Arquivo para ‘Poesia’

05/10/2010

Um poema de Alberto Pimenta

o carrinho dos uísques
e das revistas
a dizer coisas…
quem o empurra
é o cônjuge periódico
.
diz que a marca dos uísques
é sobretudo uma questão
de agradar ao olho.
.
se o papel fosse mais macio
podia-se
dizer o mesmo das revistas.

.

Alberto Pimenta, as moscas de pégaso, p. 25, & etc, 1988


25/11/2009

Desobediência Civil – António José Forte

Esta manhã deste século
entre anjos caídos
a lava da voz humana

podem ouvir neste local da terra
de nome de animal de patas obscenas
como um búzio da cabeça ao sexo
e do sexo à flor do espasmo

vem do murmúrio do caos
e rebenta em sílabas de abelhas nos ouvidos

agora atravessa mil novecentos e oitenta e sete
e todos os meus anos bêbados
vai de um pólo ao outro da memória
e regressa como um tiro no tempo
através do fogo

à beira do abismo onde começa a adolescência
a grande hélice de estrelas
e os animais favoritos de toda a fome na terra
um automóvel outro automóvel
um cemitério de automóveis
e é a civilização que amanhece

entre pombos de asas de chumbo
os adoradores do cometa de sangue
vestidos de amianto
e a máquina de escrever dos generais
escreve a palavra cadáver ininterruptamente
até ao final do último acto

se a preguiça encantadora dos homens
deve acabar a sua obra e a sua língua de fogo
unir os dias e as noites do desejo
então saudemos as grandes afirmações:
«a poesia deve ser feita por todos» e
«a poesia é feita contra todos»

os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta
fiquem os amantes obscuros e o único os raros
todos os nus
porque a língua portuguesa não é a minha pátria
a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria

Vêde
sobre a coroa de silêncio do vulcão adormecido
uma ave a sua plumagem de cores trémulas
e as asas que escrevem letra a letra o nome definitivo do homem
e no entanto multidões de gnomos
cada qual com o seu estandarte
esperam à entrada dos cemitérios
para saudar o fogo-fátuo

eu passo de bicicleta à velocidade do amor
atravesso a terra de ninguém com um dia de chuva na cabeça
para oferecer aos revoltados

- António José Forte

11/05/2009

Poema de Paulo Leminski

En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas

Paulo Leminski

09/05/2009

Pedido de emprego

Há pessoas que fazem fortuna, outras depressões, outras filhos. Há as que fazem humor, há as que fazem amor e as que fazem dó.
Há muito tempo que eu procuro fazer qualquer coisa! Não há nada a fazer: não há nada a fazer.

Jacques Rigaut

22/04/2009

Lembrando o Cónego Melo

por Alberto Pimenta

DISCURSO SOBRE O FILHO-DA-PUTA

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(Fragmento)

«O filho-da-puta é sempre aquilo que os outros filhos-da-puta do momento e do lugar são; é, porque é isso que «convém» ser, e portanto é isso que ele é. O filho-da-puta insere-se sempre no processo em curso qualquer que ele seja, e esse é mais um traço distintivo do filho-da-puta. O filho-da-puta colabora, e está sempre no vento, sempre na maré, sempre na onda. O filho-da-puta é sempre no mais alto grau possível aquilo que «convém» ser no lugar e no momento em que vive.

O grande problema, a grande desorientação, a infelicidade suma do filho-da-puta ocorre naqueles momentos de transição, de incerteza quanto ao rumo dos acontecimentos, naqueles momentos em que a balança está parada por instantes e não se sabe qual o prato de maior peso; é nesses momentos que o filho-da-puta se torce e contorce, na busca desesperada de «parâmetros», dos seus queridos parâmetros, ou simplesmente de uma via, de um rumo, da sua via, do seu rumo de filho-da-puta. É nessas ocasiões sobretudo que ele, o filho-da-puta, se queixa, que aparece em todos os lugares dizendo «isto está mau», e não adiantando mais nada. Sim, para o filho-da-puta nada pior que não saber qual é a preocupação dos outros, não saber enfim o que os outros pensam, o que os outros acham, o que os outros sabem. É por isso que organiza testes, toda a espécie de testes, e programas, toda a espécie de programas, e sondagens, toda a espécie de sondagens, e inquéritos, reuniões de grupo, reciclagens, estágios, exames, modos de através de um ritual de perguntas e respostas tentar apurar dos outros o que os outros normalmente tentam também apurar dele: o que pensam, o que acham, o que sabem da vida uns dos outros. Mas quanto mais normalizadas são as perguntas e as respostas, maior é também a sensação que o filho-da-puta experimenta de nada saber. É por isso que cada vez mais promove órgãos de orienta­ção geral, instrumentos para levar a pensar ou a não pensar, a fazer ou a não fazer, a falar ou a não falar, sempre segundo os mesmos critérios nas mesmas circunstâncias. Serviços técnicos, gabinetes de coordenação, institutos de apoio, centros de divulgação e de documentação, departamentos de planejamento, setores de estatística, gabinetes de gestão, comissões do am­biente, núcleos de inspeção, canais logísticos, serviços de reconhecimento, postos de fomento, institutos de reorganização, delegações de investigação, grupos de trabalho permanente, «workshops», centros de observação, serviços coordenadores de estudos, registros centrais, divisões de fiscalização e comissões de apoio às iniciativas centrais. Por sua vez, estes órgãos são apoiados por outros de mais largo alcance; se, para esse efeito, em certos lugares e épocas utiliza a sua psiquiatria, noutros utiliza a sua inquisição, e noutros serve-se da sua televisão e demais órgãos de qualidade de vida; pode servir-se do seu jornal ou da sua falta de jornal, do seu partido único ou da sua pluralidade de partidos, pode servir-se de prêmios ou de castigos, de gratificações ou de transferências. Isso mesmo. Não há nada que o filho-da-puta não faça e não há nada que não sirva os seus desígnios.»

Alberto Pimenta, Discurso sobre o filho-da-puta

15/04/2009

O ideal do pequeno-burguês actualizado

O ideal do pequeno-burguês actualizado consiste em …
desdenhar das escaramuças espinhosas mas meter uma rosa do luxemburgo ao peito; esquivar-se dos conselhos operários mas entronizar um bom par de académicos alemães especialistas na Crítica Crítica que o rato do rei da Prússia se esqueceu de roer.

Porque o mundo do pequeno-burguês actualizado consiste …
na falta de tesão dialéctico que provoca uma sonolência tão pós-moderna que vai para lá da guerra de classes e de todo o mal na história, amém!

Por isso o par que o pequeno-burguês actualizado ostenta não serve para cornear a história: foi-lhe posto pela história. Mas que par? O pequeno-burguês actualizado é singular, é ímpar como toda a gente!

08/04/2009

Evocação de um Pomo (Negri)

assim, nesta tágica paisagem
Mendes canta e cantará ad vitam aeternam
as honestas redondezas e os rebolados
acatados da sua dama na infinita tristeza do dó menor
(senão pergunta-se que cesarinyano poeta seria?!)
e mais adiante como manda a lei pânica canta e cantará por mais que tudo -
a morte anunciada dos ídolos tal como está escriturado no
frontispício dos calhamaços acostados aos quiosques
e ainda no vozeirão imperativo da noite caprichosa :
Marx & Castela, sus! Por Santiago, sus!
na hora crepuscular ocidental
aonde centro e perifería parecem
convergir e o flux tendu ronca noite dentro nas autoestradas
plúmbeas
uma nova Meca assombra o horizonte : Assis !
aonde Negri pregando o próximo amor mariano aos passarinhos
aonde o braço hercúleo do neofranciscano adaga
plástica em punho revelando :
- o Imperio e a paz !
aonde esta voz do seu dono post-moderna exortando :
- Posse! venha a posse ! (o telos endeusado da multidão) aonde
bobonegri aconselhando baixinho aos poetas vigaristas :
- fazei rimar pobreza com riqueza para salvação das vossas almas, cari fratelli

Brás da Costa, “O Canto Landes” (extracto),
in Albatroz n° 33, Aout 2003

25/03/2009

A Terra, Mário Quintana

A Terra

As fronteiras foram riscadas no mapa,
a Terra não sabe disso:
são para ela tão inexistentes
como esses meridianos com que os velhos sábios a recortavam
como se fosse um melão.
É verdade que vem sentindo há muito uns pruridos,
uma leve comichão que às vezes se agrava:
ela não sabe que são os homens…
Ela não sabe que são os homens com as suas guerras
e outros meios de comunicação.

Mário Quintana

19/03/2009

Nosso Tempo – Carlos Drummond de Andrade

drumlyra

I

Este é tempo de partido.
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
a pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempos de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado.
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se.
A sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa.
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contém:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira do pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta connosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida.
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
tomar conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e sob eles soterrado sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal do cartórios onde a propriedade é um bolo com flores.
os bancos triturando suavemente o pescoço do açucar,
a constelação das formigas e usuários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família,
orquídeas e opções
de compra e de desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alégicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há balsamos,
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há minimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
Lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado
Há o pranto no teatro,
no palco? no público? nas poltronas?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na raça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma do diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda a responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.

Carlos Drummond de Andrade

06/03/2009

Canção, W. H. Auden

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas
Umas vivem em palácios, outras em mansardas;
contudo não há lugar para nós, minha querida, não há lugar para nós.

Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.
Olha para o mapa e lá a encontrarás;
mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não poderemos regressar tão cedo.

O cônsul deu um murro na mesa e disse:
se não têm passaportes estão oficialmente mortos;
mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.

Lá em baixo no adro um velho teixo
todas as primaveras floresce de novo:
e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos
passaportes não florescem.

Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira.
disseram polidamente para voltar no ano seguinte:
mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?

Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:
se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.

Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?
É Hitler sobre a Europa dizendo: «Eles têm de morrer!»
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no
Seu pensamento.

Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete
vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não alemães.

Desci ao porto e parei no cais
vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés distância

Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,
não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana

Sonhei que vira um edifício com mil andares
mil janelas e mil portas;
nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma

Corri à estação para apanhar o expresso,
pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as
carruagens estavam cheias.

Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair
dez mil soldados marchavam de um lado para o outro
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e
para ti.

W. H. Auden

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