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24/03/2010

Reflexões em tempos de gripe permanente (3ª Parte)

Reflexões em tempos de gripe permanente (3ª Parte): o regresso dos muros

Retirado de http://passapalavra.info/?p=20759

Aquando da manifestação do 1º de Maio de 2009, deixando exprimir um sentimento de perturbação, o líder da CGT teria confiado a um notável socialista: «Estamos perante um muro!» Por Charles Reeve.

A crise dos partidos e dos sindicatos não encontra as suas raízes nas vicissitudes do jogo institucional, mas nos obstáculos que o sistema capitalista levanta ao seu funcionamento. Assim, a retracção, mesmo o quase desaparecimento, do espaço de reforma no capitalismo contemporâneo enfraquece o papel integrador dos sindicatos, paralisa os burocratas. Na sua corrida para o lucro, o capitalismo deve constantemente ligar salários e produtividade do trabalho. Num período de baixa da rentabilidade do capital, o aumento da produtividade revela-se insuficiente e a manutenção dos salários pesa nos lucros (1). Os «parceiros sociais» devem assim caucionar o aumento da exploração através de um decréscimo dos salários e do incremento da intensidade do trabalho (a produtividade). Neste reformismo ao contrário, o objectivo para os sindicatos é o de ceder o menos possível.

17/03/2010

Reflexões em tempos de gripe permanente (2ª Parte): tradições francesas

retirado de :  http://passapalavra.info/?p=20363

Se, na maior parte das sociedades europeias, os efeitos da crise estiveram na origem de movimentos, greves e revoltas de rua, o modelo não se aplica à França, que vive, desde há duas décadas, submetida a arrastões de agitação social. Movimentos que terminam frequentemente com compromissos instáveis, e até mesmo em derrotas mal definidas. Por Charles Reeve.

Manifestação anti-CPE

Em particular, a agitação dos estudantes mantém-se enérgica desde o início dos anos 90 (1); sucessão de lutas que se seguem sem se ligar entre elas. A última, datada de 2009, contra formas disfarçadas de privatização do ensino superior, durou mais de seis meses. À excepção do que se passou aquando do movimento dos desempregados, no início de 1998, todos estes movimentos foram incapazes de estabelecer uma ligação directa com «o mundo» do trabalho assalariado, e isto apesar das tentativas voluntárias conduzidas pelos sectores mais politizados da juventude, apesar da consciência partilhada de uma situação comum e de uma mesma oposição à lógica política neoliberal que é aplicada tanto nos serviços públicos como nas empresas. Apesar destes impasses, esta constância da conflitualidade da sociedade francesa tem consequências evidentes. A mais importante encontra-se sem dúvida na reprodução de uma cultura política fundada numa visão de classe dos problemas, algo que sobreviveu das referências e dos valores das grandes lutas do passado, da Comuna de Paris ao Maio de 68.

Quando, no início de 2009, as primeiras consequências da crise começaram a fazer-se sentir em França com despedimentos [demissões] e encerramento [fechamento] de empresas, o sentimento de derrota já estava presente no seio dos assalariados. Desde há anos, as políticas liberais tinham isolado as lutas, quebrado a força colectiva. E, no entanto, subitamente, os conflitos radicalizaram-se, como um bafo de raiva contra a corrente do espírito de resignação. As promessas não cumpridas tiveram grande peso nesta explosão de descontentamento. Na Continental – uma empresa onde as acções foram das mais duras –, os despedimentos foram anunciados pouco tempo após os trabalhadores terem aceite um regresso às quarentas horas de trabalho semanal para «salvar a empresa».

As lutas desta nova fase visaram particularmente a classe capitalista. Assistimos assim a acções contra as direcções de empresas ou patrões individuais, mesmo a intervenções contra as assembleias de accionistas. Patrões foram sequestrados durante dias, outros foram forçados a saírem para a rua e manifestarem-se «ao lado» dos grevistas. Aqui e ali, ataques furiosos foram intentados contra sedes de empresas, habitações dos quadros, e por vezes também contra repartições do estado que protegiam a acção patronal. Este ressentimento contra o patronato explica-se evidentemente pelas circunstâncias do período, caracterizado pela arrogância das classes capitalistas, o deslocamento ostentatório dos rendimentos para os ricos, a insolência das remunerações e prémios patronais, a contínua distribuição de dividendos para empresas que despedem. As políticas fiscais do governo Sarkozy (2) mostraram aliás o apoio do estado francês a esta evolução, ao encontro de todos os discursos sobre o «interesse geral» da sociedade. Assim sendo, a preponderância adquirida pelo capitalismo financeiro na gestão das empresas veio reforçar a ideia confusa de uma pseudo-oposição entre o sector financeiro e o sector produtivo («economia real»), limitando a crítica radical do sistema.

A luta dos agentes da empresa pública EDF-GDF [Electricidade de França – Gás de França], que teve lugar na Primavera de 2009, foi um exemplo desta radicalização. Mobilizados contra a precarização dos jovens operários, o desmantelamento progressivo dos antigos estatutos e a transferência de algumas das suas actividades para o sector privado, os trabalhadores levaram a cabo acções muito populares de um novo tipo. Puderam assim observar-se numerosos cortes de electricidade nos bairros burgueses, nos museus e centros comerciais chiques, nos radares de polícia na estrada. Mas também pudemos ver o restabelecimento de corrente aos subscritores pobres cortados da rede e a aplicação de tarifas mais baixas nos bairros populares. Aquando da manifestação do 1º de Maio de 2009, em Paris, os grevistas cortaram a electricidade nos prédios onde residem políticos conhecidos, ao ponto de confundir os jornalistas, incapazes de distinguir os militantes do «Black Bloc» dos comandos de jovens operários sabotadores…

Por último, a acção levada a cabo contra o Festival de Cannes forçou os organizadores a recorrer a potentes geradores protegidos pela polícia. Esta proliferação de acções imaginativas explica-se também pela presença de uma nova geração proletária em sectores tradicionalmente “bem comportados” e controlados pelos sindicatos. Já o havíamos constatado aquando da greve dos transportes públicos em Paris, em 2007, quando a atitude combativa dos jovens condutores de autocarros [ônibus] (em maioria oriundos dos bairros periféricos) surpreendeu a direcção.

Incapaz de prejudicar os desenvolvimentos possíveis desta dinâmica, a classe política francesa deu então alguns sinais de inquietação. Temia sobretudo um contágio. Assim, quando milhares de trabalhadores da Continental-França se deslocaram à Alemanha para se manifestarem com os seus camaradas alemães sob os olhares desconcertados dos quadros sindicais para lá do Reno, pouco habituados a desmesuras, ou ainda, quando a Praça da Bolsa em Paris foi ocupada por centenas de operários de empresas em luta contra os despedimentos. Nestas circunstâncias o governo representou o papel de prudente e hipócrita. Embora a presença policial seja omnipresente na vida social em França, a repressão seja apresentada como a resposta a todos os problemas sociais, embora se faça habitualmente o amálgama entre discurso securitário e propostas anti-terroristas, o governo tratou estas acções directas com retenção, deixando a repressão para mais tarde (3). Como dirá um alto responsável da polícia: «os efeitos da crise devem ser tidos em conta para os problemas de segurança […] Nos períodos de crise, em que as pessoas se encontram em dificuldades no plano social, mais do que nunca devemos garantir a sua segurança no quotidiano. Devem ser protegidas (4).

Mas sobretudo, discretamente, o governo pode contar com a cooperação das direcções sindicais, também preocupadas com a perda de controlo da situação e que apostaram no medo e na passividade das grandes massas. Um conselheiro das altas esferas do Estado reconhecê-lo-á claramente alguns meses mais tarde. «Constato que na Primavera, o seu [dos sindicatos] sentido do interesse geral foi impressionante para canalizar o descontentamento. O Outono foi de uma calma absoluta. Tiro o chapéu aos sindicatos! Co-geriram esta crise com o Estado. O patronato, enquanto actor social, contou-se entre os implicados ausentes. Se ele tivesse um décimo do talento do estado-maior da CGT no Medef [Organização patronal de França], as coisas estariam já melhor…» (5).

Notas

(1) O movimento anti-CIP [Contrato de Inserção Profissional], contra os novos contratos de trabalho precários para os jovens, em 1994, viu surgirem as primeiras fracturas entre os estudantes ditos «sensatos» e os jovens «agitados», que foram rapidamente identificados com a juventude das periferias.

(2) Como uma das suas primeiras medidas, 14 000 contribuintes ricos beneficiaram de gordas restituições de impostos. Iniciativa que marcará indelevelmente a orientação do clã no poder.

(3) Será apenas alguns meses mais tarde que alguns dos trabalhadores que participaram nestas acções foram despedidos e perseguidos pela justiça.

(4) Entrevista com Eric Le Douaron, Le Monde, 1 de Abril de 2009.

(5) Alain Minc, Le Parisien, 27 de Dezembro de 2009.

09/03/2010

Reflexões em tempos de gripe permanente (1ª Parte)

Reflexões em tempos de gripe permanente (1ª Parte): revoltas de crise

Num primeiro tempo, a erupção da crise foi seguida, na Europa, por um acréscimo significativo das lutas sociais, mesmo nas sociedades até então consideradas como lugares de tranquilidade consensual. Por Charles Reeve

retirado de :  http://passapalavra.info/?p=20029

No final de 2008, tal como após um degelo, o colapso do sistema bancário, na Islândia, deixou a descoberto um território árido devastado pela especulação financeira. A população local que tinha alegremente subscrito as promessas da felicidade – «fazer dinheiro com dinheiro» – acordou despojada sob o frio quase polar. Na sequência disso, violentas manifestações fizeram cair o governo, dando um fim provisório a esta saga nórdica moderna, símbolo caricatural do percurso seguido por outras economias na Europa. Como um pouco por todo o lado, na Islândia, o calor das manifestações de rua trouxe à luz do dia as fissuras da economia dita «real» cujos males repentinamente deveriam ser procurados, não no excesso de alguns gangsters da banca, mas noutro lado.

fire_n_flares_iceland_riotDesde aí, e apesar das profecias calmantes dos sacerdotes da economia e da retoma da actividade especulativa, a situação social não cessou de se agravar. Mês após mês, por toda a Europa, centenas de milhares de trabalhadores são enviados para um desemprego com perspectivas de duração cada vez mais longas. Os sectores chave da economia capitalista – dos bens de produção ao automóvel – são submetidos a uma drástica cura de emagrecimento, fusões e concentrações, quando não são pura e simplesmente apagados da paisagem industrial, prova da profundidade da crise e de uma improvável retoma próxima da máquina. Nos velhos centros do capitalismo europeu, a intervenção dos estados, os apoios sociais (ainda que revistos em baixa), amortecem a queda, tornam-se cuidados paliativos das consequências da crise. Enquanto nas sociedades mais pobres da periferia, o crescimento rápido do endividamento público pesa nas capacidades de financiamento dos estados e obriga os governos a encetar violentos programas de austeridade social.

Num primeiro tempo, a erupção da crise foi seguida, na Europa, por um acréscimo significativo das lutas sociais, mesmo nas sociedades até então consideradas como lugares de tranquilidade consensual. Aos protestos de Reiquejavique vieram juntar-se as greves numa Irlanda chocada com a morte inopinada do «Tigre céltico»; as manifestações violentas dos siderúrgicos e metalúrgicos da Galiza, em Espanha; o longo movimento dos professores do secundário em Portugal contra a precarização do seu estatuto; as revoltas nos países bálticos contra a redução das reformas, as prestações sociais e os salários dos funcionários (1). Tudo isto, claro, coroado pela importante revolta da juventude na Grécia, no Inverno de 2008-2009. Seria precipitado criar, a partir de uma simples soma, um movimento unificado de lutas e de protestos. Mas, não podemos negar que não haja uma convergência objectiva entre todos estes acontecimentos. Todas estas lutas e movimentos levantaram novos problemas ou, antes de mais, colocaram numa nova perspectiva problemas que haviam sido gerados no decurso dos anos precedentes de euforia neoliberal. Alguém disse que é «numa época perturbada que o ininteligível se afirma mais fortemente» (2). Se pensarmos que a questão social se tinha tornado no ininteligível da política contemporânea do «fim da história», então, o regresso à crise da «economia real» é também o regresso da questão social.

GREECE RIOTSOs acontecimentos do Inverno de 2008-2009, na Grécia, exprimiram, de modo extremo, problemas comuns às diversas sociedades europeias. Pela amplitude e pelo eco que encontrou na sociedade, pela ocupação do espaço urbano gerado, esta revolta acordou por todo o lado os receios das classes dirigentes. Antes de mais, porque o fogo da insurreição alimentou-se da precariedade da juventude estudante, condição que é hoje comum a todas as sociedades europeias. Uma proletarização que apaga progressivamente a distância anteriormente existente entre o mundo estudantil e o do trabalho, e que, pelo menos na Grécia, se tornou no elo entre os estudantes, os deixados à sua sorte, os jovens imigrantes e os trabalhadores. Receio também porque a insurreição grega se insurgiu contra a arbitrariedade e a arrogância repressiva do poder político, contra o clima de corrupção e os traços mafiosos da nomenklatura política, exprimindo uma rejeição da classe política que é palpável por toda a Europa. Na altura em que o sector financeiro aparecia associado à avidez capitalista e à corrupção do político, eis o que viria deitar óleo na fervura.

Por fim, a revolta grega ilustrou bem a tendência actual das lutas na Europa, nas quais uma minoria activa, radicalizada pelas suas próprias acções, é frequentemente incapaz de alargar o combate e acaba sistematicamente por capitular perante o seu próprio isolamento. Na Grécia, como em França ou noutro lado, os esforços para ultrapassar o papel pacificador das instituições sindicais e políticas, as raras tentativas de ligação directa com os trabalhadores, fracassaram (3). Estas instituições mantêm, como podem, um controlo sobre os restos do velho movimento operário organizado, permitindo assim ao poder político jogar com o esgotamento das revoltas. Para grande alívio dos dirigentes políticos europeus, a revolta grega não excedeu o âmbito da juventude estudante e marginal, afundou-se no tempo e foi encoberta pela normalidade alienada da vida social. O seu contágio a outras sociedades não acontecerá.

3217352000_8617db83fdCuriosamente, é com o aprofundar da crise que estes acontecimentos ganham dimensão. A falência virtual do estado grego e a elaboração de um programa de austeridade sob o olhar vigilante dos poderes financeiros supranacionais estabeleceram o elo entre a crise social e política e a crise económica. Com efeito, a aptidão das classes dirigentes para aplicar estes programas mantém-se largamente condicionada pelas condições de paz social. Sabemos que a margem é estreita na Grécia. Do mesmo modo, por toda a Europa, o sucesso da austeridade encontra-se sujeito à relação de forças entre explorados e exploradores, no âmbito específico de cada sociedade. A dimensão da agitação social, a instabilidade política, a dificuldade de governar passam então a fazer parte dos dados de crise. É assim que o equilíbrio frágil das sociedades do sul e das de leste se acrescenta às dificuldades de rentabilidade dos centros capitalistas europeus. Os países do sul foram anteriormente considerados como «os bons alunos» da integração europeia. Isto significou que o aparelho produtivos destes países foi reestruturado de acordo com as necessidades do capitalismo dos países do «núcleo central». Hoje, e uma vez que apresentam taxas de pobreza elevadas e que a sobrevivência de uma grande parte da população é assegurada pela «economia informal» (4), são classificados como «maus alunos», «produtos de risco». Os «PIGS» (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) constituem assim uma carga para as economias centrais, levantando pela primeira vez a perspectiva devastadora de uma «deslocação da zona euro», com enormes consequências sociais e políticas. No leste e, sobretudo, nos países bálticos, o desastre é ainda mais vasto. A passagem do capitalismo de estado à economia privada criou nesses países condições ideais para a especulação e pilhagem, a emergência de um capitalismo de casino [cassino]. A falência do sistema financeiro significou o quase desaparecimento da «nova economia», somou-se à desintegração dos sistemas de protecção social deixando as sociedades exangues [débeis] (5).

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As condições de luta de classes mudam com a continuação da crise. A degradação persistente da situação social e o contínuo desabamento das estruturas produtivas cria um terror paralisante. A estes movimentos de revolta sucedeu-se um período de acalmia resignada, do qual ainda não saímos. A lógica do endividamento público leva por todo o lado à continuação do desmantelamento das estruturas de protecção social. No entanto, é curioso constatar que os governos tentam, ao mesmo tempo, preservá-las, e até pontualmente alargá-las (6). Eles sabem que as ajudas sociais constituem a última barreira contra a explosão social e as perturbações políticas, reconhecendo também – setenta anos depois de Keynes – que apenas a intervenção do estado é capaz de compensar socialmente a estagnação do capitalismo e a sua incapacidade em concretizar uma política de emprego através do investimento privado, o «único meio possível de evitar uma completa destruição das instituições económicas actuais» (7).

Notas:

(1) Na Letónia a redução foi da ordem de 20%.

(2) Siegfried Kracauer, L’Histoire. Des avant-dernières choses, Stock.

(3) Encontraremos um debate sobre os limites da auto-organização assim como do papel representado pelos sindicatos para isolar o movimento da juventude, em «Décembre 2008, Grèce: une tentative d’identifier la force et les limites de notre force» [Dezembro de 2008, Grécia: uma tentativa para identificar a força e os limites da nossa força] (http://reposito.internetdown.org/analyses/Blaumachen.pdf). «O limite da rebelião deve residir no facto de esta não se ter podido estender aos locais de trabalho».

(4) No final de 2009, em Portugal, quatro milhões de pessoas vivem na pobreza (numa população de 9 milhões), dos quais 2 milhões sobrevivem com as ajudas do estado (Público, 1 de Janeiro de 2009). Na Grécia como em Portugal, estima-se que 25% da população vive da economia informal.

(5) No caso extremo da Letónia, o governo foi forçado a distribuir lotes de terra aos mais pobres para evitar a fome (Le Monde, 2 de Janeiro de 2010). Um regresso inesperado às políticas da reforma agrária!

(6) Em certos países (como em Espanha), o montante e a duração dos subsídios de desemprego foram aumentados. Na Alemanha, o governo apoia o recurso às medidas de desemprego parcial. Em França, o governo propõe sistematicamente planos de reconversão e de acompanhamento dos despedidos.

(7) J. M. Keynes, Théorie générale de l’emploi, de l’intérêt et de la monnaie.

29/12/2009

Sobre os Zapatistas 5ºparte

A democracia indígena no tempo das redes Internet…

A natureza burocrática do EZLN traduz-se, entre outras maneiras, pelo controle da palavra. As vozes dos revoltados de Chiapas reduzem-se a apenas uma, que fala e escreve em nome de todas as outras. Que os burgueses da esquerda caviar defendam Marcos em nome duma concepção elitista, isso não espanta. Ele seria um “artista” e “o melhor escritor latino-americano actual”, o representante “dum punhado de jovens dotados”. “Ele (Marcos) não fala em lugar deles, ele transforma os seus companheiros em personagens de conto ou de novela. Através desta subjectividade declarada mas colectiva, ele inventa uma nova maneira de dizer eu que ressoa com o nós sem o substituir, um eu aberto e passível de mudança, que cada um pode retomar por sua conta e prolongar ao seu jeito[6]. Os militantes entusiastas sentem-se por vezes melindrados pelo espectáculo do subcomandante. Eles redobram os seus esforços para nos assegurar, garantindo que Marcos não fala em lugar do povo, que ele não seria mais que o porta-voz. Não haveria perigo de se cair no caudilhismo. Mas como reconhecer a voz do povo se só se escuta Marcos? Só Marcos o pode fazer, bem entendido! E entra-se em círculo vicioso. Outros, enfim, não temem o bafio de totalitarismo e explicam que: “A máscara significa que todos podem falar pela boca de um só. A máscara significa que ninguém é insubstituível[7].” Já que todos são iguais, acrescentaríamos nós com cinismo. Por seu lado, o subcomandante justifica-se: “o que é novo não é a ausência de caudilho: o que é novo é o facto que se trata de um caudilho sem rosto.[8]” Para nós, bem entendido, o anonimato do chefe não é o fim do chefe, é pelo contrário a forma abstracta da autoridade. O culto do herói não foi ultrapassado, ele manifesta-se na sua forma pura. A modernidade oferece-se a nós na forma de uma caricatura do passado: pensava-se ter-se liquidado o vanguardismo bolchevista e reencontra-se o vanguardismo de Zorro. O EZLN é o dirigismo mascarado com um passa-montanhas democrático.

Uma leitura alternativa da prosa do EZLN desvela a existência duma clara separação entre o “nós” (o exército de libertação) e o “eles” (as massas). O observador perspicaz não terá dificuldade em reencontrar, por trás deste discurso vago, os princípios de base do maoismo-esquerdista, do “torreonismo” dos anos 70.

A organização zapatista permanece conforme ao modelo: na base as assembleias, à cabeça os comités políticos clandestinos (o Comando Geral do EZLN do qual depende Marcos). Dizem-nos, ainda, que a organização consulta incessantemente a base: haveria plebiscitos, assembleias, referendos. Trata-se de um “processo político democrático”, de um “novo projecto político”, de “democracia autónoma para todos (sic) os níveis da sociedade mexicana”, duma “nova síntese política”, etc. Entrevista após entrevista, comunicado após proclamação, Marcos repete a sua litania de lugares comuns democráticos que agradam aos seus interlocutores. Trata-se incessantemente de preocupações democráticas do EZLN. Ao ponto que, embriagados de belas palavras, os espíritos avisados se põem a pensar que nem ele próprio acredita nisso um só instante. Efectivamente, a partir do momento que se vai além das frases feitas e que se trata de precisar o conteúdo real das estruturas de poder, a fórmula aproximativa é a regra. Alguém que utiliza as redes modernas da Internet para difundir os seus textos revela-se um passadista endurecido: “Quando uma comunidade tem um problema, reúne-se em assembleia, as pessoas analisam-no e resolvem-no em conjunto… Esta forma de democracia é inata e natural, sem necessidade de ser ensinada. Vem dos avós e bisavós e transmite-se pela vida fora.[9]” Que se ouse questionar o conteúdo mítico e quase genético desta democracia comunitária é sobretudo mal visto. Não te prevenimos já de que “ a democracia indígena não é de salão. Discute-se por montes e vales, condensa-se nas águas, nos ribeiros, nos buracos de água, nas grutas. Não se vê, sente-se.[10]” Seguro do silêncio respeitoso dos seus interlocutores, Marcos não hesita em promover este modelo de representatividade, como modelo de governação das sociedades modernas, sem no entanto se dar conta de que propõe uma versão simplificada do que existe já. “Organizemos o mundo desta maneira, exerçamos o poder, depositemo-lo em qualquer um, que iremos vigiar, e se ele não nos serve, livramo-nos dele, que é o que se faz nas sociedades indígenas”[11].

O nacionalismo patriótico constitui o segundo pilar do edifício ideológico do EZLN, juntamente com a democracia comunitária. “Marcos exala um patriotismo que se aproxima da mania”, notou um observador que é no entanto simpatizante da sua causa[12]. A histeria patriótica, que era uma das taras caricaturais do esquerdismo maoista, não teve problemas aqui em acomodar-se à nova situação. Com efeito, o EZLN deu provas de uma notável capacidade de adaptação ao desmoronar do capitalismo de estado e ao fim da partilha do mundo em dois blocos. É a primeira guerrilha do período pós-comunista que, na era da “nova ordem mundial”, tenta encontrar um modo de funcionamento. Os seus quadros, de formação marxista-leninista, não se referem nunca ao regime de exploração dos sistemas que se desmoronaram. Por vezes, permitem-se chegar a descrevê-los como: “países que poderiam ter vivido livres”[13]. No essencial limitam-se a constatar o desaparecimento do que foi, para eles, o socialismo: ”A União Soviética acabou,não existe mais campo socialista (sic); ma Nicarágua perderam-se as eleições, na Guatemala a paz foi assinada, em Salvador discute-se, Cuba está isolada, mais ninguém quer ouvir falar de luta armada, menos ainda de socialismo; a partir de agora todos são contra a revolução, mesmo se não for socialista[14]” Então, que resta aos marxistas-leninistas que perderam o apoio dos “países irmãos”, senão ligarem-se a um patriotismo anti-imperialista primário, ao elogio do facto nacional e ao respeito da democracia parlamentar. O EZLN não é um movimento que “unifica o passado com o futuro”[15], e ainda menos a “primeira revolução do século que vem aí”. É um movimento do passado que tenta adaptar-se aos novos dados dum presente sem futuro. É o último movimento de tipo antigo num século que termina.


[6] Régis Debray, ” A demain Zapata “, Le Monde, Maio de 1995.

[7] N. Arraitz, op. cit. p.273.

[8] Interview, La véridique légende du sous-commandant Marcos, filme de T Brissac e C. Castillo, La Sept/Arte, Paris, 1995. (Ver nota 74)

[9] Marcos, Entrevista Brecha, Montevideu, Outubro de 1995 (traduzido e publicado por Alternative Libertaire, Bruxelas, Março de 1996)

[10] Declaração de princípios do EZLN, citado por Nicolas Arraitz, op. cit., da sobrecapa.

[11] Marcos, interview, op. cit

[12] John Ross, op. cit. , p. 294.

[13] Entrevista de Tacho e Moisés, N. Arraitz, op. cit., p.343.

[14] Interview La véridique légende du sous-commandant Marcos, op. cit.

[15] ” O Ano  03 “, texto de  balanço dos comités de apoio ao EZLN na Alemanha, Hamburgo, 18 de Fevereiro de 1996.

22/05/2009

Sobre o Zapatismo IV

continuação deste.

De Mao a Marcos: o sucesso do EZLN

Em Outubro de 1968, o governo mexicano, confundido pela amplitude dum movimento estudantil sem precedentes, massacre uns trezentos manifestantes na Praça das Três Culturas, na Cidade do México. Uma repressão feroz abate-se sobre as organizações de extrema-esquerda. No seguimento destes acontecimentos trágicos o grupo marxista-leninista-maoísta Politica Popular decide deixar o meio estudantil para centrar a sua actividade nas “massas populares”. Implanta-se então nas cidades do norte do país, onde o êxodo rural originou vastas zonas de bairros de lata [favelas], terreno favorável aos militantes esquerdistas. O objectivo era criar “bases vermelhas”: redes de organizações capazes de controlar estes bairros. A táctica foi tomada de empréstimo às tendências esquerdistas da “revolução cultural” chinesa: a direcção política da Organização não devia nunca aparecer a descoberto, sendo as suas decisões sempre apresentadas como o resultado duma consulta às massas, exprimindo-se em comités e assembleias. O projecto clássico de enquadramento das populações por uma organização de vanguarda autoritária era mascarado por um discurso demagógico de democracia de base. Levando a cabo o seu “trabalho político” no terreno, os maoístas mexicanos iriam reencontrar, inevitavelmente, militantes mais antigos: os padres católicos “progressistas”. Apesar do facto de estarem em concorrência para o controle das mesmas massas, maoístas e curas chegaram rapidamente a um acordo. Da sua miraculosa cooperação resulta um modelo mexicano de “trabalho de massas”, chamado “torreonismo”, do nome da grande cidade do norte, Torreon[6]. Em meados dos anos 70, o governo mexicano, inquieto pelo sucesso obtido por esta corrente, desencadeia uma repressão selvagem, no curso da qual numerosos militantes foram assassinados. A direcção da Organização revê de novo as suas posições: a “linha de massas”, que enfatizava o trabalho político nas zonas urbanas foi substituída pela “linha proletária”, que dava a prioridade à implantação entre os camponeses pobres. Com efeito, a adopção da nova linha significava o retiro dos maoístas mexicanos para zonas onde se julgavam menos expostos à repressão: foi a sua “longa marcha”. Foi também um período problemático na vida do grupo, caracterizado por toda uma sucessão de fracassos na implantação, de cisões, de renúncias e de ajustes de contas internos[7]. Assim, é apenas por volta do fim dos anos 70 que as primeiras “brigadas” da vanguarda maoísta chegam a Chiapas, onde encontram os seus “compagnons de route” [companheiros de percurso] da igreja “progressista”, já presentes nas comunidades camponesas pobres.

Actualmente, não é fácil de estabelecer uma ligação clara e linear entre o período de implantação desta organização e o nascimento do EZLN. Apenas é certo que existe esta ligação. Nesse intervalo, outros grupos de militantes maoístas chegaram a Chiapas. O próprio Marcos fez parte de uma dessas últimas “brigadas”[8]. Muitos militantes e dirigentes políticos desapareceram, vítimas da repressão implacável levada a cabo pelo exército e por mercenários ao serviço dos proprietários agrários. Quanto aos sobreviventes, devem ter revisto algumas das suas concepções em função das condições locais. Sabe-se, enfim, que os princípios tácticos de base dos esquerdistas maoístas começaram a reaparecer nas lutas camponesas: o recurso constante às assembleias como meio de ocultar e de proteger os chefes políticos.

Os maoístas mexicanos – assim como os seus irmãos peruanos do Sendeiro Luminoso – fizeram, à sua maneira, a crítica da ideia guevarista do foco. Compreenderam que a implantação política estava votada ao fracasso se se reduzisse à acção de um núcleo armado, caído de pára-quedas nas comunidades indígenas muito fechadas e hostis a tudo o que viesse do exterior. Desde o início, eles reivindicaram a especificidade indígena por razões tácticas. Os núcleos militantes deviam integrar-se nas comunidades, utilizando, entre outros, os seus laços com a “Igreja indígena”. Numa segunda fase, a organização política adaptou as suas concepções dirigistas às novas condições históricas, caracterizadas pela decomposição das comunidades rurais e pela proletarização dos camponeses indígenas. A criação de organizações sindicais camponesas correspondeu a esta fase. Em 1991, a “Aliança Independente de camponeses Emiliano Zapata” transforma-se em organização nacional. O acontecimento representa um salto político: o trabalho de criação duma “base de massas” tinha sido conseguido e as concepções “regionalistas” – reivindicadas pelas comunidades indígenas em auto-subsistência  e defendidas pela “Igreja indígena” –  tinham sido ultrapassadas. A hora da insurreição tinha chegado. Com efeito, e segundo este modelo, a criação da organização militar deve ser a última fase de um longo trabalho político de implantação[9] entre as populações. Actualmente o exército zapatista, saído das organizações “de massas”, é apenas uma das estruturas da Organização; é a sua parte visível. Os textos do EZLN e as declarações de Marcos retomam com frequência esta questão. O sucesso da organização neo-zapatista explica-se, em grande parte, pela inteligência política demonstrada pelos seus militantes ao longo deste período.

No entanto a estratégia do EZLN é criticada por outras correntes de extrema-esquerda vanguardista mexicana que permanecem muito dubitativas sobre este sucesso. Elas definem o EZLN como uma “organização reformista armada”, cujo isolamento social explicaria a insistência posta na negociação. “Como pode um exército de libertação nacional pretender negociar o seu objectivo da tomada do poder? E que negociação se pode levar a cabo com o Estado sobre este objectivo?[10]” O EZLN teria criado mediaticamente uma imagem que não corresponde à sua verdadeira natureza e cujo fim táctico seria o de mascarar a sua fraqueza. Comecemos com o vanguardismo: “O EZLN não pára de dizer que não é uma vanguarda. É confusão. Claro que se trata de uma vanguarda, mesmo que se afirme o contrário. O que conta é o que se faz, não o que se diz. Se vós desencadeais a luta, se polarizais as posições em presença, deveis em seguida assumir as vossas responsabilidades, organizar a resistência e coordenar as forças que tomam parte no conflito.[11]” Agora vejamos a questão da reivindicação da paz: “A paz é boa para a classe dominante. Eles viveram sempre com “a paz” e é assim que conservam o poder. (…) Marcos faz constantemente apelo a apoios de sectores da sociedade que, no dia em que as coisas se tornarem sérias, não quererão ouvir falar dos zapatistas.[12]” Para os críticos, o EZLN não tem escolha: deve ganhar tempo, criar um movimento de apoio no exterior de Chiapas, daí o apelo constante à “sociedade civil”. Somente, a insistência na negociação arrasta consigo necessariamente, a longo prazo, o esboroamento das posições da organização e o esgotamento do apoio do exterior. “Mas, na realidade, aquilo que faz cruelmente falta aos zapatistas na hora actual, é um apoio massivo na rua, como em Janeiro (1995) quando exigiu a trégua. E a nebulosa [no sentido de agrupamento vasto e informe], demasiado pouco criticada, da “sociedade civil” acaba por se revelar simplesmente como um pobre cataplasma, sem força própria. O único lugar onde é uma realidade possante, é aqui. E as pessoas daqui preferem dizer “o povo em rebelião”[13]”. Tocamos aqui um aspecto central da crítica. A originalidade do EZLN é tal que pode tornar-se a sua fraqueza maior. Durante dez anos, este movimento soube tirar proveito das condições de implantação particulares, numa região geograficamente isolada onde os problemas de segurança e de confronto armado eram inexistentes. Este isolamento, que permitiu o seu fácil desenvolvimento, tornou-se hoje uma armadilha. A partir do momento em que o EZLN se torna visível, foi cercado militarmente, isolado e sem retirada possível em caso de ataque do exército mexicano[14].


[6] Nesta parte do texto utilizámos abundantemente o livro de John Ross, Rebellion from the roots , ver nota 15, particularmente os capítulos ” Back to the jungle ” e ” Into the zapatiste zone “.

[7] É então que laços são estabelecidos entre os caciques do partido do poder, o PRI, e os dirigentes de Politica Popular. Dois grandes chefes maoístas da época são actualmente altos quadros do PRI, na organização camponesa oficial… Ver a este respeito, John Ross, op. cit., p. 276.

[8] John Ross, op. cit., p. 278

[9] Ver a interessante análise de Julio Mogel, em La Jornada, 19 Junho 1994, citado por John Ross, op.cit.

[10] Salvador Castaneda, “Things are going to be difficult for the EZLN “, interview, Analyse & Kritik, ndeg. 373. Castaneda era um dos dirigentes do MAR (Movimiento de Accion Revolucionaria), organização de luta armada, dos anos 70.

[11] Ibid.

[12] Ibid.

[13] N. Arraitz, op. cit.

[14] Para fazer face a isso, uma parte da extrema-esquerda mexicana, propõe ao EZLN a constituição duma Frente unida de organizações políticas. Apesar dos contactos com o EZLN, este recusa-se, por enquanto, a considerar qualquer eventualidade onde ele não tenha uma posição dominante.

21/05/2009

Sobre o Zapatismo III

No seguimento deste post

A revolta dos “novos enforcados”

As revoltas de camponeses pobres e as ocupações são fenómenos endémicos nas sociedades da América Latina. No México como em outras partes, a natureza destas lutas foi afectada pelas convulsões próprias a todas as sociedades do Terceiro Mundo: expulsão dos camponeses pobres das terras, exclusão social, migração, proletarização. Para compreender a natureza da revolta de Chiapas é preciso analisar rapidamente as particularidades desta região e o lugar que ocupa na evolução das tensões sociais no México.

Resultado da sobrevivência dum sistema de propriedade quase feudal, os camponeses dos ejidos (terras comunitárias) e os pequenos proprietários de Chiapas estavam entre os mais pobres do México. No entanto, e desde o fim dos anos cinquenta, numerosos camponeses indígenas expulsos das suas terras começaram a emigrar para Chiapas. Se na sua origem este movimento foi espontâneo, foi em seguida encorajado pelo governo. Incitavam-se os “expulsados” a instalar-se na floresta. “ Socialmente a fronteira Lacandoniana era uma válvula de segurança; uma região que se encontrava longe do centro de poder e onde as massas indígenas e camponesas, potencialmente explosivas, do México profundo podiam ser postas a trabalhar. Era, se se quiser, uma reserva natural para os mais pobres dos pobres.[6]” Em poucos anos, mais de 150 000 indígenas sem terra instalam-se na floresta e na montanha[7]. Como em toda a distribuição capitalista da terra, esta fez-se de forma não igualitária. Os recém-chegados acabaram por ficar com as terras mais pobres sem nunca terem tido acesso aos vales férteis. Pouco tempo depois, essas terras foram abandonadas (já que demasiado pobres), ou expropriadas (pela força ou legalmente). O facto de esses camponeses pobres serem em sua maioria indígenas tornou mais fácil o açambarcamento das terras pelos ricos proprietários ligados à agro-indústria.

As condições para o aparecimento de novos antagonismos sociais estavam reunidas e a “válvula de segurança” transformava-se numa bomba ao retardador. A decomposição das antigas comunidades indígenas acompanhava-se da criação dum novo campesinato pobre, composta duma população misturada (indígenas, maias ou não, e mestiços). Já no início dos anos 70, “as velhas comunidades, até aí estruturadas, deixam aparecer os efeitos dum intenso processo de diferenciação social interna que carcomia os seus mecanismos de coesão e de defesa. Os camponeses sem terra e sem trabalho começaram a concentrar-se nos subúrbios miseráveis (das cidades de Chiapas). No início dos anos oitenta a oferta de força de trabalho duplicou enquanto que, simultaneamente, a política de “terra queimada” do governo de Rios Montt na Guatemala, rejeitava sobre Chiapas mais de 80 000 refugiados maias fugindo do país vizinho e que vêm juntar-se ao exército de reserva deste lado da fronteira.[8]” Os indígenas expropriados eram frequentemente marginalizados; os proprietários preferiam substituí-los pelos trabalhadores guatemaltecos que viviam de forma mais precária ainda, frequentemente na ilegalidade[9]. Em poucas palavras, “o antigo sistema da compra e venda e de reprodução da força de trabalho foi desarticulado, sem que tenha sido substituído por um novo sistema capaz de absorver uma massa crescente de trabalhadores agrícolas no desemprego. O desespero e a crise começaram a mostrar os seus efeitos mais perversos.[10]” A estrutura social de Chiapas foi assim profundamente abalada. A destruição dos campos foi acompanhada duma urbanização caótica e selvagem das cidades. “Actualmente, tanto em Chiapas como na Guatemala, pode-se ver toda a gama do desapossamento sitiar as comunidades indígenas.[11]

No México, o apego do campesinato pobre à terra era impregnado de aspirações dum passado comunitário indígena, reforçado pela herança da revolução. Estas aspirações foram sendo apagadas à medida em que a expropriação das terras comunais e a introdução do capitalismo no campo avançavam. Algumas referências ajudam a compreender e a ultrapassar o mito do comunitarismo. A apropriação familiar das terras comunais foi a primeira etapa da expropriação. Mesmo se quase um terço da terra faz parte dos ejidos ou pertence aos pequenos proprietários, apenas 10% dos ejidos são cultivados colectivamente. Além disso, a quase totalidade dos agricultores dos ejidos (à volta de 80%) são hoje obrigados a trabalhar também para os grandes proprietários para garantirem a sobrevivência, o que nos dá a medida da pobreza das terras comunitárias. Pelos anos 80, a expropriação dos ejidos acelera-se em todo o lado. Por meio do endividamento dos camponeses, o sector bancário deita mão às terras comunitárias e obriga os camponeses pobres a se “associarem” com os proprietários ricos[12]. A crise da propriedade comunal provoca assim um rápido processo de proletarização do campesinato. Num tal quadro, dominado pela forma privada da terra, o conteúdo das reivindicações das lutas camponesas ultrapassa raramente o quadro das relações sociais capitalistas. Foi de maneira muito natural que as organizações políticas vanguardistas, que se desenvolveram em ligação com os movimentos rurais, fizeram do respeito pela propriedade privada da terra um elemento constitutivo do seu combate reformista. A revolta de Chiapas irrompe no termo deste processo. Última região a sofrer os efeitos da expropriação da propriedade comunal, zona tampão tornada um concentrado de todas as misérias do país, Chiapas é o barril de pólvora do México no preciso momento em que a globalização da economia bate à porta. Esta revolta é a revolta de todos os excluídos, dos proletários sem terra e sem trabalho, dos párias, dos camponeses pobres e dos subproletários urbanos encurralados aí, entre a floresta, as montanhas e o oceano. É a revolta dos “novos enforcados”. De facto, a massa dos jovens não tem mais acesso à terra e não encontra mais trabalho nas cidades.[13]” Hoje, o exército zapatista é sobretudo constituído por esta massa de jovens marginais, modernos, falando várias línguas e tendo experiência de trabalho assalariado. O seu perfil tem pouco a ver com o indígena isolado que se imagina.[14]” Se obstinar em apresentar a revolta como um movimento especificamente indígena acaba por consistir em prescindir-se dos meios de a compreender. Limitar-se às reivindicações democráticas do EZLN é recusar ver que os objectivos políticos das organizações que falam em nome dos povos estão talvez aquém das suas aspirações e da sua raiva. É além disso pouco provável que os jovens revoltados de Chiapas lutem pela terra, seja privada ou mesmo colectiva.


[6] John Ross, Rebellion from the Roots, , Common Courage Press, 1995, p. 257

[7] Katerina, Mexico is not only Chiapas, nor the rebellion in Chiapas is a mexican affair. Março 1995, Hamburgo.

[8] A. Garcia de Leon, op. cit

[9] Os camponeses pobres de Chiapas – onde as fronteiras têm historicamente pouco sentido – tornam-se, graças ao pensamento burocrático, “indígenas mexicanos”!? Quem é indígena?,quem é mexicano?, quem é guatemalteco? Os devotos da causa zapatista ficam estranhamente silenciosos sobre a presença desta imigração. Que medidas prevê o EZLN para resolver o ” problema ” ? Existe ” problema ” ?

[10] A. Garcia de Léon, op. cit.

[11] Nicolas Arraitz, op. cit., p. 221.

[12] Katarina, op. cit.

[13] Actualmente 60 % da população de Chiapas tem menos de 20 anos.

[14] Antonio Garcia de Leon, op. cit.

21/05/2009

Sobre Zapatismo II

Decidi continuar a tradução do texto sobre os zapatistas que já tinha apresentado num post anterior.

As comunidades indígenas: mito ou alienação.

O carácter autoritário das sociedades astecas, maias e incas já não precisa de ser demonstrado. No entanto, o mito da comunidade indígena idílica mantém-se ainda.

Este mito é alimentado em parte pela ideia que se tem de comunidade. Como se a forma comunitária das sociedades pré-capitalistas impedisse a existência de uma hierarquia muito estruturada, dum poder centralizado e duma exploração bárbara do trabalho. Entre os maias, por exemplo – cujo território incluía a região de Chiapas actual – o trabalho excedente dos camponeses servia para alimentar e reproduzir uma minoria de nobres e de sacerdotes que formavam a classe dirigente das cidades-Estado[6]. Falar de “tradições locais de tomada de decisões democrática” e de apresentar como formas de democracia primitiva as regras que regulavam a vida comum, é fazer silêncio sobre a autoridade dos anciãos e dos chefes que dependiam da teocracia central, cujas ordens eles aplicavam e cujos interesses eles defendiam. A organização das relações sociais deixava pouco espaço à contestação ou mesmo à discussão. Nessas comunidades, a solidariedade era a do constrangimento (forçada). A tomada de decisões sobre as questões essenciais da vida material escapavam aos membros da comunidade e os valores sobre os quais se fundava a coesão social eram os da submissão à autoridade. Tomemos como referência os textos astecas, que divulgavam as normas e os princípios que se consideravam guiar a vida da sociedade: “Sê amoroso, reconhecido, respeitoso, sê pleno de temor, olha com medo, sê submisso, faz o que deseja o coração da mãe, do pai, pois é o seu mérito, o seu dom; pois lhes é devido, o serviço, a submissão, a deferência. (…) Humilha-te, inclina-te, abaixa a cabeça, curva-te.[7]

No século IX, o Império Maia, vencido pelos Astecas, entra em decomposição. O autoritarismo que impregnava as relações sociais não desaparece no entanto, mesmo se o desmoronar do antigo sistema político permite uma maior autonomia às tribos e comunidades, sobretudo àquelas que viviam na periferia do império. Elas continuam a pagar tributo aos novos senhores, sempre respeitando as antigas regras da hierarquia. É esta nova situação que explica a resistência que as tribos maias irão opor aos conquistadores europeus. Sabe-se que os Espanhóis tiveram mais facilidade em “obter vitórias militares contra impérios “estruturados” que contra tribos não encerradas em formas estatais.” “Os habitantes de um império como o Inca estavam já habituados às “corveias” para o imperador, ou para os templos do Sol e da Lua. A transferência (do imperador para o “encomendero”), com certeza, não se efectuará pacificamente; mas foi possível recorrendo à violência. Já nas populações não enquadradas por um estado, livres, pelo contrário, a violência não foi suficiente: a guerra tornava-se um massacre e os sobreviventes eram escravizados.[8]” As tribos maias da periferia encontravam-se numa situação intermédia. “Ao contrário da potência asteca, não havia autoridade central que pudesse ser derrubada, arrastando a totalidade do império com ela. E ainda mais, que os Maias não faziam a guerra no sentido habitual do termo. Eram guerrilheiros da selva.[9]” Assim, e desde a Conquista, esta região vai adquirindo uma especificidade que iria determinar o seu lugar na formação da nação mexicana.

Estes povos indígenas, depois de terem sido sujeitados aos impérios burocráticos, e em seguida aos colonizadores europeus, foram triturados pela máquina capitalista. Muitos indígenas, depois de terem sido expulsos das terras comunitárias, tornaram-se proletários, submetidos à violência das relações mercantis do trabalho assalariado. Aqueles que se apresentam actualmente como os representantes em armas das comunidades indígenas não se esquecem nunca de reivindicar patrioticamente a sua fidelidade aos ideais da independência mexicana! No entanto sabe-se que esse foi um momento privilegiado da destruição das comunidades rurais indígenas, da transformação dos indígenas em camponeses pobres e em proletários sem terra. Quase um século mais tarde, durante a revolução mexicana, aqueles que constituíam o grosso do exército zapatista, eram originários do Estado de Morelos, “ praticamente o único estado do sul onde as relações de produção capitalistas dominavam em toda a parte.[10]” Se a sua associação às aspirações dum passado comunitário indígena lhes avivou a revolta, isso explica também a sua incapacidade de ir mais longe na sua emancipação. Estes camponeses estavam profundamente arraigados à terra e às tradições. Lutavam antes de mais pela restituição das terras comunitárias expropriadas e pelo direito ao seu lote individual. Para aqueles que procuram a verdade histórica para lá da lenda, parece que: “O movimento zapatista não é socialista, nem mesmo “progressista” no sentido de querer transformar de uma maneira revolucionária todo o México. (…) É apenas “revolucionário” na medida em que responde às aspirações dum passado comunitário indígena, (…) Ele não supõe nem propõe uma ruptura.” Ou, se se prefere: “O tradicionalismo do movimento zapatista é o que leva à sua solidão e ao seu isolamento e, sobretudo, às suas inconsequências, às suas ambiguidades e às suas contradições profundas. E esta originalidade permite-lhe sobreviver, e ao mesmo tempo legitima a sua incapacidade em desenvolver-se de maneira dinâmica, em se transformar e sair realmente do seu gueto regionalista.[11]” Aliás, é significativo que, na mesma época, o governo tenha conseguido a pacificação provisória dos Yaquis insurrectos, prometendo aos seus chefes a restituição das terras comunitárias e a construção de igrejas[12]… Terminada a revolução, a expansão do capitalismo acelerou a destruição das formas tradicionais da comunidade indígena integrando a maior parte dos seus membros na “comunidade do capital”.

Em Chiapas, o processo de modernização capitalista foi durante muito tempo refreado pelo poder dos proprietários fundiários que aí reinavam de maneira quase feudal. Numa região onde a revolução provocou poucos abalos, eles souberam tirar proveito do fechamento e do tradicionalismo das comunidades indígenas, mobilizando os seus próprios explorados contra o projecto oficial de reforma agrária e de libertação dos servos[13]. Esta resistência contra a burguesia central une exploradores e explorados, preservando as comunidades indígenas, em proveito dos grandes proprietários de Chiapas. A partir dos anos quarenta: “As montanhas áridas dos Altos de Chiapas, repartidas pela hipócrita reforma agrária de Cardenas, vão converter-se num perfeito reservatório de mão-de-obra para os latifúndios do Centro, da Fraylesca e do Soconusco, que dessa feita não mais têm necessidade de manter todas essas bocas fora das épocas das colheitas, já que elas sobrevivem pior ou melhor nas terras comunais[14]”. Pouco a pouco, muitas comunidades apenas sobreviverão graças ao trabalho assalariado dos indígenas empregados nas plantações de café[15]. Os valores ancestrais que restavam enraizados na miserável sobrevivência material das comunidades indígenas eram, no essencial, valores de submissão. O que convinha perfeitamente aos grandes proprietários. As comunidades cujas tradições democráticas e emancipatórias se mitificam actualmente têm sido, há décadas, a estrutura social alienando os explorados aos grandes proprietários. Só o desenvolvimento da condição proletária, o estilhaçar das formas comunitárias, irão desencadear as revoltas portadoras de elementos de emancipação social. A revolta de Chiapas é o último episódio da integração lenta e particular a que está sujeita esta região periférica no capitalismo mexicano.


[6] Ver J. Eric S. Thompson, Grandeur et décadence de la civilisation maya,, Bibliothèque historique Payot, Paris, 1993

[7] Témoignages de l’ancienne parole, p. 48, traduzido do asteca por Jacqueline de Durand-Forest, Paris, La Différence, 1995.

[8] Ruggiero Romano, Les mécanismes de la conquête coloniale : les conquistadores, p.46, Paris, Flammarion.

[9] Michael Coe, The Mayas, citado em O México Insurrecto, Fifth Estate, Detroit, Verão 1994 (tradução francesa)

[10] Americo Nunes, Les révolutions du Mexique, p. 151, Paris, Flammarion, 1975. Nesta brilhante crítica dos mitos progressistas da revolução mexicana, o autor mostra, em particular, que a palavra de ordem libertária ” Terra e Liberdade ” é falsamente atribuída ao movimento zapatista, quando na verdade era a divisa do Partido Liberal (anarquista) dos irmãos Magon. Ver também: Ricardo Flores Magon, La révolution mexicaine de , Paris, Spartacus, 1979.

[11] Ibid., p. 148 e p. 150.

[12] Fixada no Estado de Sorora (noroeste do México) a tribo dos Yakis revoltou-se em diversas ocasiões contra a expropriação das terras. Será por fim esmagada militarmente, em 1926.

[13] Ver a este respeito o interessante capítulo: ” O sangue, o jugo e a floresta “, Nicolas Arraitz, Tendre venin, Editions du Phéromone, Paris, 1995.

[14] Nicolas Arraitz, Ibid., p. 219.

[15] Antonio Garcia de Léon, ” Los motivos de Chiapas “, Etcetera, Barcelona, Novembro 1995.

22/03/2009

O imprevisto na história

por Charles Reeve

Desde as primeiras horas, os militares que organizaram e levaram a bom termo o golpe contra o antigo regime foram levados pelo desenrolar dos acontecimentos. Sob a pressão do movimento social foram forçados a inflectir os seus projectos iniciais em duas questões políticas essenciais: por um lado, a libertação dos presos políticos e neutralizar as forças repressivas especializadas, por outro, a resolução da questão colonial. Na ideia dos chefes “putschistas”, seria apenas necessário libertar os «políticos» das «organizações responsáveis», com quem se podia contar para voltar a pôr o Estado em funcionamento. A pressão popular obriga-os a libertar todos os presos, até os da extrema esquerda [1]. No que se refere à polícia política, a PIDE, os militares tinham de deixar a sua estrutura intacta, sobretudo nas colónias, onde desempenhava um papel essencial na guerra e no controlo das populações. Neste aspecto também não contaram com a raiva do povo contra estes esbirros fascistas, razão pela qual pouco faltou para que dela não surgisse um massacre, sendo o exército obrigado a protegê-los, prendendo-os. Na loucura, o corpo de polícia especializado na repressão de rua, foi igualmente dissolvido. Enfim, a exigência de paragem no envio de novas tropas para África e a vinda imediata do contingente lá existente precipitam a procura de uma solução política para a questão colonial.

Desde os primeiros dias, sucedem-se as manifestações a exigir o fim da guerra, motins impedem o embarque de tropas. Em África, os soldados revoltam-se, depõem as armas e exigem voltar para Portugal. No início de Junho de 1974, os dirigentes do partido comunista explicam que «o fim da guerra não será fácil». Mas, um mês depois, os chefes militares falam já da necessidade de transferir o poder para as organizações nacionalistas africanas que conduzem a luta armada nas colónias. O que será feito, um ano mais tarde. No espaço de pouco tempo, a mobilização popular contra a guerra impõe o fim do colonialismo, o que permanecerá um facto histórico marcante, irreversível, da «revolução dos cravos». A solução encontrada à pressa pelos políticos e pelo exército para o fim da guerra, as concessões feitas às organizações nacionalistas envolvidas na guerra de guerrilha, mas mal preparadas para assumir o novo poder do Estado pós-colonial foram fruto da aceleração da história pela intervenção do povo.

Quando a esquerda defende o «interesse geral» contra as greves

Passados os primeiros dias de festa popular nas ruas, a agitação desloca-se para os locais de trabalho, as fábricas, as administrações, os bancos, etc. O fim do antigo regime significa, antes de mais, a possibilidade de reunião e de livre discussão. Numa palavra, o fim do medo. Como consequência da natureza totalitária do regime, os trabalhadores assimilaram o autoritarismo fascista à arrogância patronal, à dureza das relações de trabalho e aos maus tratos dos assalariados.

O desaparecimento do medo conduziu imediatamente a uma contestação política da hierarquia nas empresas. As primeiras assembleias organizam-se e tentam-se as primeiras ocupações. Inquieta, a Junta Militar condena as greves e as reuniões, os ataques contra a hierarquia. Mas, uma vez mais, as ordens dos militares são ignoradas. Ao longo dos primeiros meses (Maio a Julho de 1974) o movimento vai alastrando até às concentrações industriais. Reclamam-se aumentos de salários, férias pagas, redução de horários de trabalho e o fim do trabalho à peça. Exige-se a expulsão dos espiões, dos chefezinhos, dos chefes de pessoal, muitas vezes associados à antiga polícia política. Por vezes, as reivindicações são pouco precisas e negociáveis, sinal de que qualquer coisa de profundo estava para nascer: um desejo de mudar a vida.

A agitação enche as ruas e nos bairros generaliza-se a ocupação de casas vazias, favorecida pela ausência da polícia e pela hesitação dos militares, neutralizados pelo entusiasmo popular. A burguesia tem medo. Num primeiro tempo, cola-se ao poder militar e ao primeiro governo provisório – com participação comunista e socialista [2] – que faz as primeiras concessões, instituui o Salário Mínimo. Estas medidas, ainda que só em parte, respondam às reivindicações e acalmam a situação. Mas os patrões começam a despedir e a fechar fábricas; outros, ligados ao antigo regime, fogem.

Em Julho de 1974 emerge um novo acesso de febre. As greves contra os despedimentos, são mais reivindicativas e mais militantes; nos correios, na indústria automóvel, nos estaleiros navais, na função pública, nos transportes e na imprensa. Nas primeiras greves, os militares intervinham como mediadores, estavam presentes como aliados dos trabalhadores face aos patrões. Tentavam amortecer os conflitos. A greve dos correios, em Julho de 1974, e sobretudo a greve dos técnicos de manutenção da companhia aérea TAP em Setembro de 1974, marcam um virar das relações entre os trabalhadores, os militares e a esquerda. O partido comunista lança uma campanha de calúnias, organiza manifestações de rua contra as greves.

Pela primeira vez após o 25 de Abril, os militares intervêm de forma repressiva nas empresas. À sua custa, os grevistas descobrem então que há limites que não podem ultrapassar. A mensagem é clara: é preciso ficar dentro dos limites do possível. E o possível é a reprodução do sistema de exploração num quadro democrático. Tentar ir para além disso é confrontar-se com a repressão. Em Junho, o exército democrático dispara sobre os detidos das prisões de Lisboa que se amotinaram para exigir uma amnistia alargada e, alguns dias mais tarde, esse exército coloca-se abertamente ao lado do Estado e dos patrões. A companhia aérea TAP é «militarizada» e os trabalhadores submetidos ao regulamento da disciplina militar. A hierarquia militar mostra os dentes. Os «cabeçilhas» são presos e interrogados, as fotos das manifestações são apanhadas para fins de identificação e o patrulhamento policial dos bairros de periferia recomeça; os soldados que recusem as ordens são presos. O partido comunista apoia: «Em nenhum país, mesmo os da velha democracia, se pode permitir apelos abertos à deserção e à agitação no seio do exército» [3]. Por sua vez, o partido comunista mostra-se decidido a opor-se ás greves em nome da táctica política da «União Povo Movimento das Forças Armadas» e do interesse nacional: «Nós vivemos em regime capitalista e não em regime socialista. As empresas têm proprietários. Não cabe aos trabalhadores decidir quem deve ou não trabalhar nas empresas» [4].

Em Agosto de 1974 a lei da greve é votada, reconhece-se o direito à greve, limitando contudo a sua aplicação, interditando em particular as greves políticas. O que tem alguma ironia numa sociedade paralisada há meses por greves políticas selvagens… Em simultâneo, uma feroz campanha anti-greve é lançada pelos comunistas: «Não à anarquia económica», «Não à greve pela greve», «Não às greves irresponsáveis». Cunhal repete incansavelmente que: «A greve geral leva ao caos» [5]. Consciente do descrédito que toca as antigas estruturas sindicais fascistas [6], o partido agarra a ocasião para criar um novo sindicato único [7], a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP).

A ideia prática da coordenação autónoma

O confronto com as novas forças do Estado, o exército e os partidos de esquerda, conduzem ao endurecimento das lutas e à sua politização. A repressão das greves produz um salto qualitativo no movimento social. Os sectores operários radicalizam-se. As reivindicações tornam-se explicitamente políticas, criticam a ideia do «interesse geral» – que a esquerda tenta impor como limite às suas lutas e os grevistas utilizam os meios das empresas para produzir folhetos e jornais. Num país com elevada taxa de analfabetismo esta abundância da imprensa política independente é um facto marcante. Uma vez mais, a radicalização de um poderoso afrontamento social une os campos de agitação, quebra separações, ultrapassa os muros das empresas. Os estalinistas portugueses mostram-se incapazes de fazer cessar a contestação nas empresas.

Às manipulações políticas, os trabalhadores opõem a auto-organização e a democracia de base. Passando além do quadro dos novos sindicatos, elegeram comissões de trabalhadores em assembleias gerais. Os delegados são controlados de perto, os comités são revogáveis e criados a qualquer instante e as comissões de trabalhadores organizam-se a nível local e depois nacional. O grande problema prático do momento é o da coordenação autónoma dos organismos de luta. Este passo, o movimento está prestes a dá-lo. Duas coordenações de comissões de trabalhadores aparecem então. A Comissão Inter-Empresas, dos distritos de Lisboa e Setúbel, tornar-se-á o polo da esquerda sindical e, mais tarde, das tendências do «poder popular». Mas a vontade dos militantes não podia preencher a passividade da colectividade dos explorados envolvidos. Além disso, dadas as condições espirituais do momento, estas formas vão ser, a pouco e pouco, preenchidas por conteúdos que são a negação do objectivo de autonomia procurada. Fortemente influenciadas pela presença de correntes maoistas e outras formações de vanguarda, elas transformaram-se em arenas de confrontos burocráticos, esvaziando-se progressivamente da participação da base operária. Apesar do carácter atrasado de Portugal e do seu isolamento, que impediram que um processo revolucionário se tenha desenvolvido até ao fim, estes centros de acção e de defesa autónomos foram uma das raras criações novas do movimento português, a expressão da sua mais forte radicalidade. A sua curta vida impediu que tivesses uma ressonância internacional.

No final de 1974 e início de 1975, oito meses após o “putsch”, a situação económica agravou-se bruscamente: as pequenas empresas fecham, o grande capital privado nacional exila-se e as multinacionais esperam. O País vive numa atmosfera de contestação geral, de confusão política. O poder do Estado fraccionou-se em vários centros. Para os trabalhadores militantes, dois campos polarizam as energias: o «dos realistas», que seguem as ordens dos sindicatos controlados pelo partido comunista e a corrente emergente do radicalismo revolucionário, representada por algumas comissões de trabalhadores, que se posiciona claramente á esquerda do partido comunista e contra ele. O sucesso da grande manifestação realizada em Lisboa no dia 7 de Fevereiro de 1975, organizada pela Comissão Inter-Empresas, contra os despedimentos e a pressão capitalista, a solidariedade manifestada no sentdido contrário pelos soldados que tinham enviados para proteger o Ministério do Trabalho (comunista) e a Embaixada Americana, provam as capacidades mobilizadoras da corrente radical [8]. Mais do que a importância alcançada pelos comunistas no aparelho de Estado, é a radicalização de uma agitação social generalizada o que mais inquieta a burguesia e os sectores políticos e militares, garantes dos interesses capitalistas e geopolíticos do bloco ocidental.

O partido comunista português, pela sua história, a sua capacidade de controlo e de mobilização do movimento grevista, ganhara um lugar na sociedade e nas instituições portuguesas. Mas, ao fazer isto, conseguiu também reforçar os partidos que estavam à sua esquerda. Por sua vez, o partido socialista, estreitamente ligado à social-democracia europeia, não tinha peso específico neste confronto e colocar-se sob a protecção da hierarquia militar. Com a tentativa do “putsch” em 11 de Março de 1975, as correntes conservadoras tentam alterar a tendência do momento. Mas, o envolvimento popular, o ódio contra o antigo regime permaneciam fortes e a resposta de rua varre as tendências mais direitistas, representadas pelo general Spínola. Este fracasso, e o consequente reforço das correntes à esquerda do partido comunista português, abrem a segunda fase da «revolução dos cravos», com a constituição de um governo de pendor Capitalista de Estado, próximo desse partido.

Contra a propriedade privada da terra

Até ao início de 1975, o proletariado agrícola dos latifúndios do Alentejo na metade sul do País ficou na expectativa, manifestando sempre o seu apoio político ao partido comunista. O primeiro governo provisório apressou-se, aliás, a legalizar os sindicatos de operários agrícolas, com fraca implantação no tempo do fascismo e, por outro lado, algumas convenções colectivas foram assinadas com os grandes proprietários.

Durante séculos, estes operários tinham lutado para sobreviver miseravelmente num sistema de trabalho sazonal. Na nova situação, apesar da pressão do governo e os discursos oficiais sobre a necessidade de uma Reforma Agrária, os grandes proprietários não demonstram qualquer intenção de mudar de atitude. Mesmo as poucas convenções colectivas assinadas com os sindicatos não são aplicadas e, de Novembro de 1974 a Março de 1975, como habitualmente, os trabalhadores agrícolas encontram-se sem trabalho e sem meios para sobreviver. Num primeiro tempo, o descontentamento exprime-se por acções directas: incêndio de colheitas e de bens pertencentes aos latifundiários. Por vezes os grandes proprietários são alvo de atentados [9]. No início de 1975 emergem as primeiras ocupações de propriedades baseadas num movimento espontâneo que se faz para além de qualquer palavra de ordem do partido comunista, muitas vezes mesmo sem a participação dos raros quadros sindicais locais. Embora os trabalhadores agrícolas apelem ao exército para garantir as suas acções, eles agem, contudo, fora de qualquer plano político e não se agarram nada à ideia de partilhar os latifúndios para criar retalhos de terra privada. Ao contrário, eles limitam-se a organizar colectivamente o trabalho e a produção para viverem.

Dois acontecimentos que simbolizam uma mudança nas relações das forças políticas a nível nacional vão acelerar o movimento de ocupação de propriedades: o sucesso, em Fevereiro de 1975, da grande manifestação da extrema esquerda operária em Lisboa, e, um mês depois, o fracasso da tentativa do “putsch” conservador. Durante os primeiros seis meses de 1975, o forte movimento de ocupações alarga-se a toda a metade sul do País, com excepção do Algarve, região de pequena propriedade. Se ele não toma uma forma explicitamente política, de contestação anticapitalista, o objectivo deste proletariado rural era claramente no sentido de alterar as condições de propriedade existentes, ficando assim com meios de vida. Para fazer isso eles expropriam colectivamente a propriedade privada da terra. Em várias regiões do Alentejo em outras regiões criam-se cooperativas, mas, em geral, os ocupantes não têm uma ideia precisa da nova forma de propriedade que colocam em prática.

Só ao longo do Verão de 1975 é que os sindicatos agrícolas e o partido comunista são capazes de retomar o controlo do movimento. Em Julho de 1975, o Estado ajuda-o legalizando o movimento. A «Lei da expropriação das terras» transforma um movimento de ocupações selvagens e de gestão colectiva das terras numa Reforma Agrária oficial. Transformação que foi facilitada pelo espírito colectivista dos trabalhadores agrícolas, os quais não tinham sequer procurado dividir as propriedades. A partir deste momento, o partido comunista e os militares preocupam-se em conter o que eles chamam de «ocupações selvagens, oportunistas e mesmo anti-revolucionárias». Porque, no conjunto das propriedades ocupadas, um bom quarto delas encontra-se fora do campo de aplicação da nova lei… Para o partido comunista a Reforma Agrária foi sempre concebida como uma acção do Estado, organizada do topo para a base. O parido comunista português apresentará sempre a Reforma Agrária como um aspecto essencial do seu projecto de socialismo de Estado, cujo fim era a reorganização da produção agrícola e o aumento da produtividade. As propriedades ocupadas, enquanto cooperativas tornam-se Unidades Colectivas de Produção (UCP), empregando, em finais de 1977, mais de 70 000 assalariados, geridas por quadros comunistas segundo critérios de rentabilidade, ligadas financeiramente ao Estado.

O partido comunista português toma, assim, o controle económico e político desta região agrícola, que representa metade do país. Mas, enquanto que o proletariado agrícola continua a ver a Reforma Agrária como uma garantia de vida, o aumento da produtividade e dos rendimentos agrícolas programados pelos comunistas são impossíveis de realizar. Os trabalhadores agrícolas aceitaram sem ressentimento a nacionalização das terras ocupadas, mas isso não implicava sujeitarem-se a critérios de rentabilidade capitalista. Os quadros comunistas não estão em posição de exigir um aumento da produtividade do trabalho através de uma redução da força de trabalho [10]. Daí o fraco rendimento das Unidades Colectivas de Produção e um endividamento face ao Estado e aos Bancos.

O Estado contra o «poder popular»

A institucionalização da Reforma Agrária não foi um caso isolado. De Março a Agosto de 1975, o governo pró-comunista do general Vasco Gonçalves, que conduzia uma política dirigista de intervenção na economia conforme a ideia do socialismo de Estado do partido tenta normalizar a situação social. Com este objectivo, desenvolve uma vasta reforma do quadro jurídico, regulamentando quase tudo, reprime movimentos, acções ou iniciativas independentes, procura, aliás, um acordo com as forças políticas da direita, em particular com a igreja católica. O processo de nacionalização das empresas é acelerado sob a pressão do partido comunista, que encontra ali um meio de reforçar a sua implantação no Estado, dando, assim, resposta às inquietações populares face ao desemprego. Devido aos financiamentos, e como havia feito com a Reforma Agrária, o Estado retoma o controlo das experiências de «autogestão» na indústria. Com efeito, depois do verão de 1974, inúmeras fábricas abandonadas pelos patrões são ocupadas e uma rede de empresas em «autogestão» é criada, sobretudo, no têxtil. Estas empresas continuavam a funcionar segundo as leis do mercado, não obstante terem havido tentativas para instaurar uma maior igualdade de salários e rotatividade de tarefas e pôr em questão a hierarquia. Finalmente, as trabalhadoras e os trabalhadores limitavam-se a vender directamente ao público as mercadorias produzidas e não encontravam salvação senão graças a trabalho a mais e ao endividamento junto do Estado. Para além de uma experiência de autogoverno de empresa, não houve ali qualquer ruptura com a lógica capitalista e a «autogestão» que foi realizada transformou-se rapidamente em auto-exploração.

A atitude arrogante do partido comunista no aparelho de Estado e nos sindicatos; as suas campanhas produtivistas de puro estilo estalinista [11] e a sua oposição aos movimentos grevistas autónomos, coloca contra si os trabalhadores mais combativos. A corrente dita de «poder popular» apresenta-se como uma alternativa autónoma. Mesmo que fosse, maioritariamente, dominada pelas concepções vanguardistas do maoismo, ela exprimia, também, ideias vagas de socialismo não autoritário e salientava a importância das organizações de base e dos laços horizontais entre elas. Ela construiu-se nas zonas urbanas de Lisboa e do Porto, em torno de algumas comissões de trabalhadores, das comissões de moradores de bairros pobres e dos comités de soldados, os SUV (Soldados Unidos Vencerão), aparecidos no Verão de 1975. É neste momento que o Partido efectua uma viragem esquerdista, ao procurar aliar-se com a extrema esquerda, aproxima-se das organizações do «poder popular». O partido comunista português era, então, o alvo das forças reaccionárias que, no Norte e Centro do País, atacavam violentamente as suas sedes e militantes, indo por vezes até ao assassinato. Se bem que, antes, os comunistas tivessem perseguido os militantes da extrema esquerda, viam-se, agora, obrigados a defender-se em conjunto. Mas esta táctica durou pouco. O partido comunista português reconsidera, deixando a extrema esquerda militar e os que a sustinham isolados face ao exército que preparava o contra-golpe militar de 25 de Novembro de 1975. O esmagamento das correntes esquerdistas pelo exército só pode confortar os comunistas. Uma vez bem sucedido o golpe, os dirigentes do partido comunista português não esconderão: «A derrota da esquerda militar cria novas condições para a unidade das forças interessadas na defesa das liberdades, da democracia e da revolução» [12]. Com esta recentragem de último instante, o partido negociou a sua continuação política no interior do quadro institucional que se consolidava.

A ausência do «duplo poder»

Os limites do movimento social residiam no seu isolamento dentro de uma Europa, fortaleza capitalista, que seguia atentamente os acontecimentos. O maior receio vinha de um possível contágio na Espanha vizinha. Não foi nada disso. A transição do regime franquista para uma democracia parlamentar prosseguiu sem muito perigo para as forças do capitalismo privado. Por outro lado, o projecto de um mini-socialismo de Estado «lusitano» não podia encontrar o mínimo apoio num bloco soviético, na época já bem enterrado na crise [13].

Quando um movimento social de grande amplitude se desenvolve no quadro de um enfraquecimento do poder do Estado, a questão do duplo poder coloca-se inevitavelmente. Em Portugal, após a queda do antigo regime, os diferentes centros do Estado, as administrações locais, os órgãos repressivos, parecem atacados de paralisia. Mas estas instituições não foram desmanteladas, com excepção de alguns serviços, muito conotados com o antigo regime e afinal supérfluos para a democracia parlamentar. O poder político tinha rebentado, estava fraccionado em vários centros, por vezes, em conflito uns com os outros. Mas nunca o poder esteve vazio [14]. Jamais houve duplo poder. O exército a sua estrutura golpista baseada no Movimento das Forças Armadas assegurou, ao longo deste período confuso, a continuidade do Estado. As forças políticas de esquerda, o partido comunista e o partido socialista, foram admitidos no aparelho de Estado a fim de assegurar a transição para um quadro democrático parlamentar. Para levar esta tarefa a bom termo, a esquerda governou constantemente, invocando os perigos de «esquerdismo», de «extremismo» dos «provocadores», dos «aventureiros»; e sobretudo a ameaça de um retorno ao fascismo.

Os trabalhadores, na sua grande maioria, como se descobrissem o seu poder colectivo, viram no MFA “putschista” e na esquerda, os garantes dos seus interesses imediatos. As organizações do «poder popular», sempre que se viram afrontadas pelo partido comunista português e pelo Estado, procuraram apoio numa das fracções do MFA. As tentativas de coordenação dos organismos autónomos tiveram vida curta. Como se cada um esperasse que das lutas no interior do MFA saísse a solução do combate decisivo. Em suma, ou se respeitava as instituições legitimadas pelos partidos de esquerda, ou se respeitava a facção de esquerda do MFA.

O fracasso do projecto esquerdista e a vitória sem futuro

Para a extrema esquerda, o golpe militar de 25 de Novembro de 1975, será o ponto de partida de um deslizar rápido para a decomposição. Durante dois anos, a totalidade das correntes marxistas-leninistas tinham defendido a ideia segundo a qual a instituição militar poderia, graças à capacidade de acção dos seus militantes, transformar-se num exército popular. Um tal activismo escondia a fraqueza da acção autónoma, o esgotamento da vontade e da iniciativa de luta, da imaginação subversiva. Fosse o que fosse, o certo é que investimento das energias militantes neste projecto se revelou suicida. A defesa destas concepções implicava necessariamente a submissão aos princípios da política tradicional: delegação de poder, centralização das decisões e do comando. Era bem a lógica bolchevista clássica que privilegiava a tomada do poder no Estado contra o desenvolvimento das estruturas horizontais dos conselhos, comités e outras organizações de base dos operários. A importância dada aos diversos centros de poder militar, incluindo os colonizados pela extrema-esquerda, legitimou finalmente e tão-só a confiança no Estado. Apenas a pequena corrente libertária se distanciou do projecto estatista, mas as suas críticas tinham pouco peso face ao cilindro compressor marxista-leninista e encontraram pouco eco na sociedade [15].

A derrota do esquerdismo em Portugal teve um significado que ultrapassou as fronteiras do pequeno país que é Portugal. Quebrou com toda uma concepção de revolução partilhada por toda a extrema esquerda ocidental. Aqui, pela última vez no século XX, o esquema vanguardista tinha parecido plausível, possível. Após 1968, os estados maiores da extrema-esquerda tinham decretado o necessário voltar aos valores seguros do partido detentor da verdade revolucionária. O desfecho da «revolução dos cravos» dará um golpe fatal nestas concepções. Esta falência da concepção “putschista” da revolução social irá acelerar, por todo o lado, a decomposição das correntes esquerdistas activas nos anos 70 do século XX. Com alguns anos de avanço, o desfecho português, anunciava a mote do comunismo ortodoxo, do qual o esquerdismo leninista procurou demarcar-se, mas que permanecia como a sua referência principal. A posteriori, o fracasso do projecto bolchevique confirmou as críticas anti-autoritárias de Maio de 68.

Aqui chegados, importa separar o que, ao longo destes dois anos, foi o produto das práticas rígidas de vanguardismo e o que foi o fruto da acção autónoma das lutas, das experiências de auto-governo. As acções directas, as ocupações de fábricas, a coordenação de órgãos autónomos, as expropriações de terras e de habitações, as tentativas de gestão colectiva da produção e troca de bens, a liberdade de expressão e do pensamento crítico, tudo isto liga a «revolução dos cravos» às correntes modernas de emancipação social. Procurando respostas para os problemas do momento, os mais combativos viram-se confrontados com a lógica do partido comunista e descobriram a necessidade de dar um novo conteúdo à ideia de socialismo. O novo conceito nascido ao longo deste movimento: Apartidário, simboliza bem o que tinha de potencialmente subversivo este movimento.

Estes primeiros passos de emancipação social estão hoje completamente apagados da história oficial e da memória colectiva. E no entanto, eles são os únicos elementos universais de futuro gerados ao longo destes anos turbulentos. Só por isso, pode esperar-se que a emancipação humana tenha uma “chance” no planeta Terra.

A vitória da «transição democrática» abre o caminho da modernidade capitalista para uma sociedade que, sob a longa noite do salazarismo, tinha acumulado arcaísmos e atrasos. Dito de outra forma, foi o caminho para parte nenhuma! A classe dirigente portuguesa vai poder restaurar a sua violência, desta vez de forma democrática, as condições de uma exploração moderna do trabalho são possíveis e Portugal integra o processo de construção do espaço europeu. Mas esta integração parece também fechar um longo ciclo histórico, evolução que havia sido pressentida por alguns dos primeiros socialistas portugueses no fim do século XIX: a da “decadência dos povos peninsulares”. O quotidiano do cinzento e a náusea da política insignificante – com o seu cortejo de mediocridades, corrupções, infâmias e oportunismos -, a alienação do espectáculo moral ou desportivo, mascaram afinal a crise do pequeno Estado-Nação, privado, para além das condições geopolíticas e económicas, da sua evolução histórica.

Claro que tudo isto estava longe de ser evidente na época. No momento, em que a história era feita pelos próprios interessados, ela era percebida como uma variedade de possíveis, de probabilidades e de projectos. Anos-luz parecem separar os combates desses anos das preocupações de hoje. E, no entanto, os dados da actual crise cultural, social e política já lá estavam contidos, no essencial.

Publicado em Utopia – Revista Anarquista de Cultura e Intervenção.

[1] Nenhum preso de «direito comum» foi libertado, ainda que o fim do fascismo tenha sido saudado com entusiasmo nas prisões.

[2] Desde o primeiro governo provisório que o partido comunista tem a seu cargo o Ministério do Trabalho.

[3] Entrevista de um chefe do partido comunista, Expresso, 22 de Junho de 1974.

[4] Declaração de um dirigente do partido comunista (colocado na direcção dos transportes públicos de Lisboa), 5 de Dezembro 1974.

[5] Álvaro cunhal, 25 de Maio 1974.

[6] Durante os últimos anos do regime fascista o partido comunista infiltrou-se nos sindicatos oficiais. Esta táctica demonstrou-se pouco rentável, quer por causa da repressão do Estado, quer da desconfiança dos trabalhadores face a estas organizações.

[7] Na sequência a CGTP, posteriormente, encontrou-se em concorrência com um sindicato que obedece à social-democracia, a União Geral dos Trabalhadores (UGT).

[8] Esta manifestação tratada como provocação pelo partido comunista português teve lugar enquanto ancorava no rio Tejo uma armada da NATO.

[9] O caso mais conhecido é o assassinato, em Castro Verde (baixo Alentejo), de um gordo proprietário fascista. José Diogo, um trabalhador agrícola, é preso e acusado desse assassínio Será julgado e condenado mais tarde, uma vez passada a febre revolucionária.

[10] As UCP vão assalariar praticamente todo o proletariado da região. As propriedades que empregavam, antes da ocupação, 20 000 trabalhadores , têm 70 000 em 1976 e a produção por trabalhador cai para metade entre estes dois períodos. Ver F. Baptista, «Economia das UCP», Economia e Socialismo, Lisboa, Agosto-Setembro 1978.

[11] Por iniciativa do partido comunista portguês, o governo organizou em 1974-75, várias «campanhas patrióticas de trabalho voluntário pela Nação» que foram, bem entendido, fracassos. Este partido lança também campanhas através de temas evocativos: «Esforço nacional para salvar a economia», «Trabalhemos mais e melhor», «Mais trabalho, é mais riqueza a distribuir com justiça», ou, ainda, «A batalha da produção».

[12] Álvaro Cunhal, Lisboa, 8 de Dezembro de 1975.

[13] Na Conferência para o desarmamento, de Helsínquia, em 1975, os dirigentes russos fizeram-no claramente entender aos portugueses.

[14] Logo após a sua rendição aos militares “putschistas”, o antigo primeiro ministro Marcelo Caetano desejou que o poder não caísse «na rua».

[15] O desenvolvimento da autonomia operária e experiências de auto-governo das lutas, são defendidas pelo jornal Combate (sem relação com o actual órgão do Partido Socialista Revolucionário, trotskista). O jornal anarco-sindicalista A Batalha defende igualmente estas práticas.

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