o que distingue o primeiro do segundo, Marx apela unicamente para o modo de produção capitalista. «No seu espírito limitado, diz Marx, o burguês confere um carácter absoluto à forma capitalista da produção, considerando-a a forma eterna da produção. Ele confunde a questão do trabalho produtivo, tal como ela se coloca do ponto de vista do capital, com a questão de saber que trabalho é produtivo em geral ou o que é o trabalho produtivo em geral. E a este propósito finge-se conhecedor do assunto, respondendo que qualquer trabalho que produz qualquer coisa conduz a um resultado e é, eo ipso, um trabalho produtivo»[3].
Segundo Marx, só é produtivo o trabalho que produz capital, sendo improdutivo o trabalho que se troca directamente por lucro ou salário. «O resultado do processo de produção capitalista, expõe ele, não é portanto nem um simples produto (valor de uso), nem uma mercadoria, isto é, um valor de uso possuindo um determinado valor de troca. O seu resultado, o seu produto, é a criação de mais-valia para o capital e, consequentemente, a conversão efectiva de dinheiro ou mercadorias em capital, o que anteriormente ao processo de produção apenas são por intenção, em si, por destino. O processo de produção absorve mais trabalho do que aquele que foi pago, e esta absorção, esta apropriação de trabalho não pago, que se efectua no processo de produção capitalista, constitui o seu objectivo imediato, O que o capital (e portanto o capitalista enquanto capitalista) quer produzir não é nem um valor de uso imediato com vista ao auto-consumo, nem tão pouco uma mercadoria destinada a ser convertida primeiro em dinheiro e depois em valor de uso. Ele tem por objectivo o enriquecimento, a valorização do valor, o seu crescimento, e consequentemente a manutenção do antigo valor e a criação de mais-valia, E este produto especifico do processo de produção capitalista é obtido graças à troca com o trabalho que, por esta razão, é considerado produtivo»[4].
Na verdade, processo de produção e processo de circulação formam, no sistema capitalista, uma e única totalidade. É preciso, portanto, distinguir a criação de mais-valia da sua distribuição, na medida em que, quer na esfera da circulação quer na da produção, são versados salários e realizados lucros, atenuando a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo. A divisão do trabalho, tomada enquanto produto histórico — e submetida a constantes transformações — do desenvolvimento capitalista, tem por consequência a repartição do capital pelos diversos sectores da economia de mercado e faz com que os capitais improdutivamente empregados recebam uma parte da mais-valia social global. À semelhança do capital gerador de mais-valia, o capital não criador do produto assume a forma de empresas fornecedoras de um lucro médio ao capital nelas investido.
Esta unidade dos dois tipos de trabalho não se manifesta apenas no processo de conjunto da produção capitalista. No seio das empresas geradoras de mais-valia, assiste-se igualmente a uma divisão do trabalho, em função da qual uma parte da mão-de-obra cria directamente mais-valia, enquanto outra o faz indirectamente, Segundo Marx, «o modo de produção capitalista tem precisamente por traço característico a separação entre as diversas espécies de trabalho — e portanto também entre o trabalho intelectual e o trabalho manual — ou mesmo os trabalhos pertencendo a uma ou a outra destas categorias, repartindo-as por diferentes indivíduos. Todavia, isto de modo algum impede que o resultado final seja o produto colectivo desses indivíduos ou que esse produto colectivo se objective em riqueza material, o que, por sua vez, não vem impedir que a relação de cada um destes indivíduos com o capital continue a ser a de trabalhadores assalariados e, neste sentido eminente, de trabalhadores produtivos. Todos estes indivíduos estão não apenas empregados na produção imediata da riqueza material mas ainda trocam o seu trabalho por dinheiro enquanto capital e reproduzem automaticamente, além do salário, uma mais-valia para os capitalistas»[5]. Para além dos empregos ligados à produção e circulação das mercadorias, existe uma quantidade de profissões que, sem participarem numa ou noutra destas esferas, produzem serviços em vez de mercadorias e cujo pagamento consta do orçamento dos trabalhadores, dos capitalistas, ou de ambos. Do ponto de vista do capital, e por mais útil e necessário que possa ser o trabalho destas categorias, ele é improdutivo. Que os serviços sejam comprados enquanto mercadorias ou remunerados com dinheiro extraído dos impostos, tudo quanto os membros destas profissões auferem é proveniente da receita dos capitalistas ou do salário dos trabalhadores. O que parece dever levantar uma dificuldade. Na verdade, entre estas profissões muitas há (professores, médicos, investigadores científicos, actores, artistas e outros) cujos membros, não deixando nunca de produzir única e exclusivamente serviços, continuam no entanto a ser empregados e ocasionam lucro ao empresário que lhes dá trabalho. Esta a razão por que este trabalho que foi pago é considerado pelo empresário como produtivo, visto que lhe permitiu realizar um lucro, valorizar o seu capital. No entanto, para a sociedade, este trabalho mantém-se improdutivo, na medida em que o capital que assim foi valorizado representa uma certa parte do valor e da mais-valia criada na produção.
Além disto, subsistem ainda hoje artesãos e camponeses independentes que não utilizam operários e que portanto não produzem na qualidade de capitalistas. «Eles apresentam-se unicamente como vendedores de mercadorias, não como vendedores de trabalho; este trabalho não tem portanto nada a ver com a troca do capital e do trabalho nem, consequentemente, com a distinção entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo, que é baseada no facto de o trabalho ser trocado por dinheiro, seja enquanto dinheiro, seja enquanto capital. Não deixando de produzir mercadorias eles não pertencem assim nem à categoria dos trabalhadores produtivos nem à dos trabalhadores improdutivos Mas a sua produção não é subordinada ao modo de produção capitalista»[6]

A consciência de classe na sua relação com o trabalho produtivo e com o trabalho improdutivo


A existência da taxa de lucro médio, que a concorrência estabelece em função da oferta e da procura, faz com que pouco importe ao capitalista que o seu capital seja Investido na produção, na circulação ou nos dota sectores simultaneamente. O problema do trabalho produtivo e improdutivo no se lhe coloca. Tão pouco os trabalhadores se perguntam se estão empregados de modo produtivo ou improdutivo. Na verdade, quer num caso quer no outro, a sua existência depende sempre da venda da sua força de trabalho. Em consequência da divisão capitalista do trabalho, cada grande categoria profissional recebe um salário diferente. Os trabalhadores fazem concorrência uns aos outros primeiro para encontrarem trabalho, depois para obterem os empregos melhor retribuídos e menos custosos. Tudo se passa como se o capital deixasse a concorrência entre os trabalhadores fixar as condições adequadas à reprodução da força de trabalho.
A acumulação do capital é acompanhada, por um lado, pela concorrência entre os capitalistas, por outro pela que existe entre os trabalhadores e ainda por uma confrontação permanente patrões-operários a respeito do nível de salários e portanto dos lucros. Estes diversos factores entrechocam-se e influenciam-se reciprocamente, Os interesses económicos assumem aos olhos dos capitalistas e dos trabalhadores o aspecto de interesses de classe. Os primeiros não fazem face separadamente aos trabalhadores no seu conjunto, nem estes últimos afrontam o capital no seu conjunto.
O Estado e a ideologia capitalistas servem de garantia aos interesses colectivos dos capitalistas, à manutenção das relações de produção existentes. Quanto ao interesse colectivo dos trabalhadores, ele deve, para prevalecer, levar vantagem sobre a concorrência a que estes se entregam entre si e não pode ultrapassar os limites a que a dependência do trabalho em relação ao capital o submete. Isto diz respeito tanto ao trabalho produtivo como ao trabalho improdutivo.
Quando Marx fala do desenvolvimento da consciência de classe proletária, não o faz de modo algum baseado na distinção entre estes dois tipos de trabalho, mas sim fundamentando-se nas transformações ocorridas nas relações de classe, enquanto a acumulação do capital se prossegue e, devido a isso, a divisão da sociedade em duas grandes classes se acentua, tendo como resultado a proletarização crescente de uma cada vez maior parte da população. E assim que se pode ler em O Capital: «À medida que diminui o número dos potentados do capital que usurpam e monopolizam todas as vantagens deste período de evolução social, aumentam a miséria, a opressão, a escravatura, a degradação, a exploração, assim como igualmente se desenvolve a resistência da classe operária, cada vez mais disciplinada, unida e organizada pelo próprio mecanismo da produção capitalista. O monopólio do capital torna-se um obstáculo ao modo de produção que se desenvolveu e prosperou com ele e sob os seus auspícios. A socialização do trabalho e a centralização das suas actividades materiais chegam a um ponto em que não cabem mais no seu invólucro capitalista. Este último acaba por rebentar. A hora da propriedade capitalista soou. Os expropriadores serão por seu turno expropriados»[7].

Assim, tudo levava a crer que os trabalhadores «educados, unidos e organizados pelo processo de produção capitalista» tomariam consciência quer da sua exploração e situação de classe, quer da possibilidade de abolir as relações de produção capitalistas que se lhes deparavam. A actividade colectiva de milhares de trabalhadores no seio da fábrica e a obrigação em que se encontravam de permanentemente terem de se defender contra o capitalismo e os seus mandatários, não podia, na verdade, deixar de ter efeito sobre as suas consciências, E dai à organização dos operários em partidos e sindicatos, assim como ao aparecimento de uma consciência de classe, não distava um passo. Ainda que esta última não fosse característica única dos trabalhadores comprometidos na produção, ela viria a manifestar-se mais acentuadamente entre eles, dado que é na fábrica que a exploração capitalista se faz sentir mais nitidamente e é lá também que a luta contra essa exploração toma aspectos mais prometedores. De facto, a luta do Capital e do Trabalho desenvolveu-se bastante tempo exclusivamente na esfera da produção. Não se pode dai concluir, apesar disso, que o carácter produtivo do trabalho, e só ele, se encontra na origem deste género de consciência de classe e que o trabalho improdutivo torna mais difícil, ou mesmo impossível, a sua formação. Na esfera da circulação como na outra, o processo de concentração capitalista tem como efeito a reunião de grandes massas de trabalhadores, oferecendo-se-lhes a partir de então possibilidades de acção em nada inferiores às dos trabalhadores produtivos. E tanto assim que se viu os primeiros organizar-se e lançar-se em movimentos de greve exactamente como os segundos. A consciência de classe, quando exprimida através das lutas económicas, caracteriza portanto igualmente as duas categorias de trabalhadores.
Embora a consciência de classe tenha aparecido primeiramente nos trabalhadores produtivos do que nos outros, ela manifesta-se em função da situação de classe dos trabalhadores e não do lugar particular que estes ocupam no contexto da divisão capitalista do trabalho. Para saber se os trabalhadores improdutivos poderão vir a possuir uma consciência de classe que seja comparável à dos trabalhadores produtivos, será primeiramente necessário definir precisamente o que isto significa. Se ter uma consciência de classe consiste em discernir as relações de produção capitalistas e defender os seus interesses contra o capital, forçoso é admitir que quer num caso quer no outro ela existe. Os trabalhadores de ambas as categorias consideram-se como uma classe oposta aos capitalistas — ainda que não recorram à noção de classe — e procuram salvaguardar os seus interesses face ao capital. Até agora nem uns nem os outros se perguntaram ainda como seria necessário agir para alargar ainda mais a relação capital-trabalho. A sua «consciência de classe situa-se no terreno do capitalismo e é mesmo inútil insistir sobre a ideia que eles se fazem da sua condição social, uma vez que são objectivamente constrangidos a fazer valer os seus interesses económicos em função das relações de classe existentes.

A consciência de classe revolucionária, que visa destruir sistema capitalista, é de um género totalmente diferente, produtivos ou não, os trabalhadores estão muito longe dela. Assim, quando em tempo de crise social certas fracções das massas laboriosas da Europa se lançaram ao ataque da ordem estabelecida, essas tentativas estavam ligadas à crise, não ao carácter produtivo do seu trabalho; além disso, além daqueles elementos, outros havia e originários das mais diversas categorias sociais. De observar ainda que se, para além das reivindicações imediatas, o movimento operário nos seus inícios fez do socialismo um objectivo final, não tardou porém a renunciar a ele. Eis porque não se poderá considerar os trabalhadores produtivos, nesta única qualidade, como os únicos detentores de consciência de classe. Claro que tal poderá acontecer em tempos de crise mas o mesmo se passa com as outras categorias da população trabalhadora.
Trabalho e Ciência


De qualquer modo, a discussão que nos serviu de ponto de partida refere-se não à distinção entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo, no sentido de Marx, mas a uma evolução especifica, a dos últimos anos, em que se tem visto por um lado o trabalho improdutivo aumentar em detrimento do produtivo e, por outro, a ciência interferir com a produção numa medida muito superior em comparação com o passado. Desde então, passou a observar-se, não sem agrado, que o trabalho produtivo já não seria característico dos operários de indústria. Longe disso, ele englobaria daqui em diante as actividades científicas objectivadas nas condições materiais do trabalho. Eis porque seria chegada a ocasião de reexaminar a relação da ciência com os trabalhadores e a sociedade.
O aumento do trabalho improdutivo e a intensiva aplicação da ciência à produção, constituem dois fenómenos que, se bem que estejam em conexão, não deixam contudo de ser contraditórios. Se a utilização da ciência apresenta como consequência o aumento da mais-valia, o aumento do trabalho improdutivo, em contrapartida, vem a reduzi-la e consequentemente a diminuir a acumulação do capital. Ao mesmo tempo que a produção se alarga, a parte do trabalho improdutivo aumenta mais depressa que a do trabalho produtivo, o que vem a tornar mais difícil a valorização do capital total. Para que o ritmo da acumulação se mantenha, enquanto a parte do trabalho improdutivo continua a progredir, é preciso elevar a produtividade do trabalho, donde a aplicação mais intensiva do que nunca da ciência à produção.
Assim, um certo número de cientistas vê-se sem dúvida transformado em trabalhadores produtivos. Porém, um número cada vez maior de outros trabalhadores, na medida em que se põem em funcionamento técnicas científicas, vêem-se reduzidos ao desemprego, pois se se utilizam técnicas científicas é para economizar força de trabalho, conseguindo embora uma produção alargada. Mas devido à transformação de que, no contexto deste processo, é vitima a relação entre valor total do capital e mais-valia social global, as realidades subjacentes à produção social contrariam todo este esforço dos capitais particulares que devem concentrar-se no mercado. Na verdade, visto que a soma do tempo de trabalho social e portanto, ao fim e ao cabo, a do tempo de trabalho social não pago, tem que diminuir em relação ao capital global, e consistindo a mais-valia em tempo de trabalho não pago, a valorização do capital por si só tem que ser decrescente. Donde a necessidade em que se encontram todos os capitais particulares de aumentar de novo a sua produtividade vindo assim a agravar ainda mais esta contradição inerente ao processo de acumulação capitalista.
A parte que é devida às aplicações da ciência no progresso da produtividade de modo algum se distingue do aumento geral da produtividade do trabalho no quadro da acumulação do capital. Do mesmo modo, estas aplicações deparam com os limites fixados ao desenvolvimento da produtividade em geral, a saber, os limites fixados à valorização do capital. É a acumulação que determina o recurso às técnicas científicas. Abandona-se a sua utilização a partir do momento em que deixam de oferecer rendimento. Na verdade, apenas se percebe que deixaram de dar rendimento pelo nível do mercado, não por uma ruptura de proporção entre valor e mais-valia, mas pela ausência de procura, o que tira todo o sentido, do ponto de vista capitalista, a um novo aumento da produção. Desde que transformações estruturais da economia global venham a renovar a mais-valia de acordo com as exigências da valorização do capital, aqueles limites de produção — e igualmente os da técnica enquanto esta colabora no aumento da mais-valia — podem, é claro, servir de seguida como ponto de partida para uma fase de expansão. Embora os investimentos em capital constante aumentem mais depressa que os do capital variável, no caso de um tal relançamento a taxa de acumulação conhecerá um salto em frente, o mesmo acontecendo com o número dos trabalhadores efectivamente empregados. Se porém esse desenvolvimento apenas acontece em reduzida escala, a taxa de acumulação torna-se estacionária e o desemprego ganhará vantagem. Após a última guerra mundial, não se pode constatar este fenómeno pelo facto de o movimento cíclico da economia ter sido em parte desviado do seu curso por intermédio de intervenções politicas que lhe eram exteriores. A expansão da produção improdutiva provocada pelo Estado e por este financiada através do «deficit» orçamental, ou seja, por meio de injecções massivas de crédito à economia, manteve o desemprego a um nível que, longe de corresponder à taxa de acumulação indispensável, está antes relacionado com o constante aumento da divida pública, com a pressão fiscal e a inflação. Simultaneamente, a parte do trabalho improdutivo face ao trabalho social global aumenta regularmente.
A acumulação do capital e a expansão dos mercados tem por corolário o crescimento das despesas de circulação. Se a produção aumentar rapidamente sob o efeito de uma produtividade acrescida do trabalho, o trabalho improdutivo gasto na esfera da circulação vem agravar com o seu custo a massa de mercadorias lançadas no mercado. Por exemplo, a extracção petrolífera absorve, graças a uma automatização progressiva, uma soma de trabalho muito reduzida, mas a distribuição dos produtos a que dá origem mobiliza um número de trabalhadores que não cessa de aumentar. Ainda que o princípio da economia de mão-de-obra seja soberano, tanto na esfera da produção como na da distribuição, a primeira presta-se infinitamente melhor à sua realização. Geralmente, a produtividade acrescida do trabalho tem como efeito a modificação da relação existente entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo em proveito deste último, se bem que nos países industrialmente avançados os trabalhadores produtivos constituam a partir deste momento uma minoria.
Por outro lado pode-se observar uma transformação análoga na relação existente no seio da produção entre o número dos operários de indústria e o da mão-de-obra com uma formação científica, Assim, nos Estados Unidos, o número de técnicos e investigadores passou, em relação ao conjunto da mão-de-obra activa, de 1,5 % em 1940 para cerca de 5 % em 1970, enquanto o total dos operários de indústria se manteve sem alteração e a produção duplicou. É a este intensivo recurso à ciência e à técnica que se atribui o aumento da produtividade do trabalho. Dai a origem do conceito de «capital humano» para exprimir um aspecto da produção cuja importância particular é cada vez maior.
Enquanto meios adicionais de produção, consideram-se rentáveis os investimentos na ciência e na técnica, o que traz como resultado o aumento das economias da mão-de-obra e da rentabilidade do capital. Ainda que o facto seja incontestável, é necessário não esquecer que no sistema capitalista tudo quanto diga respeito a questões de rentabilidade é unicamente função da criação de mais-valia, a qual é medida em relação ao capital global. Se a economia de mão-de-obra, devida a uma produtividade acrescida graças às aplicações da ciência, permite que seja reduzido mais do que proporcionalmente o trabalho humano em geral, a economia de capital realizada por este meio em nada vem alterar a tendência da taxa de lucro para decrescer, que acompanha a acumulação. A fim de que esta tendência se mantenha num estado latente, é necessário que a taxa de acumulação continue a progredir cada vez mais rapidamente. Apesar destas economias, a valorização do capital é sempre um imperativo categórico: hoje como ontem, a produção deve permitir a conversão de um capital qualquer num capital maior.

A abundância capitalista


Assim, simultaneamente com o crescente enfeudamento do trabalho produtivo à ciência, aquele seguiu uma curva decrescente. O que não deixou de alimentar novas ilusões, E considerado como facto comprovado que em virtude dos progressos tão espectaculares da produtividade do trabalho, a problemática do capitalismo se deslocou, passando da esfera da produção para a da distribuição. A partir de então, atribuem-se os obstáculos que o sistema encontra não a uma carência mas, pelo contrário, a uma abundância de mais–valia, abundância esta que tornaria cada vez mais custosa a sua realização no contexto de uma economia de mercado[8].

Dai a necessidade de se utilizar este excedente irrealizável a fim de manter a um nível socialmente aceitável as capacidades de produção e emprego. Considerado sob esta perspectiva, o problema do trabalho produtivo e do trabalho improdutivo concretiza-se no desperdício do trabalho com fins improdutivos ou mesmo destrutivos. Neste sentido o trabalho improdutivo enquanto tal define-se como um tipo de trabalho que terá perdido toda a justificação no seio de uma «sociedade racionalmente organizada».
Esta definição tem em comum com o pensamento burguês o facto de reduzir a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo a considerações de ordem política e ética quando ela é essencialmente determinada pela produção de mais-valia, Dado que cada forma de sociedade possui a sua própria racionalidade, só é viável opor-se à sociedade capitalista uma racionalidade diferente e nunca uma «sociedade racionalmente organizada». Em sistema capitalista — esteja ele submetido à concorrência ou aos monopólios — é racional toda a actividade que conduz à criação de mais-valia e, através dela, a tudo quanto tende para a salvaguarda e reprodução das condições próprias à criação desta. A esta racionalidade ligam-se assim todos os factores «irracionais» do sistema: as empresas improdutivas e as que produzem para a destruição, a penúria como a abundância, o desemprego e o não aproveitamento das capacidades de produção, as crises enquanto condições fundamentais para as altas conjunturas que prenunciam novas crises, o enriquecimento de uma parte da população à custa da outra, a depauperação de regiões inteiras em benefício das grandes potências capitalistas, as devastações provocadas pela guerra e pelo imperialismo que por sua vez irão servir a um novo desenvolvimento da produção, a destruição da mais-valia como condição obrigatória de um consequente aumento da mais-valia extraída aos trabalhadores.
Para chegarmos à discussão evocada no inicio deste ensaio, notemos que Altvater e Huisken se recusam terminantemente a situar o problema do trabalho produtivo e do trabalho improdutivo ao nível de uma pretensa contradição entre racionalidade e irracionalidade, embora admitam que se possa fundamentar nesta contradição uma crítica da sociedade monopolista[9]. Na verdade, sobretudo nestes últimos anos, a contestação estudantil visou os aspectos «irracionais» do poder capitalista, sem se importar com as relações de produção que lhes são subjacentes — como se a análise das manifestações exteriores que acompanham as contradições inerentes ao capitalismo se pudesse também limitar aos seus aspectos exteriores. Altvater e Huisken têm certamente razão ao acentuarem: «enquanto o proletariado não for analisado em função das condições de produção, nem as condições de aparecimento da consciência de classe em função dos movimentos objectivos da luta de classes, não será possível compreender os conflitos característicos do capitalismo e, em vez de se ver neles efeitos da contradição que opõe o trabalho assalariado ao capital, descobrem-se as consequências da contradição entre racionalidade e irracionalidade, entre possibilidades técnicas e obstáculos sociais»[10].

Como Altvater e Huisken o notam, é sem dúvida de lamentar (mas não acontece por acaso) o facto de as teorias de Marcuse, e as de Baran e Sweezy, terem sido tão bem acolhidas entre as fileiras do movimento estudantil. Estes autores contribuíram especialmente para o aumento do fosso ideológico que separa o movimento socialista do movimento operário, Não satisfeitos com o facto de alimentarem a ilusão de que o capitalismo teria conseguido resolver os seus problemas económicos através de meios políticos, não partilham também a opinião de que, de aqui para o futuro, é inconcebível que o proletariado faça uma revolução? No entanto, afirmam eles, o mundo não sente menos a necessidade de uma revolução que venha acabar com a miséria em que se encontra mergulhada, nos países subdesenvolvidos, a maioria da população e, nos desenvolvidos, as minorias afastadas da prosperidade, para conjurar o espectro de uma nova guerra que ameaça a humanidade e para fazer passar da utopia à realidade o projecto de uma sociedade finalmente digna do homem, que actualmente só existe em estado virtual. Ainda segundo os mesmos autores, se continua a ser impossível precisar quais serão exactamente os agentes desta revolução uma coisa é porém certa: os operários não serão os seus protagonistas. Estas considerações, limitadas como são aos aspectos mais superficiais da sociedade, não merecem o trabalho de uma refutação, o que no entanto não torna desnecessário o exame das relações de produção.
Marcuse empreende este exame a partir dos conceitos de trabalho produtivo e trabalho improdutivo. As transformações estruturais do capitalismo, afirma, afectaram as classes e a sua situação, a ponto mesmo de os operários nada mais terem a dizer acerca da exploração. Se ainda é viável perguntar «se os milhões de empregados que trabalham no sector público criam ou não mais-valia, estes empregados—é Marcuse quem o diz — trocam o seu trabalho imediato por capital como exprime o conceito marxista de exploração. Dado que desempenham funções absolutamente indispensáveis à boa marcha da produção, os seus salários não representam apenas custos gerais Além disso, a produção mercantil não pode, na verdade, abster-se dos seus serviços, na medida em que são estes que predeterminam a forma das mercadorias e mesmo a sua quantidade e qualidade. Outro tanto pode dizer-se do número, em progressão constante e rápida, dos técnicos, dos engenheiros, dos investigadores científicos, dos psicólogos e sociólogos comprometidos no processo de produção, Tudo isto tem como efeito transformações estruturais no interior da classe operária. E como se sabe que o número dos empregados de escritório é obrigado a crescer em detrimento do dos operários industriais, que a relação entre trabalhadores manuais e trabalhadores intelectuais vai continuar a evoluir, centralizando estes últimos cada vez mais a base humana do processo de produção, conveniente seria tratar seriamente as noções de proletariado e de ditadura do proletariado»[11].

Os acontecimentos dos últimos anos — os grandes movimentos de greve que todos os países capitalistas conheceram e os sintomas de crise que se multiplicam nos Estados Unidos — não deixaram de modificar um pouco as concepções de Marcuse, a sua visão de uma «sociedade unidimensional», susceptível de resolver o problema das classes no próprio seio da sociedade de classes. Se anteriormente Marcuse falava da «sociedade de consumo», hoje já se lhe refere como a «pretensa sociedade de consumo», das barreiras imanentes que o modo de produção capitalista tem de enfrentar, nomeadamente: «a saturação do mercado dos investimentos e das mercadorias, O trabalho “improdutivo” aumenta em detrimento do trabalho produtivo. A inflação, que significa a baixa dos salários reais, faz, de agora em diante, parte da dinâmica do sistema»[12]. É a partir de então que acaba o emburguesamento dos operários consecutivo à melhoria da sua situação.
Se nos podemos felicitar pela tentativa de Marcuse de tomar em conta a mudança de situação, é forçoso observar que, na verdade, não se trata de uma «saturação do mercado», mas, pelo contrário, de obstáculos que, na base da produção capitalista de mais-valia se opõem a uma «saturação» efectiva do mercado e que talvez até a tornam impossível. A baixa dos salários reais, enquanto «dinâmica do sistema», mostra que a causa das dificuldades que assaltam o capitalismo devem ser procuradas numa ausência de mais-valia que esta famosa «dinâmica» se esforça por remediar. A mais-valia só pode ser extraída da produção e engrandecida através de novos investimentos e de uma melhoria de produtividade. É portanto necessário ligar a relativa estagnação do capital às relações de produção, as quais se exprimem sob a forma de relações capitalistas de valor, associá-la à taxa de exploração na sua relação com o capital global ou à taxa de lucro de que depende a acumulação. Quando uma taxa de acumulação insuficiente assume no mercado a forma de um excesso de produção de capital, ela origina-se, na verdade, nas relações de produção. Esta não pode aumentar sem que o capital tenha também sido valorizado, na ausência do que nos encontramos face a uma crise de superprodução.

Quando as exigências da valorização do capital entram em conflito com as da sua rentabilidade, dá-se uma baixa da taxa de acumulação e, simultaneamente, o desemprego de um certo número de trabalhadores, assim como a paragem de meios de produção que apenas regressarão à actividade quando uma acumulação acelerada o permitir. Se se tem a impressão de viver sob o signo da abundância das mercadorias e dos meios de produção é devido ao facto de haver uma ausência de mais-valia, e é essa penúria que exerce uma influência preponderante sobre o curso da produção. O capital, repitamo-lo, apenas produz meios de produção e mercadorias com a condição de criar, na sua acção, mais-valia e capital. A sua força, ou a sua fraqueza, provêm-lhe da incapacidade ou capacidade para produzir mais-valia, não de uma penúria ou abundância de bens úteis, Só por si, a baixa tendencial da taxa de lucro opõe-se a que exista em sistema capitalista uma absoluta «saturação do mercado». Tudo quanto pode acontecer é apenas uma relativa «saturação» ligada a uma ausência de rentabilidade que é preciso remediar antes de mais na esfera da produção para relançar economia ou, por outras palavras, para permitir ao «mercados investimentos e das mercadorias» um novo desenvolvimento.

Não deixando de se interessar pelas conexões internas da sociedade capitalista, Marcuse mantém-se no entanto à superfície das coisas. A contradição fundamental do capital não é outra senão, segundo a sua opinião, a que existe «entre uma prodigiosa riqueza social e o lamentável e destruidor uso que dela se faz»[13]. Ora, esta «prodigiosa riqueza social» simplesmente não existe, dado que apenas uma minoria privilegiada pode dispor dela e, a ser repartida entre todos os membros da sociedade, ela seria tudo menos «prodigiosa». É justamente o emprego de uma parte desta «riqueza» para fins destrutivos que permite aos trabalhadores beneficiar dela, numa medida bastante restrita, é claro. Segundo Marcuse, as massas trabalhadoras não ignoram «onde se encontra o seu interesse e o seu interesse imediato, qual é o peso da parte que lhes cabe. Elas sabem muito bem, por exemplo, que no dia em que terminar a guerra do Vietname dezenas e dezenas de milhares de trabalhadores perderão os seus empregos. Eles sabem perfeitamente donde vêm as suas vacas gordas»[14]. Esta certeza têm-na os operários em comum com todas as outras categorias da população, e tudo o que isto quer dizer é que as condições de trabalho são determinadas pelo capital. No quadro das relações de produção capitalistas, a qualidade e o volume da produção dependem única e exclusivamente do capital. O que leva os trabalhadores a produzirem para a guerra não é o seu «interesse imediato» mas a necessidade imediata de venderem a sua força de trabalho, sem que lhes possam controlar o uso. Esta necessidade tem a sua origem numa situação de classe. Na medida em que não têm possibilidades de escolha, é absurdo fazê-los partilhar da responsabilidade da política capitalista, se bem que se lhes possa observar, e com razão, o não cuidarem da abolição do capitalismo.
Marcuse vê no emprego de uma fracção da «riqueza prodigiosa» com vista a fins exterminadores, um desperdício improdutivo do trabalho produtivo. Segundo ele, quase todas as espécies de trabalho se transformam em trabalho produtivo, dado que todas elas se trocam por capital. Isto é esquecer que se, do ponto de vista próprio ao capitalista particular, o trabalho trocado contra capital cria na verdade mais-valia — e portanto é produtivo — do ponto de vista do capital no seu conjunto ele mantém-se em parte improdutivo, visto que os custos de circulação devem ser descontados na mais-valia global, o que vem a reduzir em outro tanto a taxa de lucro médio. E isto em nada altera o facto de uma parte dos salários operários servirem para o pagamento do trabalho improdutivo, e outra ao dos impostos e taxas. Uma análise abstracta do valor pode seguramente deixar de lado todas estas complicações e simplesmente considerar o produto social como igual ao valor da força de trabalho — enquanto custo de reprodução necessário — e à mais-valia do capital, depois de terem sido deduzidas as despesas de circulação. Na realidade, estas últimas são integradas nos preços das mercadorias e portanto parcialmente a cargo do consumidor operário. Pode-se mesmo ir mais longe e definir o salário como o que resta ao trabalhador após o pagamento dos impostos, considerando a mais-valia como uma imposição exclusiva, embora na verdade seja a tributação dos trabalhadores que diminui o lucro e, assim, contribui para aproximar o salário do valor abstracto.
A produção de materiais de guerra, na qual se emprega uma parte dos trabalhadores das empresas capitalistas, permite a estas fazer lucros e aumentar o capital. O trabalho executado nesta base é portanto um trabalho produtivo. Contudo, é o Estado quem adquire o produto com o dinheiro provindo do imposto e do empréstimo, ou seja, tirado dos salários e lucros ligados à produção social global. A mais-valia extraída no sector da produção de guerra não pode ser «realizada» senão diminuindo a mais-valia extraída noutro sector. Do ponto de vista social, o trabalho dispendido na produção de guerra é trocado, não por capital, mas por salários e lucros. Assim, mantém-se improdutivo no sentido capitalista. Independentemente da taxa de lucro médio determinada pela concorrência, o trabalho improdutivo apresenta como consequência a modificação da divisão da mais-valia global em favor dos produtores de material de guerra, o que os outros produtores sentem sob a forma de uma baixa dos seus lucros, que se esforçam por atenuar aumentando os preços.
À medida que a parte do trabalho improdutivo aumenta em geral, como consequência do aumento de produtividade que o trabalho produtivo sofre, e em particular em razão da produção adicional induzida pelo Estado, ou seja, a fracção da produção que excede as exigências habituais do Estado, a mais-valia global diminui em relação ao capital total, tornando-se assim cada vez mais difícil a valorização deste último. A riqueza capitalista, que só pode consistir em mais-valia segue simultaneamente uma curva decrescente, o que leva os capitalistas a tentar controlar esse movimento por todos os meios ao seu alcance. Quanto a saber se estes esforços são ou não vãos, esse é um problema que o capital é incapaz de se colocar.
É errado pensar, como Altvater e Huisken[15], que o facto de o trabalho improdutivo se destinar ao desperdício virá a moderar a tendência para a baixa da taxa de lucro mesmo quando a parte de mais-valia susceptível de se acumular se encontra reduzida, segundo a sua opinião. Se a taxa de acumulação decresce, a taxa de lucro deve por sua vez baixar também, na medida em que apenas se pode manter a um determinado nível no caso de acumulação acelerada. A valorização e o aumento do capital são sempre simultâneos e portanto o mesmo se passa com a acumulação. Assim, se as possibilidades de valorização ou a taxa de acumulação diminuem, o capitalismo vê-se precipitado numa crise que provoca uma baixa real na taxa do lucro. A tendência desta para baixar, como consequência de transformações estruturais que o capital no seu conjunto terá sofrido, pode ser contrabalançada por uma acumulação acelerada, o que de modo algum exclui um restabelecimento desta tendência sob o efeito de uma relativa estagnação do capital. Pelo contrário, neste último caso, o que apenas era tendência tornar-se-á realidade, visto que a crise que se lhe segue diminui os lucros e reduz a zero uma parte.
A seguirmos Altvater e Huisken, os trabalhos improdutivos abrem novas perspectivas à realização de mais-valia na medida em que representam um consumo no sentido económico que se vem acrescentar à capacidade de consumo das massas. Eles vêm alargar o campo no qual o capital tem a possibilidade de realizar a mais-valia extraída. O trabalho improdutivo do soldado torna-se consequentemente uma condição primeira do trabalho produtivo do operário dos arsenais. É esta inversão na relação entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo que serve de obstáculo à aparição de uma consciência de classe nos trabalhadores produtivos da indústria de guerra. Qualificar esta atitude de irracional — como o faz Marcuse — ou integrar estes operários na categoria de trabalhadores improdutivos como o fazem Baran e Sweezy— significa simplesmente que nada se compreendeu acerca dos princípios que regem as relações económicas da valorização do capital e da sua realização. A utilização do aparelho estatal revela-se útil ao capital a partir do momento em que as suas possibilidades de investimentos produtivos parecem restringir-se e, simultaneamente, o sistema entra numa fase de declínio[16].
Se é exacto que a expansão da produção induzida pelo Estado auxilia a burguesia a livrar-se de uma crise e a estabelecer por bastante tempo as condições de uma conjuntura favorável na aparência, ou seja, leva à expansão dos resultados da insuflação de créditos na economia, não é menos verdade que subsiste inteiramente o problema da valorização do capital e da sua realização, subjacente à crise. Para se valorizar, o capital deve realizar a mais-valia através da acumulação, sendo o excedente de produtos não consumidos — qualquer que seja o tipo de consumo a que sejam destinados — os únicos a poderem ser valorizados. A partir de então, o decréscimo da taxa de acumulação traduz o facto de a valorização do capital ser cada vez mais difícil, a dificuldade crescente de realizar mais-valia enquanto capital. Assim se prossegue subrepticiamente um processo que finalmente aparece à luz do dia em período de crise: as dificuldades que a conversão de mais-valia em capital encontra. O que durante as crises de ontem assumia o aspecto de desemprego e paragem dos meios de produção surge agora sob a forma de um desenvolvimento do trabalho improdutivo, de produção não rentável que apenas é tolerada pela economia na medida em que o ritmo ao qual a produtividade do trabalho se eleva é mais rápido que aquele a que a mais-valia é consumida em trabalho improdutivo.

Trabalhadores e estudantes

Uma coisa é certa e já o apontamos: os trabalhadores, face à sua situação de classe, preocupam-se pouco em saber se o trabalho que fazem é ou não produtivo. O que lhes interessa é o nível de vida ligado ao seu emprego. Por isso a degradação desse nível de vida e o reaparecimento do desemprego como consequência de um decréscimo da taxa de acumulação — que só a proliferação do trabalho improdutivo permite temporariamente contrabalançar podem radicalizá-los. Por mais que se afirme sobre a insuficiência da «perspectiva de catástrofe» a história do movimento operário mostra com toda a clareza que a consciência de classe revolucionária só se manifesta em tempos de crise particularmente profunda. As lutas de classe, embora não tendam ainda a fixar-se objectivos de classe e não abandonem o contexto salarial, constituem elas próprias reacções espontâneas a uma deterioração lenta ou brutal da condição proletária: acabamos de o ver na Polónia, à semelhança do que se viu na França de 1968.
Só em tempo de crise a consciência revolucionária se pode desenvolver. Por si só, a consciência de pertencer á classe operária não é importante. Ela existe por todo o lado. É claro que se encontram indivíduos que, apesar de membros do proletariado, não se sentem operários. Mas, ao fim e ao cabo, os trabalhadores sabem perfeitamente que pertencem a uma classe antagónica aos capitalistas Apesar do sistema de salários, também não ignoram que são explorados e que criam lucro a favor do capital, sem no entanto deixarem de considerar como necessária a existência daquele, como o prova as negociações salariais e o facto de não mandarem abrir os livros das empresas, a fim de verem a que ponto são explorados.
Mas lembremo-nos do enorme poderio que se opõe ao proletariado e às suas aspirações de classe e compreender-se-á a razão por que os trabalhadores preferem adaptar-se às condições existentes a lançarem-se ao seu ataque. Não possuem nem tempo nem vontade de se dedicarem à semelhança dos revolucionários profissionais a protestos destinados a perpetuar-se ao infinito, dado que a política capitalista provoca permanentemente oposição. E se por vezes encontram satisfações de ordem ideológica nas actividades politicas conduzidas a longo termo, estas não têm muito a ver com as suas exigências imediatas, Uma parte dos trabalhadores adere às organizações politicas mas isso não significa no entanto que estejam na disposição de prosseguirem uma acção revolucionária real Uma outra parte adopta incondicionalmente a ideologia burguesa, sem que isso tão pouco signifique que esteja pronta a apoiar sem reservas a burguesia. Indiferentes, as largas massas alinham o passo com a ordem existente, sem com ela concordarem, procurando inserir-se nela o melhor possível, na impossibilidade de conceber outra.

Enquanto a classe dirigente for capaz de apoiar economicamente o seu poder político— graças a uma prosperidade real ou fictícia — será vão esperar que a consciência da classe operária assuma um carácter revolucionário. Mas é precisamente uma das características do capitalismo a sua incapacidade de dominar o curso do seu próprio desenvolvimento económico. O intervencionismo politico-económico dos últimos vinte anos em nada alterou este aspecto. Ele apenas evidenciou que à medida que a produtividade do trabalho se eleva, o trabalho improdutivo se desenvolve e que este processo permite a aproximação da situação de pleno emprego, com urna produção em constante aumente. Mas, dado que relacionado com a diminuição das possibilidades abertas a uma valorização do capital, este aumento de produção não poderá durar muito. No caso do capitalismo americano, o mais desenvolvido entre todos, a produção global real tende a baixar e o desemprego a aumentar. A curto prazo, e devido à ressurreição dos factores de crise que se desejavam para sempre desaparecidos, assim como também graças ao esgotamento das possibilidades de alargar a produção em detrimento da valorização do capital, tudo parece indicar que a integração dos trabalhadores no sistema sofrerá por sua vez uma transformação.
Na origem das concepções de Marcuse e de Baran e Sweezy, segundo os quais, havendo-se os operários da indústria integrado perfeitamente no sistema e tornando-se uma minoria do ponto de vista social, é vão esperar uma revolução proletária nos países capitalistas avançados, encontra-se em parte os respectivos passados pessoais, em parte a decepção que lhes causou o curso tomado pela história. Na verdade, durante dezenas de anos estes homens subscreveram o estalinismo e, ainda hoje, vêem no sistema capitalista de Estado uma condição obrigatória da sociedade capitalista. Ora este sistema implica a persistência das relações capitalistas de produção — a separação entre os trabalhadores e os meios de produção. É então fácil de compreender a razão por que as suas análises de classe não podem ter um ponto de partida diferente. Em vez de atacarem o capitalismo de Estado enquanto tal, reprovam-lhe unicamente os erros e aberrações da burocracia dirigente, condenando-os em nome de razões políticas ou morais. Recusando-se actualmente a sancionar o capitalismo de Estado sob a sua forma russa, estão tanto mais inclinados a aceitarem o partido nas suas versões chinesa, cubana ou norte-vietnamita.

Desde que se cesse de estabelecer uma ligação específica entre revolução socialista e relações capital-trabalho é possível aderir a qualquer movimento que, com bases totalmente diferentes se lance contra a forma dominante do capital. Segundo a teoria leninista, por exemplo, o imperialismo constitui uma manifestação inevitável do capitalismo moderno e uma das primeiras condições para a sua expansão. O capitalismo é portanto ameaçado tanto do interior como do exterior, pelo movimento operário, por um lado, pelo movimento anti-imperialista pelo outro. Este último, por definição, não pode ser puramente operário. Ele é consequentemente obrigado a apoiar-se nos camponeses pobres. Dirigido pela categoria, em vias de formação, dos intelectuais, ele tem em vista, sob o nome de libertação nacional, o derrubamento do poder das classes que, nos países oprimidos, estão em ligação com o imperialismo e, através disso, do próprio imperialismo. A tese que postula a unidade entre a luta de classe proletária nos países capitalistas avançados e o combate contra o imperialismo nos países cujo desenvolvimento industrial foi impedido, teve por efeito, no plano teórico, a metamorfose do marxismo em marxismo-leninismo.
Sem querer entrar nos detalhes desta tese, bastará constatar que as esperanças a que estava associada não se realizaram até hoje. Sem dúvida que a segunda guerra mundial criou condições novas, permitindo a numerosos países coloniais e semi-coloniais obterem a auto-determinação politica. É claro que existe um movimento de luta—que pelo facto de ser mundial não é contudo mais forte — contra a exploração e opressão a que estão sujeitos os países subdesenvolvidos sob o imperialismo. Mas o movimento operário dos países imperialistas não fez sua esta causa. O que no contexto de uma crise mundial generalizada poderia ter sido uma probabilidade, veio a transformar-se em ilusão devido ao desenvolvimento económico real ocorrido após a última guerra mundial. E mesmo quando este desenvolvimento era apenas o prenúncio de novas crises, que se produziriam segundo modalidades próprias ao carácter inultrapassável das contradições capitalistas, a prosperidade de que gozam os países avançados não deixa no entanto de ter como consequência o abafar de qualquer veleidade de solidariedade revolucionária.
Pelo próprio facto de estar ligado às particularidades nacionais de países muito diversos e às relações que estes países mantêm com outros Estados, o movimento nacionalista revolucionário foi obrigado a conceber-se em termos muito diferentes e a atribuir-se objectivos que o não são menos. Não os vemos, por exemplo, a reclamar-se de ideologias nacionalistas burguesas, nacional-socialistas ou ainda comunistas? No fundo, contudo, trata-se sempre, não de levantamentos de operários revolucionários que tentam abolir as relações de produção capitalistas, mas de rebeliões tendo por objectivo acabar com uma miséria geral que se mantém incurável enquanto durar a hegemonia imperialista. Neste contexto, os agentes ideológicos deste movimento não são senão intelectuais e estudantes revoltados, que procuram ganhar o apoio das categorias mais pobres da população assim como o de certas fracções das classes médias, contando com umas e outras para um desenvolvimento nacional sem entraves para melhorar a sua condição. Dotada, além disso de uma coragem própria, a ideologia nacionalista alcança simpatias mesmo nos meios que nada têm a esperar da sua auto-determinação.
Apenas um desenvolvimento industrial acelerado permite liquidar a miséria e o atraso, o que no entanto se opõe aos interesses imediatos das potências imperialistas. Em princípio, o capital internacional não se opõe à industrialização capitalista dos países subdesenvolvidos, ou seja, ao alargamento da mais-valia e à elevação da produtividade do trabalho. No entanto, este processo apenas se pode realizar graças a valorização do capital existente. Ora, desde que a rentabilidade deste último passa a estar ameaçada, há uma baixa dos investimentos à escala internacional, e sobretudo nas regiões atrasadas, Como uma parte da mais-valia criada nas regiões atrasadas não é nelas investida, mas serve para valorizar os capitais implantados no território das grandes potências, a fuga de mais-valia e a diminuição da chegada de novos capitais tem como efeitos conjuntos a pauperização ainda maior daquelas regiões e o engendramento, por tabela, de conflitos sociais. Assim, são as características inerentes à produção capitalista que a impedem de se alargar a um ritmo elevado.
Simultaneamente, a luta contra o imperialismo e pelas reformas sociais assume para os países subdesenvolvidos uma importância de vida ou de morte. Elas têm como condição a expropriação do capital, tanto do estrangeiro como do autóctone. É devido a estas medidas indispensáveis de expropriação que o movimento nacionalista revolucionário adquiriu a sua auréola de socialista. No entanto, estas reformas não conduzem ao socialismo, ou seja, ao direito dos produtores disporem do produto do seu próprio trabalho e da sua repartição. Nos países capitalistas desenvolvidos a consciência de classe revolucionária não permitiu até agora que se discernisse claramente que o socialismo só pode ser obra dos trabalhadores, que nenhum partido (ou coligação de partidos) uma vez instalado no poder lhes fará oferta do socialismo. Atingidas por esta mesma carência subjectiva, as massas exploradas e pauperizadas dos países subdesenvolvidos vivem no seio de um tipo de sociedade que, por outro lado, exclui objectivamente a realização do socialismo. Porém, estas sociedades devem entretanto recuperar, por meios inéditos, neste caso, o seu atraso em matéria de desenvolvimento capitalista. Elas ignoram ainda a polarização de classes que caracteriza o capitalismo moderno. Por isso, a fim de coordenar os diversos interesses particulares — entre os quais os dos camponeses, proprietários ou não, assumem um papel importante — é absolutamente necessário um poder de Estado posto face à sociedade e regendo-a. Este poder de Estado independente, personificado na sua burocracia, assume as funções que nos países capitalistas de antigo estilo eram o apanágio da burguesia A burocracia transforma-se em nova classe dirigente, sendo a sua chegada ao poder condição primeira de todo o desenvolvimento económico. Pode acontecer que os elementos colocados à cabeça dos movimentos nacionalistas revolucionários não estejam conscientes de trabalharem neste sentido mas isso é um resultado que, apesar de tudo, se mantêm inevitável enquanto as massas forem incapazes de criar elas próprias as formas de organização que permitam sair do impasse ligado a esta nova «divisão revolucionária do trabalho». Se nos países subdesenvolvidos isso é uma coisa inconcebível, nos países desenvolvidos tem certa viabilidade.
Esta hipótese, no entanto, mantém-se no domínio do futuro. Até agora, na verdade, os trabalhadores destes países não procuraram conquistar o direito à auto-determinação, nem mesmo no seio das suas próprias organizações. Ora, visto que os próprios trabalhadores não se lançaram até ao presente contra as relações de produção capitalistas, não é de admirar que os estudantes, devido à sua condição particular de classe, ainda tenham sido menos capazes de tomar como ponto de partida para a sua acção as relações sociais fundamentais. Enquanto os operários não actuarem revolucionariamente, não existirá situação revolucionária sobre a qual os estudantes possam basear os seus movimentos. E se, apesar de tudo, eles optam pela oposição e o pretendem demonstrar ostensivamente, mais não podem do que indignar-se, em termos extremamente gerais, com os «maus aspectos» do domínio capitalista, mas não são capazes de fundamentar a sua acção em problemas reais, em problemas de base, pois essa acção não teria o mínimo eco.
O próprio movimento estudantil nada tem de surpreendente. Teria sido verdadeiramente singular que os estudantes não reagissem a uma barbárie capitalista em vias de extensão perpétua e isso ainda que tivessem tomado consciência de que a sua oposição, nas actuais condições, não poderia ter consequências práticas. Como este movimento não tem qualquer ligação com as relações de produção, as tendências anti-autoritárias, que o influenciaram ao princípio, assumiram logo um carácter ambíguo e foram a consequência directa do seu isolamento. Incapaz de por si só transformar a ordem estabelecida, não havia outra saída além de uma contestação destinada a ficar sem grande efeito. À falta de poder actuar verdadeiramente sobre o curso das coisas, procurava erigir-se em consciência universal, na esperança de pelo menos, despertar alguns ecos. As circunstâncias que levaram o movimento estudantil a optar pelo anti-autoritarismo viriam a conferir-lhe um carácter de elite perfeitamente susceptível, noutras circunstâncias, de o conduzir ao autoritarismo. Face à passividade dos operários, a radicalização dos estudantes teve como efeito a curto prazo uma reincidência nas teorias leninistas da revolução e organização. E como estas teorias tinham um sentido real nos países do «terceiro mundo», pode-se imaginar que, também nos países capitalistas, se é um revolucionário por simples identificação com o movimento anti-imperialista. Mantendo-se longe dos objectivos, este movimento tem somente um mínimo de fundamento visto que uma política socialista só pode ser anti-imperialista.
É evidente que o movimento socialista combate a exploração e a opressão sob todas as suas formas. No entanto, para vencer o imperialismo é necessário abater o capitalismo. Lutar contra este é prosseguir o combate contra aquele. E claro que todos os movimentos de protesto contra o imperialismo e os seus crimes, assim como qualquer tipo de sabotagem com vista a enfraquecê-lo, contribuem para isso. Mas acreditar que a frente comum dos anti-imperialistas dos países oprimidos e dos países opressores tenha na verdade estes objectivos, significa fechar conscientemente os olhos à realidade. Fórmulas como o grito de guerrilha urbana «pátria ou morte» ou a de Marcuse sobre o acesso da China ao nível de grande potência comunista»[17] deveriam ser recusadas e desprezadas pelos trabalhadores e estudantes dos países capitalistas, à semelhança das empresas imperialistas das respectivas burguesias.
Para os revolucionários dos países dominados militar e economicamente, seria tão absurdo renunciar à realização dos seus objectivos como contar com uma revolução proletária nos países imperialistas para destruir o imperialismo. É assim que o movimento nacionalista revolucionário se desenvolve em função das suas próprias necessidades sem ter em conta a atitude tomada pelo movimento operário dos países imperialistas. Quando este isolamento não aumenta já gravemente as suas possibilidades de insucesso, as vitórias que ele definitivamente adquirir têm, por si sós, consequências não menos nefastas quer para um quer para o outro dos dois movimentos, na medida em que, no caso de vitórias idênticas, o inimigo de ontem tomar-se-á o associado de amanhã, como acontece por exemplo com a Argélia e numerosos países africanos ou, ainda, a independência arrancada à América tem por consequência, como em Cuba, a colocação do pais sob o domínio da Rússia. Dado que nas actuais condições uma auto-determinação económica é inconcebível à escala nacional também a auto-determinação politica é irrealizável e consiste unicamente numa maior sujeição a uma das grandes potências imperialistas do que a outra.
Se o marxismo-leninismo conservava ainda um certo sentido na época em que a guerra de 1914-18 e as suas sequelas permitiam esperar uma revolução mundial, o que posteriormente se passou pôs a descoberto o facto de as teorias leninistas, estreitamente submetidas às condições de tempo e lugar, muito especificas, serem inaplicáveis aos países capitalistas avançados. O que surpreende desde então é que, fazendo tábua rasa de meio século de experiências, se tente continuar a empurrar a revolução proletária nas vias do leninismo. Coisa tanto mais singular, aliás, quanto os operários dos países pretensamente «socialistas» começaram já a insurgir-se, pela greve e pela insurreição, contra os novos exploradores e opressores. Eis o que indubitavelmente provocou um passo em frente, vendo-se o modelo do comunismo autoritário, próprio do bolchevismo russo, decididamente preterido face ao comunismo mais liberal da China e de Cuba, O que no entanto é ir de mal a pior, dado que a «acumulação primitiva» impõe às massas trabalhadoras destes dois últimos países sacrifícios bem maiores ainda do que os que tiveram que suportar na Rússia e na Europa de leste. Os métodos de governo e as técnicas de manipulação diferem aqui e além. Mas tanto no primeiro caso como no segundo a população, longe de poder dispor do seu próprio destino, sofre o despotismo de uma nova classe dirigente cujo monopólio do poder só uma nova revolução poderá derrubar, interrompendo simultaneamente urna vez por todas, a sua reprodução.
Basta separar mentalmente o acto revolucionário das suas consequências sociais para nos apercebermos de que os métodos dos movimentos nacionalistas revolucionários teriam, no contexto do capitalismo moderno, resultados totalmente diferentes dos que têm nos países subdesenvolvidos. A julgar pelas aparências, Lenine tinha razão ao afirmar que o proletariado entregue a si mesmo seria incapaz de forjar uma consciência de classe revolucionária e que havia portanto necessidade de ser dirigido pelos intelectuais originários da pequena-burguesia. Assim, o preparar e desencadear da revolução — considerada em si mesma, independentemente dos resultados — punha imediatamente o problema da repartição das funções entre operários e intelectuais. Como a teoria precede, nesta perspectiva, a prática, tanto antes como depois da revolução, a direcção do movimento revolucionário deveria ser entregue aos intelectuais, aos «que sabem», encarregados consequentemente de velar pela organização do novo sistema. Do mesmo modo os estudantes quando se interrogam sobre a sua função nas lutas de classe — enquanto estudantes, intelectuais teóricos — de maneira alguma se podem conceber como uma classe dirigente em potência mas como uma primeira condição da revolução e do socialismo, em perfeito acordo com os interesses do proletariado.
É de esperar que os trabalhadores, quando a sua consciência de classe assumir um aspecto revolucionário, vejam isto sob outra perspectiva. Não ignorando qual é a situação real nos «países socialistas» e o tipo de relações sociais que neles predominam, tudo leva a pensar que recusarão com a máxima energia a pretensão de qualquer partido a reger o movimento revolucionário e a nova sociedade em gestação. Mas, por outro lado, abstraindo destas considerações, urna coisa é certa: o movimento revolucionário deverá englobar o proletariado enquanto classe e criar organizações capazes de transformarem profundamente as relações de produção, impedindo simultaneamente a possibilidade de evolução no sentido do capitalismo de Estado. Face a esta necessidade, e portanto a esta probabilidade de desenvolvimento, seria vão invocar a existência nalguns países capitalistas de poderosos partidos comunistas e as tentativas de constituição de outros, aliás já esboçadas. Se estes partidos subsistem é porque não têm de comunista senão o nome. Comportando-se como partidos reformistas, não têm nem intenção nem possibilidade de abolir o sistema capitalista.
Ainda que a história dos partidos operários tradicionais se apresente, em última análise, como uma experiência negativa, os trabalhadores que têm preocupações de ordem política tentarão ainda e sempre estabelecer entre eles laços organizacionais, que confiram à sua propaganda uma eficiência maior, e adquirir uma base com vista à acção revolucionária. Que a probabilidade surja e poder-se-á ver uma organização ou um partido revolucionário construir-se. Qualquer novo partido operário se destina por definição a opor-se aos partidos existentes; por isso não é de excluir que uma mudança de situação leve à criação de novas organizações revolucionárias que, extraindo as lições da experiência passada, reconheçam com factos o primado da classe sobre o partido e não deixem a este último, tempo de degenerar em objectivo absoluto. Mas, enquanto se espera, é de deplorar quer a sobrevivência das formações tradicionais quer a inexistência de novas organizações revolucionárias que correspondam às verdadeiras exigências da luta de classe proletária.
Movimento socialista e movimento estudantil são coisas evidentemente diferentes. Isso não impede que os estudantes possam ser socialistas e tomem parte, a este título, na criação de novas organizações revolucionárias. Todavia, enquanto os operários não se associarem aos seus esforços, estas organizações, reduzidas às suas próprias forças, são incapazes de mudar o que quer que seja da ordem estabelecida, estando no entanto aptas a fazer face a algumas necessidades da vida universitária. Em contrapartida, quando os próprios trabalhadores estão em vias de forjar uma consciência de classe revolucionária, a agitação pelos actos e palavras a que aqueles se dedicam podem contribuir para a aceleração do curso dos acontecimentos. Neste momento, o movimento estudantil deverá deixar de existir enquanto tal e unir-se ao movimento operário, tornando-se uma fracção, sem interesses específicos a defender, do movimento de conjunto.

Perspectivas possíveis
Assim como a melhoria da condição proletária nos países capitalistas leva a que se fale de um aburguesamento dos trabalhadores, ouve-se bastantes vezes dizer que quanto mais as aplicações da ciência à produção se intensificam, tanto mais as profissões intelectuais, cujos membros são originários da pequena-burguesia, se proletarizam. Ora, nem um nem outro destes fenómenos assumem aspectos assim nítidos ou demarcados. Na verdade, o primeiro em nada altera as relações capitalistas de produção. Como sempre, os trabalhadores encontram-se na situação de explorados pelo capital, como sempre a sua existência depende das possibilidades de valorização que se oferecem ao capital. «Aburguesados», eles estão-no, mas num sentido que raramente é posto em relevo, o de se sentirem satisfeitos com a ordem estabelecida, com a condição de verem progredir o seu nível de vida. Quanto ao facto de a produção absorver um número cada vez maior de trabalhadores com uma formação universitária não é suficiente para metamorfosear estes últimos em proletários, Graças à divisão capitalista do trabalho eles auferem na verdade rendimentos que lhes permitem levar uma vida pequeno-burguesa, Muitas vezes têm a possibilidade de mudar de emprego, passando assim da empresa à universidade e reciprocamente. Desde então só depende deles próprios a realização ora de um trabalho produtivo ora de um trabalho improdutivo. Se no primeiro caso a sua existência está submetida aos imprevistos da valorização do capital, ela continua na segunda hipótese, ligada a salários e rendimentos profissionais. Portanto, estes dois modos de dependência estão estritamente associados.
Tal como o salário dos operários, os emolumentos dos investigadores científicos e dos técnicos representam uma parte dos custos de produção. Frequentemente fixados de modo arbitrário, são no entanto em geral determinados na base da oferta e da procura. Porém, nunca medidos em função da produtividade dos interessados, visto que esta não é mensurável. A empresa apenas funciona como um todo, cada factor se encontrando entrelaçado com os outros; nada permite assim distinguir no produto global as respectivas contribuições das duas categorias de assalariados. Apesar de tudo, pode-se falar e com razão de uma produtividade especifica a cada uma delas, tanto mais que para cada local de trabalho individual os custos de reprodução do trabalho complexo excedem de muito longe os do trabalho simples. Houve mesmo quem afirmasse serem as elevadas remunerações dos investigadores e técnicos um «reflexo da contribuição que oferecem ao progresso técnico, de tal modo que se estes emolumentos representassem por si sós os custos da produção poderiam servir de instrumentos aferidores das transformações técnicas»[18]. De qualquer modo, investigadores e técnicos não se consideram nem exploradores de urna força de trabalho de espécie diferente, nem agentes do capital encarregados de acelerar a extracção da mais-valia, mas simplesmente como factores de produção pagos proporcionalmente à sua eficiência.
Enquanto as coisas forem bem, ou seja, enquanto a prosperidade se mantiver, estes não têm nenhuma razão de queixa. Favorecidos pelas relações sociais, são em geral conservadores e têm interesse na manutenção da ordem estabelecida. A ideologia do carácter neutro da ciência abre-lhes um campo de acção dos mais vastos: como todas as outras «irracionalidades» inerentes ao sistema capitalista, o facto de a produção de guerra possuir fins exterminadores não interrompe o curso da investigação científica. Investigadores e técnicos devem as suas elevadas remunerações aos progressos realizados não só em matéria de técnicas mas também de potencial de destruição, que constitui a outra face do desenvolvimento das «forças produtivas do capital».
E como os progressos indispensáveis ao aumento das remunerações estão ligados à. valorização do capital, a ocorrência de uma crise apenas pode trazer prejuízo à sua confortável situação.
Do mesmo modo que o desemprego, devido à relativa diminuição dos postos de trabalho, atinge muito mais os operários da jovem geração do que os outros, qualquer baixa da conjuntura afecta igualmente muito mais as perspectivas de emprego para os estudantes do que as dos investigadores e técnicos já em actividade. E quando por seu turno o ciclo económico acaba por reduzir estes últimos ao desemprego, a probabilidade de êxito dos estudantes fica seriamente comprometida. A insegurança social de que são obrigados a tomar consciência por este processo, leva-os a reagirem politicamente, originando-se os dilemas pessoais no conjunto da situação social. Após a segunda guerra mundial, a insegurança geral não era em primeira instância de ordem económica. Pelo contrário, assentava muito mais na política das potências capitalistas que faziam planar a ameaça de um novo holocausto que excluía simultaneamente qualquer «normalização» da vida social. O mal-estar que se ocasionou no seio das categorias da população que não beneficiavam directamente deste estado de coisas, ou que a ele não eram obrigadas a adaptar-se — sobretudo no meio estudantil— assumiu a forma de um movimento de oposição à guerra e de manifestações contra os crimes acumulados pelos dirigentes capitalistas. Este movimento serviu de ponto de partida natural para a crítica da sociedade capitalista e para a convicção cada vez mais profunda de que uma existência digna de ser vivida é decididamente inconcebível sobre a base desta ordem social.
Na medida em que não é de esperar que esta situação se venha a transformar num futuro próximo, poderemos assistir ao agravamento das contradições características do sistema. À insegurança geral — que se reflecte na corrida aos armamentos nucleares, na exacerbação das lutas de libertação nacional e nas reacções consecutivas dos Estados imperialistas, na desagregação interna das grandes potências, no redobrar da concorrência económica, na entrada da China e no reaparecimento do Japão no concerto das nações imperialistas, etc.—, vem acrescentar-se agora o declínio económico dos países capitalistas, o que não deixará de ter repercussões na economia mundial no seu conjunto. Limitar-nos-emos de passagem, a observar que esta crise atinge os investigadores e os técnicos — e portanto a sua geração mais jovem, os estudantes — assim como os operários. Na América, por exemplo, o desemprego é mesmo mais elevado entre os primeiros do que entre os segundos. Isto deve-se em parte à redução dos créditos militares provocados pela crise, na medida em que cerca de 63 % dos quadros científicos trabalham, directa ou indirectamente, para a máquina de guerra. Igualmente no sector privado estes quadros encontram-se no desemprego. Assim, o seu modo de existência pequeno-burguês fica reduzido a nada. Não só se proletarizam mas ainda sofrem a concorrência dos trabalhadores manuais na procura de um emprego.
Assim, acontece agora a um número limitado mas sem dúvida cada vez maior de estudantes e pessoas com bagagem universitária não encontrarem os postos correspondentes às respectivas qualificações, dando-se um começo de «proletarização». O que não deixa de reforçar a tendência cada vez mais acentuada na via da exploração dos trabalhadores intelectuais e à redução das correspondentes remunerações, ligadas à deterioração da conjuntura. Com o recrudescimento do desemprego, esta tendência faz-se sentir no seu caso com muito mais intensidade do que no dos operários de indústria, melhor organizados para lhe resistirem. No conjunto todavia, a forma hierárquica da divisão e do modo de remuneração capitalistas do trabalho mantém-se intacto. Por isso a situação dos quadros técnicos e científicos, pelo menos na sua grande maioria, continua a não ser em nada comparável com a dos operários.
Por outro lado, a ameaça de «proletarização» mantém-se, por assim dizer, em suspenso, e tudo leva a crer que é a isso que se deve a radicalização dos estudantes e dos universitários. Assim como os estudantes dos países subdesenvolvidos, frustrados nas suas esperanças, não vêem outra possibilidade que não seja a transformação da sociedade, do mesmo modo os dos países avançados não ignoram que a sobrevivência do sistema capitalista os ameaça de desclassização. Chegam portanto à conclusão que numa sociedade diferente as suas competências seriam enfim correctamente apreciadas — segundo o seu ponto de vista, é claro — e que no seio de tal sociedade as rédeas do comando deixariam de pertencer aos detentores do capital, passando para as mãos dos especialistas da ciência e da técnica assim como das outras categorias de intelectuais, o que conferiria à nova sociedade uma forma diferente, mais social. Conscientemente ou não, a adesão às teses leninistas poderia ser interpretada a partir da preocupação de se defender uma posição social que é ameaçada pelo capitalismo.
Se temos, como Marcuse o aconselha, de «falar com circunspecção de proletariado e ditadura do proletariado» também não podemos falar de poder ou ditadura dos intelectuais. É só graças ao domínio que um partido, que se confunde com o Estado, exerce sobre a sociedade e graças à organização de novas formas de opressão que os intelectuais poderão vir a adquirir no seio do aparelho de Estado e do Partido um certo direito de co-gestão, aliás precário visto que o mesmo aparelho tem sempre a possibilidade de lho retirar, Nos «países socialistas» o poder pertence não aos intelectuais — tomados como tal — mas aos políticos de carreira que apenas em parte são originários dos meios intelectuais. A exemplo dos trabalhadores manuais, os quadros científicos e técnicos, assim como outras categorias de trabalhadores intelectuais, são submetidos a uma nova camada social que, dispondo dos meios de produção, monopoliza simultaneamente o poder político. À semelhança do passado, estes pertencem, em razão do seu nível de vida, a uma classe de privilegiados, mas estes privilégios estão ligados à perpetuação da divisão capitalista do trabalho e em nada modificam a relação de dependência face a ela.
A sociedade capitalista apenas pode ser compreendida a partir das relações de produção e, reciprocamente, o socialismo só pode ser concebido como a abolição dessas relaçôes. É portanto ponto de partida obrigatório das lutas sociais que tendem a suprimi-las e, em razão disto. Identifica-se quanto ao essencial, com a luta dos trabalhadores contra os capitalistas que personificam o capital. Na medida em que este possui o domínio da produção e da circulação dos bens, os trabalhadores em geral, quer numa das esferas quer na outra, opõem-se-lhe como inimigos. Desde então, é absurdo reservar só aos trabalhadores produtivos a possibilidade de serem dotados duma consciência de classe revolucionária, E isto tanto mais que o carácter «produtivo» só tem sentido no contexto das relações de exploração capitalistas, perdendo qualquer espécie de significado numa sociedade socialista. A partir do momento em que já não se trata de criar mais-valia, o problema da sua realização e repartição desaparece e, com ele, a distinção — própria ao capitalismo — entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo.
É evidente, embora possa ser mais fácil a mudança de um emprego para o outro e a fuga à especialização, que a divisão do trabalho subsistirá. Porém, ela já não terá nada a ver com aquela outra distinção, visto que todos os trabalhos socialmente necessários são equivalentes. Ela distinguir-se-á da divisão capitalista do trabalho pelo facto de apenas as actividades inerentes às relações de propriedade capitalista ou que visam ao seu reforço e defesa serem suprimidas.
A partir do momento em que a reprodução da vida social for organizada numa base socialista, os estudantes e quadros científicos tornar-se-ão também eles trabalhadores produtivos e a produtividade particular do seu trabalho contará tão pouco como a dos trabalhadores manuais. Então, as escolas e as universidades passarão a fazer parte integrante do processo de produção social, como o carácter cada vez mais científico que a produção hoje assume o permite já augurar. A socialização generalizada, baseada nas empresas e numa produção elas próprias socializadas, ver-se-á assim dotada de uma base organizacional que, por intermédio do
direito de todos a dispor do trabalho de todos, terá por efeito eliminar duma só vez o antagonismo capitalista que separa os trabalhadores Intelectuais dos trabalhadores manuais, e o trabalho produtivo do trabalho improdutivo.


[1] Cf. a série de artigos sobre o tema «Trabalho produtivo e trabalho improdutivo no sistema capitalista, in: Sozialistische Politik (Berlim), nº 6-7 e 8, Junho e Setembro de 1970, com as contribuições de Joachim Bischoff, Helner Gansmann, Gudrun Kümmel, Gerhard Löhlein; Christoph Hübner, Ingrid Pilch, Lothar Riehn; Elmar Altvater, Freerk Huisken.

[2] «Teorias do trabalho produtivo e do trabalho improdutivo in: Tkeorien über der Mehrwert, Marx-Engels Werke, 26/1, adiante designado por Theorien, pp. 122-277. (Cf. K. Marx, Histoire des doctrines economiques, trad. J. Molitor, tomo II, pp. 5-188).

[3] Theorien, pp, 368-369. [Este fragmento não figura na primeira versão da obra; não consta portanto da versão Molitor: encontrar-se-à a tradução in: K, Marx, Qeuvres. Eoonomie, ed. Rubel, II. Paris 1968, p. 388 (N. T. F.)]

[4] Theorien, p. 375.

[5] Theorien, p. 387

[6] Theorien, p. 882 (Cf. também, K. Marx, Oeuvres II, op. cit., p. 401).

[7] K. Marx, Le Capital 1, 3, p. 205.

[8] Cf. por exemplo: Joseph Gilman, Prosperíty in Crisis New York, 1965, e The Falling Rate of Profit, Londres 1957; Paul Baran e Paul Sweezy, Le Capitalisme Monopoliste, Paris, 1969; Herbert Marcuse, L’IIomme Undimensionnel, Paris, 1968.

[9] Sozialistische Politik, n.° 8, pp. 52-53.

[10] Sozialistische Politik, n.° 8, p. 53.

[11] Cf. Frankfurter Rundschau, 5 de Dezembro de l970 p. 4.

[12] Ibid.

[13] Frankfurter Rundschau, loc. cit.

[14] Id.

[15] Sozialistische Politik, n.’ 8, pp. 78-79.

[16] Sozialistische Politik, n.’ 8, pp. 78-79

[17] Frankfurter Rundschau, loc. cit.

[18] R. R. Nelson «Aggregate Production Functions and Medium-Range Growth Projections, The American Economic Review, Set. 1964, p. 591

18/04/2009

ANOTAÇÕES SOBRE A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

ANOTAÇÕES SOBRE A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

apresentação de uma edição pirata
Emiliano Aquino

“Mas como a reflexão e o pensamento suplantaram as belas artes, a ação e a intervenção social suplantarão doravante a verdadeira filosofia. Também a consciência, neste instante preciso, apressa-se a penetrar em toda parte e, apenas bem sucedida nela mesma, procura agora precipitar a ação.”
AUGUST CIESZKOWSKI, Prolegômenos à historiosofia.

A Sociedade do Espetáculo foi editado, pela primeira vez, em novembro de 1967, em Paris, pela Editora Buchet-Chastel. Nesta edição, o autor era apresentado de um modo simples e direto: “Guy Debord é diretor da revista Internacional Situacionista”. Essa simples apresentação, já naquele momento, dizia, no entanto, muita coisa. A Internacional Situacionista (I.S.), a revista, já contava com 11 números, desde sua primeira aparição, em 1958. E o grupo que a editava, a Internacional Situacionista (I.S.), era já conhecido por sua intensa e contundente atividade nos meios das avant-gardes européias desde dez anos antes, quando fora fundada, em 1957. Logo depois, ainda em [19]67, outro livro foi lançado por um membro da I.S.: Tratado do saber viver ao uso das jovens gerações, de Raoul Vaneigem, editado pela Gallimard.

Na revolta de maio de 1968, esses livros tiveram uma marcante influência sobre o setor mais radical do movimento. Inicialmente, sobre os enragés, grupo de uns dez “antiestudantes” que, na Universidade de Nanterre, começara alguns meses antes uma agitação social contra o sistema de ensino, os professores e as autoridades acadêmicas e que, por essas atividades, esteve nas origens do movimento que iria explodir e se expandir em maio. Mas também, quando enragés e situacionistas romperam com os estudantes da Sorbonne ocupada e formaram o Conselho pela Manutenção das Ocupações (num momento em que centenas de fábricas francesas estavam já ocupadas pelos operários grevistas), uma variedade de blusões negros, jovens operários e outras figuras perigosas de Paris vieram juntar-se a este comitê, expressando, assim, também uma concordância com as teses radicais dos situacionistas.

Uma das características da revolta de maio foi, sem dúvida, as pinturas nas paredes de Paris, nas portas das fábricas, escolas e universidades. Boa parte dessas frases, consideradas as mais belas e, com certeza, as mais contundentes daquele movimento, foram tiradas diretamente dos livros e panfletos situacionistas.

Essa aparente “adesão” às idéias situacionistas não se explicaria se, antes, as atividades de agitação e os escândalos promovidos pela I.S. não tivessem confluído e contribuído para a revolução de maio; e, certamente, se suas idéias não ajudassem a compreender e levar às últimas conseqüências as tendências mais profundas daquele movimento.

Com efeito, antes de maio de [19]68, os situacionistas já vinham falando na necessidade e no conteúdo da próxima revolta, do “novo levante proletário”. Iniciaram suas atividades contestando o establishment cultural, retomando e aprofundando as tendências já presentes entre os dadaístas e surrealistas, que procuraram a superação da arte e sua realização na vida cotidiana; os situacionistas chegaram, assim, à posição de que o conteúdo da revolução proletária seria a revolução da vida cotidiana, com a superação da totalidade das alienações do capitalismo moderno, com o apoderamento pelos indivíduos de suas próprias vidas, tornando-as uma obra-de-arte, e o seu acesso à “história total”. Sem dúvida, uma influência decisiva — nesse passo teórico dado pelos situacionistas entre as posições das vanguardas anteriores acerca da superação da arte (enquanto atividade separada da vida cotidiana) e o novo conceito de revolução da vida cotidiana — foi aquela exercida sobre eles pela elaboração de Henri Lefebvre, em sua Crítica da Vida Cotidiana (1947, com um novo Prefácio em 1958, e um segundo volume em 1961).

A crítica da arte, enquanto atividade separada, ligava-se estreitamente à crítica da política, enquanto atividade também necessariamente separada, pois situada na esfera do Estado, esfera exterior à vida cotidiana, e que, assim como a arte, se punha como atividade alienada e reprodutora da alienação.

Tratava-se, para os situacionistas, não mais de buscar a produção sublimada de uma crítica ou comunicação ou conciliação com a realidade na forma da arte, mas de produzi-las realmente como prática. A exigência feita contra a arte não poderia, portanto, ser recompensada pela política, pois esta também só podia oferecer mecanismos que eram eles mesmos alienados: a representação, os sindicatos operários e estudantis, os partidos, o Estado. Se se tratava de procurar realizar na prática a abolição de todo poder exterior, de toda linguagem unilateral e “comunicação” indireta (a pseudocomunicação) do mundo alienado, esta procura haveria que se dar no nível mesmo da vida cotidiana, recusando todo especialismo artístico, político e teórico(1). Neste ponto, como em outros, a convicção mais profunda dos situacionistas era a de que, como dirá mais tarde Debord, “já não [se] pode combater a alienação sob formas alienadas” (A Sociedade do Espetáculo [SdE], § 122).

26/03/2009

Um mundo sem dinheiro

UM MUNDO SEM DINHEIRO: O COMUNISMO

Os Amigos dos 4 Milhões de Jovens Trabalhadores (1975-76)

I. O QUE É O COMUNISMO?

II. COMUNISMO OU CAPITALISMO?

III. FIM DA PROPRIEDADE

IV. PARA ALÉM DO TRABALHO

V. DINHEIRO E ESTIMATIVA DE CUSTOS

VI. PARA ALÉM DA POLÍTICA

VII. INSURREIÇÃO E COMUNIZAÇÃO

VIII. PROLETARIADO E COMUNISMO

IX. O DEVIR HUMANO

Texto completo em pdf

25/03/2009

Comunismo Guarani

por Os Amigos dos 4 Milhões de Jovens Trabalhadores

(parte do último capítulo de Um Mundo sem Dinheiro, em tradução. Todos os outros capítulos disponíveis em http://www.velhatoupeira.hbe.com.br/msd0.htm . Em breve também concluirei a tradução deste.)

O COMUNISMO GUARANI

No ano de publicação de Utopia (de More) os espanhóis entraram e começaram a conquistar o Paraguai: o país dos índios Guaranis. O nome Paraguai designava, no início, um território mais importante do que o actual Paraguai e a pátria dos Guaranis, tal como a experiência de que vamos falar se encontrava fora dos limites do Paraguai moderno.

Sob a égide dos Jesuítas, muitas centenas de milhares de índios iriam viver, cultivar a terra, extrair e forjar metais, construir estaleiros, dedicar-se às artes sem que o dinheiro, o salariado ou a propriedade moderna se desenvolvessem. A república dos Guaranis durou à volta de um século e meio, e depois degradou-se com a expulsão dos jesuítas e com os ataques dos espanhóis e dos portugueses. Esta zona era, na época, a zona mais avançada industrialmente da América Latina. Os contemporâneos iriam interrogar-se e disputar-se sobre a natureza e sobre a importância da experiência que alimentaria o socialismo europeu. Alguns viram ali uma tentativa de vanguarda, outros minimizaram-na ou reduziram-na a uma suspeita acção dos jesuítas. Com o tempo o caso foi considerado demasiado jesuítico ou demasiado comunista para merecer a atenção.

Os documentos citados por Clovis Lugon, papista e estalinófilo, permitem formar uma opinião mais justa (La République des Guaranis, Éditions Ouvrières, 1970).

“Nada me pareceu mais belo do que a ordem e o modo de providenciar à subsistência de todos os habitantes da colónia. Aqueles que fazem a colheita são obrigados a transportar todos os grãos para depósitos públicos; há pessoas nomeadas para a guarda desses depósitos, que mantêm um registo de tudo o que se recebe. No início de cada mês as pessoas responsáveis pela administração dos grãos entregam ao chefe da área a quantidade necessária para todas as famílias dali, dando mais ou menos a cada um conforme os grupos sejam mais ou menos numerosos”. (R. P Florentin, Voyage aux Indes orientales…)

A maior parte dos trabalhos fazia-se em comum e os índios não pareciam tentados pela propriedade privada. Nunca possuíam mais do que um cavalo ou algumas galinhas. Para os fazer evoluir para a propriedade privada foram distribuídos lotes individuais, mas no dia em que os índios se deviam ocupar dessas parcelas continuaram “estendidos nas suas camas de rede…” (P. Sepp).

“O P(adre). Cradiel que deplora, como disse, a persistência do sistema comunista, fez pela sua parte todo o possível para conduzir os Guaranis à propriedade privada e, antes de tudo, no sentido do interesse individual e do lucro, encorajando-os a cultivar nas suas parcelas de terra produtos que tivessem valor com vista à venda de um excedente. Confessa francamente o seu fracasso e declara não ter encontrado, ao todo, mais do que três exemplos nos quais os particulares tiraram, das suas parcelas, um pouco de açúcar ou de algodão para vender. E um dos seus três particulares era um mulato convertido!” (Lagon). E o P. Cardiel acrescenta: “Nos vinte e oito anos em que vivi entre eles como padre ou compañero, não encontrei um único exemplo entre tantos milhares de índios”.

Todos os índios participavam, obrigatoriamente, nas tarefas manuais e só gastavam nelas um tempo limitado: um terço ou metade do dia.

“Há em todo o lado oficinas de douradores, de pintores, de escultores, de ourives, de relojoeiros, de serralheiros, de carpinteiros, de marceneiros, de tecelões, de fundidores — numa palavra, de todas as artes e ofícios que lhes possam ser úteis” (Charlevoix). “Só numa grande cidade da Europa poderíamos encontrar tantos mestres artesãos e artistas” (Garech). “Fazem relógios, traçam plantas, gravam mapas geográficos” (Sepp). Segundo Charlevois, os Guaranis “têm sucesso como por instinto em todas as artes a que se aplicaram… Viram-nos fazer os órgãos mais complexos depois de os terem visto uma única vez assim como esferas astronómicas, tapetes à moda da Turquia e tudo o que há de mais difícil nas manufacturas”. E “logo que as crianças chegam à idade de poderem começar a trabalhar, são conduzidos para oficinas e fixadas naquela para a qual pareçam ter mais inclinação, porque estão persuadidos de que a arte deve ser guiada pela natureza”.

Os índios fabricavam também sinos, as suas armas de fogo, canhões e munições. As tipografias permitiam imprimir livros em muitas línguas e, principalmente, em guarani. Os índios estavam organizados militarmente; “podíamos mobilizar imediatamente mais de trinta mil índios, todos a cavalo” e capazes “tanto de manejar um mosquete como de brandir o sabre… de combater em ofensiva ou na defensiva, tal como os europeus”. (Sepp). P. d’Aguilar, superior geral da República, escrevia: “O que podíamos nós opor a vinte mil índios que mediram forças com as melhores tropas espanholas e portuguesas, diante de quem os mamelucos não mais ousam mostrar-se, que expulsaram duas vezes os portugueses da colónia de Santo Sacramento, e que depois de tantos anos são respeitados por todas as nações infiéis que os rodeiam”. (citado por Charlevoix).

Segundo Charlevoix “só havia ouro e dinheiro para decorar os altares”. A população obtinha géneros sem dinheiro nem nenhum tipo de moeda”. Estes ídolos da avidez, diz Muratori, são-lhes completamente desconhecidos… O valor das mercadorias exprimia-se em “pesos” e “reais” de forma puramente fictícia. Era uma maneira de fixar o valor relativo dos géneros correntes… À parte o escambo e a moeda fictícia do peso, existia uma moeda “real” constituída por certas mercadorias de uso geral que eram aceites por cada pessoa como pagamento, mesmo sem terem necessidade ou uso imediato para elas. (chá, tabaco, mel, milho)…

O preço correspondia normalmente ao valor real dos bens ou à soma do trabalho exigido para a sua produção, sem sobreavaliações em benefício de intermediários inexistentes. O preço relativo de uma mercadoria particular era, naturalmente, influenciado pela sua raridade ou pela sua abundância”. (Lugon).

As transacções de “redução” a “redução” dependiam da comunidade. “As estatísticas indicavam regularmente o volume das reservas e as necessidades em cada redução e assim era fácil prever alterações. O padre reunia com o corregedor e com o mordomo para determinar o género e o montante de mercadorias a importar e a exportar”. (Lugon).

Tratava-se de verdadeiro comunismo?

O comunismo guarani não era um comunismo puro. Tinha o espírito beato dos jesuítas, o tributo pago à coroa de Espanha e o serviço das forças militares guaranis, a persistência do escambo, etc. Mas nós não andamos em busca da pureza.

Não foram os jesuítas que levaram o comunismo aos Guaranis. Encontraram-no na terra deles e tiveram de se acomodar a ele. Algumas pessoas alegraram-se, achando-o conforme ao espírito evangélico, outros, por gosto ou sob pressões do exterior, procuraram reduzi-lo. Os jesuítas permitiram o enxerto de técnicas e do saber ocidental, sobre um comunismo primitivo inextirpável. Permitiram aos grupos guaranis unirem-se num todo consequente.

Este comunismo era-o suficientemente para suscitar a desconfiança e para ser atacado. Os jesuítas desempenharam um papel um tanto nefasto, pois estavam submetidos a uma autoridade exterior à comunidade guarani, semeando a confusão e a desunião assim que os espanhóis e os portugueses atacaram as “reduções” orientais em 1754-6. “Os Padres das reduções tinham recebido do Geral da Companhia, Ignace Visconti, “ordem estrita de se submeterem ao inevitável e de conduzir os índios à obediência” (Lugon). Os Índios directamente ameaçados bateram-se, mas foram por fim esmagados. Em 1768 os jesuítas foram expulsos. As intervenções anti-guarani prolongaram-se e arruinaram a experiência. A fraqueza do comunismo guarani era a de, à partida, não ser um comunismo revolucionário e de não se ter constituído no confronto.

Em 1852 Martin de Moussy escreveu: “a melhor prova de que este regime estranho, este comunismo tão criticado talvez com uma aparência de razão, convinha aos índios é que os sucessores dos jesuítas se viram forçados a continuá-lo quase até à época actual e que a sua destruição, não preparada por medidas inteligentes e paternais, não teve outro resultado se não o de atirar os Índios para a miséria… hoje, os seus herdeiros ressentem amargamente a falta desse regime, sem dúvida imperfeito, mas tão bem apropriado aos seus instintos e aos seus costumes”.

Lugon que quer fazer dos jesuítas os importadores do comunismo escreveu também: “Logo após a destruição de Entre-Rios, os sobreviventes reorganizaram-se sob a direcção de três caciques assistidos por um conselho, seguindo exactamente as tradições recebidas dos jesuítas. A população desta colónia foi avaliada em 10000 pessoas entre 1820 e 1827. A comunidade de bens foi, ali, integralmente restaurada.

Nas reduções atribuídas ao Paraguai moderno, o regime comunista foi oficialmente abolido em 1848 pelo ditador Lopez. Os Guaranis que continuaram a subsistir nessa região foram, nessa altura, legalmente despojados das suas casas e dos seus bens. Foram deixados a vegetar pelas reservas feitas à moda norte- americana”.

A República dos Guaranis não é o único exemplo do encontro entre o comunismo índio e o ocidente. Houve alguns outros de menor importância: a República Chiquito no sudeste da Bolívia, a República dos Moxos no norte da Bolívia, o grupo das pampas…

Os comunistas de Munzer ou do Paraguai foram mais longe do que os Comuneiros (communards de Paris) e os outros proletários dos tempos modernos e criaram uma forma social intermédia entre o comunismo primitivo e o comunismo superior. Terá havido regressão com o tempo? Foi o poder do capital e a degradação que se deu ao nível do sentido social dos indivíduos que se ergueu contra o comunismo. Não há regressão mas um ciclo que se fecha e que verá o comunismo ressurgir mas desta vez no centro do mundo capitalista.

Isto é talvez incompreensível para os que vêem na história um processo linear e contínuo. Onde não há nem regressão, nem antecipação mas sim um progresso perpétuo do inferior para o superior. Mas por que, então, é que a indústria moderna se desenvolveu a partir do atraso feudal europeu e não a partir das grandes manufacturas de tecido incas, e não a partir das artes e técnicas chinesas? Porque é que essa indústria não pôde ser introduzida se não após um período de decadência?

A par e após esse comunismo de cobertura religiosa, ainda que iconoclasta no caso dos insurrectos alemães ou de Campanella que queria o fim da família, desenvolve-se um comunismo naturalista e anti-religioso na esteira das revoluções burguesas.

23/03/2009

John Zerzan e a confusão primitiva (fim)

por Alain C.

3. O comunismo não pode ser “primitivo”

A ideologia de Zerzan não é mais que a enésima aparição de um antigo romantismo primitivista, que remonta até Rousseau e, mesmo, antes de ele, a Montaigne (cf. Essais; Des Cannibales). Baseia-se no postulado que afirma que a nossa cultura seria “má”, já que teria perdido o “contacto com a natureza” que constituiria a “autenticidade” das culturas primitivas (“Os Otênticos são flores que brotam nos livros”, tal como Pagnol faz dizer ao pobre Ugolin) (1). Esta atitude é a de um colonialismo invertido, que faz da nossa cultura a única cultura “verdadeira”, isto é, o mal encarnado.

Vimos antes que, desde o início, a humanidade não se “libertou dos constrangimentos do meio natural”, como diria uma concepção marxiana-utilitarista das sociedades, mas desenvolveu-se independentemente dele. O que não significa que os homens vivam sem laços com o seu ambiente, o que seria absurdo, mas são as estruturas simbólicas das sociedades humanas as que condicionam a relação deles com o meio natural e não o inverso. Não se pode, portanto, falar de “proximidade” ou de “afastamento” em relação à natureza em nenhum momento da história humana, mas apenas de diversos tipos de relações com o meio, relações que são elas mesmo uma consequência do tipo de relações que os seres humanos mantêm no seio das suas sociedades, do seu modo de vida no sentido mais lato do termo.

Apresentar a vida dos caçadores-recolectores como mais “natural” que a dos sedentários não tem nenhum sentido. O simples facto de que os caçadores-recolectores tenham tido uma vida mas fácil, com mais “tempo livre” e mais sociabilidade “gratuita” que os sedentários, não constitui em si um argumento. Por outro lado, existem sociedades sedentárias que praticam a agricultura e dispõem de um “tempo livre” muito comparável ao dos caçadores-recolectores, praticando a subexploração e mantendo uma baixa densidade de população. Podemos mencionar os Chimbu da Nova Guiné, que exploram somente 60% das terras cultiváveis; os Yagaw das Filipinas ou os Iban de Bornéu, que mantêm a sua população entre o 30 e 40% abaixo da densidade que lhes permitiria uma agricultura mais intensa. Nestas culturas, podemos observar “jornadas de trabalho” muito curtas, 4 ou 5 horas, seguidas geralmente de vários dias de descanso. Entre os Papus Kapauku, os homens consagram em média 2h. 18 min. por dia à produção agrícola, e as mulheres 1 h. 42min. Há outros exemplos, mas seria fastidioso citá-los a todos.

A agricultura, contrariamente às equações simplistas do tipo agricultura/criação de gado = domesticação da natureza = dominação social, não é portanto portadora do “mal absoluto” que Zerzan quereria detectar nela.

Sem dúvida existirão também pessoas obcecadas pela investigação do Mal que quererão ir a encontrá-lo no armazenamento (manifestação da “consciência do tempo e do número”, segundo Zerzan), considerado por eles como a prefiguração da acumulação capitalista e porta de entrada na vida humana do pecado da avareza. Mas, azar, verificamos que muitos caçadores-recolectores também praticavam a acumulação como facilmente se pode imaginar. A não ser que se tomem os primitivos por imbecis, é difícil imaginar que se contentavam em recolher o que achavam, satisfazendo a sua fome imediata para se deitarem logo a seguir beatificamente à sombra da Árvore da Abundância. Bolotas, nozes, e outras castanhas silvestres serão recolhidas pelos caçadores-recolectores em cestos e postas a secar (a aparição tardia da cerâmica não significa que não se conhecessem anteriormente outros tipos de recipientes, mas não dispomos de vestígios destes recipientes entrançados, feitos de materiais perecíveis), tendo em vista um consumo posterior. A noção zerzaniana do “presente perpétuo” recebe um golpe, já que tudo isto significa uma antecipação a longo prazo das necessidades e a implementação de uma estratégia para as satisfazer.

Seja lá o que isso for, o Mal absoluto não se acha nem no armazenamento, nem na agricultura, nem nas formas de organização mais ou menos complexas ou “abstractas” (¿que há mais complexo e “abstracto” que os sistemas de linhagem transversal de parentesco em algumas culturas “primitivas”?), e ainda menos na consciência do tempo, na matemática ou na linguagem. De facto, não há “mal absoluto”. Paremos um pouco de fazer moral.

Zerzan é um feroz inimigo de qualquer organização. Para ele, toda a acção concertada e orientada para um fim preciso comporta forçosamente alienação. Vê feiticeiros em todo o lado. O que o incomoda nas sociedades modernas é, basicamente, esta organização. Que no presente seja alienada, disso não há dúvida. Mas, devemos por isso subscrever este anarquismo bruto, que vê em todo ajuntamento de mais de três pessoas um factor de dominação ou alienação?

Zerzan fala de uma “sociedade do face a face”, de uma “sociedade de amantes”. Nisso está com T. Kaczynski, conhecido como Unabomber, que no seu Manifesto declara que “o indivíduo” se sente frustrado naquilo a que chama a sua “auto-realização” logo que as decisões colectivas são tomadas por um grupo demasiado grande para que o papel de cada elemento tenha algum significado”. Zerzan sonha com os caçadores-recolectores, Kaczynski com os conquistadores do Oeste. Em ambos casos, pequenos grupos isolados, com taxas de população muito fracas.

Esta ideologia assinala um desejo muito característico do individualismo de massa: o desejo de auto-valorização, o desejo de ser reconhecido pelos outros. Este desejo evidencia uma privação muito real, mas, como produto da alienação que é, exprime-se na sua linguagem. É o ser humano separado quem fala assim, pois na sua separação tudo o que lhe resta é sua própria solidão, aquilo que Kaczynski chama a sua “individualidade”. Privados como estamos de toda acção colectiva consciente, nem sequer conseguimos imaginar que uma tal acção seja possível.

Pelo contrário, é necessário afirmar que esse tipo de acção é possível, e que o é porque no ponto em que hoje nos encontramos é necessária. A sociedade do “face a face”, a sociedade dos “pequenos grupos”, são produtos do individualismo magoado, do “vegetal” isolado que quer existir “por e para si mesmo”, apenas com mais alguns amigalhaços. Os problemas que coloca hoje o capitalismo, e que este não resolverá, já que só nós, como comunidade humana, somos capazes de resolver, não se solucionarão ao nível do “pequeno grupo”. Quando, por exemplo, a revolução tiver sido realizada (coisa que, bem entendido, não pode demorar) ocuparemos de reflorestar inteligentemente os milhões de hectares devastados pela agricultura industrial e isto não será possível pela acção de “pequenos grupos isolados”. E se, enquanto indivíduo, tenho a felicidade de participar desta acção colectiva, não me preocuparei muito em gravar o meu nome em cada árvore que tenha plantado e que, em todo o caso, jamais verei na sua maturidade. E não me sentirei menos indivíduo por causa disso.

O que Zerzan e Kaczynski sugerem é a muito democrática ideia segundo a qual a organização dos grupos humanos por si mesmos seria impossível devido ao nível populacional hoje alcançado. Como todos os democratas, não concebem de modo algum que uma sociedade integrada por milhões de indivíduos possa ser “administrada” de uma forma diferente da actual, isto é, pelos Estados, por delegação, pelo controle policial.

Não concebem a comunidade humana como superação das condições actuais nem das situações do passado, mas como uma regressão para este passado. E o seu pensamento, que se acha revolucionário, constitui efectivamente uma regressão.

Mas o objectivo deste texto não é propor uma nova teoria da revolução. Simplesmente propusemo-nos fazer uma crítica do ideólogo Zerzan, e achamos que está feita. Também nos propusemos abrir um debate sobre bases concretas. Eis as bases, o debate pode começar.

(1) Nota do tradutor: (Les lotantiques c’est des fleurs qui poussent dans les livres). Frase de uma peça de Pagnol usada quando se ironiza sobre autenticidade devido ao jogo de palavras entre lotantique e l’authentique (o autêntico), que em francês se pronunciam da mesma maneira.

14/03/2009

Carta sobre a Libertação animal (3ª parte)

por Gilles Dauvé

5. Nenhum estilo de vida é subversivo

Arthur Cravan afirmava ser um desertor de 17 países. Nós também somos desertores. Mas não achamos que desertando do mundo vamos mudá-lo; simplesmente, não nos identificamos com ele. Se me abstenho de votar não é porque no fundo do meu coração prefira um governo trabalhista a um conservador, mas seguindo os meus princípios revolucionários, proíbo-me de votar. Não necessito obrigar-me a nada. Sinceramente acho que os trabalhistas não são melhores que os conservadores, e ao contrário desses esquerdistas que votam pelo mal menor, estou muito consciente de que minha atitude não tem um impacto imediato sobre nada. Na melhor das hipóteses, serve para ajudar a manter viva alguma comunidade entre os poucos que não votam por razões similares às minhas.

Abster-se do mundo não evita que este continue a funcionar. Se não quiser participar da exploração de ninguém, o melhor é nunca comprar acções e passar sem conta bancária, gastando o dinheiro logo que o receba ou guardando-o em casa. E por que não? No final da sua vida, Jean Genet quase não tinha pertences, vivia em hotéis e insistia em que lhe pagassem em dinheiro vivo, para o usar e fazer circular como quisesse. Não era o ideal, mas estava a conduzir-se o melhor que podia num mundo de dinheiro. Deveríamos fazer o mesmo? Deveríamos dizer aos nossos amigos que o façam?

Da mesma forma que a atitude de Genet, o veganismo é um assunto pessoal. Algumas atitudes talvez sejam definitivamente “más”, mas não há nenhuma que seja superior às restantes. Não tem sentido procurar as atitudes que mais se aproximam ao comunismo. Genet obtinha os seus rendimentos do mundo literário do qual fazia parte. Onde se cultiva a soja? Quem a cultiva e por que paga?

Talvez a atitude menos não-comunista consista em não escolher nenhum estilo de vida. Viver com um mínimo de pretensões, permanecer tão aberto quanto seja possível: dormir num iglu na Gronelândia, numa tenda índia na América do Norte, numa habitação social em Roma, conduzir um camião no Quénia e ensinar inglês na Coreia do Sul, ir fazer compras ao Tesco em Battersea com os proletas do lugar e pescar com os habitantes duma ilha no Pacífico Sul. Ajustar-se a muitos hábitos alimentares e sexuais sem ficar preso a nenhum. Esta atitude está tão distante da que toma o que “resiste” isolando-se do mundo, como da do que se refugia no micro-mundo de um meio social “alternativo”.

Este imaginário “cidadão do mundo” ou “viajante da humanidade” não tem porquê ser tomado como um modelo a imitar. Sem dúvida, ele também chocaria com aspectos desagradáveis deste mundo: o seu camião poderia afectar a vida local do Quénia, talvez algum companheiro de copos em Battersea tenha preconceitos racistas, etc. Não estamos a propor um novo ideal do tipo “Pela estrada fora” (2) . Este personagem improvável simplesmente nos ajuda a entender que o comunismo significa abrir cada categoria a todas as outras.

Talvez o maior defeito do veganismo (como qualquer outra visão do mundo baseada numa dieta específica) seja a noção de que o homem é o que come. O homem é o que faz, o que inclui o que come, e tudo o que faz sempre o faz com outros.

Pode-se ser vegano e comunista; mas também se pode ser vegano e não-comunista, ou anti-comunista.

Se nos levantamentos sociais os punks poderão ter um papel mais importante que os aficionados de ópera, não é devido a uma suposta superioridade dos Sex Pistols em relação a Monteverdi. Será antes porque os fãs de punk-rock são de uma classe inferior aos que assistem a concertos em Covent Garden. Os punks nunca serão revolucionários enquanto punks.

O veganismo confronta o poder simbólico e social da carne. Nenhum vegano acredita que vai causar um dano real à indústria da carne: os veganos actuam contra uma imagem. Então, por que não negar-nos a usar veículos motorizados? (é mais fácil se se pode pagar uma moradia no centro, do que quando se vive num bairro da periferia). Por que não abster-se de ter filhos? Mas se o critério é ser antagonista à sociedade, é preciso lembrar que na antiga Grécia recusar-se comer carne era uma ofensa contra as relações entre deuses, homens e animais, e portanto uma crítica da ordem social; mas em qualquer país católico em 1700 ou inclusive em 1900, o subversivo era comer carne à sexta-feira, como de facto faziam alguns ateus militantes. Não é possível tratar de transformar um gesto ou comportamento particular numa norma ou anti-norma.

Pelo contrário, os que pensam que a humanidade em algum momento da sua história tomou um rumo errado, estão condenados logicamente a lutar por um mundo que se organize especificamente contra esse erro original, e isto leva-os, por exemplo, a reivindicar uma dieta especial.

Por conseguinte, esta discussão tem mais um mérito: lembra-nos que o mundo não gira em torno a uma grande causa ou pecado original. A dieta carnívora não é a origem de todos os males. Mas o dinheiro também não o é, por exemplo. A humanidade não sofre de uma doença que o comunismo virá a curar. Não existe um remédio. Somos cépticos, não médicos. Não defendemos a saúde contra a doença. O comunismo não é a produção ou a vida organizada de outra forma, sem dirigentes, por exemplo, ou sem intercâmbio de valor. Só pode ser definido como actividade, como comunidade. Não iremos procurar formas de fazer circular os bens sem usar dinheiro, mas viver e fazer as coisas de uma maneira diferente, e essa diferença incluirá a ausência de dinheiro: não haverá nenhuma necessidade de calcular o tempo de trabalho médio requerido para produzir algo. Enquanto as pessoas continuarem a pensar que em primeiro lugar e sobretudo é preciso “suprimir” o dinheiro, ou combater o poder político separado ou qualquer outro mal do presente, isso será uma prova que não estão a imaginar nem a fazer as coisas que poderiam fazer para viver sem esses males.

6. O vegetarianismo nega e ao mesmo tempo reafirma a diferença radical do homem

Ninguém pediria a um leão que não mate antílopes. Dá-se por assente que a natureza deve seguir seu próprio curso, o apelo da selva… Só ao homem se pede para agir de um modo diferente. Os vegetarianos concebem o homem como o animal que é capaz de escolher, que pode decidir não fazer mal a outras criaturas; e que portanto deve escolher não o fazer. Ou seja: exige-se ao ser humano agir em nome do mesmo estatuto superior que negam que ele tenha. Afirmam que o homem pertence à natureza, que a conhece e que em consequência não deveria tirar vantagem dela. Não estamos expondo uma inconsistência lógica do vegetarianismo para poder refutá-lo melhor: o que refutamos é a possibilidade de demonstrar ou desmentir a verdade do vegetarianismo. Esta contradição lógica não é mais que outra maneira de definir “a natureza humana”, ou melhor, de mostrar como a “humanidade” escapa a qualquer definição.

“A única coisa que realmente sabemos sobre a natureza humana é que ela muda. O único prognóstico que podemos fazer dela é que mudará. Os sistemas que fracassam são aqueles que contam com a imutabilidade da natureza humana, em vez de contar com o seu crescimento e desenvolvimento” (Oscar Wilde, A alma do homem sob o socialismo).

Com frequência acusa-se o homem de ser “o único ser que mata por prazer”. Esta afirmação assume que o assassinato não dá ou não deveria dar prazer. De acordo, mas ao dizer isto abrimos a porta fatal do reino estranho e ilimitado do prazer. Quem ou quê lhe poderia colocar os limites? A razão? A busca do bem comum? A compreensão de que meu próprio prazer depende da ampliação do prazer dos outros, e não do seu aniquilamento? Que simples… e ingénuo! Sade sabia mais do assunto. Também Fourier. Nada, jamais, neutralizará completamente a parte negativa e anti-social da humanidade.

Em termos fisiológicos, o homem não está capacitado nem incapacitado para consumir carne. De facto, não fomos “feitos” para nada em particular. É absurdo defender a homossexualidade argumentando que isso também ocorre em algumas espécies animais: isso é verdade, mas não nos diz quase nada, a não ser aquilo que já sabíamos: que a homossexualidade existe. O homem é parte da natureza e ao mesmo tempo é diferente do resto da natureza. Quanto dessa diferença se deve à sua posição erecta e à sua visão panorâmica? E que quantidade a factores sociais? Cada época reinterpreta os dados disponíveis de acordo a sua própria perspectiva histórica predominante. O homem é natureza e artifício.

O antropocentrismo (a ideia de que o homem é superior às outras espécies) e o “naturalismo” (a de que o homem deve reintegrar-se ao resto da natureza) esquecem que a natureza humana consiste em tentar descobrir a natureza humana. O homem é um ser que nunca sabe o suficiente acerca dele mesmo. Os sistemas tentam sossegar-lhe as dúvidas. É quando se sente mais seguro de si mesmo, como na sociedade totalitária (a megamáquina capitalista é uma totalidade completamente envolvente e abrangente), que se torna mais destrutivo.

Seja o que for que nos elevou à condição humana, também nos pode fazer cair e andar sem rumo. Há algo de impossível na humanidade e nada vai eliminar essa impossibilidade. Se fôssemos chimpanzés, gatos ou “insectos sociais” jamais teríamos conhecido a tarte de maçã, ou o porta-aviões… ou esta discussão.

(2) Referência ao romance de Jack Kerouac (On the road), referência de um estilo de vida aventuroso e desprendido.

13/03/2009

Carta sobre a libertação animal (2ª parte)

por Gilles Dauvé

3. As condições de vida humana e animal estão a piorar, mas só no sentido em que tudo está sendo capitalizado. Assim, os horrores mais visíveis perpetrados contra humanos e animais estão a tornar-se menos visivelmente horrorosos.

Vocês assumem que, não só as massas sofrem de uma exploração e empobrecimento cada vez maiores, mas além disso os animais estão sendo torturados mais que nunca. A vida piorou, é certo, mas não da forma como vocês descrevem. Já não há mais fomes nem massacres como em 1900 ou em 1945. O trabalhador ocidental médio de hoje dispõe de uma dieta mais rica e balanceada que na época de Marx; tem acesso, tanto a comida industrializada como a diversões ou viagens industrializados. A expectativa de vida continua a aumentar, e se diminui na Rússia é porque a Rússia tem um tipo de capitalismo bastante atrasado. As maquiladoras não são o futuro do capital; assim como a segurança social e o subsídio de desemprego não são a principal fonte de rendimentos dos proletários. É um erro descrever um lugar como o inferno simplesmente porque ninguém o considera um paraíso.

O que hoje é pior que em 1848, 1917 ou 1945, é que nunca antes tantos seres vivos e coisas tinham sido transformados em dinheiro ou em processos que engendram dinheiro. Nunca antes os seres humanos tinham sido tão dependentes de algo que está acima deles e… até agora, tão incapazes ou reticentes em mudar a situação. Como afirmava a Internacional Situacionista, o que importa é criticar o bem-estar oferecido por esta sociedade, não a pobreza que ela nos inflige. Porque ambas são inseparáveis. Há tanto horror na imagem açucarada e politicamente correcta de amor pelos animais, com que esta sociedade se apresenta, como nos massacres que se estão perpetrando atrás dos altos muros. O que tornava abominável o mundo de “1984″ não era tanto a Polícia do Pensamento ou o Quarto 101, mas sim o compassado conformismo das multidões. O amor de Winston pelo Grande Irmão no final do livro é, pelo menos, tão terrível como as torturas que o levaram a esse extremo.

O capital mutila e humilha os seres humanos, e mata milhões de animais, é verdade. Mas lá onde o capital se desenvolve e chega a ser “puramente” capitalista, afasta-se cada vez mais da tortura e da violência aberta. A essência (e portanto a contradição) do capitalismo não se encontra nos seus extremos. O genocídio e o extermínio de animais são só alguns dos efeitos inevitáveis do capital: não o definem como tal.

Da mesma maneira que a exploração animal, a discriminação sexual e racial fazem parte do capitalismo, mas só quando este as necessita. Com frequência supera-as e substitui-as por formas melhor adaptadas. Sintomas de racismo informal ou institucional reaparecerão sempre num ou noutro país capitalista, mas em nenhum lugar o racismo é imprescindível para o capital. Por exemplo, o apartheid não era “a” forma do trabalho assalariado na África do Sul. Há quinze anos, alguns amigos diziam-nos que as lutas contra o apartheid eram também lutas contra o capitalismo, já que a economia sul-africana estava baseada na discriminação racial e jamais poderia funcionar sem essa base. Pois bem, agora funciona. E de facto, uma das forças que impulsionaram o movimento anti-apartheid, foi a necessidade de melhorar o rendimento das empresas…

É verdade que nos Mcdonald’s se concentram muitos aspectos da sociedade actual. Mas precisamente por isso, não é possível descrever a Mcdonald’s unicamente como uma concentração de males: má comida, relações sociais degradadas para os clientes, péssimas condições laborais para os empregados, animais assassinados, dominação dos investimentos e do estilo de vida norte-americano… Tudo isto é verdade, mas dum ponto de vista qualitativo não basta para explicar o atractivo e o impacto da comida lixo e do trabalho lixo. O conceito de fast-food está ligado historicamente à ideia de comida segura (esses locais cumprem pelo menos os mesmos standards de higiene que qualquer outro café ou bar); assim como ao conceito de comer-isolado-se-se-quiser, sem-compromissos-com-os-outros, mínimo contacto físico e verbal, velocidade… Sem esquecer que se trata de uma importante fonte de trabalhos temporários, principalmente para jovens. Estas noções são mais que uma ideologia: exprimem a realidade do trabalho e do lazer na era da televisão e do computador. É exploração, certamente, mas a violência que exerce sobre pessoas e animais é só um aspecto secundário da indústria da fast-food: a Mcdonald’s é tão exploradora e repressiva como qualquer outra empresa, mas reclama-se (e em certa medida é) amigável com os consumidores, com os empregados e com os animais. Comer um hambúrguer num local de fast-food pode ser menos socialmente envolvente que sentar-se a comer num pequeno pub ou café.

O capital toma a vida (em todas suas formas, do trabalho humano, às árvores e vacas, aos contos infantis e às emoções), replica-a e devolve-a transformada. Nisso distingue-se de todos os sistemas de exploração anteriores. Nisso radica a sua força. Ao contrário dum vampiro, o capital suga-nos a energia mas mantém-nos vivos e põe-nos a crescer, produzir, comprar e a actuar. A produção de valor e o consumismo funcionam porque somos activos e passivos. Por que são os computadores tão populares? E o desporto?

O consumo de carne foi, efectivamente, um símbolo de status. Mas, não estaremos a interpretar as coisas de cabeça para baixo? Provavelmente, as classes dominantes reservavam para si o que tinha um maior valor nutricional. Seja como for, o trabalhador ocidental (sobretudo o homem) ainda valoriza a fartura e deleita-se comendo carne, enquanto a elite prefere cada vez mais uma dieta moderada. Hoje em dia ser rico significa frequentar lojas de produtos saudáveis extremamente caras, amiúde orientadas para o vegetarianismo. Na Califórnia, entrar num local de comida lixo para as classes baixas e depois num mercado de “comida orgânica” para a classe média, é como visitar dois planetas diferentes.

Contudo, como sabemos, o consumismo abrange, cada vez mais, produtos que antes eram privilégio exclusivo de uma minoria, e ao mesmo tempo, essa massificação degradou a qualidade dos bens que faz chegar a cada lar. A tecnologia pode criar produtos alimentícios de todas as formas, texturas e sabores. Um dia poder-se-á comprar frangos feito de ossos, carne, pele e cor idênticos aos verdadeiros, mas elaborados a partir de organismos vivos sintéticos, tão saborosos como os originais, saudáveis, baratos e em abundância. Assim, os matadouros de aves de capoeira poderiam ser reduzidos ao mínimo, reservados unicamente para as classes altas, em condições supostamente livres de dor e de stress, em quintas à moda antiga, onde as galinhas caminharão tranquilamente num pátio, talvez sob a supervisão da Sociedade Protectora dos Animais. Entretanto, as massas marginalizadas do mundo semi-industrializado continuarão a matar as galinhas à bruta, horrorizando os jornalistas ocidentais. Ficção científica? Não mais do que uma fábrica não violenta e agradável com seus trabalhadores.

A relação da humanidade com o resto da natureza reflecte a relação entre os próprios seres humanos. O capital necessita dos maus-tratos, do constrangimento e da repressão, mas a sua essência não é mais violenta que não-violenta. Trata com dureza quando tem que fazê-lo e com suavidade quando lhe é mais rentável. Obrigar crianças de cinco anos a trabalhar doze horas diárias era necessário em 1830, mas como mostra a história, tais práticas não são consubstanciais aos interesses dos negócios. Lutar por formas de exploração não violentas só desloca a opressão de um nível para outro. De facto, a elaboração de comida sintética está a permitir ao capital tornar realidade, de um modo monstruoso, o sonho da bio-alimentação.

4. A questão animal só se pode compreender se se a aborda como um problema humano

Seria absurdo antepor a luta de classes à natureza. O movimento comunista não reivindica a superioridade do operário da construção em relação à vaca. Não se está tratando de recompor a classe proletária, mas de decompor todas as classes.

Não obstante, a exploração dos empregados do Mcdonald’s tem maior relevância histórica que a exploração das vacas. Não porque os humanos sofram mais, ou porque o sofrimento das vacas importe menos. Mas porque só os humanos têm a capacidade de pôr um fim ao Mcdonald’s.

Os animais não trabalham. É um erro chamar “trabalho” ao que faz um cavalo ou um bicho da seda após terem sido treinados e obrigados a isso. Aplicada aos animais, a palavra “trabalho” adquire um sentido completamente diferente das diversas variantes de trabalho que conhecemos: trabalho escravo ou servil, trabalho assalariado, trabalho doméstico, trabalhos de casa. O trabalho propriamente dito é uma actividade organizada por amos, chefes e administradores… mas onde o trabalhador tem que fazer a sua parte em dita organização e eventualmente converter-se ele mesmo em organizador, e questionar a própria organização da actividade. A “actividade” dos animais não é o mesmo que o trabalho alienado, e também não é o contrário: é outro tipo de actividade.

O movimento comunista não é uma reacção contra o destino das vítimas, sejam humanas ou animais.

Como se pode mudar o mundo depende de em que é que ele está baseado este mundo.

Camatte, Perlman, os primitivistas e em grande medida os “autonomistas” partem de que o capital exerce uma dominação sobre todas as coisas: supõem que esta sociedade está baseada no controle sobre todas as formas de vida, onde a produção seria só um aspecto mais desse controle total. Desse ponto de vista, o que têm em comum, humanos e animais, importa mais que aquilo que os distingue.

Nós, por outro lado, afirmamos que o capital só pode governar explorando o trabalho que produz valor: a primeira condição para o domínio total do capital é fazer trabalhar os seres humanos.

Todos os casos que exemplificam a dominação dados no texto: escravidão, vedação de terrenos (enclosures), desflorestamentos, linhas de montagem… apontam par uma relação social, uma relação entre pessoas. É inegável que um aspecto da questão é que os animais sofrem; mas esse sofrimento provém do facto de que se pôs seres humanos a trabalhar. As ovelhas não tosquiam outras ovelhas. Uma forma de organização do trabalho veio substituir outra que era menos produtiva. A indústria de exploração de animais não criou o proletariado: a criação do proletariado foi uma das condições que fizeram possível o desenvolvimento da indústria animal.

11/03/2009

Carta sobre a libertação animal (1ª parte)

por Gilles Dauvé

Esta carta foi enviada aos autores do livro Beasts of Burden [Bestas de carga], publicado por Antagonism Press, 1999.
Contactos: BM Mahkno, London WC1N 3XX (http://www.geocities.com/antagonism1/beasts/index.html).

Este panfleto aborda um problema crucial: dado que o comunismo aponta à transformação da vida quotidiana na sua totalidade, não pode ignorar a nossa relação com os animais e a forma de nos alimentarmos. Neste sentido, Beasts of Burden obriga-nos a reconsiderar todo o debate “primitivista”, tarefa que esperamos poder abordar algum dia. Já que nenhum de nós é Politicamente Correcto, quando dizemos “o homem”, referimo-nos ao homem e à mulher; e quando dizemos “humanidade”, referimo-nos à espécie humana.

1. Não houve nenhum “mau desvio” na história humana

É impossível determinar em que momento, e como, a história começou a correr mal. No entanto, o primitivismo selecciona aqueles dados que supostamente demonstram os seus argumentos e rejeita um aspecto da ciência (a história tradicional) em nome de outros que também fazem parte do conhecimento capitalista (como a antropologia). Em lugar de romper com o determinismo marxista, o primitivismo desloca a ênfase das contradições económicas para a contradição homem/animal. Mas todo o “discurso sobre a origem“, provenha ele de Rousseau, de vocês ou de mim, normalmente diz mais sobre o seu autor que sobre o passado da humanidade.

O facto é que a história nos informa sobre certos eventos que levaram o homem a ser o que é. Não muitos, mas os suficientes para se ter uma ideia.

Por que seria o caçador o vilão principal? Vocês afirmam que a agricultura levou à acumulação, e daí às classes, etc.; mas e então a recolecção: não poderia ter existido acumulação privada a partir do que os outros colhiam? Seria igualmente lógico partir de qualquer facto parecido (a roda, por exemplo) e reconstruir dez mil anos de história a partir desse facto singular. Mas nenhum acontecimento em particular pode explicar tudo. Assim como o valor não explica por si só a existência do capital, é absurdo escolher um aspecto da vida inevitavelmente alienada e tratar de demonstrar que é ele o causador de todos os outros. Recolecção versus domesticação, agricultura versus caça, aldeia versus cidade, sedentarismo versus nomadismo, indivíduo versus sociedade, comunidade versus individualidade, a elite versus o povo, poder local versus poder central. Seguindo este esquema, qualquer coisa pode ser tomada como causa primordial de todas os males: a submissão da mulher, a submissão das crianças, a técnica e as máquinas… E a guerra, claro!: muito mudou quando a guerra “ritualizada” se expande e ocorre a submissão dos prisioneiros ao que mais tarde seria o “trabalho”. Na verdade, é muito mais provável que todos esses fenómenos tenham ocorrido simultaneamente no transcurso de uns poucos milhares de anos. Não tanto que a agricultura tenha dado nascimento às classes e ao poder político. Seria antes: primeiro havia “comunismo primitivo”, e depois houve agricultura + classes + política.

O determinismo marxista (que às vezes está presente nos nossos escritos) explicava a história pelo surgimento de um “excedente” que seria apropriado por uma minoria. Freddy Perlman (1) substitui isto por uma determinação hidráulica , mas não explica por que razão as comunidades locais se dividiram dando origem às classes e ao Estado. Não poderiam, no entanto, ter construído e administrado colectivamente, os diques e canais, em vez de delegar essa tarefa nos “organizadores”? Esta evolução técnica não era necessariamente inelutável. Caso contrário, teríamos que admitir que a humanidade ficará sempre reduzida à escravidão sempre que empregue sistemas de irrigação em grande escala. Existe alguma evidência de que houve sociedades de caçadores, pescadores ou de agricultores que não se tornaram opressoras para os seres humanos. Porquê? Ninguém o sabe. Assim como não há explicação para as coisas terem corrido mal no passado, também não há garantia que ficarão bem no futuro.

Não se pode considerar algo que nos desagrada (quase sempre com razão), e transformá-lo numa causa universal. Por que não culpar a pintura rupestre? Está relacionada com a linguagem, portanto, com um poder simbólico, que os humanos empregam para aprisionar-se uns aos outros, como afirma Zerzan. Esta explicação é tão válida como qualquer outra, e igualmente irrelevante: considerar um único aspecto da sociedade como causa de toda ela.

Se se toma a parte pelo todo, pode usar-se a (pré)história para provar qualquer coisa que se queira. O vegetarianismo militante pode atribuir os males sociais ao consumo de carne, e contrapô-lo à vida muito mais saudável que levam os símios vegetarianos. Mas também se pode argumentar solidamente em sentido contrário, pois parece suficientemente demonstrado que a dieta carnívora teve um papel decisivo numa característica essencial da espécie humana: a sua sociabilidade. Por outro lado, sabe-se também, que não só os predadores, mas animais como os golfinhos possuem formas complexas de cooperação, hierarquias, códigos, etc. Tal como vocês consideram a caça como uma das principais causas da opressão, outros consideram-na como a origem da sociedade. Inteligência significa capacidade de adaptação a factores que mudam constantemente. Geralmente, os animais predadores têm muito mais relações sociais que as suas presas. Mas, que conclusões se podem retirar daqui? Num plano mais fisiológico, alguns defendem que o grande desenvolvimento de pequenas nações habituadas ao consumo de proteínas animais (a antiga Grécia, a Inglaterra, o Japão) demonstra a superioridade da dieta carnívora. Mas uma vez mais: que significa isto? A natureza proporciona-nos tantas evidências para tudo, que podemos usá-la para provar qualquer coisa. Isto é, não serve para provar nada.

Mas, não será porque os humanos começaram a ser tratados como coisas que os animais e as árvores foram reificados também?

Para nós a indústria automóvel não é reprovável porque se desenvolveu a partir do modelo do açougue. Se criticamos o capitalismo é porque a produção de valor transforma tudo em mercadoria, seja a carne ou a poesia. Deste ponto de vista, é inútil reivindicar que haja mais poemas e menos hambúrgueres. Enquanto ambos os produtos originarem lucros, as fábricas continuarão a despejá-los no mercado. Pode haver fábricas de qualquer coisa. É a sociedade da cadeia de montagem que temos que compreender e revolucionar, independentemente de fabricar carne enlatada, pão integral ou frigoríficos.

2. Ao discutir qualquer assunto (neste caso: dieta carnívora versus vegetarianismo ou a condição animal), primeiro temos que questionar-nos de onde surgiram as perguntas

Por que razão o jovem médio urbano do Ocidente, no início do século XXI, tem repugnância à vista de um homem vestido de caçador disparando sobre patos ou coelhos?

A preocupação pela natureza, as inquietações ecológicas e as reacções aos maus-tratos a animais não são sintomas de que a humanidade por fim está a ficar mais consciente do seu impacto sobre o resto do planeta, mas que o capital necessita de pensar globalmente, tomando em conta todo o passado e o presente, dos templos Maias às baleias e aos genes. Tudo o que o capital domina deve ser controlado e classificado para poder ser administrado. Tudo o que se possa comprar e vender deve ser protegido. O capital possui o mundo e nenhum proprietário se pode dar ao luxo de ser descuidado com as suas posses.

No início do século XIX a burguesia esbanjou a vida e a força de trabalho de milhões de proletários. Em parte graças à acção dos mesmos operários, esta exploração foi-se tornando cada vez menos destrutiva e mais rentável. Hoje em dia o capital já não pode continuar a desperdiçar tranquilamente milhões de macacos ou árvores.

Não é nenhuma coincidência que esta sensibilidade aguda acerca da condição animal apareça ao mesmo tempo que a comida industrializada e as quintas que lembram campos de concentração. O humanismo e o Estado moderno nasceram juntos. A industrialização de tudo (homens, animais, assim como o alimento de ambos) é inseparável dos protestos pelos danos causados contra tudo. Nos últimos trinta anos o vegetarianismo desenvolveu-se ao mesmo ritmo que a agro-indústria, tal como os nossos sentimentos: comemos sanduíches de presunto envolvidas em plástico, mas recusamos vestir casacos de peles. O homem moderno quer carne sem sangue, tabaco sem nicotina, mercadorias sem manchas de suor, guerras sem cadáveres, polícias sem bastões, bastões que não deixem hematomas, dinheiro sem especulação.

Neste sentido, as formas mais modernas de exploração ajudam a entender as formas mais atrasadas.

O que está a acontecer com os animais é um produto degradado da “luta de classes”, do desenvolvimento das relações entre o Capital e o Trabalho depois das rebeliões dos anos 60 e 70 nos locais de trabalho. Desde essa época os gestores estão tratando que as empresas sejam lugares mais seguros e onde se destrua menos (isto é, se faça produzir mais) o capital mais valioso de todos: o trabalho. A exploração animal está a evoluir no mesmo sentido. Tende-se a experimentar menos com animais com o fim de obter mais deles, com dor quando é necessário, sem dor quando é possível: “está-se a reduzir o número de animais sacrificados, estão-se a sofisticar as técnicas que causam sofrimento e estão-se a substituir os animais vivos por simulações ou culturas de células” (Newsweek, 16 de Janeiro de 1989).

Os protestos contra os maus-tratos aos animais acompanham a reivindicação geral de uma sociedade multicultural, mais aberta e não agressiva.

É o próprio problema, tal como foi formulado, que é preciso questionar. Se se denuncia a “crueldade” é porque, por outro lado, se estaria disposto a aceitar um tratamento “mais amigável”. Reclamar contra as condições de trabalho “degradantes” é o mesmo que reivindicar melhores condições de trabalho. Lutar contra o excesso logicamente supõe que se está a favor da moderação. Suponhamos que essas experiências atrozes (e quase sempre estúpidas) realmente pudessem ser indolores, e mesmo agradáveis para os animais envolvidos. Mesmo assim, vocês e eu, continuaríamos a colocar objecções aos estudos sobre o “stress” e aos teste de cosméticos, do mesmo modo que consideramos ainda mais alienado, um operário fabril que diz ser “feliz”.

(1) Freddy Perlman, um dos precursores do “primitivismo”; no seu livro mais conhecido, Against his-story, Against Leviathan, relacionou o surgimento do estado e da opressão de classe com a execução de gigantescas obras de irrigação empreendidas na antiguidade pelos povos mesopotâmicos.

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