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Alberto Pimenta, as moscas de pégaso, p. 25, & etc, 1988
difusão de material comunista
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Alberto Pimenta, as moscas de pégaso, p. 25, & etc, 1988
por Alberto Pimenta
DISCURSO SOBRE O FILHO-DA-PUTA

(Fragmento)
«O filho-da-puta é sempre aquilo que os outros filhos-da-puta do momento e do lugar são; é, porque é isso que «convém» ser, e portanto é isso que ele é. O filho-da-puta insere-se sempre no processo em curso qualquer que ele seja, e esse é mais um traço distintivo do filho-da-puta. O filho-da-puta colabora, e está sempre no vento, sempre na maré, sempre na onda. O filho-da-puta é sempre no mais alto grau possível aquilo que «convém» ser no lugar e no momento em que vive.
O grande problema, a grande desorientação, a infelicidade suma do filho-da-puta ocorre naqueles momentos de transição, de incerteza quanto ao rumo dos acontecimentos, naqueles momentos em que a balança está parada por instantes e não se sabe qual o prato de maior peso; é nesses momentos que o filho-da-puta se torce e contorce, na busca desesperada de «parâmetros», dos seus queridos parâmetros, ou simplesmente de uma via, de um rumo, da sua via, do seu rumo de filho-da-puta. É nessas ocasiões sobretudo que ele, o filho-da-puta, se queixa, que aparece em todos os lugares dizendo «isto está mau», e não adiantando mais nada. Sim, para o filho-da-puta nada pior que não saber qual é a preocupação dos outros, não saber enfim o que os outros pensam, o que os outros acham, o que os outros sabem. É por isso que organiza testes, toda a espécie de testes, e programas, toda a espécie de programas, e sondagens, toda a espécie de sondagens, e inquéritos, reuniões de grupo, reciclagens, estágios, exames, modos de através de um ritual de perguntas e respostas tentar apurar dos outros o que os outros normalmente tentam também apurar dele: o que pensam, o que acham, o que sabem da vida uns dos outros. Mas quanto mais normalizadas são as perguntas e as respostas, maior é também a sensação que o filho-da-puta experimenta de nada saber. É por isso que cada vez mais promove órgãos de orientação geral, instrumentos para levar a pensar ou a não pensar, a fazer ou a não fazer, a falar ou a não falar, sempre segundo os mesmos critérios nas mesmas circunstâncias. Serviços técnicos, gabinetes de coordenação, institutos de apoio, centros de divulgação e de documentação, departamentos de planejamento, setores de estatística, gabinetes de gestão, comissões do ambiente, núcleos de inspeção, canais logísticos, serviços de reconhecimento, postos de fomento, institutos de reorganização, delegações de investigação, grupos de trabalho permanente, «workshops», centros de observação, serviços coordenadores de estudos, registros centrais, divisões de fiscalização e comissões de apoio às iniciativas centrais. Por sua vez, estes órgãos são apoiados por outros de mais largo alcance; se, para esse efeito, em certos lugares e épocas utiliza a sua psiquiatria, noutros utiliza a sua inquisição, e noutros serve-se da sua televisão e demais órgãos de qualidade de vida; pode servir-se do seu jornal ou da sua falta de jornal, do seu partido único ou da sua pluralidade de partidos, pode servir-se de prêmios ou de castigos, de gratificações ou de transferências. Isso mesmo. Não há nada que o filho-da-puta não faça e não há nada que não sirva os seus desígnios.»
Alberto Pimenta, Discurso sobre o filho-da-puta
que o resplendor deste século são empolas de água,
e pó sacudido do vento, que todas as cousas da terra têm por fim a terra.
ama ama
ama zonas
certas zonas
miss issipi
ama indo
ama vindo
ama olga
ama volga
ebro ébrio
bramaputra
escalda escalda
gua diana
com apolo
ama dão
e ama deu
ama teu
e ama tua
ama frates
e eufrates
ama núbio
e danúbio
colorido
colorado
ama tejo
ama sena
ama sado
orinoco e tocantim
xingu ural tarim
ama tudo
e por fim
ama pó
ama pó
ama pó
cinza e nada.
segundo Alberto Pimenta
OS PORTUGUESES não formam uma sociedade porque não são sócios uns dos outros. Tomemos os exemplos mais corriqueiros. Na cidade velha, vai-se pela rua e pode-se apanhar com sacos de migas de pão ralado, atirados aos pombos, na cabeça. E a rua está cheia de cagadelas de cão, coisa que não se vê em mais cidade nenhuma, porque cada um entende que o espaço público se pode sujar à vontade. Lisboa é habitada por uma horda que usa fato e gravata e anda de automóvel, mas que não chegou sequer ao patamar mínimo de civilização urbana. Começa-se sempre de cima para baixo. A Lisboa 94, com a sua falta de ideia, fez várias coisas em cima sem haver nada em baixo, confundiu arte com cultura. A cultura começa nas ruas onde se pode andar, no ambiente cuidado, nos jardins tratados, que não existem.
Há um total desprezo do próximo, uma falta de noção dos direitos e deveres urbanos civilizacionais. Soube agora de um caso que se passa num prédio normal do centro da cidade. Há alguém que guarda a moto do filho de família no patamar entre o terceiro e o quarto andares e, quando Ihe vão dizer que não o pode fazer, essa gente que é licenciada fecha a porta, dizendo: «A moto é minha, eu faço o que eu quero!» Tal e qual como o sapateiro que bate no filho e diz: «O filho é meu, eu faço o que quero!». É a sociedade do «salve-se quem puder». A maior parte das discussões que se geram em bichas, em lugares públicos onde se reclama um direito, resulta da falta de noção muito exacta que qualquer alemão, francês ou italiano tem dos seus direitos e deveres. Aqui é tudo uma «questão particular». Passa a não ser uma sociedade organizada mas um clã. É simpático, de repente, encontrarmos uma grande humanidade e intimidade onde menos esperávamos. Sabe bem mas o preço é caro, implica um dia-a-dia desgastante, onde tudo funciona improvisada e desastradamente. Nem se pode andar pelas ruas porque os carros ocupam os passeios. São insignificâncias que vão criando e alimentando quotidianamente um mal-estar, um cansaço, uma perda de energia. Quando ando pela Baixa duas ou três horas, começo a sentir um esgotamento de tipo espiritual, ao contrário do que acontece em qualquer cidade europeia em que fico mais alerta, enérgico e cheio de ideias. Aqui, começo a arrastar os pés e a andar em passo de procissão, que é como fazem os portugueses, um pouco vergados, dai a metáfora de trazer um peso nas costas. Há, de facto, um peso qualquer que está lá dentro, nas costas do espírito. Este país é como uma eterna pequena constipação.
E esta fatídica vocação para as pantufas… Conta-se que, depois do terramoto, alguns aristocratas que ficaram sem palácio instalaram-se em barracões onde é hoje o Rato, com grande promiscuidade e as couvinhas lá atrás. Quando os palácios ficaram prontos, não queriam sair, pois era ali que lhes sabia bem. Isto define a mentalidade portuguesa.
A arte em Portugal não tem a ter com a vida. O museu e o espectáculo são coisas que se passam em lugares fechados, com horário e um culto feito em grande parte de snobismo e de obrigação social. Daí o grande desconforto dos artistas em Portugal, uma espécie de marcianos, porque aquilo que fazem não tem nada a ver com os interesses da sociedade. Em Itália. o cidadão mais humilde tem uma intuição, um conhecimento e uma veneração pela arte que aqui terá talvez o equivalente na veneração pela Nossa Senhora de Fátima. Até coincide porque é a veneração por um desconhecido, pelo que está para além da razão. Se não houvesse motivos exteriores, não creio que fizesse falta a quem quer que fosse ir a exposições de pintura, ao teatro ou à ópera.
Há um egoísmo perfeitamente catastrófico que caracteriza os portugueses. No seu dia-a-dia, desde que tenha resolvido o seu problemazinho e possa comer o seu bifinho com batatas fritas ou o seu bacalhauzinho, já tira dai um prazerzinho que o deixa satisfeito. O Eça usou todos esses diminutivos com razão, porque tudo é pequeno, da dimensão ao espírito. Satisfazem-se com pouco.
Outra característica dos portugueses é ter medo do risco, podem cair no ridículo, que fica muito mal. Ora para fazer grandes coisas, é preciso arriscar cair do trapézio. Mas os portugueses preferem trabalhar com rede ou então a um metro do chão. Os Descobrimentos foram uma necessidade porque essa gente que vinha do Norte do Pais, a cair de fome e a morrer pelo caminho, não tinha outra hipótese. E não esqueçamos os mercenários. Os relatos deixam-nos imaginar o tormento daquelas viagens, com doenças e sem comida, em condições de puro desespero. Depois, lá veio a mitificação histórica. Obviamente haveria alguns, poucos, a começar pelo infante D. Henrique, que teriam o seu projecto de alargar a Terra, de chegar a qualquer lado e de tirar lucro, que é o que faz correr o homem. O Camões diz textualmente, n’Os Lusíadas, que «nunca houve nação, nem bárbara, que prezasse tão pouco as artes como a portuguesa». E o padre António Vieira dizia, naquelas etimologias divertidas, que o mundo é mundo porque, por antífrase, é imundo tal como a Lusitânia se chama assim já que não deixa luzir ninguém por causa da inveja. E podíamos continuar com o Eça, com o António Nobre, com os que reflectiram porque tiveram oportunidade de comparar… (…).
Vivi na Alemanha muitos anos e pude constatar que o mito do amor ao trabalho dos Alemães é falso. Não gostam de trabalhar, mas sabem que e preciso. Por isso, fazem-no o mais eficientemente possível. Durante o trabalho, os alemães não conversam sobre futebol nem as alemãs falam de meninos, como aqui. E fora dele é tabu falar sobre isso. Ao contrário de Portugal, onde se passa o almoço a falar do trabalho, uma paranóia perfeita.
Enquanto a Europa é urbana e civilizada há muito tempo, em Portugal o crescimento faz-se por saltos muito grandes. Temos a ideia de que o progresso é deitar fora o que há e substituir pelo novo, o que mostra que não o conseguimos integrar. Em cada época, há elementos que definem o novo-riquismo. No século XVI, o embaixador do Papa escrevia para Roma a dizer que não entendia porque é que o barbeiro, um homem muito pobre, tinha um pretinho para Ihe carregar a bacia quando ia fazer a barba a casa do cliente. Na Segunda Guerra, houve o boom dos novos-ricos do volfrâmio e dizia-se que eles comiam a sardinha assada com pão-de-ló. Hoje continua e, apesar do novo-riquismo destes anos em que já somos europeus, basta por o pé para lá da fronteira para perceber que somos cada vez menos em termos culturais. Temos o mito das melhores praias, dos melhores vinhos, mas quanto tempo vão durar? Há terrenos próximos de Lisboa, na zona do Ribatejo, que estavam classificados para agricultura exclusivamente. Há três ou quatro anos saiu um decreto que permite utilizá-los para campos de golfe desde que sejam reconvertíveis. Daqui a 15 anos, comeremos bolas de golfe em vez de couves…
Os Ingleses, mesmo lá no extremo do Sahara, continuam a manter a nacionalidade e a beber o chá das cinco porque têm uma personalidade forte. Mas um português na Alemanha, ao fim de cinco anos é alemão, e no Japão torna-se um autêntico japonês. Tem uma capacidade espantosa de adaptação, uma qualidade que lhe facilita a vida, mas que é sinal de uma personalidade fraca. O nosso racismo é económico. Tratamos com servilismo os que têm mais dinheiro que nós, embora haja quem diga que isso é a cordialidade do português a acolher os estrangeiros.
Tal como há quem diga que a língua portuguesa é o espanhol sem ossos. Compare-se o «quero-te» com o «te quiero»: enquanto num a entoação morre no fim, no outro a afirmação é evidente logo no som. É como se nem na língua tivéssemos coluna vertebral.
Portugal ficou a meio caminho entre o Norte de Africa e a Europa. E não se consegue definir. É pobre combinar as coisas sem definir uma ideia e uma identidade próprias. Não há, em Portugal, politica no sentido autêntico da palavra, uma ideia de sociedade para dar forma ao Estado. Não há partido que a tenha, excepto, talvez, o comunista, mas não é uma ideia própria. Os políticos portugueses, tal como os artistas, são preguiçosos, pouco competentes e bastante diletantes.
in Diário de Notícias, 29 de Janeiro de 1995
V. é bom português? A partir de hoje, não precisa de continuar na dúvida. Basta-lhe fazer o “Teste de Portuguesismo” especialmente elaborado por Alberto Pimenta, segundo os mais modernos métodos de análise ao comportamento inconsciente do cidadão.
1.
a- Em que ano foi descoberto Portugal?
b- Por quem?
2. Em que data se celebra o dia mundial do português?
3. Em que ano a convite de quem é que o Rato Mickey visitou Portugal pela 1ª vez?
4. Salazar é?
a- O padroeiro de Portugal.
b- Um mancebo incapaz para todo o serviço.
c-Um heterónimo de Fernando Pessoa.
5. Sendo obrigado a escolher, V. que preferia?
a- Ser um português pobre.
b- Ser um espanhol rico.
6. Em Portugal não é costume chover.
a- Nunca, porque faz sempre sol.
b- Nos dias santos e vésperas de feriados.
c- Dentro de todas as casas.
conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é fome de sobremesa alheia.
a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito/
de si
e pouco ou nada dos outros.
o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.
Alberto Pimenta
Ontem o pregador de verdades dele
Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!
Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.
Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto – eu, que as vou comer a ambas?
Porco Trágico, também conhecido como Alberto Caeiro
O operário e o macaco
Entre o trabalhador do cérebro, como lhe chamam, e o trabalhador do braço não há identidade nem semelhança: há uma profunda, uma radical oposição. O que é certo é que entre um operário e um macaco há menos diferença que entre um operário e um homem realmente culto. O povo não é educável, porque é povo. Se fosse possível convertê-lo em indivíduos, seria educável, seria educado, porém já não seria povo. O ódio à ciência, às leis naturais, é o que caracteriza a mentalidade popular. O milagre é o que o povo quer, é o que o povo compreende. Que o faça Nossa Senhora de Lourdes ou de Fátima, ou que o faça Lenine, nisso só está a diferença. O povo é fundamentalmente, radicalmente, irremediavelmente reaccionário.
Porco Trágico, já nosso velho conhecido
de Nanni Ballestrini
Se cá estamos nós outra vez
sentados em frente do público da poesia
sentado em frente de nós ameaçador
fitando-nos e esperando a poesia
na verdade o público da poesia não é ameaçador
se calhar nem está todo sentado
se calhar algum está também de pé
porque acorreu entusiástico e numeroso
ou talvez haja umas tantas cadeiras vazias
mas os que vieram são os melhores
fizeram este grande esforço só mesmo por nós
por que é que haviam de ameaçar-nos
o público da poesia não ameaça rigorosamente ninguém
pelo contrário é atencioso generoso atento
prudente interessado devotado
ávido mirífico um pouco inibido
cheio de boas intenções de falsos problemas
de maus hábitos de péssimos ambientes
de mães agressivas de desejos irrealizáveis
de leituras dúbias e de élans profundos
não é de maneira nenhuma cretino
não é surdo indiferente mau de todo não é
insensível preconceituoso sem escrúpulos não é velhaco
oportunista pronto a vender-se ao primeiro que aparece
não é um público conformado bem pensante ingénuo
que se contenta com pouco
que lava as mãos
e faz juízos apressados
é pelo contrário um público que segue saboreia aprecia
que leva tempo a aquecer mas depois compensa
como diria o Pimenta
é acima de tudo um público que ama
o público da poesia é infindo variado não se pode circunscrever
como as ondas do mar profundo
o público da poesia é bonito altaneiro insaciável temerário
olha de frente impávido e intransigente
vê-me aqui a ler-lhe esta treta
e acha que é poesia
porque este é o nosso pacto secreto
e a coisa é do agrado de ambos
como sempre não tenho nada para lhe dizer
como sempre o público da poesia sabe isso muito bem
mas di-lo apenas de si para si e não em voz alta
não só porque é delicado solícito jovial
e no fundo também reservado optimista de bom trato
mas acima de tudo porque ama
ama dum amor profundo sincero irresistível
dum amor tenaz exclusivo dilacerante
ama
quem o público da poesia
finjam perguntar ainda que conheçam muito bem a resposta
mas entrem no jogo vá vocês são astutos e simpáticos
o público da poesia não é a mim que ama
claro isso todos o sabem ele ama outrem
outrem do qual eu não passo dum dos numerosos servidores
digamos mensageiros para ficar com melhor aspecto
O público da poesia ama-a a ela
a ela e
só a ela e
a ninguém senão ela
ela que é sempre tão imprevisível
ela que é sempre tão impraticável
ela que é sempre tão inatingível
ela que é sempre tão implacável
ela que atravessa sempre com o sinal vermelho
ela que é contra a ordem das coisas
ela que chega sempre atrasada
ela que nunca toma nada a sério
ela que toda a noite se porta mal
ela que nunca respeita ninguém
ela que alterca tantas vezes e gosta
ela que está sempre sem dinheiro
ela que fala quando devia estar calada
e que se cala quando devia falar
ela que faz tudo o que não devia fazer
e não faz o que devia
ela que se acha sempre tão simpática
ela que gosta da barafunda pela barafunda
ela que trepa aos espelhos
ela que adora a fuga para a frente
ela que tem um nome que é a fingir
ela que é doce como uma rosca de leite
e feroz como um labirinto
ela que é a coisa mais bela que há
o público da poesia ama-a a ela
a quem
a ela à poesia acertaram
e como poderia o público da poesia não amá-la
ama a poesia porquê, perguntarão vocês
talvez porque a poesia faz bem
muda o mundo
diverte
salva a alma
põe em forma
ilumina abranda tensões
abre horizontes
sabe-se lá cada um por certo terá os seus bons motivos
se não não estaria aqui
mas o melhor é não querer saber muito do que se passa com os outros
se se quer evitar que os outros metam também o nariz no que se passa connosco
louvado seja pois o público da poesia
louvado o seu justo nobre grande amor pela poesia
em cujo reflexo nós pálidos e humildes mensageiros
vivemos gratos e bem-dizentes
ele cala-se levanta-se
uma folha cai ao chão
agradece os aplausos
ela apanha a folha e lê-a
ULTRA-CONFIDENCIAL
NÃO DEVE SER REVELADO
EM CASO ALGUM
AO PÚBLICO DA POESIA
o público da poesia ama a poesia
porque quer ser amado e quer ser amado
porque se ama profundamente a si mesmo e quer ter a confirmação
do seu profundo amor próprio
por sorte sua o público da poesia
limita-se a julgar que está a ouvir poesia
porque se realmente a ouvisse perceberia então a
desesperada impossibilidade e a inutilidade do seu amor
e passaria o dia inteiro a esbofetear-se
queimaria todos os livros na praça
atirava-se ao rio
ou ia acabar os seus tristes dias num convento
CONCLUSÃO
A POESIA DÓI
MAS POR SORTE NOSSA
NÃO HAVERÁ NUNCA NINGUÉM DISPOSTO A ACREDITAR NISSO
Tradução de Alberto Pimenta
de Alberto Pimenta
Balada ditirâmbica
do pequeno e do grande filho-da-puta
I
o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta.
todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.
II
o grande filho-da-puta
também sem certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.
por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.
todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.
é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multipliccação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta
por Joëlle Ghazarian
ISTO É UMA ESTÁTUA DE CERA (DEIDRE PALOMAR)
“Libertar o falso e a falsidade”, declaração de Zezzos em tribunal
mandam a criança à floresta aprender a distinguir bem a lenha com que mais cedo ou mais tarde se há-de queimar
CANTO PRIMEIRO
GEÓGRAFO, O HOMEM QUE REFAZ O UNIVERSO
Alberto Pimenta oferece-nos em Repetição do Caos (& etc, Lisboa, 1997) um conto de geógrafo cheio de sabor e de ternura onde as entranhas (que só se ordenam em função da cabeça) ficam recolhidas, assistindo a tudo em silêncio. Um conto para conhecermos A.P., que se volta para si mesmo, desejando captar e influenciar o fundamento do universo que é o movimento. Conto, enfim, para tornar palpitante a presença de Zezzos, o seu único amigo único que por vezes lhe escapava. De pé e de palavra erguida, o Tseu da difícil arte do desvio guia sem estrebuchar (1) a sua própria história no universo, chamando as coisas pelo nome, anticaoticamente, construindo do pé o gozo e da palavra a coerência.
“Que é a verdade? Menos que nada. Ser lógico é ser corneado diariamente pela verdade”, resume A.P. na p. 125, para, no último dia, quando aparece o último banhista, não nos deixarmos distrair de ver o mar e o céu, o encontro dos opostos, o alargar do espaço… e isto, mesmo em Portugal.
Repetição do Caos é uma biografia onde vemos a lenha com que se queimou A.P., e por que razão se tornou um solitário cantor a capella.
CANTO SEGUNDO
A.P., PROCESSO HISTÓRICO
Mas que estará A.P., o geógrafo, a fazer aqui entre nós? É a questão que nos põe ao iniciar esta biografia. Que andará ele a fazer neste nosso velho planeta Terra? Que fará ele num livro? Qual será de facto a sua data de nascimento? São questões que nos pomos. E em Portugal, que fará ele em Portugal? Eis por fim uma questão a que é fácil responder: “Precisa-se de tudo no seu lugar [...] De resto, só não posso deixar de pisar o lodo a que me obriga a maré que aqui me pôs.”
Em suma, A.P. nasceu em Portugal, acontecimento que lhe deu o ensejo de aqui crescer antes de 1965 e de aqui amadurecer desde 1977. Cresceu num mundo onde o mijo no leite era da leiteira, e num tempo, direi eu, em que os travestis não eram EXPOstos, mas se expunham… Numa época, enfim, em que à porta de casa culminava o teatro da vida, com os robertos recriando o mundo e, ao entardecer, os balões voadores dando alturas, velocidades, inclinações e luz a um céu de laranja já esverdeado. Numa época em que uma pessoa até podia nascer cedo como os dias de festa e dizer quando morria.
Exposto ao instinto musculador de vida e abrindo-se ao inevitável e aos sonhos (parte iniciadora e incitadora da existência), cedo se reapropriou da curiosidade de criança que a educação e o ensino procuram violentamente refrear, ao criarem em nós o terror do que não é conveniente. Deste modo, antes mesmo da adolescência A.P. começa a comer o que lhe é dado pelo desconhecido. A sua precocidade é extraordinária, vendo-se A.P. presente em todas as frentes:
- na frente artística (diante dum quadro de Miró): “Porquê com sapato velho?”
- na frente psiquiátrica: “Louco, o homem lá de cima?”
- na frente sociológica: “Quando é que de resto algum luxemburguês não percebeu isto?”
Ávidas questões a que ele deseja dar respostas judiciosas, fios e filhos duma teia fenomenal que draga a vida como o sangue nos lateja nas veias e o oceano nos corre no ventre.
Estas premissas exultantes da sua truculência (2) levaram-no, já em 1956, a ser preso por berrar em plena rua, a plenos pulmões, que a polícia e a autoridade em geral eram todos filhos-da-puta. Hoje não seria capaz de dizer melhor. Mas acrescento: os outros também.
Caso raro em Portugal no século XX, onde quase meio século dum fascismo brando-costumeiro deixou marcas, as quais, graças ao progresso histérico, se mantêm inalteráveis. Em particular a marca da demagogia espoliadora, cuja repetição frenética, doravante exponencialmente difundida, engendra um magma sedativo transformado em norma de ouro do bom senso comum e num desafio à inteligência e à sensibilidade. A.P., em Portugal, está no seu lugar… Essa é porém a dúvida. Porque o problema dele é o problema dele no universo. E onde fica o universo? Qual é o lugar de tudo?… Questão de ritmos.
CANTO TERCEIRO
QUANDO O TRABALHO LIBERTA…
O Vestido às Riscas (Pasmore, 1939)
O trabalho do artista consiste em aceder ao ser evolutivo e surpreendente, em encontrar territórios novos como nos jogos da infância, doravante com uma tenacidade voluntária. O artista é um geógrafo livre: “Tem dois pés e dois olhos” (Lao-Tseu).
A.P., Valerie Solanas, Joyce, Rimbaud, Fonollosa, Steinbeck, Benjamin, Adorno, Leiris, Lautréamont, Michaux, Mishima, Whitman, Hedeyat, Cendrars, Gómez de la Serna, Novalis, Cervantes, Duchamp, Ernst, Tanguy, Klein, Magritte (ah, mas estes últimos são pintores, fiquemo-nos por aqui), são, entre outros, os exemplos entusiasmadores que nos provam, sem procurar convencer-nos, ser possível TRANS-FORMAR a traidora e cruel linguagem comum numa linguagem individual. Herberto Helder exprimiu-o quando disse: “A extensão e ambiguidade da leitura assentam na destruição de uma sintaxe estrita ao formular-se a prática verbal”. Significando isto que podemos viver contra a obrigatoriedade da imbecilização colectivizada, conclusiva, autodesautorizadora, fingidora de coerência, identidade e emoção.
Não, excelente dadá Ribemont-Dessaignes, a única liberdade possível não reside na submissão àquilo que nos ultrapassa, mesmo acabando nós por crer que a servidão voluntária é natural e inalienável. Tudo é questão de qualidade e justeza do gozo e da independência, coisa que as pessoas perderam por nascimento – ou, sejamos tolerantes, por crescimento.
Afinal, afora ao nascer e ao morrer, podemos não ser enganados: basta puxarmos nós mesmos os cordelinhos, e as nossas entranhas seguirão as geografias novas. Assim nos tornamos um calendário vivo (diriam A.P. ou Zezzos), espaço e tempo.
Entre nós, este trabalho de parto do artista parece-me ter atingido o seu ponto culminante com Mallarmé. Mallarmé não viveu, a não ser através das mortes dos que amava (e de Méry Laurent). E no entanto conseguiu transformar a escrita, fazendo dela o nervo quase único da sua existência. Poderemos nós dizer que Mallarmé, génio por excelência do Retoque da Deformação, praticou com isso um desvio? Um desvio relativamente à morte? Irá a morte concluir-nos, visto que, mesmo pacificados, não morreremos concluídos?…
Não creio que pudesse ser ilusão, nem que fosse falsidade.
CANTO QUARTO
A.P., O MAL-AMADO, NO UNIVERSO PORTUGUÊS
Mas voltemos a A.P. Seja como for, não podemos impedir-nos de perguntar o que fará ele entre nós desde 1977. Tanto mais que é votado, manhosamente, ao silêncio. Cá temos mais uma questão a que é fácil responder. Silenciam-no porque:
1º A.P. está-se nas tintas para o olhar dos outros, porcos e assimilados, borrifando-se alegremente para o Juízo de Deus. “Aquilucia inspira-me e sossega-me. Trago dois modelos pequenos dos pés de Aquiles com dedo grande fálico e calcanhar aberto, vaginal, e massajo-os todos os dias. Pé contra pé. / É perfeito. Ou quase.” (Fundir a massagem para difundir o símbolo?)
2º Daqui recorrendo que A.P. recria sem fim o curso da sua impenitência. “… o sol é uma treva que resplandece quando os seus raios entram em contacto com a atmosfera: é uma criação permanente, como os raios negros emitidos pelo nosso subconsciente que, em contacto com o ambiente, podem tornar-se luminosos”.
3º A.P. não tem religião, ondulatoriamente erguido desde sempre contra os ex-votos, fardas e pastiches peremptórios – que (não) fedem do pé – da Ordem Convincente, e por isso grosseira, diria Oscar Wilde. Um ser que nos lembra que o homem é igual em toda a parte; os comboios é que não.
4º E depois porque, desde Eça e Ramalho, a sociedade portuguesa perdeu o hábito de ser criticada – criticada a sério. Além disso, A.P. sacode-a e de-sintaxa-a, lodo-icamente iconoclasta e estratego do destecer: “E quando voltar é ainda para desfazer a minha casa.”
5º E ainda porque o que de melhor A.P. tem a dizer é que “tinha de recomeçar, tinha de recomeçar”, na constante invenção de “construir semáforos guiados pelas humidades do corpo que são os sinais tanto da vida como da morte e portanto do tempo” (segundo Zezzos). Isto é que é provocação sem deliquescência!
Onde vemos que as razões de não amar este desintoxicador são as razões de não amar alguém que não repete o caos…
No fim de contas, se a obra de A.P. se vê silenciada, é porque nos agentes desse silenciamento se manifesta o medo de ficarem com ar de parvos inteligentes mal abram a boca a seu respeito. E também porque ele deixa as pessoas sem fala, a menos que já tenham perdido a palavra. E também porque estas receiam a contaminação, nesta nossa realidade virtual (será muito lembrar que a realidade foi sempre virtual?). Porque, enfim, A.P. declara: “Já foi a guerra, foi a conquista e o saque, foi quase sempre a posse do terreno e a usura, e hoje, entre outros, é a cultura.”
CANTO QUINTO
PIMBA, A CULTURA
A cultura e a arte passaram a ser tudo aquilo que dá gozo fazer a quem o faz. Critério este quão manco e vesgo. A coisa chega mesmo ao humanitário, uma das cómodas facetas da criatividade artística contemporânea. Como noutros ramos dos negócios, o lema é: Vale Tudo. Por um lado, um novo provérbio de sentido sistemático: “Vale mais ver isto que ser cego.” Por outro lado, lembrando involuntariamente Orwell: “Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que outros.”
Estaremos nós em plena criação adentro da exibição conformista dum mundo desvalorizado de artistas e de artistas? Terão todas as coisas deixado de ter nome próprio? Nesse caso, de facto, podemos dizer ao utente que consegue entrar no autocarro à hora de ponta: Eh pá! és um artista!
A que seio agarrarmo-nos num mundo de destesão? Questão de ética salubre: voltar ao happening. Assim faz A.P.
CANTO SEXTO
OS AMIGOS DE A.P.
Eis a autobiografia fiel do nosso autor (a fidelidade é como a verdade), de A a P, datada do ano da graça de 1997 conforme vem exarado no colofão do livro; mas todo o cuidado é pouco com estes registos.
Se é verdade que A.P. não destronou o Moloque e tem de contemplar, dolorosamente exasperado, fardas a boiar numa sala de aulas, como ele não tem o espírito ignaro da competição, sabe que não se trata de uma derrota (coisa que tão-pouco lhe perdoam).
“Eu cheguei a um acordo com o universo: ele funciona com a minha liberdade de o ver funcionar como eu vejo, e com a sua liberdade de funcionar como funciona. Era um acordo de cavalheiros. / Não sei quem o rompeu, se ele ou eu”, declara A.P. de chá açucarado na mão e os dedos do pé em leque.
Quanto a nós que tanto apreciamos este ser estimulante decididamente muito precoce para o seu tempo e neste país, ainda haveremos de ir ao Musa-eu admirar a obra espantosa que lá está: Crânio de A.P. em criança. “Se calhar quem quer que seja que nasceu faz bem em morrer” (Zezzos citado por A.P.). E numa duplicação original do que Pierre Bettencourt escreveu sobre Michaux pouco antes da morte deste, direi de A.P., muito antes da sua morte: “Alberto Pimenta não se tornou médico, nem assassino, nem doido, nem pai, escapou disso tudo, está salvo. E nós com ele, porque ele anotou, escreveu, expôs-se, comprometeu-nos na sua aventura, drogou-nos terrivelmente pelos olhos, chamando o gesto e a voz em apoio da pena, a câmara de filmar em apoio do texto. Um poeta, sem dúvida um artista, já que são estas as vossas categorias, mas um homem muito mais precioso que uma obra, quando vos não restar mais do que esta para auscultar o ser que nós pudemos conhecer.”
CANTO SÉTIMO
A MULHER RUIVA
Para acabar, por agora, esta prosa sobre A.P., quero ainda sublinhar um elemento inesperado, manifesto na Repetição do Caos: a nostalgia. A de um homem que já viveu muito e bem, e que não se lamenta. A sua lâmpada de Aladino apagou as barreiras do tempo sem moleza e sem enterro, porque o elixir está na posse dele.
grau zero sem teologia
o mundo por acaso outra vez
em estado de inocência
CANTO OITAVO
QUESTÕES
Para acabar, por agora, esta prosa sobre A.P., só algumas questões mo permitem:
Qual é, actualmente, o crime maior das pessoas? Será a capacidade de regeneração do espírito superior à do corpo? (Julgo que sim, se a regeneração do espírito regenerar o corpo.) Será por puro acaso que o algarismo 7, número da plenitude, volta amiúde quando se põem as questões importantes? Tanto mais que o autor nasceu em 37, voltou a Portugal em 77 (tudo isto descrito na página 97), que Zezzos morreu em 77, e que a & etc publicou este livro em 97. Além disso, o número 7 está com muita frequência associado ao 1, que é o único.
Como voltar a encontrar a ruiva desconhecida e as suas duas bolachas cor de cenoura (ou de laranja) que os adultos tinham proibido a A.P. de comer em 1942? (Ah, isto dá 1492 ao avesso, a data fatídica dos Descobrimentos…).
A.P. será um comboio?
Assim é.
Louco, o homem lá de cima?
1 Apesar de torcer o pé por todo o lado, porque toda a sua vida tem saído no último instante, sem perceber nem tomar atenção antes.
2 Um verdadeiro truculento é um hedonista erudito.
DA INEXISTÊNCIA DE ALBERTO PIMENTA
por Padua Fernandes
INEXISTÊNCIA, PARTE I:
Recente investigação científica realizada no Brasil demonstrou cabalmente a inexistência de Alberto Pimenta. A primeira fase da pesquisa foi encetada a partir do livro publicado desse autor nesse país, Discurso sobre o filho-da-puta, pela editora Codecri do Rio de Janeiro em 1983. A publicação possuía um posfácio de Eduardo Kac, que considerava “monumental” a “pequena obra”, “uma das mais iconoclastas do século” [p. 77]. Decerto que sim. Completava o volume uma lista de publicações de Pimenta, em cinco partes: poesia, textos e textículos, espetáculos, ensaios e edições de textos e textículos.
Entretanto, a editora – pequena e ousada – não existe mais. Vítima de contaminação do autor (inexistente) publicado, assim como o contato com a anti-matéria destrói a matéria? É preciso lembrar que esse foi o único livro de Alberto Pimenta já publicado no Brasil. A segunda verificação parece demonstrar que a fatal contaminação ocorreu.
INEXISTÊNCIA, PARTE 2:
Em 1999, foi publicada uma Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea pela Lacerda Editores do Rio de Janeiro, de pouco mais de quatrocentos e cinqüenta páginas, em que os organizadores 1 incluíram setenta e dois poetas (em que lugar do mundo verdadeiramente houve setenta e dois neste século?) poetas nascidos entre 1900 e 1965. O critério de contemporaneidade foi o de ter nascido do último ano do século XIX, 1900, em diante – questão cartorial.
A antologia, com essa estrutura, não poderia mesmo ser boa e quando os organizadores, no diálogo que faz as vezes de introdução, começam a discutir sobre Mário de Andrade, o leitor sabe que uma boa oportunidade de publicação foi desperdiçada. A já antiga Antologia de Poesia Portuguesa 1940-1970 de Maria Alberta Menéres e de E. M. de Melo e Castro (lançada pela Moraes Editores de Lisboa em 1979) era bem mais interessante e mostrava muito mais cuidado nos dados biobibliográficos (apesar de erros, como o nascimento de Pimenta posterior à publicação de Labirintodonte).
Na antologia brasileira, Alberto Pimenta não é sequer mencionado (conquanto já houvesse participado de Processo Lírico em Literatura Portuguesa, outra publicada no Brasil, organizada por Júlio Carvalho e Antônio Basílio Rodrigues, que abrangia de Martin Codax até autores do século XX), preterido por José Augusto Seabra, Fernando Assis Pacheco, Diogo Alcoforado e Maria Teresa Horta, que nasceram no mesmo ano. É possível que os organizadores, donos de versos que almejam o equilíbrio, tenham sentido que já havia poetas demais em 1937?
Creio que não, pois o ano de 1928 foi agraciado com cinco poetas (Fernando Guimarães, Fernando Guedes, Alberto de Lacerda, António Maria Lisboa e João Rui de Sousa), um a mais que 1937; a resposta reside na inexistência do aludido autor: a antologia, a editora e os próprios organizadores, para continuarem a existir, evitaram referir-se ao antiautor.
INEXISTÊNCIA, PARTE 3:
Declamei, no ano de 2000, o seguinte poema diante de professores brasileiros de poesia e literatura, bem como de poetas da mesma nacionalidade de consagração variada:
Sobretema a Alberto Pimenta
a puta
que ama todos os clientes
(o poeta
dentro da jaula dos macacos
via
os humanos aprisionados)
a puta
que faz o próprio amor seu cliente
(um soneto com quatorze cômodos
ou uma jaula com quatorze versos?
onde mora o ser, a linguagem,
é de onde o poeta foge)
a puta,
ou o amor cobra-te e não te devolve como troco
(chega de ofertas!
os macacos não riem para quem pagou entrada;
o preço do verso
não compra a poesia)
a puta diz
a metade do cu igual à metade do eu
é a metade do nu – o eu inteiro
(- mamãe, é tão lindo! por que tem que ficar preso?
- filhinho, você não sabe o que é bonito,
se estivesse solto seria horrendo;
a beleza é a própria jaula.)
o poeta é a puta
e não cobra de seus próprios filhos
mas o amor dentro da jaula
mas a poesia instalada nos cômodos
o poeta não tem nada que ver com isso
beija os clientes e foge com os macacos
Perguntaram-se: quem é Alberto Pimenta? Ignoravam. Não há como duvidar dos doutos e dos poetas. Ele, evidentemente, não era.
INEXISTÊNCIA, PARTE 4:
O último livro do poeta brasileiro Alberto Pucheu, A Vida é Assim (Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2001), que mereceu pré-publicação na edição 2000 de Ciberkiosk, foi posfaciado por Alberto Pimenta: “Assim é também a poesia…” 2 ; porém, como o livro termina com “Tradução livre de um poema inexistente de Lyn Hejinian”: “Comece aqui, para aprender a gostar de uma perda/…”, o posfácio acaba, destarte, por provar a inexistência de Alberto Pimenta.
Confirma-a ainda a referência, já no posfácio, ao “memento da liquidação lenta do eu” [p. 58].
INEXISTÊNCIA, PARTE 5:
Mas eis que Alberto Pimenta lança livro novo: Grande Colecção de Inverno 2001-2002 (Lisboa, &etc, 2001). Há que se conciliar tal fato com a pesquisa científica já terminada.
Fácil: em quase todo o Brasil, nessa mesma época, é verão; logo, Pimenta, comprova-se por essa última obra, não existe no hemisfério sul.
Já delimitado cientificamente o objeto da pesquisa, pode-se partir para a comprovação das hipóteses.
APLICAÇÕES METONÍMICAS DA INEXISTÊNCIA:
A inexistência, desde o início da obra de Alberto Pimenta, é uma estratégia poética. Alguém já viu O Labirintodonte? O bicho não existe, mas a obra sim: o primeiro livro de poesia do autor, publicado em 1970. Bicho, bípede, candidamente definido como “é um bicho/ de seu natural pensativo/ pois precisa/ de pensar/ para saber/ que está vivo.” [p. 51]. Como insinua o autor em “Biografia” [p. 68], um animal pensativo como esse não é coisa que existisse em Portugal (o exílio é refúgio habitual do pensamento) no ano de 1970:
colaborou rezou
manifestou rezou
apreciou rezou
indagou
condenou
assinou
defecou
e assim passou
os seus dias
e as noites
quentes e frias
Logo, a inexistência é escolhida como estratégia poética por ser a estratégia política que melhor denuncia a falta de sentido, a burrice e a vacuidade desses anos autoritários. Veja-se o “teatro de guerra” [p. 62], em que a desaparição (isto é, a morte) corresponde a uma ascese degradada para a inexistência:
no teatro
da guerra
cada dia
trabalha
nova companhia.
mas permanece
o encenador
e a peça
é sempre
do mesmo autor.
o actor esse fenece
esse fenece com a cena
com a cena
e desaparece.
é um teatro
realista
que a toda hora
muda de artista.
mas de hora a hora deus melhora
Poética e política são irmãs siamesas na múltipla obra de Pimenta no âmbito de uma tradição contestatória (mais do que, na expressão de Eduardo Lourenço, uma tradição provocatória) 3. E, por vezes, o melhor a fazer para contestar é nada dizer: a greve de palavras, que pode ser tão contundente quanto uma greve de fome, não significa uma greve de discurso. Em Ainda há muito para fazer (Lisboa, &etc, 1998), o autor deixa circular os clichês da propaganda, da política, da imprensa, em poemas “read & mad”, isto é, ready-made 4. Pelo silêncio, por vezes, os poetas podem ser mais críticos.
Não era mesmo de se espantar que o silêncio, como estratégica política e poética de inexistência do autor, gerasse O Silêncio dos Poetas (Lisboa, A Regra do Jogo, 1978), ensaio que tem como principal referência teórica Adorno, que na sua célebre (e um pouco tonta) frase sobre a impossibilidade de poesia depois de Auschwitz, teve o mérito de destacar o caráter político do silêncio na arte. Não se esqueça o final [p. 185] desse livro que é um dos clássicos de Alberto Pimenta:
O caminho do verdadeiro silêncio vai pela recusa da palavra segura de si, da palavra auto-suficiente, da palavra que fala do seu falar: mas passa através da palavra que fala em busca de silêncio, em busca da sua morte.
O discurso agônico da palavra que busca inexistir. Por conseguinte, os acadêmicos que louvam O Silêncio dos Poetas e rejeitam ou ignoram a obra poética de Alberto Pimenta parecem-me não ter entendido nem o ensaio nem a poesia, pois ambos se encontram integrados na mesma estratégia. Por sinal, os gêneros tendem a desaparecer – outro momento da estratégia da inexistência – em vários pontos dessa múltipla obra (que inclui happenings e performances), como em 4 sonetos sobre o soneto, original combinação de ensaio, tradução e poesia visual, que culmina com “4 sonetos sem palavras, ou com ‘palavras silenciosas’” 5 : plantas de casas com quatorze cômodos.
Lembremos do segundo livro, Os entes e os contraentes (1971), que começa com o “discurso preliminar” [p. 7-14]. Esse clássico poema tira o seu poder corrosivo do fato de ser composto de notas de rodapé a um texto feito apenas de sinais ortográficos; a vacuidade do discurso satirizado é notada tanto no fato de não existir o texto anotado e na presença das exuberantes e sarcásticas notas – uma dialética da inexistência, gargalhada sobre o nada.
Outro caso de uso estratégico e dialético da inexistência, e de caráter mais abertamente político, é o do poema anti-colonialista “lembranças da pátria” [p. 51], em que o enunciador lembra “a voz da pátria” nas vozes dos bichos que, ao contrário dos homens, continuam “fiéis a si mesmos”! Depois da cegonha, da abelha, do boi, do gato, “prossigamos a nossa evoca/ ção lembrando o elefante a urrar a u/ rrar além-mar como um desesperado.” A inexistência do elefante na Europa, no entanto relacionado por Pimenta aos animais europeus, confere todo o caráter contestatório do poema, denunciando a retrógrada apropriação portuguesa das terras e riquezas das então colônias africanas.
É de lembrar-se ainda o “retrato do soldado desconhecido” [p. 92] : corta-se uma árvore para fazer a escultura do soldado desconhecido, porém todas as tentativas saem irreconhecíveis; no fim, “a/ cabou-se-lhe a madeira. ficou só c/ om uma cavaca na mão. deitou fora.” ; a pungência do poema não advém simplesmente de a escultura não chegar a ter existido, mas de ela não poder existir e ser reconhecida como retrato, simultaneamente. A guerra, lucrativo exercício do nada, desafia a representação, ou melhor: representa-se pelo nada, pelo descarte do homem.
ascensão de dez gostos à boca (1977), outro clássico da poesia, demonstra como a estratégia da inexistência pode ser expressa por meio da repetição: “convival” [p. 14-17] revela o cotidiano agendado e repetido: “os pais de família vão trabalhar./ ao almoço vêm almoçar, e à tarde,/ tontos e tristes, vêm todos jantar.”, com duas variações no fim de semana e uma seqüência “ao gosto do leitor”. O trabalho do poeta foi praticamente nenhum no sentido da arte como artesanato; aqui, a arte é conceito. No entanto, a agenda repetitiva tem o valor contestatório de crítica ao cotidiano, muito mais eficiente do que se fizesse um soneto do tipo “Ó pais de família portugueses, acordai ou suicidai-vos! etc”, o que demonstra o acerto da inexistência (seja do autor, seja do convencional “poético”) como estratégia poética e política.
Curioso caso é o de “semiótica” [p. 107]:
metade da palavra cu
é como metade da palavra nu.
mas a outra metade da palavra cu
não é como a outra metade da palavra nu.
segue-se portanto que metade do cu deve ser
diferente de metade do nu
enquanto metade do nu deve ser
semelhante a metade do cu
e do mesmo modo metade do nu deve ser
diferente da metade do cu
enquanto metade do cu deve ser
semelhante a metade do nu
também se poderia afirmar que metade do nu deve ser
semelhante a metade do cu
enquanto metade do cu deve ser
diferente de metade do nu
repetir, repetir e exercitar.
A estratégia da inexistência manifesta-se na aparência e na afirmação de que isto não é um poema, e sim um exercício de semiótica! Com a denegação (pois a negação é usada para afirmar o que aparentemente se nega), além da semiótica mesma, criticam-se as convenções sociais sobre nudez e pudor – vazias. O nenhum poema na verdade significa a nenhuma verdade dessas convenções – e o poema existe, pois, por transladar a sua inexistência na inconsistência do objeto criticado.
“paixão, morte e 1.ª aparição de frankenstein” [p. 57] realiza uma importante reviravolta no fim; Frankenstein, como se sabe, não existe, trata-se de personagem ficcional. O poema imagina-o, entretanto, preso e condenado não por um tribunal, mas pela manipulação televisiva da opinião pública do país. Morre na prisão e ressurge depois de morto;
como se sabe: frankenstein foi preso por denúncia,
[...]
eu não sei como frankenstein morreu. mas a nação
e o seu jornal (a « sua imagem ») sabem como frankenstein morreu.
corre agora o boato que o colapso do antigo
chefe da polícia foi causado pela aparição de fran
kenstein. mas quem garante que assim tenha sido?
bom, um tipo como frankenstein talvez. mas um tipo
como eu e tu que chances tem de aparecer depois
de morto? não, um tipo como eu e tu não sei que
chances tem depois de morto, para dizer a verdade, nesta nação
nem sei que chances tem depois de vivo, um tipo
como eu e tu, de resto era isso que frankenstein
não se cansava de dizer, todo o tempo, todo o tempo.
Revela-se, por conseguinte, que a invocação do personagem serviu para ressaltar a inexistência dos cidadãos comuns, “um tipo como eu e tu” “nesta nação”, em que não há chances durante a vida – coisa que a simples aparição do morto-vivo já denunciava: são todos menos do que mortos-vivos.
A multifacetada obra de Pimenta oferece diversos exemplos da estratégia da inexistência. Busquemos apenas mais um: “as notas da carraça” (Bestiário Lusitano, 1980) é composto apenas das palavras que rimam das quinze primeiras estrofes do Canto I dos Lusíadas, e de notas ao curioso poema assim formado, que o referem como descrição da vida dos piratas… A inexistência de Camões nas próprias palavras camonianas fez com que a voz anti-colonialista de Pimenta reverberasse na velha trombeta épica e imperialista.
Mais radical ainda foi outro experimento anti-camoniano, a Metástase n.º 1 6; por meio da “transfusão’ como poética, o clássico soneto de Camões “Transforma-se o amador na cousa amada” foi convertido em outro soneto por meio de anagrama verso por verso. Assim, “Transforma-se o amador na cousa amada” foi convertido em “Ousa a forma, cantor! Mas se da namorada”; “Como a matéria simples busca a forma” em “ímpio amor mata o ser e busca famas. L. C.”.
Todas as letras do poema estão presentes no de Pimenta (deixando um L.C., sarcasticamente, como assinatura); Camões, porém, desapareceu; a estratégia da inexistência aqui advém de uma operação de desaparecimento. Afinal, o sentido do poema está em Camões não estar mais presente em suas próprias letras.
OUSA A FORMA CANTOR! MAS SE DA NAMORADA
NUA D’IMAGEM, TIDO RIO POR VIR TU
NÃO TENS, OH JOGA, SEM QUE IDE
IA E MENTE PASSEM, ADMITO, D’HARPEJO,
NADA, TERNO MAR, FALSAMENTE ILHAS. AMAS
DESEJANDO AMOR QUE CALE CIO, PARCAS
RIMAS E OS DESENCANTOS PEDEM
ODI ET AMO, CAOS, SIGLA. ALI PLANTAS
SETAS EM IDEIA, AINDA MEL, PURAS,
SEMENTE QUE CAÍDO SUJEITO COMO EU,
A LAMA MINHA INFORMAM. COM ACESSOS
TE PENSO E CATO O MÍNIMO. SE NADA
MUDA, VÊ QUE FRIO E PÓ E RISO E VOTO OU
ÍMPIO AMOR MATA O SER E BUSCA FAMAS.
L. C.
Veja-se a sátira ao lirismo camoniano em “namorada/ nua d’imagem” e “amor que cale cio, parcas/ rimas”; nas “falsamente ilhas”, alusão à Ilha de Vênus, e o verso final denuncia, enfim, a inexistência, por faltos de corpo (calam o cio), dos amores cantados por Camões. Nesse ponto, Pimenta faz com o bardo português o mesmo que Brecht com Dante em “Sobre os poemas de Dante a Beatrice”; a crítica de Pimenta, todavia, é muito mais radical do que a de Brecht, embora ambos usem o soneto, devido ao peculiar emprego da estratégia da inexistência. Brecht tão-somente comenta Dante, e por isso Benjamin 7 pode afirmar que o poeta alemão lançou um olhar “descontraído” ao passado no poema aludido; Pimenta, por sua vez, anula Camões ao conservar-lhe as letras; há humor, também, mas letal.
O pior para Camões, entretanto, talvez seja o próprio início, pois, como é sabido, a lírica desse autor raramente apresenta alguma ousadia formal, por muito dependente dos modelos italianos. Por essa razão, não era admirada por Fernando Pessoa; demonstra-o, entre outros, este excerto de texto de 1935 – um dos três últimos que publicou, lembra Robert Bréchon 8 – de Álvaro de Campos:
Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia? [...] Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas – tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassílabos como usaria luto em vida. 9
Enfim, fala-se do último livro de Alberto Pimenta, a Grande Colecção de Inverno 2001-2002. A inesperada delicadeza do poema inicial, “a filha de Maria” [p. 12], não engana:
passo as mãos pelas pernas
a língua pelo lábio de cima
não sabe a nada
Alberto Pimenta não existe; quem existe, então? Neste livro dos prazeres (entende-se por que desejou chamá-lo de “flores do bem”), em que Catulo, Petrarca, Sade (e Mallarmé a reboque), Marcial, Wagner (a partir de O Ouro do Reno: “os sábios, honestos e santos/ entram nus/ e saem doirados”), Shakespeare são convocados, uma pista aparece na página 23: o bom bec de Paris, Villon. Ele retorna em trecho de um dos melhores poemas de Pimenta, “da ‘teoria dos conjuntos’, com brio” [p. 69]:
se 1 é igual a 3
e a teologia
cristã
está certa
então
a pomba
tinha mesmo bom bec
e vinha
mesmo de Paris
Não comentemos a bela blasfêmia desse excerto, pois a teologia em Pimenta, por si só, daria um livro. Avancemos: após a belíssima tradução de trecho do segundo ato de Henrique IV, em que o Príncipe desanca Falstaff, “Thou art violently carried away from grace” 10, encerra-se o livro com “como diz o outro vilão (o François):/ …dont il me poise…”
Ora, não há dúvidas: trata-se do famoso quarteto escrito por Villon (Je suis François…), em que lamenta ser francês, pois a nacionalidade o fez poder ser condenado à morte pelo ferimento de François Ferrebouc; o verdadeiro agressor escapou dessa sentença porque era da Savóia 11 – questões de territorialidade e de estatuto pessoal da lei penal. Como se sabe, Villon apelou da sentença, comutada para o banimento por dez anos, e desapareceu de vista e da história. Há duas interpretações possíveis: ou Pimenta revela não existir e ser, na verdade, Villon ou…
Caso Villon tivesse se mantido escondido por todo esse tempo (desde 1463) para reaparecer como Alberto Pimenta (hipótese comprovável apenas por via de regressão), teríamos que falar antes numa estética do aparecimento do que numa da inexistência neste último livro.
Não creio ser esse o caso, porém. Na verdade, o autor que escreveu A arte de ser português identifica-se com Villon por sentir na sua pátria uma condenação injusta; a condenação à morte, sofrida pelo francês, já aparece em “desenvolvimentos operacionais” [p. 65-66]:
filósofo A:
nada diz nada
nada diz nadas
nada diz pequenos nadas
nada diz grandes nadas
nada diz nada
e só acidentalmente o conhecimento se ocupa dos corpos
filósofo B:
tudo diz nada
tudo diz nada de nada
tudo diz tudo de nada
tudo diz tudo de tudo
tudo diz nada de tudo
e só acidentalmente o conhecimento se ocupa dos corpos
[...]
bom, o melhor é mesmo mandar os filósofos todos à merda
e procurar qualquer coisa mais interessante para ler:
Ay, but to die, and go we know not where;
To lie in cold abstruction and to rot…
“Pois, mas morrer e ir não se sabe para onde,
Jazer em inerte frio e apodrecer;
[...]
Ao nada dos filósofos, Pimenta contrapõe a morte, a inexistência imposta como uma propriedade dos corpos; pois o excerto traduzido é a fala de Claudio em Medida por Medida, em que declara preferir uma vida em vergonha à sentença de morte. Uma alusão de Pimenta à arbitrariedade do Estado na existência da pena de morte ( um nada que é mais radical do que o dos filósofos!) Outra crítica a essa pena encontra-se em “Current issues in Community work”, um dos últimos poemas do livro (p. 79-87), em que Pimenta imagina o “dia internacional do condenado à morte” [p. 84]:
Directores, Legisladores, Assistentes
conciliam
tradição
e modernidade
dedicam ao condenado a vida inteira.
E os portugueses, diz, já estão a trabalhar lá nos institutos de execução… Não há dúvidas: Pimenta, como Villon, também foi condenado à morte por sua pátria, e sua estratégia de sobrevivência foi a da inexistência, expressa por meio do milenar recurso do exílio. É sabido que o exílio, o desterro são formas de morte civil do indivíduo 12 e, por isso, devem ser enquadrados dentro da estratégia da inexistência.
Villon a seguiu de forma um pouco mais literal, pois desapareceu fisicamente e deixou sua obra, uma das maiores da língua francesa.
Pimenta, por alguns anos, teve que fazer o mesmo devido às conhecidas circunstâncias do longo período ditatorial português, e pôde voltar a seu país somente alguns anos depois da Revolução dos Cravos. Como o seu passaporte já havia sido cancelado, solicitou naturalização como cidadão alemão, que foi deferida; no entanto, ele declinou, devido à Revolução em Portugal, tornar-se o maior poeta alemão de língua portuguesa. Voltou a seu país e foi considerado apto para o serviço militar, apesar dos problemas de saúde e:
[...] claro que voltei para a Alemanha e claro que fiquei pela segunda vez refractário. Ou seja, fui refractário antes e depois do 25 de Abril. Com estas coisas todas, a relação com a pátria foi ficando um pouco abalada. 13
Disse acima que Alberto Pimenta pertence a uma tradição contestatória; Pimenta cumpre o seu papel de contestador com uma estratégia da inexistência, que assume diversas facetas: desaparecimento do poético, do autor, do gênero, a repetição, o exílio.
A sua inexistência, lembra-se, é uma estratégia poética e política, contestatória nos dois campos; nesse sentido, pode-se bem dizer que Pimenta assume o papel daquele que contraria, ou seja, do Diabo, na concepção que Pessoa expôs em A Hora do Diabo [p. 28]: 14
« Mas o senhor vira tudo do avesso….
« É o meu dever, minha senhora. Não sou, como disse Goethe, o espírito que nega, mas o espírito que contraria.
É interessante nos referirmos neste momento ao conceito de sombra do psicólogo suíço Jung; a sombra, que representa os conteúdos psíquicos que são reprimidos porque inaceitáveis e que, conscientemente, não se percebe existirem – ou se prefere que não existam. Talvez seja esse o arquétipo que Pimenta represente hoje na literatura de língua portuguesa.
A inexistência, lembremos, é a finalidade do filho-da-puta, segundo o célebre Discurso, citado aqui da publicação brasileira [p. 64-65]:
Na verdade, a vida do filho-da-puta
só é verdadeiramente compreensível em função da morte, só em função da morte é que se compreende tudo o que o filho-da-puta faz durante a vida, tudo o que faz ao longo da vida, o que faz ou não deixa fazer, ou finge que faz ou que deixa fazer; na verdade, só em função da morte é que tudo isso é compreensível. Na verdade, o filho-da-puta não vive para a vida, vive para a morte, vive para depois da vida e portanto para a morte, vive para a salvação da alam não durante a vida mas depois dela, ou vive o filho-da-puta, gosta de deixar, e até de fazer morrer, porque isso faz parte da sua disposição de espírito, da sua fatal disposição de espírito para não viver nem deixar viver.
A poesia, certamente, é algo que o filho-da-puta não quer deixar fazer. Portanto, a estratégia da inexistência, com sua relação metonímica com o exílio, a denegação, o desaparecimento, a morte, a sombra, mostra-se apropriada para indicar o papel social do poeta no presente estágio do capitalismo contemporâneo e nas presentes modas acadêmicas, como diz em Ode Pós-Moderna (Lisboa, &etc, 2000) [p. 48], livro que é uma espécie de leitura pós-moderna do filho-da-puta:
fugir
……………………………………………..
método confirmado por estatísticas e astrólogos
gesto pós-moderno modista simbólico
por dentro e por fora
apreciado pelas delegações
do beiço esticado para a beleza do gesto
para o hipotético lugar que estava lá antes e onde agora
não está mais nada
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No entanto, a inexistência que lhe é atribuída por literatos, brasileiros ou não, é revidada pela ação do próprio Pimenta: a estratégia da inexistência. Aquilo que se reprime à luz do dia retorna a cada vez que um gesto, diante do brilho, produz a sombra. A inexistência, por conseguinte, e isto constitui a faceta heróica da poética de Pimenta, corresponde também a uma estratégia de permanência da poesia, como indica no seu último livro [p. 89]:
um raio sedutor, um título de esperança
UM MORTO
JÁ NÃO PODE
MORRER
Como Frankenstein, segundo o poema antes citado, reaparece após a morte, ela não consegue morrer. Pois, ausente do mercado, do hit-parade, ela melhor pode, pois não comprometida (exceto, é claro, nos casos de ligações mais ou menos espúrias com o mundo acadêmico, com a imprensa, órgãos oficiais de financiamento e a música pop – nesses casos, porém, mal se trata de literatura, como recentes antologias de poesia contemporânea brasileira demonstram-no) formular críticas aos discursos oficias, da cultura de massa, morais, teológicos…
E os demonológicos? Voltemos ao Diabo: ele é uma das figuras arquetípicas relacionados à Sombra. Lembremo-nos de que a maior astúcia Dele está em convencer-nos de que não existe:
E Dante chamará por Homero poeta soberano e o diabo dará uma gargalhada e dirá que também já não há.15
NOTAS:
(1) Chamam-se Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno; o primeiro é o atual presidente da Academia Brasileira de Letras, que muito bem abrigaria o segundo, se este ainda não estivesse (biologicamente) longe de freqüentar geriatras. Pois, como bem disse Josué Montello, acadêmico que é um provecto romancista de livros idem: “Somos quarenta pessoas envelhecendo juntas. Não podemos escolher alguém muito diferente de nós.” (“Por que, afinal, a Academia Brasileira de Letras seduz tanta gente?”, reportagem de Eliane Azevedo para o Jornal do Brasil de 7/12/2001).
(2) O posfácio, bem como alguns poemas do livro, podem ser lidos na página de Alberto Pucheu: www.sites.uol.com.br/albertopucheu .
(3) A Nau de Ícaro, São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 17.
(4) Procedimento, aliás, que ocorre em sua obra inteira. Basta lembrar do final paradisíaco de A Visita do Papa (Lisboa, &etc, 1982 e na página O Silêncio dos Poetas: www.terravista.pt/mussulo/1917/apimenta.html ) , que ironicamente lembra que a igreja é um produto.
(5) Espacio/ Espaço Escrito, Badajoz, n. 11/12, otoño/invierno 1995, p. 79-83.
(6) Espacio/Espaço Escrito, Badajoz, n. 2, primavera/verano 1988, p. 13-15.
(7) Comentário aos poemas de Brecht, Inimigo Rumor, Rio de Janeiro; Lisboa: Viveiros de Castro Editora; Livros Cotovia, tradução de Marcus Vinicius Mazzari, 11: 151-179, 2.º semestre de 2001, p. 169.
(8) Étrange Étranger: une biographie de Fernando Pessoa. Paris: Christian Bourgois éditeur, 1996, p. 538.
(9) PESSOA, Fernando. Obras em Prosa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1986, p. 270.
(10) Já “desenvolvimentos operacionais” [p. 65-66] termina com uma tradução de excerto de Medida por Medida, em que Claudio fala do temor à morte – foi condenado, veja-se que Pimenta simpatiza com os fornicadores shakespearianos – e “imprisonment” é traduzido como “EUA”, o que tem muita relação com as políticas de segurança pública adotadas por esse país – além, é claro, de sua política externa.
(11) Conforme H. B. McCaskie em sua tradução The Poems of François Villon, London: The Cresset Press, p. 234, 1946.
(12) Diferentemente do ostracismo, o desterro na Grécia Clássica gerava a morte civil (ERRANDONEA, Ignacio (dir.) Diccionario del Mundo Clásico, Madrid: Editorial Labor, vol. II, p. 1228-1229, 1954).
(13) Entrevista concedida ao DNA, suplemento do Diário de Notícias, p. 18, 18/04/2000.
(14) Lisboa, Assírio e Alvim, 1997.
(15) As 4 Estações: Discurso Muito Íntimo, Lisboa, &etc, 1984, p. 82.