de Il Pugnale
A política é a arte do controlo. Para que a actividade humana não se liberte dos grilhões do dever e do trabalho revelando-se em todo o seu potencial. Para que os trabalhadores não se encontrem como indivíduos e cessem de se deixar explorar. Para que os estudantes não decidam destruir as escolas para que possam escolher como, quando e o que aprender. Para que os familiares não se apaixonem e deixem de ser pequenos servidores de um pequeno estado. Para que as crianças não sejam outra coisa que cópias imperfeitas dos adultos. Para que a distinção entre (anarquistas) bons e (anarquistas) maus não seja apagada. Para que não sejam os indivíduos os que se relacionem mas sim as mercadorias. Para que não se desobedeça à autoridade. Para que, se alguém atacar a estrutura da exploração do estado, outros se apressem a dizer, “isto não é obra de camaradas”. Para que os bancos, os tribunais e os quartéis não vão pelos ares. Em suma, para que a vida não se manifeste.
A política é a arte da recuperação. A maneira mais eficaz de desencorajar qualquer rebelião, qualquer desejo de uma mudança real, é apresentar um homem de estado como subversivo, ou melhor ainda, transformar um subversivo num homem de estado. Nem todos os homens de estado são pagos pelo governo. Há funcionários que não se encontram no parlamento nem sequer nas divisões adjacentes. Antes, frequentam os centros sociais e conhecem razoavelmente as principais teses revolucionárias. Dissertam sobre o potencial libertador da tecnologia; teorizam sobre esferas públicas não-estatais e sobre a superação do sujeito. A realidade — sabem-no bem — é sempre mais complexa do que qualquer acção. Assim, se aspiram a uma teoria total é apenas para a esquecer totalmente na vida quotidiana. O poder precisa deles porque — como eles próprios nos explicam — quando ninguém o critica, o próprio poder se critica a si mesmo.
A política é a arte da repressão. De qualquer um que não separa os momentos da sua vida e quer mudar as condições existentes a partir da totalidade dos seus desejos. De qualquer um que queira incendiar a passividade, a contemplação e a delegação. Daqueles que não se deixam suplantar por qualquer organização ou imobilizar por qualquer programa. De qualquer um que queira relações directas entre os indivíduos e faça da diferença o próprio espaço da igualdade. De qualquer um que não tenha nenhum nós sobre o qual jurar. De qualquer um que perturbe a ordem da espera pois quer insurgir-se imediatamente, e não amanhã ou depois de amanhã. De qualquer um que se dê sem contrapartidas e se esqueça de si por excesso. De qualquer um que defenda os próprios camaradas com amor e determinação. De qualquer um que ofereça aos recuperadores uma só possibilidade: a de desaparecerem. De qualquer um que recuse tomar lugar nas inúmeras hostes de espertalhões e anestesiados. De qualquer um que não queira nem governar nem controlar. De qualquer um que queira transformar o futuro numa fascinante aventura.

