Arquivo para ‘Uncategorized’

23/04/2009

VELHA TOUPEIRA

Todos querem ler a Velha Toupeira!

Grandizo Munis

Paul Mattick (*)

Os Amigos dos 4 Milhões de Jovens Trabalhadores

Alain C.

Gilles Dauvé

Gilles Dauvé e Karl Nesic

Gilles Dauvé e amigos

Marcel e Gilles Dauvé

La Banquise

Pierre Guillaume

Fredy Perlman

Aufheben

Anton Pannekoek

Franz Pfempfert

Helmut Wagner

Karl Korsch

Amadeo Bordiga

Réseau de Discussion International

Charles Reeve

Roland Simon

Tom Thomas

João Bernardo

Il Partito Comunista

Terry Eagleton

Karl Marx

Jews Against Zionism

(*) Também disponibilizei o texto do mesmo autor, Os limites da integração: o homem unidimensional na sociedade de classes. Também conhecido por Crítica de Marcuse.
http://www.scribd.com/doc/24300147/Os-limites-da-integracao-O-homem-unidimensional-na-sociedade-de-classes-Paul-Mattick

27/03/2009

Hagiografia

Está disponível na marxists.org um texto de Paul Lafargue sobre o seu sogro: Recordações pessoais sobre Karl Marx.

Este texto foi publicado no Brasil no livro “A Filosofia de Carlos Marx”, Editora Vitória e depois em “O Capital de Karl Marx”, Conrad Editora. Em Portugal surgiu em Marx no seu tempo da editora Dinossauro. Já aqui tinha publicado um trecho de um outro texto retirado desta última edição: Informe secreto da polícia prussiana.

Aqui vai mais um bocado de hagiografia:

“Era pai doce, terno e indulgente. “Os filhos deviam educar os pais”, costumava dizer. Nunca fez sentir aos filhos, que o amavam com loucura, a mais insignificante partícula de autoridade. Não lhes dava ordens, mas pedia-lhes as coisas por obséquio, persuadindo-os a não fazer aquilo que fosse contrário aos seus desejos. Apesar disso, era obedecido como poucos pais o seriam. Suas filhas viam nele um amigo e o tratavam com camaradagem. Não o chamavam de “pai”, mas sim de “Mouro”, apelido que lhe haviam dado por causa de sua cor mate, de sua barba e cabelos negros. Em compensação, desde antes de 1848, os membros da Liga dos Comunistas chamavam-no de “pai Marx”, apesar de ele ainda não ter 30 anos nessa época.

Muitas vezes acontecia passar horas inteiras brincando com as filhas. Elas não esqueciam as batalhas navais travadas dentro de um barril, com os incêndios de frotas inteiras de barcos de papel, que Marx construía e queimava, com enorme entusiasmo das pequenas.

Suas filhas não lhe permitiam trabalhar aos domingos. Era um dia reservado para elas. Quando fazia bom tempo, toda a família ia passear no campo. Detinham-se nas pousadas do caminho para beber cerveja de gengibre e comer pão e queijo. Quando as filhas eram pequenas, procurava distraí-las, durante o passeio, contando-lhes intermináveis histórias de fadas, para que o caminho lhes parecesse mais curto. O próprio Marx inventava tais estórias enquanto andavam, que se tornavam mais longas na razão direta da extensão do caminho. De maneira que as meninas, atentas aos contos, esqueciam as fadigas.”

25/03/2009

Portugal Anarquista e Rebelde – Pier Francesco Zarcone

Descarregar aqui.

21/02/2009

Algumas considerações histórico-biográficas: Sobre a conversão dos esquerdistas dos anos 70

“Avanti popolo, alla riscossa
Bandiera rossa, bandiera rossa
Avanti popolo, alla riscossa
Bandiera rossa trionferà”
De uma conhecida música muito cantada nos anos 70

Descobri já há uns tempos atrás que a ministra de educação do Estado Espanhol do recém falecido governo do PP Dona Pilar del Castillo, elegante em seus cinquenta anos, foi militante duma organização esquerdista chamada Bandiera Roja, tendo abandonado esse mundo lá pelos idos de 78. Depois disso tornou-se uma socióloga séria, cientista política reconhecida. O seu doutorado na Universidade de Columbus (Ohio), com uma bolsa da Fundação Fulbright, confirmou, ao que parece, a sua conversão. Tal como Josep Piqué, Anna Birulés e seu marido, o deputado Guillermo Gortázar, fazem parte da nova intelectualidade da direita. Por lá dizem que fazem parte da geração boba, uma mistura de boémios e burgueses, o que a mim me parece quase um elogio, pois estão mais próximos, a meu ver, daquilo que eu imagino serem uns filhos da puta, velha expressão das línguas latinas, que não se refere tanto à mãe que os pariu, do que à sua condição de oportunistas safados, alguém em quem nunca se devia, nem deve, confiar.
A tal Pilar, ex-comunista, trabalhou de forma consequente para fazer aquelas reformas que todos podem imaginar, preocupada com a revalorização do ensino religioso das pobres crianças, não se vá dar o caso de alguma vir a ser ateia, céptica, ou tão só descrente, coisa que ela, como ex-militante da Bandiera Roja, sabe não ser nada bom para a sociedade.
Já conhecemos muitos outros casos, um pouco por todo o mundo, sendo um dos mais famosos o daquele opositor ferrenho da NATO, Javier Solana, que se tornou secretário-geral da dita. Muitos outros comunistas, maoistas e trotsquistas, com um emblema do PSOE na lapela, comeram na mesa dos condes e das marquesas, ou nos seus leitos, nas amenas praias mediterrâneas, em nome da reconciliação nacional e de um mundo melhor. Para eles pelo menos.
Este não é, no entanto, um fenómeno do Estado Espanhol. O mesmo pode ser constatado pela Europa fora, da mesma forma que no resto do mundo. Também por aqui, na velha terrinha, há algumas décadas atrás, milhares de jovens gritaram, atrás de bandeiras vermelhas, contra os males do mundo em que viviam. Os males, esses tinham quase todos na sua origem uma causa bem definida que todos eles tinham aprendido a definir e explicar: o capitalismo. Outros motivos diversos também provocavam sua indignação e ira: o fascismo, os baixo salários, as reformas do ensino, a guerra colonial ou do Vietname, mas todos tinham claro que o mal maior, e fundador da desgraça, que se abatia sobre os explorados e os povos era esse sistema que seus adorados mestres tão bem, e cientificamente, haviam descrito em suas inúmeras obras.
Alguns entre eles eram operários, mas a maioria era, inegavelmente, estudantes liceais e universitários, no activo ou em compasso de espera, seus chefes, um pouco mais velhos, que sabiam de trás para a frente as cartilhas, haviam desertado da tropa, eram refractários ou pelos menos escapuliram de casa dos pais. Nem todos eram iguais: para uns Trotski enfileirava ao lado dos mestres Marx e Lenin, outros achavam que não, só Estaline tinha, de pleno direito, um lugar ao lado dos fundadores. Mao, o grande timoneiro, logo foi acrescentado à galeria por muitos entusiastas. Com tempo, outros tentaram outras variantes, sendo Che, Ernesto Guevara, o das camisolas, o escolhido. Levando em conta a famosa foto de Alberto Korda talvez estivessem mais certos que quaisquer outros sobre os dotes de Guevara, como se vem comprovando nos tempos que correm na indústria da moda. À falta de melhor, uns quantos, como a dupla Espada & Pereira, conhecidos fundadores do pensamento democrático e liberal português, somaram Enver Hoxa aos guias, numa época em que a crise dos grandes timoneiros era já vísivel.
Esses estudantes esquerdistas também tinham uma característica muito comum: eram de origem burguesa, filhos até da classe média e alta, o que permitia a alguns leitores atentos de Freud, darem explicações psicanalíticas para as suas raivas juvenis. O que é certo é que a acreditar nas suas palavras, discursos e berros, eram os verdadeiros representantes do proletariado, uma palavra cientificamente sofisticada que usavam para falar do povo, o que podia ser confirmado pela discreta presença de algum companheiro metalúrgico ou da construção civil nas suas organizações. As referências à necessidade de uma vanguarda, ou seja deles próprios, eram constantes, tal como a evocação do papel fundamental dos dirigentes, eles mesmos, da necessidade de tomar o poder, do exercício da ditadura, condições indispensáveis para uma mudança social. Nos seus grupos aplicavam esses mesmos princípios de autoridade, num exercício coerente entre a teoria e a prática: dirigente era respeitado, pelo menos até cair em desgraça, disciplinavam as bases, exigiam a confissão dos erros, criticavam sistematicamente os outros, auto-flagelavam-se e penitenciavam-se. Tudo em nome da disciplina partidária contra todo o desvio e heresia teológica, a que davam o nome de «concepções oportunistas», mostrando assim serem mais rigorosos que a velha Igreja, que foi aprendendo, com os séculos, a ser branda e a conviver com as fraquezas humanas e com o pecado.
Durante anos cada grupo, pelo seu lado, lutou para construir o verdadeiro Partido, uma luta homérica que gerou o Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista), várias variantes com nomes próprios, Movimento para a Reorganização do Partido do Proletariado, o tal MRPP, Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa, mais conhecida por Grito do Povo, Partido Comunista Português Reconstruído, à custa dos esforços históricos do CMLP, CCRML, URML, OCMLP, a União Democrática Popular, etc. É evidente que também havia o MES, a LUAR, PST, LCI, PRP e centenas de outras coisas, umas constituídas por dez, outras por cem, outras por mil militantes e um por cento de dirigentes. Uns mais iluminados e sectários que outros, mas todos eles tendo um arremedo de linha justa, uma representação, mesmo que parcial, dos trabalhadores, e um mítico destino para Portugal e o Mundo. O objectivo imediato de quase todos eles era claro: a Insurreição e a Revolução, um momento mágico onde esses dirigentes confirmariam o seu destino, num futuro radioso em que acreditavam piamente, ou em que convenciam outros, mais ingénuos ou estúpidos, a acreditar.
Os jovens imberbes, seus adeptos, entusiasmavam-se pois só tinham visto coisa semelhante, e tanta fé, na missa do galo ou em Fátima, antes da sua conversão à ciência do marxismo. Quanto aos trabalhadores que iam aparecendo, viam nessas organizações e partidos um outro sentido para as suas existências sofridas ou miseráveis, acreditando que afinal o mundo podia mudar. Mesmo que o que vissem à sua volta os pudesse perfeitamente convencer do contrário.
Dificilmente saberemos o que ia na mente de todos esses amados dirigentes – que iam do secretariado ao comité central, passando por alguns, mais humildes controleiros -, mas dá para desconfiar que já se viam no papel de heróis do povo, comissários de um novo estado, principalmente no momento em que o velho estado novo se foi quando uma revolução num Abril de 74, que poucos haviam esperado, mostrou que o horizonte amanheceu vermelho. Aos vinte e poucos anos ou trinta, já era possível sonhar com o impossível, um cargo oficial, uma dignidade estatal ou, quem sabe, um ministério ou uma secretaria qualquer, mesmo que tivessem esse nome revolucionário de comissariado num país novo, como eles.
Cada um desses dirigentes, teve possivelmente a sua fantasia e o seu sonho, as multidões que ocupavam as ruas também tiveram muitos mas, infelizmente, a maioria deles delineados pelas aspirações dos seus chefes que, já experimentados em teoria e em estratégia, saíam das suas clandestinidades,
verdadeiras ou de opereta, ou dos seus exílios estudantis em Paris e Genebra para encabeçar a luta das massas. Cada semana e mês desses anos de 74 a 76 foram vividos com expectativa pelos combativos dirigentes, mas o Poder, custava a deixar-se agarrar por esses jovens ansiosos. Cada vez que se aproximavam, mais se afastava deles, os mestres do poquer, em Washinghton, Moscovo e Bona, e seus pupilos nacionais, do PCP, PS e PPD, estavam a elevar a parada em cada lance, embora predominasse o blufe. Os gaiatos queriam jogar, mas ninguém lhes dava cartas e quando ameaçavam roubá-las, quase sempre recebiam um empurrão condescendente, dos mais entradotes: Cunhal, Soares e Sá Carneiro, que tinham já a experiência para saber que quem mandava nesse baralho viciado não eram eles, mas os mestres ausentes que iriam definir o momento da vitória e a quem ela pertenceria.
Quando o fim do jogo ficou claro, no grande blufe de Novembro de 75, os jovens dirigentes avermelhados pelo calor do Verão quente, já tinham aprendido um pouco mais da vida e nesse momento decisivo uns, mais arrojados, bateram com a porta, outros, pé ante pé, saíram sem ruído, deixando para trás, sem saudade, arrependimento ou vergonha, o seu passado feito de palavras grandiosas como povo, proletariado, revolução e comunismo e de algumas más acções como assaltar bancos, roubar e ocultar armas, furtar móveis ao estado, sanear professores e empresários, assaltar embaixadas, ocupar casas e terras, queimar sedes de partidos democráticos etc e tal. Outros mais hesitantes, ou mais lentos em seus reflexos, deixaram arrastar por alguns anos a decisão na ingénua ilusão de que algum sentido havia no seu passado ou de que não poderiam esquecer tudo que leram em tão pouco tempo. Mas, aos poucos, quase todos foram saindo, mais ou menos discretamente, deixando os últimos militantes desanimados e confusos. As grandiosas organizações, e reorganizações, que tinham construído para o proletariado português ao longo de anos foram desaparecendo e, em muitos casos, nem foi preciso apagar a luz, nem fechar as portas, pois suas sedes logo viraram, de novo, bancos, escritórios, cafés e lojas dos trezentos. A raiva de todos eles à burguesia e ao capitalismo, fonte de todos os males, de repente e milagrosamente, esfumou-se revelando-lhes o doce paraíso democrático, da igualdade de oportunidades.
Os caminhos da conversão foram diversos, mas a maioria tornou-se professor universitário, sociólogo, economista, jurista, pois era grande sua bagagem especulativa, seus dotes oratórios e retóricos adquiridos nas suas verborraicas militâncias; alguns escritores e artistas, que transitaram da povolatria para a egolatria; os mais práticos, grandes organizadores do proletariado, optaram por serem comerciantes e gestores bem sucedidos, outros ficaram pelo jornalismo pois as centenas de jornais do povo dos anos 70 foram a escola de muitos deles. As carreiras foram-se definindo e os velhos partidos, que para uns tinham sido inimigos odiosos atacados a ferro e fogo, mas que em outros casos eram velhos aliados da gloriosa luta anti-social-fascista, logo abriram suas portas de par em par para recebê-los festivamente, pois como era bem sabido pelos conservadores, desde o início do século XX: “incendiário aos 20, bombeiro aos 40″, ou por outras palavras, “ninguém melhor que os ex-incendiários para controlar os futuros fogos”.
Uns foram para o PS, outros para o PSD, alguns para o PP, outros entraram simultaneamente para alguma sociedade anónima comercial ou futebolística. Uma das prioridades da maioria deles foi dedicarem-se a uma minuciosa revisão das suas biografias pessoais, adequando-as às exigências da confiabilidade democrática. Foi assim que aos poucos se construiram as grandes carreiras do falecido deputado Acácio, do Espada, que era a voz iluminada do povo, Pacheco Pereira, mais maoista que Teng Siao-Ping, Arnaldo, grande timoneiro, Lamego, Saldanha, ex-linha negra, Pedro Batista, assim gritava o povo, Barroso, quase durão, Jorge Coelho, furão do Rato, e outras largas centenas de ex-dirigentes e teóricos do fim do capitalismo, do amanhã radiante, do socialismo, que acabaram a comer na mesa da burguesia neo-democrática ou regressando às suas casas como filhos pródigos. Ou as pequenas carreiras, do Heduíno Gomes, ex-Vilar, agora “homem de direita, conservador e reconvertido ao cristianismo”, Vasconcelos, o estrategista das guerras alheias, o tal e qual Ferreira Fernandes, “eu também torturaria”, José Fernandes, “por uma guerra ética e democrática” e mais algumas centenas de etc. Evidentemente que o PCP também teve seus arrependidos, os Judas e Zitas Seabras, agora dedicados às obras públicas, mas esses há muito estavam habituado à plasticidade e capacidade táctica, tardo-estalinista, da “aliança com todos os portugueses honrados” e a um comezinho reformismo que não faria espantar ninguém que trocassem uma reforma por outra. Principalmente quando o que estava em causa era a sua própria reforma.
Uma vez ou outra, esses ex-revolucionários vermelhos, fazem expiação pública: “o comunismo foi a mentira do século XX”, “o capitalismo é a liberdade”, “só a livre empresa nos dará o bem-estar”, “a violência é o grande mal”, “a democracia é um produto do livre mercado”, “no passado fomos idealistas”, “não conhecíamos a verdade sobre a China”, “fomos generosos”, “sacrificamos nossa juventude a lutar pelo povo” ou até como disse o nosso primeiro-ministro, em recente debate parlamentar: «eu só tinha 18 anos…», abrindo assim o campo a todas as justificações biográficas: «mas eu só tinha 19 anos» ou «e eu tinha acabado de fazer 33 anos»…
O argumento enfático definitivo, no entanto, para calar as más línguas é “O MUNDO MUDOU”. Uma verdade de La Palisse pois, como todos sabemos, o mundo já havia mudado antes das suas conversões. De facto, nunca parou de mudar desde aquele Big Bang inicial, ou do pecado original, para usar uma imagem mais de acordo com suas fés actuais. O que nos permite concluir que, ao contrário do que dizem as enciclopédias e livros de história, o principal evento dos anos 80, do século XX, não foi a queda do muro de Berlim ou a difusão da micro-informática, nem sequer o retorno do liberalismo, foi sim a repentina conversão de tanto esquerdista às virtudes do sistema capitalista. Talvez seja essa a parte oculta do terceiro segredo de Fátima, de 1917, que ainda faltava revelar. Depois da Rússia, seriam eles os convertidos.
Convertidos?, arrependidos?, ou tão só filhos da puta? É a interrogação pertinente que alguns chatos ainda insistem em colocar hoje, passadas quase três décadas. Não podemos responder peremptoriamente, pois faltam-nos os dados científicos que só nossos camaradas psicólogos, sociólogos e psicanalistas, que andaram pelas organizações esquerdistas desse tempo, podiam ajudar a esclarecer. O problema é que não conseguiram ainda distanciar-se o suficiente quando não foram eles mesmos vítimas do fenómeno para nos dar uma resposta, a nós, os interessados por estas coisas: os que viveram essa época ou todos aqueles que hoje continuam a recusar com asco o capitalismo. Quanto aos milhares de trabalhadores que um dia acreditaram nessas iluminadas figuras, e que regressaram ao seu anonimato, no desemprego ou com empregos precários e recibos verdes, mas, na maioria dos casos, conformados com o seu carrito e cartão multibanco, podem seguir-lhes o rasto na televisão ou em revistas de cunho social como a Caras e dizer: “vês aquele ministro, meu filho, pintávamos paredes juntos quando tinha a tua idade”, “Maria, aquele corajoso camarada agora vai administrar alguma coisa no Iraque”, “António, a nossa camarada de 74 agora é da Judite, está todos dias nas notícias”, “sabes quem agora é deputado do PS, é o grande agitador Batista”, “lembras aquele jornalista que ficou com as G3, agora escreve que precisamos de mais segurança…”, “quem agora é Governador Civil é aquele camarada que recitava emocionado as poesias do Mao Tsé Tung”.
Todos eles ficarão no panteão da nossa memória ao lado de Marx, Engels, Lenine, Trotski, Estaline e Mao, para nunca mais esquecermos que quem trava a luta social tendo por objectivo o Poder, nunca é confiável e que só será possível um outro mundo quando os debaixo forem capazes de cuspir na cara dos candidatos a dirigentes e caminhar autónoma, colectiva e igualitariamente, não esquecendo que é pensando com suas cabeças e duvidando da fé dos iluminados, que algo de novo pode surgir. Para que isso venha a ser realidade um dia ou, pelo menos, para que as várias infâmias travestidas de vermelho que vimos no século XX não sejam mais possíveis, é preciso contar uma história aos nossos filhos, ou aos nossos netos, que deveria iniciar-se assim: “Há muitos, muitos anos atrás, conheci uns filhos da puta com ares de iluminados (ainda hoje fico a pensar, como o Alberto Pimenta se já se nasce filho da puta ou se alguém se torna assim com o tempo), que agora são famosos e comem nas mesas do Poder, conheci também outros que se contentam em mastigar as migalhas que vão caindo da mesa. Vou contar-vos como todos eles começaram as suas carreiras atrás de bandeiras vermelhas…”

Manuel de Sousa

publicado na revista utopia nº17

12/02/2009

Uma voz internacionalista em Israel

O que é uma bandeira.

Uma tentativa de apresentar uma perspectiva internacionalista sobre a actual situação na Cisjordânia depois do ataque israelita à faixa de Gaza.

Muita gente em Israel recordará uma coisa dos protestos do sábado, 03/01/2009: que os organizadores foram à Corte Suprema para ter garantias de que lhes seria permitido utilizar uma bandeira palestiniana.

Agora, eu sou a favor de que qualquer um possa ir a toda parte com a bandeira que quiser ou sem bandeira. Mas cabe perguntar-se: Por que levar a bandeira da Palestina que é a mesma que anteriormente a OLP utilizava?

O objectivo destes protestos é, supostamente, o de deter o ataque a Gaza. O que tem a ver a bandeira palestiniana com isso? Podem nos dizer que: “Bom, é um apoio à Resistência palestiniana” A essa resposta eu replicaria: “De que resistência palestiniana estamos falando?“. Na faixa de Gaza os palestinianos mais sensatos desejariam era pôr-se a milhas da área atacada, e não resistirem sendo bombardeados. E o que significa resistir sendo bombardeado? Acenar aos combatentes que chegam?

Esta bandeira representa o nacionalismo palestiniano, da mesma forma que a bandeira israelita representa o nacionalismo israelita. Agora, muitos dos leitores deste site [Israel indymedia] provavelmente poderão associar o nacionalismo israelita com a violência, a opressão, e com o delgado véu que utilizam os capitalistas para ocultar a sua dominação no nosso país. Mas por que não aplicamos a mesma análise ao nacionalismo palestiniano?

Como dissemos, os palestinianos na Cisjordânia estão sendo brutalmente oprimidos e reprimidos quando tentam protestar contra essa mesma guerra. Por quê? Porque a Autoridade Palestina não quer nem ouvir crítica alguma nem mover-se o mínimo da sua autêntica razão de ser, subcontratada que foi por Israel para o controle dos Territórios Ocupados .

Há exactamente alguns meses, esses mesmos líderes do Hamas, agora escondidos em seus bunkers e complexos de segurança, gravando suas mensagens de resistência ao “seu” povo, recusaram pagar aos professores, destruíram os sindicatos palestinianos, mataram palestinianos inocentes nas ruas quando se enfrentaram com os seus concorrentes da Fatah. Além disso atiram rockets ao acaso contra alvos civis em vez de destinar recursos para melhorar verdadeiramente a situação dos palestinianos superexplorados e desempregados.

Enquanto protestamos contra o brutal bombardeamento de Gaza por parte do nacionalismo israelita, devemos também recordar que o nacionalismo palestiniano é simplesmente menos poderoso, porém não menos brutal. Infelizmente a polémica sobre a bandeira contribui para fortalecer o nacionalismo como um ideal, tornando mais fácil desqualificar quem se oponha ao governo, pois o converteria automaticamente num apoiante do “inimigo”.

Claro que, sendo cínico, há um bom motivo para o fiasco destes protestos. Este protesto tinha sido convocado pela frente Hadash do Partido Comunista Israelita, um dia antes do início oficial da campanha eleitoral deste partido. E a Hadash precisa estender a sua base eleitoral entre os eleitores nacionalistas palestinianos do interior da Linha Verde[1] para manter a sua presença eleitoral nas próximas eleições face às ameaças que representam partidos como os Nacionalistas Seculares (Al-Tajmua) e o Movimento Muçulmano. E isto, uma vez mais, é jogar o jogo do nacionalismo, e em última análise dos capitalistas.

E isso só conduzirá a uma repetição de ciclos de violência que não poderão desaparecer até que compreendamos que esses nacionalismos não fazem mais do que turvar-nos a consciência e impedir que nos fixemos na questão essencial: que estamos sendo enviados para matar e morrer, e competir, ao serviço de pessoas que não servem os nossos interesses mas sim os seus próprios. E isto vale tanto para Israelitas como para Palestinianos. Desatemos o nó górdio do nacionalismo de modo a seguirmos o nosso caminho de uma melhor vida para todos.


[1] A Linha Verde separa Israel da Cisjordânia.

Artigo escrito em Israel, publicado no Indymedia Israel, em libcom.org e em português na página web da CCI. Alterei a tradução desta última.

12/02/2009

O que é a «comunicação Social»?

por JÚLIO HENRIQUES

No n.º 5 da Utopia, Mário Rui Pinto deu a uma útil e pertinente resenha de comentários sobre o anarquismo, vindos a lume na imprensa, o título de «O anarquismo na comunicação social em 1996». Esta expressão, comunicação social, empregada correntemente em Portugal, não é porém, a meu ver, nada inocente e merece que a gente se detenha nela.

A sua origem, no vocabulário português e como substituto da palavra imprensa, parece remontar a um pouco antes do 25 de Abril de 1974, tendo esta curiosa congregação de vocábulos sido forjada, segundo Afonso Praça, no sector jornalístico católico. Julgo no entanto que só após o 25 de Abril a expressão se generaliza. A sua generalização decorre provavelmente do facto de em 1974-75 ter acontecido na sociedade portuguesa uma verdadeira comunicação social, no decurso do movimento revolucionário dos trabalhadores que começou por libertar a palavra das suas cangas, pondo as pessoas, pela primeira vez, a comunicar entre si directamente, ou seja, socialmente, sobre as questões essenciais, todas elas relativas a uma possível libertação da tirania económica.

Não obstante, já então foi abusiva a perfilhação, pelos jornais, rádio e tv, deste cognome para designarem a sua actividade, embora o clima de exaltação decorrente do fim da censura suscitasse a ideia de que a imprensa deixaria de mentir organicamente, aceitando-se nessas condições como coisa natural que os jornais, a rádio e a televisão pudessem transformar-se em instrumentos da comunicação social que alastrava no terreno público. E, de resto, durante certo tempo (que durou pouco) alguns jornais chegaram de facto a ser veículos de transmissão daquilo que os colectivos de trabalhadores e moradores formulavam com vista a uma vida livre da pobreza, da exploração, do medo e da mentira.

Seja porém como for, parece-me inaceitável acolhermos hoje, acriticamente, semelhante terminologia. O acasalamento destas duas palavras é uma clara mistificação, ou automistificação. A linguagem da imprensa, seja ela escrita ou falada, é sempre unilateral, e com a evolução da dependência de todos estes organismos (que antes de mais nada são empresas) perante os grupos financeiros seus proprietários, aquilo que em geral difundem vai-se equiparando a simples propaganda estatal e económica, ainda quando indirecta (como acontece com tudo o que diz respeito à praga futebolística, tão omnipresente como foi no fascismo, ou ainda mais). O caso da televisão é o mais evidente, e só por abuso de linguagem se pode chamar informação àquilo que esta vomita, contaminado como se encontra o terreno «informativo» onde ela assentou arraiais; mas a rádio, os jornais e as revistas de grande tiragem seguem-lhe as pisadas a muito pouca distância. A televisão, o órgão da máxima vulgaridade, é o critério por que se regem os outros meios de massas; é aliás um fenómeno que podemos observar todos os dias, se tivermos estômago para tanto.

A expressão comunicação social implica reciprocidade, implica a impossibilidade de alguém, entidade ou indivíduo, exercer um poder incontestável na sua manifestação imediata. Dá-se aqui, por conseguinte, no caso desta nomenclatura recuperada, uma típica inversão de significados, em que o capitalismo da fase reformista se tornou pródigo ao procurar proceder a uma domesticação sistemática por indução cultural.

A difusão pacificada desta novilíngua pode comparar-se à acção de um vírus — de um vírus conceptual cujo efeito, aparentemente anódino, consiste, por ricochetes sucessivos, em desarmadilhar a linguagem crítica, tornando-a inócua. Não podemos, é óbvio, falar a língua do inimigo quando tratamos de formular uma desmontagem das suas instâncias de poder — porque este poder começa, justamente, na nomeação, na apropriação da língua em conformidade com os objectivos económico-estatais. Seria sem dúvida útil registar as múltiplas expressões deste quilate que a imprensa carreia, das mais simples às mais complexas, e tentar analisá-las. Estou a lembrar-me de uma outra: a palavra populares para designar um certo número de pessoas agindo de determinada maneira numa ocorrência. Em prosas deste género: um grupo de populares manifestou-se ontem diante da Câmara Municipal…; os populares que assistiram ao acidente…; muitos populares aplaudiram o vencedor… etc. Podemos nomeadamente verificar que a palavra, nesta acepção, tem uma clara conotação paternalista e pejorativa, decorrente do papel «superior» que o jornalista imagina exercer e do estatuto de inferioridade desses tais «populares». Pois por que razão não escreve ele, ou diz, pessoas, muito simplesmente? Substituindo populares por pessoas, a diferença salta à vista.

Outra questão é a dos termos a empregar para referir, pelo menos com menor irrealidade conceptual, esse conjunto de coisas a que em inglês se chama mass media. Chamar-lhes mídia, como fazem os brasileiros, é uma solução desastrosa: traduzir meios por esta corruptela é acrescentar nebulosidade a uma confusão. Agustín García Calvo, que além de um vigoroso poeta é um atento filólogo, forjou, em Espanha, a expressão «meios de formação de massas», que, ao curto-circuitar a fórmula «meios de informação de massas», já contém a crítica daquilo que designa; parece-me uma enunciação excelente. Como se trata duma expressão comprida e na linguagem coloquial tendemos a encurtar os conceitos, julgo poder-se apropriadamente abreviá-la, nas circunstâncias da fala, para uma expressão mais curta: meios de massas. Que afinal, e cá chegamos, é a exacta tradução de mass media

E, de facto, por que razão usarmos subterfúgios? Mídia é-o por criar um neologismo sem substância, comunicação social porque reveste com uma impostura aquilo que pretende designar. A expressão inglesa não revela apenas uma grande capacidade de síntese. Sem cerimónias, dá a estas coisas nomes «brutais», ou seja, pragmáticos, mas por isso mesmo mais simplesmente verídicos: porque os comuns jornais, revistas, rádio, televisão, cinema & o resto são efectivamente meios (de propaganda, de formação1) destinados a massas de indivíduos. Meios que este desígnio define perfeitamente logo à partida.

Estas questões não me parecem de somenos importância. Ao adoptarmos, por mero hábito, a terminologia da ideologia dominante (a que também podemos chamar poder estatal em sentido amplo), estamos necessariamente a resvalar para dentro dela — pelo menos no plano linguístico. Ora a linguagem da nomeação, que define, pedagogiza e orienta, mostra-se cada vez mais determinativa numa sociedade que tende (contra todas as aparências) para a uniformização, através do controle mental difuso e benfazejo.

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1 Sobre a noção de formação, criticamente enunciada por Agustín García Calvo, podemos reter também esta pertinente interrogação de Alexandra David-Néel: «Como pode um indivíduo que foi formado, ou seja, cuja natureza foi modificada para o levarem a parecer-se com um “modelo t
ipo”, falar da sua própria liberdade?» (Cf. Pela Vida, Antígona, p. 84.)

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Publicado no º 6 da revista Utopia.

08/02/2009

PARTILHAR A REVOLTA


Uma mulher do Quebeque em El Salvador e no Brasil

Revolta camponesa nas Américas
Revolta camponesa nas Américas

Anite, filha de emigrantes portugueses de Montreal,
empenhada no movimento estudantil e em colectivos feministas, esteve em El Salvador e no Brasil, onde encontrou homens e mulheres ex-combatentes da FMLN e camponeses do Movimento dos Sem Terra. É desta experiência que nos fala, com um olhar lúcido sem o qual a palavra solidariedade perde todo o sentido.

CR: ONDE ESTIVESTE PRIMEIRO?

Anite: Em 1994 fui a El Salvador, logo a seguir aos acordos de paz. Chegámos a uma pequena comunidade camponesa, desprovida de tudo, a quem tinham sido entregues algumas terras. O nosso objectivo consistia em ajudar as pessoas de lá a construírem uma escola, mas o projecto não foi muito longe. Passado pouco tempo, entrei em contacto com pessoas, ligadas ao Partido Comunista, que tinham feito parte da guerrilha da FMLN (Frente Marxista de Libertação Nacional). Nessa altura, um dos debates na ordem do dia era sobre a formação da nova polícia nacional civil. A FMLN tinha investido muito neste projecto, pensando integrar nesta polícia uma parte dos seus guerrilheiros. Isto suscitava-me muitas dúvidas, porque criar uma polícia era o mesmo que preparar uma acção repressora. A maior parte das mulheres da guerrilha nem sequer podiam integrar-se nela, por não terem a estatura mínima prevista… Para mim, de resto, que fossem homens ou mulheres vinha a dar ao mesmo: era uma polícia! Além disso, falava-se deste corpo policial quando o direito de manifestação nem sequer fora restabelecido!

Os homens e as mulheres que tinham estado na guerrilha, diziam-me: «Tens razão, mas nós estamos confiantes.» E eu respondia-lhes: «Vocês estão mesmo confiantes, ou é o partido que vos pede que estejam? Os dirigentes da FMLN apoiam políticos que negoceiam com o partido no poder, a ARENA; esta e a ONU organizam a vossa polícia civil e o povo vota na FMLN. No dia em que o povo se revolte, faça greve e seja reprimido pela nova polícia, como irá a FMLN justificá-lo? No lugar do povo, eu cá concluirei que a FMLN traiu.» Não gostaram do que eu disse. Mas eu não ia ficar calada só por não ter nascido em El Salvador ou por não ter participado na guerra. Eu acho que ninguém tem o direito de me dizer que a minha opinião não é válida só por eu não ter nascido em determinado sítio. Já tive de aturar coisas dessas no Quebeque, como filha de emigrantes. Lá em El Salvador, tinha-lhes sempre dito que não era cooperante, que não tinha vindo só para estudar a situação, que partilhava a revolta deles.

Havia também a questão dos acordos de paz. A FMLN depusera as armas de acordo com a ONU. Tinham lutado por uma vida melhor, por uma reforma agrária, por menos exploração, e às tantas, de repente, não viam garantia nenhuma de reforma agrária ou de melhores salários. À noite, quando voltavam para casa, os ex-guerrilheiros continuavam a passar por atalhos. Durante as eleições, tinham sido abatidos militantes, homens e mulheres, candidatos da FMLN. Ao entregar as armas, a FMLN fora obrigada a declarar a totalidade dos seus militantes. Aliás, já não se podia falar de guerrilha clandestina, mas sim de Exército da FMLN, com um número x de homens, mulheres e espingardas… E todos se viam agora com um cartão da ONU no bolso, bem identificados! Aquilo enraivecia-me: «Parabéns! Agora que já sabem quem tu és e como te chamas, já te podem liquidar quando quiserem!» Nunca vivi uma situação de guerra. Mas parecia-me que nunca teria entregue as minhas armas à ONU. Mais valia fugir do país. Mais valia estar longe dali do que ver-me identificada daquela maneira.

Soube mais tarde que nem toda a gente tinha deposto as armas. A organização declarara pessoas que nunca tinham feito parte da guerrilha e que na prática cobriam quadros da organização mantidos na clandestinidade. À primeira vista, isto pareceu-me mais inteligente, mas pensando melhor vi que era uma atitude típica de organização vertical. Todos quantos voluntariamente tinham dado o nome, ficavam doravante vulneráveis perante o Estado, ao passo que os dirigentes se mantinham na sombra, protegidos. Aquilo não me agradava inteiramente…

A Revolta das Mulheres

Um ano depois, em 1995, decidi voltar para lá para trabalhar com grupos de mulheres. Em 94, as organizações que eu tinha frequentado eram muito hierarquizadas e em maioria compostas por homens. o Partido passava antes de tudo e a organização comunitária apenas servia para transmitir a ideologia do Partido. Eu queria agora ver como funcionavam as coisas do lado das mulheres. Nessa altura, as organizações femininas reivindicavam a sua independência e autonomia para com os partidos. Em 95, a FMLN estava a transformar-se em partido e formavam-se tendências. Os grupos de mulheres aproveitaram a ocasião para reclamar mais autonomia e a possibilidade de trabalharem no seio das organizações comunitárias sem estarem ligadas ao partido.

O grupo de mulheres que nos recebeu estava organizado na ADEMUSA (Associação das Mulheres de El Salvador) e punha a seguinte questão: serão compatíveis o grupo de mulheres e o grupo político? Por seu intermédio, encontrámos duas militantes do Partido Comunista que eram mulheres com uma formidável experiência política. Sentiam-se algo decepcionadas com o processo de paz que permitira a desmobilização da guerrilha e do movimento social. O trabalho deste grupo consistia em sensibilizar as mulheres do meio urbano para os problemas da violência, da saúde e da educação. O nosso grupo fazia uma abordagem feminista muito antropológica, ou seja, não reivindicávamos a defesa das mulheres contra os homens mas sim a luta por um género humano diferente, com atitudes diferentes.

Com as comunidades camponesas, a ADEMUSA pusera de pé um original sistema de ajuda. As camponesas podiam pedir dinheiro emprestado a uma caixa comunitária para financiarem as suas plantações. Não era a organização de cooperativas, era uma forma de entreajuda que me parecia justa. Se uma determinada camponesa não podia devolver o dinheiro, por causa da seca ou de outra coisa, a terra era partilhada igualitariamente entre todas. Punha-se, no entanto, um problema: as mulheres recebiam o dinheiro e os homens gastavam-no. Ora, a prazo, o equilíbrio do sistema ficava assim ameaçado. Também nisso a relação de poder entre os homens e as mulheres se tornava determinante. A contragosto, a ADEMUSA viu-se obrigada a pedir aos homens que co-assinassem os empréstimos, para eles se comprometerem também.

Neste segundo ano, encarei a sociedade de modo diferente. Ao trabalhar com os grupos de mulheres e com os camponeses, homens e mulheres, apercebi-me de que nem tudo ia por bom caminho. As pessoas começavam a criticar a ideia duma polícia civil, dizendo abertamente que as tinham enganado. A esperança de 94 esfumara-se. Ao viver com as mulheres, uma pessoa sente os problemas da sobrevivência no quotidiano, ou seja, aquilo a que chamo a dupla ou tripla opressão. A revolta das mulheres é menos intelectualizada e passa por menos mediações, é mais espontânea e mais directa. Por exemplo, eu tinha encontrado uma mulher que estivera na guerrilha nos anos 70 e a quem tinham dado uma leira de terra. Esta mulher era muito crítica. Segundo dizia, a situação agravara-se após os acordos de paz. Dizia até que tinha saudades da época da guerrilha, da comunidade de luta e do funcionamento igualitário que então imperava. Não acreditava na política oficial, eleitoralista, da FMLN. «Os que dantes tinham
tudo, continuam a ter tudo, e os que não tinham nada, hoje ainda menos têm!» Sentia-se também muito revoltada com a reforma agrária, porque só quem tinha algum dinheiro podia pagar as terras pretensamente distribuídas. Na realidade, isso era conforme as regiões. Onde a guerrilha fora poderosa e onde o campesinato se mostrara muito combativo, as terras haviam sido ocupadas. Tendo em conta a relação de forças nestas zonas, os membros da FMLN tinham podido negociar a distribuição das terras com o governo e os proprietários. Mas estávamos longe duma reforma agrária.

Em três comunidades próximas do P.C., situadas em sítios diferentes, uma comunidade conquistara as terras, uma outra ocupava-as, esperando que lhe fossem concedidas, e a terceira comprava-as. Nesta última, as pessoas podiam escolher entre comprar as terras de modo colectivo ou individualmente. É claro, iam endividar-se, mourejar e a seguir perder novamente as terras em proveito dos bancos, porque nunca conseguiriam pagar os créditos. Nunca poderiam tornar-se competitivas. Na comunidade onde estávamos, o Partido Comunista incitava os camponeses a trabalharem a terra colectivamente. Mas ninguém queria saber. A mentalidade era muito individualista, mesmo quando a comunidade conseguia construir uma escola. Para isto, cada família dava umas tantas horas de trabalho por semana. Eram na maioria refugiados, camponeses, homens e mulheres, vindos de outras regiões. Havia também antigos combatentes de ambos os sexos, bem como pessoas da região que tinham apoiado a guerrilha e se viram obrigadas a fugir. Em 1994, a comunidade tinha acabado de se instalar e eu não tinha visto nenhumas separações entre as casas, nenhumas vedações. Um ano depois, cada família vedara o seu lar, o seu terreno, instalara portas e ferrolhos. Aquilo espantou-me. A comunicação no espaço já não existia. Os únicos que o não tinham feito eram os homens e as mulheres que partilhavam a ideia da colectivização. Quanto aos outros, nada se passara no seu espírito. Sempre aquela ideia de que uma pessoa pode viver mais facilmente na sociedade se agir individualmente.

Havia mesmo um debate sobre os prós e os contras da colectivização, ou isso não passava duma palavra de ordem política vinda de cima? Estou a pensar naquela magnífica passagem do filme de Ken Loach, “Tierra y Libertad”, quando os camponeses e os milicianos discutem juntos sobre a opção da colectivização.

Onde eu estava, nunca assisti a tais debates. Sei que em 95 alguns camponeses, homens e mulheres, se tinham agrupado para comercializarem os seus produtos. Visto daqui, isto parece não valer grande coisa, por continuar no contexto mercantil, mas eu vejo nisso um começo de associação entre as pessoas. Como por acaso, eram pessoas que tinham participado na guerrilha. Estive também numa outra comunidade onde as terras tinham sido ocupadas pelos camponeses. Nesta, só alguns membros tinham participado na guerra, mas todos tinham vivido uma experiência de solidariedade, escondendo em suas casas pessoas da FMLN. Emanava de tudo isso um forte espírito comunitário e tinham mesmo ocorrido realizações colectivas concretas: uma creche, uma escola, um posto de saúde. Segundo percebi, as terras não eram colectivizadas, sendo-o todavia as sementes e a comercialização dos produtos.

Estas experiências deram-me muito que pensar. No primeiro ano, fui convidada a falar em público, em nome da solidariedade internacional. Pedi aos camponeses, mulheres e homens, que trabalhassem com a FMLN. Naquela altura, a direita também prometia fundos para a agricultura, fundos esses que nunca chegariam às mãos das pessoas. Com a FMLN, o dinheiro apesar de tudo chegava às mãos do povo. Mas no segundo ano disse a mim mesma que já não podia falar às pessoas daquela maneira, visto conhecer melhor a situação e ter menos ilusões. É certo que precisamos sempre de esperança, de acreditar nalguma coisa…

Mas o que é que me tinha levado a mudar de opinião? Em 95, a FMLN estava a atolar-se nos compromissos do acordo de paz. O que estava em jogo, cada vez mais, eram arranjos políticos e a população continuava a viver na mais absoluta miséria. A esperança na FMLN já não existia. Continuavam a dizer às pessoas que era preciso acreditarem e terem confiança, quando os próprios dirigentes já não acreditavam. O choque veio em 95, quando vi a FMLN votar com a direita, no parlamento, a repressão duma greve! Só um deputado da FMLN, Dagoberto, um comunista, votou contra.

Houve prisões, operárias e operários foram atirados para a cadeia e eu soube por amigos e amigas que nas fábricas e nas associações de bairro os trabalhadores, homens e mulheres, pediam contas à FMLN. Exactamente o que eu receara em 1994: «Um dia destes vai haver uma greve e vocês vão reprimi-la com a polícia nacional civil. O antigo combatente, agora polícia, irá prender o trabalhador, estando ambos no mesmo partido político, pretensamente oposto ao regime.» Tudo isso me perturbou imenso. Hoje, seja qual for a guerrilha, já nem sequer ponho a mim mesma a questão, sei como a coisa funciona e aonde leva: tomarem o poder para fazerem a mesma sujeira. Deixei de acreditar nisso. Hei-de mesmo bater-me contra isso!

CR: FOSTE DEPOIS PARA O BRASIL…

Fui para lá em 1996, com um grupo de Organizações Não Governamentais alternativas que trabalhavam com o Movimento dos Sem Terra (MST). Fomos ter a uma cooperativa agrícola situada no Estado de São Paulo. A cooperativa, formada por cinco comunidades agrícolas, preparava-se para ocupar terras com vista a formarem uma sexta, chamada Comunidade Chico Mendes, do nome do militante camponês e ecologista assassinado. Para evitarem uma eventual acção policial, as camponesas e os camponeses tinham instalado as suas cabanas nas terras da cooperativa já existente. Do outro lado da estrada estava a terra que iam ocupar. Uma noite, a assembleia camponesa decidiu proceder à ocupação manhã cedo. Perguntaram-nos: «Vocês querem participar?» E nós dissemos que sim. A maneira como eles procedem à ocupação não consiste em colocar uma bandeira no terreno nem em construírem casas. Ocupar significa cultivar a terra. Era época de sementeiras e por isso impunha-se agir com presteza. Mal as pessoas tinham começado a trabalhar, chega um tipo, representante do proprietário. «Esperem aí! O processo legal ainda não foi concluído, tem de seguir seus trâmites, pode ser que vos vão ceder a terra, etc…» Deixaram-no falar, o tipo falou durante uma boa meia hora, as pessoas ouviram-no calmamente, de braços cruzados. No fim, um dos camponeses do MST retorquiu-lhe: «O processo jurídico é uma coisa. Vocês têm seus advogados, nós temos os nossos. Isso passa por onde tem de passar, seguindo seus trâmites normais. Mas nós, se queremos comer, temos de cultivar já essa terra.» Era tão simples como isto. Muito concreto.

A Distribuição Segundo as Necessidades

Fiquei desde logo impressionada com o forte sentimento de solidariedade. Em cada ocupação, os membros das diversas comunidades vinham prestar assistência à nova comunidade ocupante. Os membros da cooperativa onde nós estávamos viviam bastante bem; comiam carne, tinham leite e cereais. Além disso, forneciam víveres ao acampamento Chico Mendes. Pessoas do acampamento trabalhavam por fora, nas propriedades da aldeia mais próxima, trazendo um rendimento complementar para a colectividade. A maior parte eram camponeses pobres, homens e mulheres daquela região, mas havia também pessoas vindas das favelas de São Paulo. É o resultado da acção desencadeada pelo MST nas favelas: «Vocês são antigas camponesas e antigos camponeses. Nunca vão achar trabalho na cidade. Venham ocupar terras!» Isso faz que as pessoas que tomam essa decisão são muito decididas e motivadas. Segundo o espírito do movimento, cada família fica depois livre de participar ou não na cooperativa. Uma pessoa pode perfeitamente participar numa ocupaç
ão sem por isso ficar obrigada a fazer parte da cooperativa. Todos os militantes do MST me diziam que nunca tentam convencer as pessoas a colectivizar as terras. Após cada ocupação, havia um debate sobre esta questão, mas as opções eram livres. Na maioria das comunidades onde estive, as terras eram colectivizadas, apesar de cada família ficar com um quintalzinho. Mas lembro-me também duma comunidade onde algumas famílias tinham recusado a colectivização e mantido as suas leiras. Convém lembrar que todas estas experiências são recentes. As primeiras ocupações datam de há uma dúzia de anos e as terras só são colectivizadas desde há três ou quatro anos. Tudo isso significa um enorme trabalho de organização. Antes da ocupação, um acampamento é a confusão. Uma cooperativa tem uma vida colectiva bem organizada: animais, plantações de árvores e de flores, colmeias. Não direi que as comunidades eram ecológicas, mas há nelas respeito pela natureza. Cada família ou indivíduo tem a sua representação no comité da cooperativa. Todos levam a peito que as pessoas se possam exprimir. Tenta-se de respeitar este princípio: a cada família o seu sustento. Uma família com quatro filhos terá com que os alimentar, mesmo no caso de apenas fornecer a mesma quantidade de trabalho que uma família com dois filhos. A distribuição faz-se segundo as necessidades de cada casa. Tudo isto em quatro anos! Disse para comigo que valia mesmo a pena fazer tais ocupações!

A Acção Directa Contra a Hipocrisia Política

Faço aqui um parêntesis para comparar a situação do Brasil com a de El Salvador. As condições são muito diferentes. Em El Salvador, a guerra civil esgotou por completo as energias. As pessoas não podiam ir ocupar terras quando a aviação andava a bombardear a montanha… De resto, o objectivo do governo consistia em destruir toda e qualquer produção agrícola, para impedir que a guerrilha se alimentasse. No Brasil, o campesinato pobre leva a cabo ocupações desde já há bastante tempo. O MST é hoje muito conhecido porque a repressão se intensificou, com o assassínio de muitos dos seus militantes, mulheres e homens, pelo exército e pela polícia, como aconteceu na comunidade Macacheira, no Estado do Pará, no Norte do Brasil. Em El Salvador, a opção era entre morrer de fome ou morrer de armas na mão. No Brasil, a opção está entre morrer de fome ou ocupar uma terra para sustento. É muito diferente! Sou jovem, mas desde que nasci, vi sempre, em Portugal, no Canadá, no Brasil, em El Salvador ou nos Estados Unidos que o ser humano muito dificilmente se deixa morrer de fome. Mesmo que seja preciso roubar ou matar, o ser humano fará isso, para poder comer. Em El Salvador, a política, os acordos de paz, os dinheiros a obter aqui e ali, tudo acabou por neutralizar as práticas de acção directa. No Brasil, a resistência dos grandes proprietários é enorme, não querem ceder terras nenhumas nem vendê-las. As pessoas estão encurraladas, só lhes resta a ocupação. É um movimento de massas muito decidido, e as pessoas hão-de prosseguir mesmo que disparem contra elas.

É certo que não devemos esquecer que por detrás do MST também há antigas forças políticas e sindicais com implantação na sociedade brasileira, o PT (Partido dos Trabalhadores) e a CUT (Central Unida dos Trabalhadores), embora os elos entre estas três organizações pareçam estar cada vez mais soltos. Há também uma grande variedade de correntes políticas mais ou menos organizadas, dos maoístas aos católicos da Teologia da Libertação. No interior do MST exprimem-se diferentes ideologias. Aliás, a escola de formação de quadros do MST baseia-se nas ideias políticas do maoísmo, do Che e de Zumbi (o mais conhecido dos dirigentes das revoltas de escravos negros do século XVII, os Quilombos). Pessoalmente, não acho necessários os ensinamentos maoístas ou guevaristas para as pessoas ocuparem e cultivarem uma terra… Pelo contrário, estas ideologias podem mesmo tornar-se um freio à livre vontade de as pessoas ocuparem terras e governarem as suas vidas. O passado político do socialismo demonstrou a que ponto os maoístas eram e são ainda aves de rapina, uns chefes que se aproveitam das lutas dos outros para atingirem os seus fins políticos. Hoje em dia, o representante oficial do MST, Stédile, faz o elogio de Marcos e dos zapatistas. Por mim, desconfio. A guerrilha dos tempos contemporâneos não poderá esconder durante muito tempo a sua hipocrisia política por detrás do capuz embuçado. Convém sermos claros: a maioria dos dirigentes do MST são apóstolos das ideias da esquerda reformista tradicional, remetendo para um futuro longínquo o advento da justiça social. Levam a cabo a luta em prol da reforma agrária no quadro do sistema capitalista actual, que não parecem pôr em causa. Mesmo se isso melhorar as condições de vida de muitas pessoas, as reformas continuam a ser reformas e o sistema em vigor mantém-se em vigor, bem como a propriedade privada e os proprietários. É certo que na prática as coisas não são tão simples como em teoria. Mas, por mim, digo que se militasse no dia a dia do Brasil, falaria de ocupações em prol da abolição da propriedade privada e não de reforma agrária. Por que razão continuar falando de reformar o velho mundo em vez de se inventar um mundo novo? Nunca se fala em agir em prol duma sociedade assente em bases novas. Nunca o MST vem clamar «abaixo o Estado», nem sequer «autogestão generalizada sob controle popular». Não encontrei libertários activos no seio do MST. Talvez existam. Em contrapartida, vi muitos quadros do PT com um interesse muito preciso: obter proveito eleitoralista com estas revoltas.

«Porquê comprar a terra, se ela nos pertence?»

Podemos fazer uma análise sociológica ou até jornalística das situações. Se formos militantes dum partido, detemo-nos nas formas de organização ou nas situações que reconfortam as nossas análises. Quanto a mim, fui sempre uma sem-partido, mas declaradamente partidária da base. Em El Salvador e no Brasil, quis ir mais longe que a simples rejeição desta ou daquela situação, pessoa ou organização, com o pretexto de que estavam enfeudadas a um partido ou a uma ideologia. Em cada acção humana há a riqueza da revolta contra as nossas condições de exploração, e isso não há partido nem ideologia que o possa completamente desviar. Ao ir ver por detrás do espelho que estas pessoas me entendiam, quis encontrar o autêntico. Enganei-me muitas vezes, mas também vi a vida verdadeira em acção.

Acontece portanto que nas cooperativas, as camponesas e os camponeses mais implicados se encontrem ligados a grupos políticos. Era o caso da dirigente duma das cooperativas onde estive. Gostei muito desta mulher e, para mim, o facto de ela ser membro dum partido não alterou em nada o meu sentimento. O que ela tinha feito da sua vida, o que tinha construído, fizera-o ela própria com os seus camaradas. Não fora o PT que o fizera por ela, mesmo tendo-lhe servido de apoio. Esta mulher vinha do Norte. O seu pai era um camponês sem terra. Ela tinha emigrado para São Paulo para trabalhar e economizar dinheiro, com a ideia de voltar para a aldeia e comprar uma terra. Era o seu sonho. Vivia numa favela e um belo dia decidiu partir com o MST, para ocuparem terras. Dizia-nos: «Quando eu era moça, nem podia imaginar que algum dia ia voltar aqui, obtendo uma terra sem pagar!» Era uma mensagem importante: porquê comprar a terra, quando ela nos pertence? Podemos ocupá-la!

Nem todas as mulheres que encontrei eram desta têmpera. Um dia fui ouvir Erundina, a dirigente do PT que foi chefe municipal de São Paulo. Tinha uma voz forte e calorosa, falava muito bem e sabia enfeitiçar a gente. O que ela dizia parecia-me formidável. Até à altura em que disse: «Se votarem por mim, se eu ganhar o poder, farei isso, farei aquilo.» Disse então para comigo: «Mas fazer isso como? Os capitalist
as vão-te financiar? Essa é mesmo boa! O país está corrompido de A até Z, toda a gente compra toda a gente, e você vai fazer isso tudo só por ser eleita, é?» E comecei a ter arrepios no corpo todo, senti-me mal perante esta demagogia. Por vezes o PT pode parecer menos mau que os outros partidos, por ser menos corrompido. Mas ele só pode fazer aquilo que os capitalistas e os financeiros permitirem. Nos municípios que controla, acontece o PT realizar projectos financiados pelo FMI e pelo Banco Mundial. Não passa de um partido da esquerda tradicional que tem a ambição do poder. Estou convencida de que o PT seria o primeiro a opor-se a qualquer verdadeiro movimento de autogestão social. No MST e no movimento associativo brasileiro, há muitas mulheres. As mulheres têm uma enorme capacidade de sobrevivência e tornam-se facilmente o motor destes movimentos. Não é aliás específico a El Salvador ou ao Brasil. Desde há séculos, as mulheres foram isoladas na economia familiar, na economia local ou comunitária. Agora, as mulheres são maioritárias nas organizações e nos movimentos de base. É certo que há comportamentos políticos que tanto são adoptados pelos homens como pelas mulheres. Erundina é disso um bom exemplo. Mas convém dizer que não é porque as mulheres assumam o seu lugar que as suas pessoas e o seu empenhamento se vêem respeitados. Em El Salvador, onde as mulheres participaram maciçamente na luta, foi preciso elas fazerem pressão sobre a FMLN para que esta defendesse o direito ao aborto livre e gratuito, quando na frente de combate as mulheres podiam abortar livremente. Uma vez lançado no eleitoralismo, o partido esquecera a bela filosofia igualitária. As mulheres continuam a ser vítimas de discriminações. Não me surpreenderia que isso ocorresse no Brasil, no MST, embora em teoria a direcção diga respeitar os direitos das mulheres.

Entre Acção Directa e Legalidade

Voltemos à questão do estatuto jurídico da terra. A maior parte das terras ocupadas pertence à zona de aplicação da reforma agrária oficial; são terras que nunca foram distribuídas. Há também as terras distribuídas no início dos anos 70 e que depois os camponeses abandonaram. O Estado dera terras a famílias mas não lhes fornecera os meios necessários à sua exploração e rendibilidade. Por isso, estes camponeses e camponesas, pressionados pelo seu endividamento e debaixo da ameaça, voltaram a vender estas terras a indivíduos com dinheiro. É a evolução clássica em toda a reforma agrária capitalista, que desemboca invariavelmente na concentração da terra. O caso é que no Brasil, do ponto de vista jurídico, tanto a venda como a compra eram ilegais, visto as terras continuarem pertencendo à zona da reforma agrária administrada pelo Estado. Hoje em dia, os movimentos de ocupação são sobretudo motivados por esta situação de ilegalidade. O MST apoia-se nesta contradição e as comunidades que ocupam acabam quase sempre por fazer reconhecer o seu direito legal às terras ocupadas. É bonito, porque as pessoas se mobilizam, mas ao mesmo tempo são ocupações legais e as pessoas vivem-nas enquanto tais. Talvez isto retire ume parte da magia e do mito da ocupação, da acção directa. Os proprietários ilegais, quanto a eles, obtêm também um pequeno lucro com esta situação, visto receberem por vezes dinheiro do governo. Mas reagem menos violentamente às ocupações do que os outros proprietários. Talvez por saberem que estão na ilegalidade. Há também ocupações que se fazem num quadro ilegal, as das grandes propriedades privadas. Trata-se neste caso de algo que não é uma simples pressão para a aplicação da lei. Quando o MST fala de vitória, refere-se em geral às ocupações legais. Porque, nos outros sítios, sobretudo no Norte e no Nordeste, as pessoas são baleadas e assassinadas. Mesmo nas ocupações legais, numa ocupação calma como aquela em que participámos, o risco está sempre presente. Basta o proprietário, em vez de chamar a polícia, contratar uns cangaceiros para liquidar a cabeça do MST local. No fim de contas, por que razão apelariam eles aos militares, visto disporem do seu próprio exército de mercenários?

Dizes «a cabeça do MST local». O MST é então muito hierarquizado?

Lá, não me dei conta disso. Localmente, há uma representação e um representante do MST. Vivíamos nas terras, tivemos pouco contacto com o aparelho da organização. Visto de fora, o MST parece muito estruturado e hierarquizado. Isso inquieta-me um pouco quanto à orientação das ocupações. Há quem pense que o actual governo de Fernando Henrique Cardoso joga numa pseudoneutralidade nesta questão das ocupações legais, por estar a pensar nas próximas eleições. Deixa andar o MST ao mesmo tempo que encoraja um pouco os proprietários a vender as terras que não cultivam. Apresenta-se assim como o salvador numa situação social muito tensa. Seja como for, nem o MST nem os latifundiários estão satisfeitos com a posição hesitante do governo. No Estado do Pará, antes do massacre de Macacheira, os proprietários tinham apresentado mais de trinta pedidos de expulsão de ocupantes de terras. O governo não deu seguimento a estas solicitações, tal como se recusou a apoiar as acções do MST. Segundo parece, a polícia militar, que assassinou dezanove pessoas, interveio com ordens das autoridades locais estipendiadas pelos latifundiários.

Não posso deixar de me interrogar. A gente desenvolve uma luta, põe nisso toda a nossa energia e fica com a impressão de ter atingido um objectivo. E depois, no fundo, não passamos de marionetas. Quando a coisa interessa ao Estado e aos grandes proprietários fundiários para reduzir as tensões sociais, cedem… Dão-nos tudo, toda a gente acredita, vai-se votar, e continuamos a ser marionetas. Se não for a direita, há-de ser a esquerda quem tira o proveito.

Vivemos num sistema que sempre pôde adaptar-se à barbárie. Há hoje uma sobrepopulação que não é necessária à reprodução do sistema capitalista. É pelo facto de as pessoas lutarem que se cria uma dada relação de forças. Depois, é claro, o poder pode vir a integrar esta luta, tirar vantagem dela. Pensar que as pessoas são marionetas parece-me simplista. Não incomoda o poder que a gente morra por aí aos milhares, nas favelas, nos guetos ou até em países inteiros. Se as pessoas resistem, o poder tem então de correr atrás delas, tentando apanhar o movimento. É este o trabalho dos políticos. Mas entretanto as pessoas adquiriram uma experiência de luta colectiva e obtiveram resultados através da acção directa. Na nossa visão política, não te parece que isto é essencial?

Por certo. Mas eu referia-me ao jogo dos interesses políticos, ao poder de recuperação que as forças políticas têm. Obviamente, é preciso que as pessoas lutem. Também eu diria «ganhámos!», mas sabemos bem que toda a gente fica satisfeita, do governo aos proprietários. Sabemos que qualquer reforma neste tipo de contexto social é coisa efémera.

Agora uma reflexão mais geral, a propósito do Brasil. A questão da terra, as ocupações, não deve fazer-nos esquecer a gravidade do problema urbano, as favelas e a bárbara violência que nelas reina, o extermínio das pessoas e a pobreza em geral. É evidente que uma distribuição das terras reduziria a amplidão dos problemas, inclusive nas cidades. Na realidade trata-se de um problema de repartição das riquezas, ou até de acumulação de riqueza. Para uma minoria, a terra continua representando a riqueza, ao passo que para a maioria ela representa alimento e, por isso, sobrevivência.

Podes falar do trabalho que o MST faz nas favelas?

Fomos à favela de Vigário Real, no Rio de Janeiro. É uma das favelas onde reina a mais terrível violência. O presidente da associação de moradores falou-nos dos seus problemas, acabando na necessidade da reforma agrária. «Se pudéssem
os obter uma reforma agrária viável, isso mudaria radicalmente o que se passa nas favelas.» Ele estabelecia mesmo um elo entre as suas condições de vida e a questão agrária. Os que partem com o MST já amanharam a terra, são camponeses de emigração recente para a cidade. Diz-se que o MST, doravante, conquista adeptos entre os que vivem nas ruas das grandes cidades e cujas condições de vida são ainda piores que as dos moradores das favelas… Muitas vezes só conhecem a monocultura (de café, de cana de açúcar, de tabaco); têm de aprender outras técnicas agrícolas para produzirem alimentos. Com os jovens é diferente. Quando uma pessoa nasce mesmo numa favela, e depois tem quinze, dezasseis anos, o seu modo de vida é muito urbano e não sai de lá para ir fazer a reforma agrária. Ser jovem numa favela, é antes de mais nada ficar confrontado com a realidade da violência, entre a polícia militar e os do narcotráfico.

Para concluir, gostaria de voltar ao MST. Estou convencida que os políticos, as direcções locais e nacional, procuram recuperar a luta destes milhares de pessoas. Deste modo, naturalmente, este movimento pode perfeitamente servir de trampolim para a eleição do político que ficar encarregado de o sufocar. A esperança está na determinação que as camponesas e os camponeses sem terra tenham adquirido na luta, na sua capacidade de autoorganização e na sua vontade de ultrapassar o simples quadro das reformas. Por ter caminhado, manhã cedo, na terra rubra do Brasil, com estes camponeses expropriadores, por ter visto brilhar-lhes nos olhos uma esperança em que tudo é permitido, desejo com toda a minha alma que a luta continue, tanto lá como aqui.

___________
Testemunho recolhido por Charles Reeve em Paris, 13 de Maio de 2004. Texto também publicado no Le Monde Libertaire de 18-12-04.

07/02/2009

informe secreto da polícia prussiana


O chefe desse partido é Karl Marx….
…Na sua vida privada é extremamente desordenado, cínico; um mau administrador, que leva uma autêntica vida boémia. Lavar-se, pentear-se e mudar de roupa constituem para ele actos muito pouco frequentes. Gosta de embebedar-se. Amiúde preguiça durante dias inteiros, mas quando tem muito trabalho aguenta incansavelmente dia e noite. Não existe para ele um horário determinado para dormir e outro para estar desperto; muitas vezes fica acordado noites inteiras, e deita-se ao meio-dia completamente vestido no sofá, onde dorme até à tarde, sem preocupar-se no mínimo com o que acontece à sua volta. (…)
Como esposo e pai de família, e apesar do seu carácter em geral indómito e intranquilo, Marx é o homem mais meigo e pacífico. Vive numa das casa mais miseráveis de Londres. (…)
Quando se entra no domicílio de Marx, fica-se com olhos de tal forma nebulados pelo fumo de tabaco e carvão, que nos primeiros momentos é preciso caminhar às apalpadelas, como se se entrasse numa gruta, até a vista se acostumar gradualmente à obscuridade e ir advinhando os objectos através da neblina. Tudo está sujo, coberto de pó. Sentar-se é um gesto verdadeiramente perigoso. Há cadeiras que só se aguentam em três pés, e outra, milagrosamente inteira, é utilizada pelas meninas, que brincam com ela às cozinhas. Esta cadeira é a que acaba por ser oferecida ao visitante, embora sem se limpar previamente os restos da cozinha infantil. E se uma pessoa se senta, arrisca-se a estragar as calças. Tudo isto, no entanto, não causa incómodo algum a Marx ou à esposa, que recebem o visitante com a máxima amabilidade, oferecendo carinhosamente cachimbo, tabaco e o que houver. Uma animada e agradável conversa supre todos os defeitos do lar e torna suportáveis todas estas mazelas. Assim, uma pessoa reconcilia-se com aquela gente, acha interessante o seu círculo e inclusivamente original. Esta é a fiel imagem da vida familiar do chefe comunista Marx.
(1852)
bófia dixit

05/02/2009

Gente do Salto

Gente do Salto – Gens du Salto – Memórias de Portugueses que fugiram para França nos anos 60, um documentário de José Vieira.

“Mon père ne m’a jamais parlé de ce voyage et moi, je n’ai aucun souvenir de son départ. Il évince cette douleur d’un haussement d’épaules,d’un drôle de sourire et d’un regard fixe, comme s’il avait peur de pleurer. Il a éprouvé, ce jour-là,des émotions sur lesquelles il ne sait pas mettre de mots. De toute façon, l’homme acculé à quitter son pays ne mesure pas le drame qu’il vit au moment où il part.
En 1963, la dictature portugaise fête ses 30 ans. Mon père avait 18 ans quand Salazar créa par plébiscite, le 19 mars 1933, l’Etat Nouveau, une complication des idéologies fascistes qui pullulait alors en Europe. Les pauvres et les analphabètes, soit 70 % des Portugais, ont été exclus de ce vote. Pendant plus de quarante ans, le Portugal sera occupé par le fascisme. Le régime défini par la constitution de 1933 n’admet aucune opposition. Les partis politiques sont interdits, la grève est considérée comme un crime et la censure muselle toutes libertés d’expression. Le pays est sous haute surveillance de la PIDE, la police politique. […]
Mon père a fait partie de cette vague d’émigration massive et brutale. Il ne m’a rien dit de ce qu’il a éprouvé en débarquant dans un monde étranger. J’ai su qu’il était arrivé dans le train à la gare de Paris Austerlitz,qu’un taxi l’avait largué devant un enchevêtrement de ruelles et bicoques comme plantées dans la boue: le bidonville de
Champigny-sur-Marne. Près de 10.000 Portugais s’y entassent au début des années 60. […]
Mon père vient d’arriver sur le sol français quand la France et le Portugal signent des premiers accords de main d’œuvres, le 31 décembre 1963. Ce marchandage stipule que quarante ans est l’âge limite pour s’engager dans les bataillons qui bâtissent la France des Trente Glorieuses.”
José Vieira, no texto que acompanha o DVD.

30/01/2009

Coragem camaradas, o velho mundo corre atrás de vós!

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