Texto de Bordiga traduzido por Beatriz Berg.
Extraído do livro Marxismo Heterodoxo de Maurício Tragtemberg.
[As teses abstencionistas de Bordiga já foram ilustradas nos artigos publicados nas páginas precedentes. Portanto, no que diz respeito à discussão sobre este problema no II congresso da Internacional, damos aqui somente a breve réplica à intervenção polêmica de Lenine sobre a questão, réplica que recoloca a típica contraposição bordiguiana entre princípios e tática (permanente, quando entre estes dois planos há contraste), acrescentando-lhe uma única consideração de fundo: a de que a aceitação da não-identidade entre estratégia e tática pode, segundo Bordiga, levar da luta pela revolução àquela pela nova maioria parlamentar; o que foi admitido taticamente, já em 22 e 23, e também muito tempo depois.. O problema era, portanto, real, mas não solucionável definitivamente (ao menos enquanto permanecem protagonistas de classe na história).]
RÉPLICA A LÉNIN SOBRE O PROBLEMA DO ABSTENCIONISMO, NO II CONGRESSO MUNDIAL
As objeções do companheiro Lênin às teses por mim apresentadas e aos meus argumentos levantam questões de grande interesse, que não pretendo aqui nem de longe tocar e que se relacionam com o problema geral da tática marxista.
Sem dúvida, os acontecimentos parlamentares e as crises ministeriais estão estreitamente relacionados com o desenvolvimento da revolução e da crise da ordem burguesa. Mas, para chegar a estabelecer de que forma a ação política proletária deve intervir nos acontecimentos, é preciso que sejam retomadas certas considerações de método da mesma natureza daquelas que, já antes da guerra, levaram a esquerda marxista do movimento socialista internacional a excluir a participação ministerial e o apoio parlamentar aos ministérios burgueses, se bem que estes sejam, sem dúvida, meios para intervir no desenvolvimento dos acontecimentos.
É a própria necessidade de unificação das forças revolucionárias do proletariado e de sua organização no sentido do objetivo final do comunismo, que impõe uma tática baseada em certas regras gerais de ação, ainda que aparentemente muito simples e muito pouco elásticas.
Penso que nossa atual missão histórica nos deu uma tática nova e bem definida, isto é, a recusa à participação parlamentar, por não ser mais um meio de influir sobre os acontecimentos no sentido revolucionário.
O argumento de que se deve resolver o problema prático de uma ação parlamentar comunista rigorosamente disciplinada pelo partido porque, num período pós-revolucionário, esta necessitará saber e poder organizar instituições de qualquer espécie com material humano proveniente de ambientes burgueses e semiburgueses, poderia ser invocado, no mesmo sentido, para sustentar a utilidade de se ter ministros socialistas no regime de dominação burguesa.
Mas não é este o momento de aprofundar este tema, e eu me limito a declarar que mantenho as minhas idéias sobre a questão que ora nos ocupa. Estou mais do que convencido de que a Internacional comunista não conseguirá concretizar uma ação que seja ao mesmo tempo parlamentar e verdadeiramente revolucionária.
Enfim, desde que se reconheceu que as teses por mim propostas apóiam-se em princípios puramente marxistas e não têm nada em comum com os argumentos anarquistas e sindicalistas contra o parlamentarismo, espero que sejam votadas apenas pelos companheiros antiparlamentaristas que as aceitam em bloco e no seu espírito, endossando as considerações marxistas que lhes servem de base.
Amadeo Bordiga
(Protokoll, p. 455-457, agora na Storia della sinistra comunista, 1972, p. 707)

