O impasse cidadanista

Contribuição para a crítica do cidadanismo

Se a lógica da falsa consciência não pode reconhecer-se veridicamente a si própria, a procura da verdade crítica sobre o espectáculo deve ser também uma crítica verdadeira. É-lhe praticamente necessário lutar entre os inimigos irreconciliáveis do espectáculo e admitir estar ausente lá onde eles estão ausentes. São as leis do pensamento dominante, o ponto de vista exclusivo da actualidade, que reconhece a vontade abstracta da eficácia imediata, quando ela se lança nos compromissos do reformismo ou da acção comum dos resquícios pseudo-revolucionários. Aí, o delírio reconstitui-se na própria posição que pretende combatê-lo. Pelo contrário, a crítica que vai para além do espectáculo deve saber esperar.” Guy Debord,  Sociedade do Espectáculo.

As teses apresentadas a seguir não pretendem ser a última palavra sobre o tema que tratam. Dão, antes, um conjunto de pistas que nalguns casos poderão ser seguidas, aprofundadas e, noutros, simplesmente abandonadas. Se conseguirmos fornecer alguns pontos de referência (históricos, etc.) a uma crítica que continua à procura de si mesma alcançaremos plenamente o nosso fim.

De igual forma pensamos que nem este texto nem nenhum outro poderá, apenas pela força da teoria, derrubar o cidadanismo. A verdadeira crítica do cidadanismo não se fará sobre o papel mas será o resultado de um movimento social que deverá conter forçosamente esta crítica o que não será, obviamente, o seu único mérito. A ordem social na sua totalidade será posta em questão através do cidadanismo, precisamente porque o contém.

O momento parece-nos adequado para iniciar esta crítica. Se o cidadanismo, no seu começo, conseguiu manter uma certa confusão em redor daquilo que realmente era, hoje em dia, contudo, vê-se obrigado pelo seu próprio êxito a avançar cada vez mais de cara descoberta e a mais ou menos curto prazo deverá mostrar o seu verdadeiro rosto. Este texto trata de antecipar este desmascaramento, para que pelo menos não nos apanhe desprevenidos e saibamos reagir de forma apropriada.

I- Definição prévia

Limitar-nos-emos a dar uma definição introdutória do cidadanismo, ou seja, uma definição que se centrará apenas no que é mais evidente. O objectivo deste texto será começar a defini-lo de maneira mais precisa.

Por cidadanismo entendemos em princípio uma ideologia cujos traços principais são 1) a crença de que a democracia é capaz de se opor ao capitalismo 2) o projecto de reforçar o Estado (ou os Estados) para pôr em marcha esta política 3) os cidadãos como base activa desta política.

A finalidade expressa do cidadanismo é humanizar o capitalismo, torná-lo mais justo, proporcionar-lhe, de alguma forma, um suplemento de alma. A luta de classes é substituída aqui pela participação política dos cidadãos, que não só devem eleger os seus representantes como também actuar constantemente para fazerem pressão sobre eles, com o fim de aplicarem aquilo para que foram eleitos. Naturalmente os cidadãos não devem em caso algum substituir os poderes públicos. Podem, de vez em quando, praticar aquilo a que Ignacio Ramonet chamou “desobediência cívica” (e não “civil”, termo que recorda com incomodidade excessiva a “guerra civil”), para obrigarem os poderes públicos a mudar de política.

(continuação)

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