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23/02/2010

O bombardeamento da população civil na Europa pelos Aliados durante a segunda guerra mundial

Os Aliados preferiram bombardear o operariado alemão e austríaco, cujas simpatias comunistas e sociais-democratas eram bem conhecidas, do que aceitar a sua ajuda para combater o nazismo. Por João Bernardo

Cremando os mortos en Dresden bombardeadaCremando mortos em Dresden bombardeada

Os responsáveis da aviação aliada procuraram deliberadamente provocar vítimas entre a população civil. «Em Fevereiro de 1942», escreveu alguém que viveu estes acontecimentos, «o marechal do ar Arthur Harris recebeu o comando dos bombardeiros da RAF [Royal Air Force, força aérea britânica] com instruções do Gabinete de Guerra para desencadear uma ofensiva sistemática contra as cidades alemãs “tendo como alvo principal o moral da população civil e especialmente dos operários da indústria”» [1]. O mesmo sucedeu na Itália, onde os bombardeamentos aéreos procuraram sobretudo arrasar os bairros operários das principais cidades para minar o espírito de resistência dos habitantes [2]. E em Janeiro de 1943 a conferência anglo-americana de Casablanca decidiu lançar uma grande ofensiva aérea contra o Reich com o propósito de, segundo a directiva emanada dos estados-maiores, «destruir e desarticular progressivamente o sistema militar, industrial e económico alemão e minar o moral da população alemã até que esteja fatalmente comprometida a sua capacidade de resistência armada» [3]. Segundo os planos dos Aliados, os bombardeamentos aéreos previstos para 1943 e 1944 deveriam deixar sem abrigo três quartos da população urbana do Reich e fariam novecentos mil mortos e um milhão de feridos graves [4]. Tanto esta táctica como as expressões usadas se inspiraram nos bombardeamentos efectuados pela aviação nacionalista sobre a Madrid republicana em Outubro e Novembro de 1936, que deixaram alguns milhares de mortos e uma cidade em chamas. Também o chefe da aviação de Franco indicara a sua intenção de «desmoralizar a população através de bombardeamentos aéreos» [5]. As democracias tinham aprendido na boa escola, embora neste caso as ambições mortíferas do Aliados se revelassem talvez superiores às suas possibilidades [6].

Hamburgo bombardeadaHamburgo bombardeada

Inicialmente as dificuldades sentidas pela RAF de efectuar voos diurnos sobre o Reich e a incapacidade de atingir os alvos com exactidão durante a noite poderiam explicar a preferência pelo bombardeamento global de áreas administrativas e industriais, o que era mais proveitoso do que tentar em vão arrasar objectivos precisos, mas provocava inevitavelmente o morticínio da população civil. Este sistema foi introduzido no final de 1940 e passou a ser adoptado com regularidade desde os meados do ano seguinte. De então em diante, todavia, novos instrumentos, novos aviões e novas técnicas de combate permitiram que os Aliados começassem a proceder sistematicamente a operações durante o dia e que, mesmo de noite, atingissem os alvos com grande precisão [7]. Poderia imaginar-se que a partir daí os estrategas dessem a prioridade aos objectivos industriais, e com efeito é isto que se lê na directiva emanada em Junho de 1943 do comité conjunto dos chefes de estado-maior anglo-americanos, confirmada dois meses depois pelo presidente dos Estados Unidos e pelo primeiro-ministro britânico na conferência de Québec [8]. Mas foi o contrário que sucedeu. Apesar destas duas directivas a aviação aliada não deixou de se mostrar interessada pelo bombardeamento global de áreas e pelo massacre de civis, e logo em Julho e Agosto desse ano os bombardeamentos de Hamburgo visaram principalmente os habitantes e fizeram quarenta e cinco mil mortos [9]. Mais tarde, nos últimos meses da guerra, a capacidade de concentrar poder destrutivo em alvos circunscritos, que serviu aos Aliados para atingir estabelecimentos fabris, foi usada igualmente para devastar os centros urbanos com uma eficácia sem precedentes e para chacinar a população civil em números sempre mais elevados [10]. E embora em Setembro de 1944 o comité conjunto dos chefes de estado-maior insistisse que os bombardeiros procurassem instalações industriais, chegou-se afinal ao resultado prático oposto [11]. Em Janeiro de 1945 o Ministério da Aviação britânico concebeu um novo plano de destruição sistemática dos maiores centros populacionais do Reich, executado nos meses seguintes pelas forças aéreas conjuntas no âmbito do supremo comando aliado, com o objectivo suplementar de agravar o caos económico perturbando os fluxos de refugiados e interrompendo o abastecimento alimentar [12]. Quando a guerra terminou estavam reduzidas a escombros todas as grandes cidades alemãs, com um custo em vidas de civis calculado entre setecentos e cinquenta mil e um milhão [13]. O mesmo sucedeu no resto da Europa ocupada pelos nazis. Em França a aviação aliada foi responsável pela morte de um número de civis superior ao provocado entre a população civil britânica pelos ataques da Luftwaffe [força aérea do Reich] [14]. E durante o período de vigência da República Social Italiana [o reduto de Mussolini no norte da Itália sob a tutela directa das tropas germânicas] mais de cinquenta mil civis pereceram nos centros urbanos do norte da Itália sob os bombardeamentos aéreos aliados [15].

Caen, cidade francesa, bombardeada pelos AliadosCaen, cidade francesa, bombardeada pelos Aliados

Estavam aqui em disputa duas estratégias. Ou os Aliados bombardeavam a população operária dos países submetidos ao fascismo ou procuravam ampliar e fortalecer as suas redes de contactos com a resistência operária antifascista, e uma opção excluía a outra [16]. Esta alternativa fica muito clara quando vemos o marechal do ar Harris opor-se sistematicamente aos pedidos do SOE [Special Operations Executive, um organismo secreto britânico de carácter militar, criado para prosseguir acções de sabotagem e de apoio à resistência] para que fosse reforçado o auxílio à resistência [17] e no Inverno de 1943-1944 eram apenas vinte e três os aviões disponibilizados por Harris para transportar agentes de ligação e armas destinadas aos resistentes no noroeste do continente [18]. Só a partir do final de Janeiro de 1944, por pressão directa de Churchill e também graças à intervenção da aviação norte-americana, se intensificou o apoio aéreo à resistência francesa [19]. No que dizia respeito ao Reich, todavia, a estratégia manteve-se invariável e os Aliados preferiram bombardear o operariado alemão e austríaco, cujas simpatias comunistas e sociais-democratas eram bem conhecidas, do que aceitar a sua ajuda para combater o nazismo [20]. Mesmo a mão-de-obra estrangeira enviada para o Reich como escravos ou no âmbito do serviço de trabalho obrigatório não foi aproveitada para a actividade clandestina do SOE [21], e esta omissão foi o reverso da política do Gabinete de Guerra britânico, que optou por lançar bombas sobre os bairros operários da Itália e da França ocupada.

Nuremberga bombardeadaNuremberga bombardeada

E assim, entre o começo de 1943 e o final de 1944, enquanto os aviões dos Aliados chacinavam metodicamente a população civil, a produção de armamentos do Reich aumentou duas vezes e meia [22]. Nas suas memórias, Albert Speer, que depois de ter sido o arquitecto particular de Hitler e um dos seus mais próximos colaboradores foi nomeado, no início de 1942, ministro encarregado de supervisionar o esforço de guerra da indústria germânica, fingiu um espanto ingénuo perante o facto de a aviação aliada não ter alvejado com afinco as principais instalações industriais, o que teria impedido a produção de material de guerra e antecipado o final do conflito. Por exemplo, o bombardeamento aéreo das grandes fábricas de rolamentos de esferas iniciou-se em Agosto de 1943, mas foi prosseguido de maneira dispersa e não se renovou com regularidade, recomeçando em Fevereiro do ano seguinte para ser novamente suspenso em Abril. «Pela sua falta de persistência», escreveu Speer, «os Aliados deixavam uma vez mais escapar-lhes o êxito. Se tivessem continuado com a mesma tenacidade os bombardeamentos de Maio e de Abril depressa teríamos chegado ao limite dos nossos recursos». Ninguém era mais competente do que ele para afirmar que quatro meses de ataques simultâneos dirigidos contra todas as fábricas de rolamentos de esferas e renovados sistematicamente deixariam a produção de armamento do Reich completamente paralisada [23]. O mesmo tipo de situações repetiu-se em relação a outros ramos da economia [24] e Speer observou que «o inimigo teria sem dúvida tido mais oportunidades de realizar a sua esperança de concluir a guerra durante o Inverno de 1944-1945 se tivesse aniquilado a nossa indústria química» [25]. Mas para alguém com o seu passado e saído da prisão há poucos anos, referir este assunto era como pisar ovos. Decerto ele se apercebeu de que não eram convincentes as hipóteses que propunha para explicar a estratégia dos Aliados e que se resumiam em admitir que os seus estados-maiores estivessem mal informados [26]. Ao mesmo tempo que apresentava esta versão no corpo do texto, nas notas Speer insinuava algo muito diferente, mostrando como o marechal Harris, comandante-chefe dos bombardeiros britânicos, se opôs tenazmente ao seu próprio director de operações, que pretendia prosseguir a destruição sistemática das fábricas de rolamentos de esferas, o que o marechal conseguiu a todo o custo evitar [27], preferindo alvos civis. Era suspensa a devastação de instalações industriais indispensáveis ao esforço de guerra nazi para se lançarem terríveis ataques aéreos que chacinavam os habitantes dos grandes centros urbanos do Reich [28]. O mesmo princípio vigorou para o resto da Europa ocupada pelos nazis. Em Julho de 1943, por exemplo, a aviação britânica atacou Sochaux, no leste da França, onde a fábrica Peugeot produzia componentes de tanques de guerra. Houve um grande número de vítimas civis, mas o único estrago nas instalações fabris foram os vidros das janelas partidos pela explosões [29].

Um sobrevivente passeando em HamburgoUm sobrevivente passeando em Hamburgo

Um especialista da economia alemã do imediato pós-guerra descreveu com lógica rigorosa as consequências desta estratégia, considerando que «é um facto de importância capital, e que domina toda a economia alemã de hoje, que os bombardeamentos tivessem sido muito mais sensíveis sobre as cidades e os nós de comunicação do que sobre as forças produtivas». Ao analisar em seguida os diferentes graus de violência com que foram visados os vários ramos da indústria, este autor concluiu que «a indústria pesada, base essencial da indústria de guerra, saía do conflito menos atingida do que qualquer outra», e prosseguiu: «Esta situação das estruturas de produção, que foram relativamente poupadas, contrastava com as destruições muito mais graves dos meios de comunicação. […] Mas nenhuma ruína se comparava às das grandes cidades». As destruições de imóveis em Hamburgo, por exemplo, foram superiores às verificadas em toda a Grã-Bretanha, e não foi sequer essa a cidade que mais sofreu. «Os elos resultantes de interesses económicos ou financeiros passando por cima das fronteiras […] foram em alguns casos um factor de protecção, de que as imensas instalações da I. G. Farben, poupadas no meio das ruínas, oferecem em Frankfurt um exemplo ostensivo», escreveu aquele economista. «No mesmo sentido pôde exercer efeitos o desejo de proteger certas empresas na vanguarda do progresso técnico. Senão, como explicar, para citar apenas este exemplo, que a fábrica do Wiedia (aço especial, duro como o diamante “wie Diamant”), um dos motivos de orgulho da técnica alemã, tivesse sido a única intacta das fábricas Krupp em Essen, a duzentos metros de um campo de ruínas?». Recorrendo ao conveniente estilo retórico – «Como explicar esta fúria desencadeada sobre as cidades, mais do que sobre as fábricas?» – aquele autor encerrou o balanço com o cinismo de que os verdadeiros académicos são mestres: «viu-se que era sobretudo eficaz, para atingir uma indústria, visar o pessoal de preferência ao material» [30]. Escrevendo quase meio século depois, não foram diferentes as conclusões a que chegou outro especialista. «Os bombardeiros de longo alcance da RAF foram usados contra alvos civis e apagaram assim a distinção entre combatentes e não combatentes, colocando os operários fabris numa situação de perigo tão mortal como aquela a que se expunham as tropas de infantaria» [31].

Não posso senão pasmar perante uma tão sábia divisão do trabalho. Enquanto davam aos nazis toda a latitude para massacrarem os judeus e o «bolchevismo judaico», os Aliados iam chacinando a população operária na Europa submetida aos nazis. Como poderiam alguma vez as democracias combater os fundamentos do Terceiro Reich?

Nota do Passa Palavra

Aproveitando as lacunas da historiografia comum sobre a acção dos Aliados na segunda guerra mundial, os movimentos neonazis têm tentado instrumentalizar para a sua causa o bombardeamento de Dresden, realizando todos os anos manifestações de «desagravo» naquela cidade. Mas desta vez foram impedidos de desfilar por uma grande mobilização de partidos e grupos da esquerda alemã. Veja o vídeo Dresden (Alemanha): neonazis impedidos de desfilar.

Notas

[1] G. Vassiltchikov (org. 1991) 71. Ver também A. Calder (1991) 39. Em 1 de Maio de 1944, o judeu alemão Victor Klemperer registou no seu diário: «Enquanto meio de pressão sobre o moral, a ofensiva aérea é um fracasso». Ver M. Chalmers (org. 2006) 361. Note-se que em 1939 e em 1940, durante a drôle de guerre, a aviação britânica não lançara bombas, mas panfletos, sobre as cidades do Reich, como indica Angus Calder em op. cit., 21.

[2] R. Overy, «Strategic Air Offensives, 2. Against Europe outside Germany», em I. C. B. Dear et al. (orgs. 1995) 1073.

[3] Citada em «Combined Bomber Offensive», em id., ibid., 253.

[4] A. Calder (1991) 39.

[5] General Alfredo Kindélan citado em P. Broué et al. (1961) 229.

[6] A. Calder (1991) 39.

[7] A. N. Frankland, «Strategic Air Offensives, 1. Against Germany», em I. C. B. Dear et al. (orgs. 1995) 1071-1073; D. Richards, «Air Power», em id., ibid., 19-20.

[8] «Combined Bomber Offensive», em id., ibid., 253.

[9] «Hamburg Air Offensive», em id., ibid., 523. A. Calder (1991) 40 considerou que talvez tivesse havido cinquenta mil mortos e quarenta mil feridos.

[10] A. N. Frankland, «Strategic Air Offensives, 1. Against Germany», em I. C. B. Dear et al. (orgs. 1995) 1073.

[11] «Portal, Marshal of the Royal Air Force Sir Charles», em id., ibid., 910.

[12] Ch. Messenger, «Dresden, Raid on», em id., ibid., 311-312.

[13] A. N. Frankland, «Strategic Air Offensives, 1. Against Germany», em id., ibid., 1073. Por seu lado, G. Vassiltchikov (org. 1991) 71 mencionou cerca de seiscentas mil vítimas civis.

[14] J. Galtier-Boissière et al. (1949) V 374-375; R. Overy, «Strategic Air Offensives, 2. Against Europe outside Germany», em I. C. B. Dear et al. (orgs. 1995) 1076; R. O. Paxton (1973) 230, 289. A crer em R. Belin (1978) 193, mais de setenta mil civis franceses foram mortos nos bombardeamentos aliados, mas um documento de origem norte-americana, transcrito por Jean Galtier-Boissière et al. em op. cit., V 391, contabilizou cinquenta e cinco mil vítimas mortais. Segundo D. Wolf (1969) 391 n. 1, que me parece melhor documentado, os ataques aéreos aliados teriam provocado na população civil francesa mais de sessenta e sete mil mortos, enquanto se contaram em cerca de sessenta mil os civis britânicos que morreram devido às operações efectuadas pela aviação do Reich. Também Dear et al. em op. cit., 1135 calcularam em sessenta mil as vítimas mortais dos bombardeamentos aéreos germânicos sobre a Inglaterra e indicaram de forma vaga (pág. 393) que as vítimas francesas da aviação aliada somaram mais de sessenta mil.

[15] R. Overy, «Strategic Air Offensives, 2. Against Europe outside Germany», em I. C. B. Dear et al. (orgs. 1995) 1073-1074.

[16] M. R. D. Foot (2008) 28.

[17] Id., ibid., 112.

[18] Id., ibid., 269.

[19] Id., ibid., 270.

[20] Id., ibid., 245.

[21] Id., ibid., 192.

[22] A. Calder (1991) 40.

[23] A. Speer (1979) 380-382. O trecho citado encontra-se na pág. 382.

[24] Id., ibid., 465-466, 468, 530-531, 548.

[25] Id., ibid., 747 n. 5.

[26] Id., ibid., 382-383, 721 n. 22.

[27] Id., ibid., 719-720 nn. 17, 20.

[28] Id., ibid., 380, 383, 720 n. 17.

[29] M. R. D. Foot (2008) 266.

[30] A. Piettre (1952) 65-67 (subs. orig.). Segundo H. Langbein (1981) 75, apesar das mensagens enviadas pelos organismos de resistência dos prisioneiros de Auschwitz reclamando bombardeamentos aéreos que destruíssem, além das câmaras de gás e dos fornos crematórios, as fábricas que a Krupp instalara ao lado do campo de concentração, tanto aquelas instalações do genocício como as da indústria de guerra foram poupadas pela aviação aliada.

[31] M. Fritz, «Economic Warfare», em I. C. B. Dear et al. (orgs. 1995) 320.

Referências

René BELIN (1978) Du Secrétariat de la C. G. T. au Gouvernement de Vichy (Mémoires 1933-1942), Paris: Albatros.

Pierre BROUÉ e Émile TEMIME (1961) La Révolution et la Guerre d’Espagne, Paris: Minuit.

Angus CALDER (1991) The Myth of the Blitz, Londres: Jonathan Cape.

Martin CHALMERS (org. 2006) To the Bitter End. The Diaries of Victor Klemperer, 1942-1945, Londres: The Folio Society.

I. C. B. DEAR e M. R. D. FOOT (orgs. 1995) The Oxford Companion to the Second World War, Oxford e Nova Iorque: Oxford University Press.

M. R. D. FOOT (2008) SOE. An Outline History of the Special Operations Executive 1940-1946, Londres: The Folio Society.

Jean GALTIER-BOISSIERE e Charles ALEXANDRE (1949) Histoire de la Guerre, 1939-1945, vols. IV e V, Paris: Crapouillot.

Hermann LANGBEIN (1981) La Résistance dans les Camps de Concentration Nationaux-Socialistes, 1938-1945, [Paris]: Arthème Fayard.

Robert O. PAXTON (1973) La France de Vichy, 1940-1944, Paris: Seuil.

André PIETTRE (1952) L’Économie Allemande Contemporaine (Allemagne Occidentale) 1945-1952, Paris: M. Th. Génin.

Albert SPEER (1979) Au Coeur du Troisième Reich, [Paris]: Fayard (Le Livre de Poche).

George VASSILTCHIKOV (org. 1991) The Berlin Diaries 1940-1945 of Marie “Missie” Vassiltchikov, Londres: The Folio Society.

Dieter WOLF (1969) Doriot. Du Communisme à la Collaboration, Paris: Fayard.

Copiado do Passa Palavra

12/04/2009

Quando as insurreições morrem vii

hindenburg

por Gilles Dauvé

Berlim, 1919-1933 (continuação)
O KPD, por seu lado, não tinha hesitado em estender a mão aos nacionalistas contra a ocupação francesa do Ruhr em 1923. Para Radek, “só a classe operária pode salvar a nação”. Talheimer, dirigente do KPD, não escondia que o partido devia combater ao lado duma burguesia alemã que tinha então “um papel objectivamente revolucionário pela sua política estrangeira”. Zinoviev não diz outra coisa na sessão do Executivo Alargado do Komintern, em Junho de 1923:

“A questão nacional é também a questão vital da política alemã. O nosso partido pode legitimamente dizer que, se bem que não reconheçamos a pátria burguesa, somos nós que defendemos, na Alemanha, o futuro do país e da nação. Os nossos camaradas reconheceram-no sem ousarem levar a cabo uma campanha prática.”

E Radek, na mesma reunião: “Colocar a questão nacional, quer dizer, fazer compreender ao proletariado que ele deve ser o Partido da Nação, é na Inglaterra apenas uma fórmula de propaganda para o objectivo final, mas o mesmo não se passa na Alemanha. È significativo que um jornal nacional-socialista se erga violentamente contra as suspeitas sobre os comunistas: assinala-os como um partido combativo que se torna cada vez mais nacional-bolchevista. O nacional-bolchevismo significava em 1920 uma tentativa a favor de certos generais; hoje em dia traduz o sentimento unânime que a salvação está nas mãos do PC. Apenas nós somos capazes de encontrar uma solução para a situação actual da Alemanha. Colocar a nação em primeiro plano, é na Alemanha, tal como nas colónias, agir de maneira revolucionária.” (citações retiradas das actas publicadas no Boletim Comunista, 28 de Junho de 1923)

Uma dezena de anos estalinistas mais tarde, o KPD apelava a uma “revolução nacional e social”, denunciava o nazismo como “traidor à nação”, e usava tanto o slogan da “Revolução Nacional” que inspira Trotsky a escrever em 31 um folheto Contra o nacional-comunismo. Infelizmente para os militantes do KPD, os nazis em matéria de demagogia nacional eram imbatíveis.

Em Janeiro de 1933, os dados estão lançados. Ninguém pode negar que a República de Weimar se entregou voluntariamente a Hitler. Tanto a direita como o centro acabaram por vê-lo como uma solução viável para tirar o país do impasse, ou como um mal menor temporário. O “grande capital”, reticente perante qualquer agitação incontrolável, não se tinha mostrado, até ao momento, mais generoso com o NSDAP do que com as outras formações de direita ou nacionalistas. Só em Novembro de 1932, Schacht, um homem de confiança da burguesia, convence os meios dos negócios a apoiar Hitler (que acaba, no entanto, de sofrer um ligeiro recuo eleitoral) porque vê nele uma força capaz de unificar o Estado e a sociedade. Que a alta burguesia não tenha nem previsto nem tenha sempre apreciado a evolução posterior, a guerra e menos ainda a derrota, é outra questão, e de qualquer modo a sua presença não foi apreciável na resistência clandestina ao regime.

É completamente dentro da legalidade que Hitler é nomeado chanceler, a 30 de Janeiro de 1933 por Hindenburg, ele próprio eleito constitucionalmente presidente um ano antes, com o apoio dos socialistas, que viram nele… uma barreira contra Hitler, sendo os nazis uma minoria no primeiro governo formado pelo líder do NSDAP.

Nas semanas seguintes, as máscaras caem: os militantes operários são perseguidos, os seus locais são saqueados, o terror instala-se e as eleições de Março de 1933, sob a violência conjugada das SA e da polícia, colocam no Reichstag 288 deputados do NSDAP (mas ainda 80 do KPD e 120 do SPD).

Os ingénuos espantam-se que o aparelho repressivo se tenha posto docilmente ao serviço dos ditadores: como sempre em casos semelhantes, do polícia de giro ao director de ministério, a máquina estatal obedece à autoridade que a dirige. Os novos dirigentes não tinham plena legitimidade? Juristas eminentes não escreviam cada decreto em conformidade com as leis superiores do país? Num “Estado democrático” – e Weimar era um – se há conflito entre os dois componentes do binómio, não é a democracia a sair vencedora. Num “Estado de Direito” – e Weimar também era um – se há uma contradição, é o direito que se deve vergar para servir o Estado, e nunca o oposto.

Durante estes poucos meses, que faziam os democratas? Os de direita resignaram-se. O Zentrum, o partido católico do Centro, antigo eixo das maiorias de Weimar em parceria com o SPD, e que até melhorou os seus resultados nas eleições de Março de 1933, vota para dar quatro anos de plenos poderes extraordinários a Hitler, poderes esses que se transformaram na base legal da futura ditadura. O Zentrum é obrigado a dissolver-se em Julho.

Os socialistas, por seu lado, tentaram escapar ao destino do KPD, proscrito no dia 28 de Fevereiro (após o incêndio do Reichstag). No dia 30 de Março de 1933, abandonaram a Segunda Internacional para demonstrar o seu carácter nacional alemão. No dia 17 de Maio, o seu grupo parlamentar vota a favor da política externa de Hitler. No entanto, no dia 22 de Junho, o SPD é dissolvido como “inimigo do povo e do Estado”.

Quanto aos sindicatos, em 1932, à maneira da CGL italiana que tentou salvar o que pôde insistindo no seu carácter apolítico, os seus líderes proclamaram-se independentes de todos os partidos e indiferentes à forma do Estado. Isso não os impediu de procurar um acordo com Schleicher, chanceler desde Novembro de 1932 e então em busca de base ou demagogia operária. Estando os nazis no governo, esses mesmos líderes sindicais deixam-se persuadir que na condição de reconhecerem o nacional-socialismo, o regime lhes daria um pequeno espaço. Esta estratégia culmina na farsa de membros dos sindicatos marchando sob a suástica no 1º de Maio de 1933, transformado na “Festa do Trabalho Alemão”. Em vão: nos dias que se seguem, os nazis liquidam os sindicatos e prendem os militantes…

Formada a enquadrar as massas e a negociar em seu nome, e mesmo, a reprimi-las, a burocracia operária apenas tinha o conhecimento de uma situação profundamente alterada. Multiplicar os seus sinais de fidelidade ao regime não lhe serviu de nada. Não se lhe reprovava a sua afronta à pátria mas ao cofre-forte das classes possuidoras. Não era o seu internacionalismo verbal herdado do período anterior a 1914 que incomodava a burguesia, mas a existência dum sindicalismo submisso mas ainda independente, numa era na qual o capital já não tolerava qualquer outra comunidade que não a sua, e na qual mesmo uma instituição de colaboração de classes estava a mais se o Estado não a controlava completamente.
(a seguir Barcelona, 1936)

partes anteriores:
I II III IV V VI

08/04/2009

Quando as insurreições morrem VI

Berlim, 1919-1933 (continuação)

por Gilles Dauvé

Pela negociação ou pela força, a democracia moderna representa e concilia os interesses antagónicos… tanto quanto possível. As intermináveis crises parlamentares e os complôs verdadeiros ou imaginários (de que era palco a Alemanha depois da queda do último chanceler socialista em 1930) são numa democracia o sinal invariável de uma desunião durável nos círculos dirigentes. No início dos anos 30, face à crise, a burguesia debatia-se com estratégias sociais e geopolíticas irreconciliáveis: integração acrescida ou eliminação do movimento operário; comércio internacional “pacífico” ou uma autarcia estabelecendo os alicerces para uma expansão militar. A solução não passava necessariamente por um Hitler, mas pressupunha em todo o caso uma concentração de força e violência nas mãos do poder central. Tendo-se esgotado o compromisso centrista-reformista, a única opção em aberto era estatista, proteccionista e repressiva.

Tal programa comportava o afastamento violento duma social-democracia que pela domesticação dos operários tinha conseguido alcançar uma posição excessiva, sem no entanto ser capaz de unificar toda a Alemanha atrás de si. Esta unificação foi a tarefa do nazismo, que soube apelar a todas as classes, dos desempregados aos capitães de indústria, através duma demagogia que superava mesmo a dos políticos burgueses, e dum anti-semitismo que funcionava agrupando por meio da exclusão.

Como poderiam os partidos operários barrar o caminho a tal loucura xenófoba e racista, depois de tão frequentemente terem servido de companheiros de viagem ao nacionalismo? Para o SPD, isso era claro desde o início do século, óbvio em 1914, e assinado com sangue no pacto de 1919 com os Freikorps, saídos dum molde guerreiro muito parecido ao dos fasci. Quanto ao racismo, não era incomum que um jornalista do SPD, um dirigente sindical ou mesmo a prestigiada revista teórica Die Neue Zeit, atacassem os judeus “estrangeiros” (polacos e russos). Em Março de 1920, a polícia berlinense, então sob controle socialista, captura um milhar de pessoas num bairro judeu e encerra-as num campo, antes de finalmente as libertar. Como poderia a social-democracia alemã escapar às fobias e obsessões do Volk (povo, numa acepção racial ndt) ao qual ela se obrigava a pertencer?

(continua)

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